Coordenadores: Ana Luísa Micaelo (ICS -UL); Elísio Jossias (ICS -UL) Quarta, 11 Set, 9.30 -11.00, 11.30 -13.00, 14.30 -16.00
Local: Sala 3, P 2
Debatedora: Susana Viegas (ICS -UL)
Tendo em conta a reformulação que o tema tem sofrido na antropologia nas últimas décadas, pretendemos problematizar teoricamente o conceito de propriedade, por um lado, porque ele tem sido associado erro- neamente à ideia de propriedade privada, individual e exclusiva – omitindo assim a disputa que vai existindo em torno da sua natureza – e, por outro, dado que este conceito não tem permitido dar conta da diversidade de formas locais de apropriação, posse e legitimação do uso da terra nos mais diversos contextos. O painel está aberto à apresentação de refl exões etnográfi cas realizadas a partir de diversos contextos regionais, possibilitando assim o alargamento do debate comparativo. Interessa -nos debater, designada- mente: a) a diversidade de modalidades de posse e ocupação da terra e as formas particulares pelas quais vários regimes de valor são articulados; b) a terra como recurso de vida, de pertença e de identidade; c) processos sociais de reivindicação de terra que impliquem a identifi cação ou demarcação de terras; d) mudanças que se observam nos sistemas de posse e usos da terra em decorrência de processos políticos, económicos e sociais, sejam eles de escala local, nacional ou global; e e) a apropriação dos recursos naturais e sua relação com as estratégias de subsistência, concepções de parentesco, religião ou outras.
«Aqui é o Gerais. Quando criou esse parque que criou esse Sertão»: uso da terra no Parque Nacional Grande Sertão Veredas, Brasil
Carmen Andriolli (Museu Nacional -Universidade Federal do Rio de Janeiro – BR)
‘Gerais’ e ‘Sertão’ são categorias nativas e remetem a dois tempos distintos: o tempo de ontem, o tempo do “movimento”, da “fartura” e da “liberdade” e o de hoje, o tempo do “viver apertado”, do “viver do compra” e de “ter que pedir permissão”. Tempos que se mostravam imbricados e que ilustravam o processo pelo qual passavam os sertanejos de certa região do Brasil. Para esse grupo social, ‘Gerais’ são largas extensões de terra que se constituem como áreas de uso comum. A categoria nativa ‘Gerais’ remete a um local onde o gado é criado ‘na solta’, sem cercas, formando -se como uma área de uso comum para aquele grupo que compartilhava normas regidas pela moral camponesa. Muito embora essa terra fosse regido
por uma lei própria desses camponeses, foi tomada pelo Estado, que, ao seu olhar, viu ali uma terra vazia, sem gente e, a partir disso, lhe atribuiu outro signifi cado: em nome do bem comum, da proteção da natureza aquele território foi confi gurado como área de preservação. Ali foi instituído o Parque Nacional Grande Sertão Veredas, área que passou a ser cercada, bem como regida por outras leis: a do direito positivo. Essa nova forma de defi nir o uso da terra, que fez dos ‘Gerais’ o ‘Sertão’, trouxe proibições para esses sertanejos sobre o uso da terra, como não poder labutá -la, tampouco habitá -la.
Usos e desusos das terras de Tourém
Diego Amoedo (Universidade Estadual de Campinas – BR)
Em Tourém – aldeia portuguesa fronteiriça do Alto Barroso – assistimos, ao longo do século XX, a toda uma série de transformações na terra, que defi nem a territorialidade, entendida segundo Pietrafesa de Godoi, como o processo de construção dos espaços de vida das pessoas.
Na primeira metade do século XX algumas terras comunais foram entregues a “particulares” para seme- arem “batata de semente”. Atualmente, esses mesmos terrenos, nomeados de lameiros, são usados para cultivar feno para as vacas.
Deparamo -nos também com momentos sócio -políticos diferenciados que implicaram na concentração de terras em mãos de uma minoria em contraposição aos tempos em que a maioria das famílias vivia da agricultura, como diz Bourdieu (2004) ao passo de um mundo fechado (agricultura familiar) para um universo infi nito, revelado pelos mercados e pela emigração. Diante disso, questionamos: com a irrupção do capital proveniente dos emigrantes a dinâmica e aparência da aldeia mudaram?
Hoje, as terras próximas à aldeia estão à monte, o que signifi ca que há uma grande disponibilidade de terras para os agricultores, tendo a possibilidade de escolher os terrenos que querem cultivar. “Levam terrenos” em função da superfície, qualidade e possibilidade de acesso, assim como, possibilidade de utilização de maquinários agrícolas, como tratores ou enfardadeiras, hoje, indispensáveis para o trabalho agrícola. Por fi m, pretendemos com esta comunicação, abordar as territorialidades e as transformações sócio- -territoriais através dos usos e desusos na(s) terra(s) de Tourém. Nesse sentido, uma terra pensada não apenas num sentido produtivista, mas como espaço de vida e da vida de seus habitantes.
Memórias de um outro Alentejo: visões da comunidade e da propriedade rural do Sul durante o Estado Novo
Ricardo Moreira (ICS -UL)
Em 1971 José Cutileiro apresentava o Alentejo como uma sociedade rural profundamente hierarquizada, num regime de posse de terra no qual o potencial produtivo se encontrava nas mãos de um grupo muito restrito de grandes proprietários, muitos deles vivendo fora da região. A grande massa populacional era composta por trabalhadores sem terra nem meios de produção, vivendo precariamente na dependência política de proprietários e lavradores, e sob a alçada do sistema de patrocinato, que complementava a parca assistência pública através das trocas de favores e de formas de protecção social ancoradas no apadrinhamento.
