Coordenadora: Carla Susana Alem Abrantes (Unilab – Universidade da Integração Internacional da Luso- fonia Afro -Brasileira – BR)
Terça, 10 Set, 9.30 -11.00, 11.30 -13.00, 14.30 -16.00 Local: Sala 1, P 4
Debatedora: Cristiana Bastos (ICS -UL)
A partir da crítica pós -colonial, muitos vêm sendo os esforços de se questionar as conexões estabelecidas entre a antropologia como um conhecimento produzido sobre populações coloniais e o quadro mais amplo da administração e do domínio político. Recentemente, novos estudos vêm reforçando a importância de se conhecer mais a fundo essa realidade histórica, especialmente no que se refere aos efeitos das narrativas produzidas por antropólogos para as populações locais e para a manutenção de grupos em posições de
poder. Que alternativas eram utilizadas para representar as populações dos distintos territórios coloniais e em que medida estas formas de nominação variaram ao longo do tempo? Que conexões podem ser mapeadas entre essas descrições etnográfi cas e a construção de um aparato colonial? Esta refl exão permite viabilizar novas possibilidades de produzir conhecimentos que contemplem uma análise crítica do lugar da antropologia nos esforços mais amplos de transformação social. Este painel pretende, assim, ser um espaço de troca e discussão das diferentes experiências do fazer antropológico inseridas nos projetos coloniais para a África e Ásia.
Por detrás da preparação das missões antropológicas às colónias: o caso da viagem científi ca de Mendes Correia à Guiné Portuguesa (1945 -1946)
Patrícia Ferraz de Matos (ICS -UL)
Entre 1945 e 1946 o antropólogo Mendes Correia, principal mentor da Escola de Antropologia do Porto, esteve na então Guiné Portuguesa acompanhado pelo seu assistente, Amílcar de Magalhães Mateus, para fazer uma primeira aproximação ao território e preparar a missão antropológica a ele dirigida nos anos seguintes.
O seu roteiro, e os objectivos que nele procurou concretizar, denotam os vários interesses científi cos de Mendes Correia, mas também o modo como procurava produzir conhecimento – através do estabeleci- mento de uma rede de contactos entre cientistas internacionais e informantes locais. Tal modus operandi, presente aliás em outros países colonizadores, fornece -nos material para refl ectir acerca do modo como a antropologia esteve articulada com o projecto colonial português, nomeadamente através da criação de missões antropológicas direccionadas para os territórios de além -mar administrados pelo país.
Esta visita ao terreno guineense permitiu ainda desmitifi car algumas das ideias preconcebidas de Mendes Correia, nomeadamente as relativas à classifi cação racial de grupos humanos, e suscitou nele a necessi- dade de desenvolver novos campos de estudo ainda incipientes, como as línguas nativas e os sistemas de numeração.
Sequelas do Projecto Colonial de objectifi cação taxonómica e hierarquizada da diferença na Índia Sandra Marques (CRIA -IUL)
Na Índia independente, as estratégias de reorganização do real social da “nova” nação partiram de muitos dos pressupostos representacionais efi cientemente implantados pela administração colonial britânica. O método que serviu à efi cácia de uma tal implantação socorreu -se de dois recursos essenciais. Por um lado, de um corpo de técnicas e práticas disciplinares para validação do conhecimento, proporcionado por in- telectuais e profi ssionais, em relação simbiótica de legitimação do poder vigente, em que antropólogos, “orientalistas” e “anglicistas”, assumiram um papel preponderante. Por outro lado, da sua operacionali- zação no terreno, materializando o exercício de poder sobre este imenso objecto. A operacionalização foi efectuada pela objectifi cação, nomeação e hierarquização de grupos populacionais, através de listagens públicas, censos e sua imposição jurídica; através da objectifi cação de categorias distintivas com aplica- ção de técnicas antropométricas e teorias racializantes; até à criminalização de largas centenas de grupos, objectivados e nomeados como castas e tribos determinadas, e ao seu encarceramento em reformatórios.
Na actualidade, algumas destas categorizações servem de base a recenseamentos e suportam o estabe- lecimento de critérios de discriminação constitucional positiva de grupos em Scheduled Castes, Scheduled
Tribes e Other Backward Classes. Antropólogos da Anthropological Survey of India são assim enviados
para o terreno no sentido de avaliarem a legitimidade das reivindicações de pertença a SC, ST ou OBC de determinados grupos. À sua solicitação, estes antropólogos procuram a validação de traços identitários “primitivos”, de “cultura distintiva”, “isolamento geográfi co”, “timidez ao contacto com culturas dominan- tes” ou “atavismo” nos seus corpos, vestuário, língua, hábitos, ocupações e práticas religiosas.
