6. COMO CONCILIAR A RAZÃO PÚBLICA E OS VALORES
6.1 O pragmatismo de Dewey
6.1.1 O público e o privado
A razão pública pragmática ultrapassa os limites da razão pública rawlsiana e habermasiana, pois há uma abertura ampla aos agentes que estão inseridos no processo de decisão. Da mesma forma, a distinção entre o público e o privado é feita em outra perspectiva, na qual não se leva em conta o espaço físico orgânico institucional, mas o tipo de problema, as suas consequências e o seu alcance.
Dewey faz uma distinção entre o público e o privado a partir de uma constatação sobre nossas ações e suas consequências para os outros
347 Cf. FREGA, 2015, p. 224-225.
seres humanos em geral. Pensar nas consequências de nossos atos significa pensar no outro, e assim controlar os seus efeitos, evitando-os todas as vezes que eles prejudicam e realizando-os quando trazem benefício. Ocorre que as consequências de nossas ações são de dois tipos: aquelas que afetam diretamente as pessoas engajadas em uma transação, e aquelas que afetam outras além daquelas diretamente concernidas.349 É nesta distinção, diz Dewey, que encontraremos a diferença entre o público e o privado.
Quando as consequências indiretas são reconhecidas e existe um esforço para regulamentá-las, algo como tendo os traços de um Estado começa a existir. Quando as consequências de uma ação estão confinadas (ou acreditam-se confinadas) principalmente às pessoas diretamente engajadas, a transação é privada. Quando A e B discutem juntos, uma ação é uma transação: todos os dois estão concernidos por ela; seu resultado passa, por assim dizer, de um para o outro. Mas as consequências em termos de vantagens ou de prejuízo não se estendem aparentemente além de A e de B; a atividade permanece entre eles; ela é privada. Contudo, se mostramos que as consequências desta conversação se estendem para além das pessoas diretamente concernidas, que elas afetam o bem-estar de outras tantas pessoas, o ato adquire uma capacidade pública, quer a conversação seja feita entre um rei e seu primeiro ministro, entre Catilina e um conspirador aliado, ou entre comerciantes para projetar a monopolização do mercado. 350
Dewey faz igualmente uma distinção entre o individual e o social, e afirma que a distinção entre o privado e o público é diferente desta primeira. Para ele, um ato pode ser social, sem necessariamente ser público. Vários atos privados são sociais na medida em que suas consequências contribuem ao bem-estar de uma comunidade ou afetam seu status e suas perspectivas, sem, no entanto, se tornarem atos públicos. Por exemplo, a filantropia, as descobertas científicas, os
349 DEWEY, 2005, p. 91.
trabalhos artísticos, todos realizados por indivíduos ou comunidades graças ao prazer pessoal das pessoas privadas, são atos sociais, mas não necessariamente públicos. O público não pode ser identificado com aquilo que é socialmente útil.351
Para Dewey, não devemos identificar a comunidade e seus interesses com o Estado ou com a comunidade politicamente organizada. Ele diz que a linha que separa o público do privado deve ser traçada sobre a base de sua extensão e das consequências dos atos que são tão importantes e que necessitam um controle, seja uma proibição, ou uma promoção.352 O que está em jogo para Dewey é o comportamento humano e as consequências de suas ações humanas para a adaptação de uma política. A razão política deve entrar em jogo olhando para as consequências dos atos humanos. Se os atos têm consequências que atingem a comunidade em geral, então o problema deve ser discutido no nível do político. Mas, o que significa para um pragmático como Dewey uma discussão no âmbito do político?
Segundo Frega, o pragmatismo de Dewey apela para uma incorporação no horizonte político daquelas formas de racionalidade ordinária que estão em jogo cada vez que os atores sociais aceitam ajustar suas diferenças a partir de uma troca mais ou menos regulamentada com base em razões e reflexões sobre suas próprias experi ncias “O pragmatismo da razão pública é primeiramente a razão do público, mas de um público que aceita se submeter a certas formas de coerção” 353 Frega diz que esta forma de razão pública é um projeto que se distancia tanto do modelo de purificação de si (encarnado pelo véu de ignorância) rawlsiano, quanto da prática puramente discursiva de Habermas.354
Ainda sobre a caracterização do público, Dewey faz uma referência importante para que se possa entender em que sentido as consequências dos atos desse público têm conotação política ou não. Um público organizado com conotação e consequências políticas se difere de associações não políticas, e nós devemos ser capazes de fazer esta distinção. O que define um público enquanto Estado é o fato de que todos os modos de comportamento em associação podem ter consequências amplas e persistentes que implicam outras pessoas que não são diretamente engajadas em suas atividades. Para Dewey essas
