CAPÍTULO I: A REDEFINIÇÃO DO PAPEL DO ESTADO E AS POLÍTICAS
1.5 PÚBLICO X PRIVADO
Para que possamos melhor entender as diferenças e situarmos o que é o público e o que é o privado, utilizaremos os conceitos de Dourado e Bueno (2001, p. 57), que alegam que o público é identificado por ser mantido e/ou gerido pelo poder governamental ou por entidades de direito público. Já o privado é definido pela gerência e propriedade de pessoas físicas ou
jurídicas de direito privado. Entretanto, estes autores alertam para existência de uma “precária delimitação entre as esferas pública e privada da sociedade”, o que acarreta na “ambiguidade do Estado enquanto expressão de poder público” (DOURADO E BUENO, 2001, p. 53).
Já Saviani (2010), retoma o pensamento de Marx para explicar a divisão entre o público e o privado, ou seja, divide o homem entre o ser particular e o ser social, “o homem privado ao público”, retomando o indivíduo egoísta e o homem enquanto pessoa moral citado por Marx. Marx (2005,) afirma que o homem vive numa constante oposição, vivendo ora como um ser social, um “ser comunitário”, ora como simples “indivíduo privado”. Assim, cada homem aparece dividido em seus aspectos, comportando-se de formas diferentes nas duas esferas.
Saviani (2010), alerta para o fato da indissolubilidade dos dois termos, pois cada um está em um polo oposto do outro, quando diz que “o público e o privado constituem categorias correlatas e indissociáveis entre si”. O autor ainda afirma que “público e privado são categorias originárias e específicas da época moderna”, portanto, que surgiram decorrentes das mudanças da sociedade. Conforme alerta Chaves (2014),
No contexto da estrutura social capitalista atual, consideramos o Estado como o responsável pela promoção da esfera pública e o mercado como o lócus da esfera privada. Assim, a “privatização do público” acontece quando a esfera privada ocupa o espaço público e os interesses privados se sobrepõem aos da coletividade (CHAVES, 2014, p. 02).
A parceria público-privada deve ser analisada, situada no tempo e no espaço e não em abstrato. Nesse período particular do capitalismo de redefinições no papel do Estado, são muitas as dimensões da relação público-privada (Peroni et. al 2009). Neste trabalho usaremos a definição de público e de privado citadas acima por Dourado e Bueno (2001) e por Chaves (2014).
As novas fronteiras entre o público e o privado materializam-se de diversas formas. O destaque neste artigo será dado para dois movimentos: a alteração da propriedade (público não- estatal) e o que permanece na propriedade estatal, mas passa a ter a lógica do mercado, reorganizando os processos de gestão (quase-mercado).
Conforme afirma Peroni et al (2009, p. 3), a análise destes processos da parceria público-privada “[...] requer um estudo do movimento do real no contexto social atual e, principalmente, da influência das teorias neoliberal e terceira via para a reconfiguração entre público e privado, entendendo as parcerias público-privada na educação como parte deste”.
Estas parcerias do público com o privado aparecem fortemente como consequência dos novos papéis do Estado, formulado e instaurado ao final dos anos 1990, sob a justificativa da busca da eficiência e da qualidade do serviço público. Assim, nesses novos contornos
ocasionados pelas mudanças advindas do neoliberalismo, a relação do público e do privado adquiri um caráter lucrativo, passando para o público não estatal a responsabilização pela execução das políticas, “ou ainda mudando a lógica de gestão do público, tendo como parâmetro o privado, por julgá-lo padrão de eficiência e produtividade”. (PERONI, 2008).
De acordo com os autores Dourado e Bueno (2001, p. 53), o caráter privado é o resultado do alargamento das funções do setor privado, ainda que “subvencionadas pelo poder público”, o que acarreta, segundo os autores, uma situação de caráter perverso “da ação estatal na medida em que esta não estabelece as fronteiras e diferenças entre os interesses coletivos e os interesses particulares, facultando a emergência da privatização do público e, consequentemente, a interpenetração entre as esferas público e privado”.
Podemos observar por meio de um breve levantamento do assunto, que esta relação no campo da educação vem sendo estudada e discutida há muitos anos. Entretanto, nas últimas décadas observamos um aumento destes estudos como consequência, especificamente ao longo das três últimas décadas, do sistema educacional e do cenário sociopolítico e econômico do Brasil terem sofridos mudanças que recolocaram a relação público-privado na agenda do debate educacional (BONAMINO, 2003, p. 253). Entretanto, Saviani (2010, p. 02), faz um alerta de que “só se pode considerar público e privado como categorias educacionais, a partir do século XIX, pois é somente a partir daí que se configura nitidamente a educação pública”. Segundo Dourado e Bueno (2001, p. 54), o atrito entre as categorias público e privada no cenário educacional brasileiro configurou-se plenamente a partir dos anos 30 e caracterizou-se como o resultado de “disputas político-ideológicas por hegemonia entre os defensores da escola pública e os defensores da escola privada”.
Dourado e Bueno (2001, p. 55), alertam que neste embate entre o público e o privado na área educacional, em que busca-se adjetivar e especificar funções e características das instituições escolares com o Estado, pode ocorrer um processo de “desqualificação ou, paradoxalmente, a apropriação de traços qualitativos de um e de outro, valorizados em função do momento vivido e dos interesses e tendências predominantes”. Assim nesse processo verificamos qualidades difusas associadas ora a uma categoria ora a outra. Temos então o público se aproximando e incorporando características mercantis e o privado “perde de certo modo sua feição de direito social inalienável” em um momento em que, como destacam os autores, “os bens públicos se individualizam na perspectiva da competitividade”. Nesse cenário os autores destacam o processo de “falsa publicização do privado”, em que ocorre a apropriação cada vez maior do espaço público em relação à exploração dos serviços e ao “carreamento de
recursos”, ao mesmo tempo em que as suas características de mercado são mais aprofundadas, juntamente ao processo de reforma e modernização do Estado.