De homens pantagruélicos, feitiços & outras coisas de comer Diego Ferreira Marques (Universidade Federal da Bahia – BR)
Na literatura recente que busca articular uma interpretação antropológica dos colonialismos em África, um dos temas que tem merecido crescente atenção é o da missionação secular, isto é, a aproximação ideológica entre sujeitos vinculados à administração, ao statecraft ou mesmo à produção de conheci- mento sobre as sociedades africanas e a forma pela qual o missionarismo religioso tendia a compre- ender a empreitada colonial como oportunidade para a reforma moral dos nativos. Enquadrada na
perspectiva desses estudos, esta refl exão parte da análise de uma série de textos que pretenderam apreender o fenômeno da feitiçaria em Angola, produzidos nos três primeiros quartos do século XX, tendo em vista as frequentes associações neles verifi cadas entre esta prática -chave que seria a feiti- çaria, bem como a crença em feitiços, e imagens de uma suposta natureza hiperbólica da corporalidade dos africanos – cujo centro é um corpo eminentemente sensual/sensorial, ao qual se confi naria a noção nativa de pessoa. Dada a constatação da reincidência dessas associações, as perguntas fulcrais a serem consideradas seriam as seguintes: por que uma tal vinculação foi possível nos diferentes olhares de antropólogos, administradores, missionários e outros sujeitos europeus e de que formas ela con- correu para as assimetrias próprias da situação colonial? Não obstante, reconhecendo os matizes existentes entre as falas desses distintos sujeitos, cabe ainda interrogar as razões pelas quais, sobre todos os seus interesses divergentes, do ponto de vista da missionação secular e do reformismo moral, foi tão grande a força interpretativa da leitura que vinculava feitiçaria, alimentação, sexualidade, corpo e pessoa.
Augusto Guilherme Mesquitela Lima e as Relações Culturais Brasil/Angola Vânia de Vasconcelos Gico (Universidade Federal do Rio Grande do Norte – BR)
Estuda -se o pensamento de Augusto Guilherme Mesquitela Lima e destaca -se seu encontro com Luís da Câmara Cascudo na África, em 1963, recepcionando -o enquanto diretor do Museu de Angola, local privi- legiado de estudo para Mesquitela, que se dedica à investigação etnológica e à museologia da África Negra, campo que o aproximou de Câmara Cascudo, estudioso dos conhecimentos da tradição brasileira, destacando -se aqueles da cultura africana. Cascudo estava interessado nos costumes do povo, na sua alimentação, em seus hábitos alimentares relacionados às infl uências africanas e no que havia sido levado para a África pelos brasileiros. As ideias nucleares desses estudos estão expressas, nos seus livros História
da Alimentação no Brasil e “Made in África”. Mesquitela Lima escreveu “Portugal e África na obra de
Câmara Cascudo”, analisando as infl uências reinóis, ameríndias e africanas (Sudanesa e Banta), desta- cando aspectos paradigmáticos de Portugal que infl uenciaram na formação compósita sócio -cultural brasileira. A releitura dessas visões de mundo enquanto expressão de culturas nacionais pode ser expres- são de um pensamento contra -hegemônico, por se tratar, em especial, de um conhecimento que pode expressar um paradigma emergente e ser considerado um pensamento do sul, por destacar a validação de um saber retirado, nos dois últimos séculos, do contexto cultural e político da antropologia dominante, sendo uma alternativa que se contrapõe a esta prática. Destaque -se ainda, que o pensamento de Mesqui- tela Lima e Câmara Cascudo subliminarmente esboça uma crítica ao modus operandi do colonialismo em sua dimensão cultural e cognitiva, caracterizado como violência epistêmica, injustiça cognitiva e produção simbólica de inferioridade.
Etnografi as amadoras, usos profi ssionais Cristiana Bastos (ICS -UL)
Etnografi as amadoras, usos profi ssionais: Administradores, médicos, militares e viajantes dados à escrita produziram inúmeras descrições de povos e costumes em latitudes e línguas diversas, deixando -nos uma para -antropologia reconhecida como tal. Muitos outros, menos dados à escrita que ao comércio, caça, tráfi co, aventuras e outras actividades em cenários coloniais, deixaram também um repertório de saberes, receitas, preceitos e preconceitos acerca dos grupos com quem interagiam, fazendo de fonte a terceiros que daí recortaram elementos para a sua escrita – acrescentando assim mais uma camada ao complexo combinado de estereotipos e análises objectivadas que constitui a massa de saber etnográfi co. Nesta apresentação exploraremos as fronteiras entre estes vários regimes de saber e discutiremos as suas re- lações com a antropologia e os antropólogos em diversos momentos da disciplina.