351 Cf. DEWEY, 2005, p. 93.
352 Cf. DEWEY, 2005, p. 94. 353 FREGA, 2015, p. 225. 354 FREGA, 2015, p. 227.
consequências devem ser vigiadas por organismos governamentais. Nesse sentido, o Estado possui um interesse social importante, na medida em que as relações ou associações podem se restringir apenas ao âmbito privado, mas, dependendo das consequências dos atos ali investidos, elas podem se tornar uma questão pública. Dewey diz:
Os homens se associam uns com os outros a fim de fazer um trabalho mais lucrativo, ou de assegurar sua defesa mútua. Mas, se essas operações ultrapassam um certo limite e se outras pessoas que não participam constatam que sua segurança ou sua prosperidade é ameaçada, então o Estado se coloca em movimento.355
É nesse sentido que podemos ver a mão do Estado interferir em vários setores da vida em sociedade, que em princípio poderiam ser considerados apenas uma questão privada. Quando, por exemplo, o governo francês decide interferir na questão do uso do véu, ou dos símbolos religiosos ostentatórios nas escolas, ou sobre a questão do uso da burca e do nicabe no espaço e vias públicas, há uma interpretação por parte do Estado segundo a qual a utilização destas vestimentas não se restringiria apenas a uma questão privada, como todos os outros usos indumentários, mas possui uma conotação pública. O Estado considera o uso do véu como um problema ou um ato que tem consequências para a sociedade como um todo. A questão é a de saber a partir de que pressuposto o Estado interpreta os atos de seus agentes como algo público que deve ser regulado por ele. No exemplo prático do uso do véu, o governo francês utilizou-se de um princípio republicano instaurado na constituição de 1905 que diz respeito à proibição de símbolos religiosos nas instituições públicas. Na perspectiva pragmática de Dewey, uma decisão deste tipo é arbitrária e provavelmente deve ser colocada em dúvida pela sua falta de atualização diante de um novo público, e por conseguinte uma nova sociedade que surgiu após tal constituição. Para Dewey o novo público deve necessariamente engendrar novas formas de Estado. Ele não deve ser refém de organismos políticos herdados. Diz Dewey:
355 DEWEY, 2005, p. 109
O novo público que é engendrado permanece durante muito tempo amorfo e desorganizado, pois ele não pode utilizar os organismos políticos herdados. Quando estes últimos são elaborados e bem institucionalizados, eles obstruem a organização de um novo público. Eles impedem o desenvolvimento de novas formas do Estado que poderiam advir rapidamente se a vida social fosse mais fluida, menos dirigida nos moldes políticos e legais estabelecidos. Para se formar, o público deve quebrar as formas políticas existentes. Isto é difícil porque estas formas são elas mesmas os meios habituais para instituir a mudança. O público que deu nascimento às formas políticas está desaparecendo, mas o poder e a sede de posse permanecem nas mãos dos oficiais e dos organismos que o público que está morrendo havia instituído. 356
Para Dewey, não somente cada público em épocas diferentes realizaria diferentes Estados, como a história mostra que não encontramos nunca um mesmo público em duas épocas ou em dois lugares diferentes. Por causa disso não é possível determinar o que o Estado em geral poderia ser. Nesse sentido, ele é contra toda filosofia rígida que supõe uma ideia única de Estado. O Estado é ao contrário uma organização do público, que sofre mudanças constantes. Assim, a formação dos Estados deve ser um processo experimental. O papel da filosofia não é, portanto, de determinar o que o Estado é ou poderia ser, mas o de ajudar na criação de métodos tais que a experimentação possa prosseguir menos cega, menos à mercê dos acidentes, de maneira mais inteligente, de tal sorte que os homens possam aprender a partir de seus erros e tirar proveito de seus sucessos.357
Para Dewey é possível apreender as mudanças que afetam as formas e disposições políticas, por meio de um contínuo tratamento empírico ou histórico, tratamento este que se encontra livre de todas as dominações conceituais superiores, tais como aquelas que postulam a exist ncia de um stado “verdadeiro”, que evolui a partir de sua própria lei interior. Com efeito, diz Dewey:
356 DEWEY, 2005, p. 111-112
As mudanças advindas dos fatos internos não políticos, como a indústria e a tecnologia, e advindas de acontecimentos externos, como os empréstimos, as viagens, as migrações, as explorações, as guerras, tudo isso modifica as consequências das associações pré-existentes para as quais novos organismos governamentais e novas funções se tornam necessárias. 358