Com o público sendo privatizado, teremos características gerenciais do privado nesse setor, com o público se apropriando de conceitos como eficácia e eficiência o que “possibilita a emergência de modalidades de privatização do público: escolas públicas pagas, autônomas, conveniadas, prestadoras de serviços e parceiras, dentre outras” (DOURADO E BUENO, 2001, p, 56).
Nesse processo da crise estrutural do capitalismo e da expansão do Terceiro Setor tem- se a “implementação de estratégias de natureza “público-privada”, que indicam a quebra da linha divisória entre o público e o privado, com perda da característica eminentemente pública, a mesclagem do público com o privado” (LÉLIS, 2007, p. 19). Nesse processo de miscigenação entre o público e o privado verificamos que o Estado, nesta proposta de Terceiro Setor, passa de provedor dos serviços a fiscalizador, tendo assim seu papel atenuado, em especial na área social. A este respeito Lélis afirma que:
Transporta-se, dessa forma, para as esferas do Mercado e do “terceiro setor” as demandas provenientes dos direitos sociais, ao mesmo tempo em que se busca o consenso social, através da persuasão dos cidadãos, levando-os a crer que o que acontece não é uma perda de direitos e, sim, uma ampliação do seu poder de escolha e acesso a serviços de melhor qualidade. Essas estratégias ocasionam a privatização do público, tanto para o âmbito privado, como para o do “público-privado” (LÉLIS, 2007, p. 20).
Através da fala da autora podemos verificar novamente o afastamento do Estado de suas obrigações, em especial a partir da persuasão dos cidadãos ao eclipsar a realidade, deixando evidente somente a ideologia predominante. Na educação, segundo dados do IBGE (2008) há 95.220 entidades sem fins lucrativos atuando nessa área, sendo que dessas, 7.910 entidades estão atuando diretamente no Ensino Fundamental, setor este que por Lei é obrigação do Estado.
Neste capítulo observamos que com o advento do capitalismo, após a queda do sistema feudal, as relações sociais passaram a ser baseadas pelas relações de comércio, onde os proletários são subjugados pelos burgueses detentores dos meios de produção. Como consequência do grande crescimento populacional e da ampliação do mercado, tivemos a necessidade da implantação de maquinários para suprir a produção que a manufatura já não era mais capaz de corresponder à demanda. Dessa maneira, conforme a indústria, o comércio, as navegações e as vias férreas se desenvolviam, a burguesia se consolidava no poder, aumentando seu capital e seu domínio sobre a classe proletariada. Verificamos também que a crise vivida pelo capitalismo é estrutural, com contradições cada vez mais acirradas, sejam elas entre os
próprios burgueses que lutam por interesses diferentes, seja pela livre concorrência que traz o comércio exterior para o país, seja pela dualidade social entre burgueses e proletariados, gerando uma constante instabilidade política.
Essa crise deu seus primeiros sinais nos anos 70, resultando em meados dos anos 90 em uma reforma do Estado Democrático. Assim, essa demarcação temporal é de suma importância para este trabalho, pois foi no período dos anos 90 que ocorreram mudanças significativas que influenciaram as políticas de corte social, dando assim uma nova roupagem ao cenário político social. Para a superação da crise, foram sugeridos como estratégias a adoção de políticas neoliberais, a globalização, a reestruturação produtiva e a Terceira Via. No Brasil essa ressignificação se deu através da instituição do Plano Bresser Pereira.
Denominado de Plano Diretor da Reforma do Aparelho do Estado, o plano Bresser, como foi popularmente chamado, instituiu novas relações entre o Público e o Privado, com a responsabilização pelos serviços sociais transferidas à sociedade civil e ao Terceiro Setor. Sendo de caráter Neoliberal e utilizando-se da terceira via, esse plano diretor foi elaborado de acordo com as orientações dos organismos internacionais, que acreditavam serem esses os meios para a superação da crise que havia se instaurado mundialmente.
Em relação às categorias Neoliberalismo e Terceiro Setor, resumimos as características no quadro abaixo para facilitar a visualização de alguns pontos em comum e divergentes.
Quadro 1 Neoliberalismo X Terceira Via
NEOLIBERALISMO TERCEIRA VIA
ESTADO Mínima intervenção Ineficiente, precisando de
uma Reforma;
Administração gerencial, através de parcerias com instituições privadas.
GESTÃO Gerencial, mercantil Gerencial, mercantil
SOCIEDADE Culpada pela crise, pois o
Estado gastou demais atendendo a demanda da sociedade.
Deve ser fortalecida e trazida para participar da efetivação das execuções das políticas sociais.
POLÍTICAS SOCIAIS Privatizadas Parcerias com instituições
privadas – Terceiro Setor.
SUJEITOS Individualismo Individualismo
Dentro dessas duas categorias nos deparamos com a dualidade público X privado. Utilizando os conceitos de público e de privado dos autores Dourado e Bueno (2001), como citado anteriormente, esta relação caracteriza-se pelo capital privado gerenciando as instituições públicas, com o Estado abrindo suas fronteiras para o mercantilismo, acreditando que a gestão privada, o gerencialismo é mais eficiente que a lógica da gestão pública. Nesse contexto é que se enquadra a parceria entre os municípios brasileiros e o Instituto Ayrton Senna, hoje um dos maiores criadores de programas de intervenção no cenário educacional brasileiro.