Os limites da antropologia: representações de populações e o Estado colonial português em Angola Carla Susana Alem Abrantes (Unilab – Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro -Brasileira – BR)
Nesta comunicação, apresento a escrita da história e hábitos das populações angolanas por alunos do Instituto Superior de Estudos Ultramarinos (ISEU) e o modo como ganhou existência e se constituiu como discurso signifi cativo para os agentes comprometidos em um campo social no contexto de elaboração dos projetos coloniais dos anos 1950/1960. Com os movimentos de independência e os desdobramentos da II Guerra Mundial, novas formas de nominação das populações emergiram deixando para trás as caracteri- zações próprias das primeiras décadas do Estado Novo. Considero tais narrativas como produtos de um
fazer etnográfi co que não esteve isolado, mas antes conectado à ideia de um Estado que se pretendia legítimo. As etnografi as conformaram elos com uma engrenagem mais ampla que concatenou variados saberes no interior de redes de relações sociais, contribuindo para produzir representações sobre Angola, sua população e os modos de governá -la.
Timorenses em Portugal: representações antropológicas e o lado oculto da narrativa imperial Gonçalo F.L.C. Antunes (ICS -UL)
Esta comunicação terá como intuito analisar as representações de um grupo de timorenses da região de Ainaro, que vieram a Portugal no contexto de exposições coloniais de natureza antropológica, durante o período do Estado Novo. O objectivo é, por um lado, mostrar o papel que a circulação e representação deste grupo tiveram na constituição e consolidação do império colonial português e, por outro, discutir a forma como a aliança estabelecida entre este grupo e o governo colonial, em Timor, consolidou o seu es- tatuto local.
O ponto de partida serão as representações de Timor elaboradas para a Exposição Colonial do Porto de 1934 e amplamente divulgadas posteriormente. Ao analisar os textos, as fotografi as e a exposição de ob- jectos e seres humanos organizados para o evento é possível identifi car a forma como este grupo de Ainaro, enquanto representante dos povos de Timor, foi utilizado para ilustrar o sentido ideológico da missão im- perial portuguesa. No entanto, uma leitura mais cuidada dos arquivos permite identifi car paradoxos nessa narrativa de carácter essencialmente totalizante.
Complementando pesquisa arquivística com trabalho etnográfi co em Timor Leste, este trabalho propõe identifi car os desafi os que se colocaram à implementação da administração colonial em Timor e a com- plexidade das relações estabelecidas localmente com diferentes grupos timorenses. É neste contexto relacional que se pode entender as motivações que estiveram por detrás da escolha de um grupo de Ainaro para representar os povos de Timor e os benefícios que daí advieram para a administração colonial portu- guesa e para este grupo singular de timorenses.
Dos cinturões angolanos às cercas de pedra do sertão brasileiro Tiago Spinelli (Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Paraíba – BR)
O presente trabalho se insere numa pesquisa mais ampla acerca do itinerário intelectual de Augusto Guilherme Mesquitela Lima, antropólogo cabo -verdiano que deixou como legado uma vasta obra sobre a cultura africana. Observamos a partir da perspectiva transdisciplinar de seus estudos etnográfi cos, um espaço cultural comum da tríade luso -angolano -brasileira. A abordagem etnográfi ca dos Kyaka de Angola nos permitiu identifi car as semelhanças entre as antigas muralhas angolanas fotografadas por Mesquitela Lima e as cercas de pedras que delimitavam as fazendas de gado do sertão brasileiro. Tais semelhanças denotam elementos de ancestralidade entre as duas ex -colônias portuguesas e estes elementos nos in- duzem às mesmas questões abordadas pelo antropólogo cabo -verdiano, a começar por saber quem foram os construtores dos “cinturões amuralhados”. Enquanto os muros africanos compunham um sistema de defesa e sua origem é anterior à chegada dos portugueses, as cercas brasileiras apenas delimitavam a propriedade das fazendas de gado e foram erguidas durante o apogeu da cana -de -açúcar. A partir da leitura de Mesquitela e de pesquisa empírica no sertão potiguar não pudemos extrair dados concretos que indiquem a autoria dessas construções, todavia, percebemos, a partir da história oral, os mesmos signos, mitos e lendas de tesouros perdidos. Nessa perspectiva, identifi camos, em torno dos cinturões e das cercas de pedras sobrepostas, um elo de signifi cados que aproximam duas realidades separadas por um oceano de águas tropicais.