Uma etnografi a recentemente desenvolvida na região do Redondo permite rever este modelo com base num conjunto de narrativas pessoais e familiares, que dão conta do modo como a terra e o trabalho eram aí vividos na primeira metade do século XX, e de como trabalhadores e proprietários produziram uma economia local com base na exploração colectiva. A identidade de “linhagem” fortemente associada à terra e ao trabalho, o papel das sociedades familiares e a importância local dos arrendamentos, explicam como a tecnologia agrícola tradicional e as formas locais do trabalho se associaram à política agrária do Estado Novo para criarem um regime de propriedade, pertença e exploração com profundo impacto eco- nómico e demográfi co.
Apesar de refl ectirem o contraste entre a actualidade e uma época de juventude já distante, as narrativas de nostalgia dos mais velhos habitantes locais não deixam de traduzir uma memória de esperança e pros- peridade colectiva, bem diferente da sombria sociedade rural de Cutileiro.
Terras de Preto, Terra da Santa: uma refl exão sobre territorialidades e reconhecimento de direitos de comunidades quilombolas
Rebeca Campos Ferreira (Universidade de São Paulo – BR); Deborah Stucchi (Ministério Público Federal – BR)
O presente ensaio refl ete sobre etnicidades e territorialidade, no contexto do reconhecimento de direitos diferenciados às comunidades remanescentes de quilombos, no âmbito do prescrito pelo Artigo 68 do Ato
das Disposições Constitucionais Transitórias da Constituição Brasileira de 1988. Volta -se à possibilidade de acesso a um direito de caráter coletivo, étnico e fundiário, que remete à construção identitária, na medida em que o preceito constitucional pressupõe a emergência da identidade quilombola, em que pese a ressemantização do conceito de quilombo, para fi ns da aplicabilidade legal. A partir do caso dos quilom- bolas no Brasil pode -se pensar acerca das etnicidades, identidades e culturas que permeiam a discussão acerca do reconhecimento de direitos diferenciados a determinados grupos – os direitos territoriais e seus desdobramentos – considerando que se trata, sobretudo, de um reconhecimento realizado pelo Estado, onde a lei cria seu sujeito, embora se observem os princípios da auto adscrição. Em questão se coloca o fato de que marcadores étnicos – fl uidos e carregados de singularidades – representam o acesso a direitos – genéricos – a diversos grupos historicamente destituídos dos mesmos, na esteira do reconhecimento jurídico da diferença, na qual a identidade se torna bandeira de luta, e formas de uso, pertença e apropria- ção da terra podem ser pensadas.
Corpos contratados, espaços e temporalidades nas roças de São Tomé e Príncipe Carla Semedo
No início do século XX, chegaram os primeiros “trabalhadores rurais” contratados procedentes de Cabo Verde às roças de cacau e café de São Tomé e Príncipe. Deste então, cabo -verdianos oriundos particular- mente das ilhas montanhosas, foram constituindo -se, paulatinamente, no maior contingente de mão -de- -obra “contratada e escrava”. No imaginário destes, o “ouro do cacau” são -tomense aparecia acomodado numa gramática discursiva enquanto o el dorado e o único elo de humanidade ainda presente face ao espetro das fomes e a eminência de sucumbirem -se. Volvidas décadas, o “cacau são -tomense” cessa de cintilar, os cabo -verdianos e seus descendentes vêem -se acorrentados nas tramas da desventura, do abandono e da decrepitude das então majestosas roças. O “espaço roça” e o “tempo dos brancos” mar- cado pelas relações coloniais e trabalho escravo” já não é “cruel”, mas acomodado num registro mnemó- nico e discursivo de ter sido “um tempo melhor do que o tempo de agora… apesar de tudo…». Desta feita, o que vai estar em jogo nessa comunicação é de que forma os espaços e as territorialidades da roça que outrora produziram corpos contratados, ao se tornarem materialidades de um “não -tempo” e “não -lugar”, não terão transformado estes corpos em “não -pessoas” “perdidos na imensidão do mato são -tomense”.
«Essa terra que eu tomo de conta»: a reforma agrária no mundo dos engenhos (Pernambuco, Brasil) Ana Luísa Micaelo (ICS -UL)
Apesar da reorganização cíclica da economia da cana que teve lugar ao longo do tempo, enormes proprie- dades privadas de terra cultivada com cana -de -açúcar foram estabelecidas na Zona da Mata de Pernam- buco desde o período colonial, no início do século XVI, e persistem até ao presente. Primeiro com mão -de -obra escrava trazida de África e depois assalariada, as plantações de cana -de -açúcar tornaram- -se a espinha dorsal das relações de poder no estado de Pernambuco. Desde o fi nal dos anos oitenta, disseminaram -se na região vários movimentos de luta pela reforma agrária que, através da ocupação de terras, reivindicaram o seu valor de uso e “interesse social”, tendo sido bem -sucedidos na fundação de assentamentos rurais, onde os antigos cortadores de cana têm reorganizado as suas vidas e a sua relação com a terra.
A investigação baseia -se em trabalho de campo com observação participante que levei a cabo recente- mente no assentamento Pirapama (2010 -2011). Nesta comunicação irei desenvolver as questões que dizem respeito à tessitura das relações de parentesco dos “assentados” para refl ectir sobre a forma como elas têm vindo a integrar a transmissão da posse da terra. Deste modo, proponho -me situar a problemática da apropriação da terra nestas novas dinâmicas sociais, territoriais e familiares, contribuindo, por um lado, para a análise desta fase histórica de reorganização do espaço no mundo rural brasileiro e, por outro, para a discussão antropológica em torno dos conceitos de territorialidade, propriedade e posse da terra.
A Gramática Costumeira da Relação com a Terra: posse e propriedade no Sertão e no Meio -Norte, Brasil Emília Godoi (Universidade Estadual de Campinas – BR)
A partir de uma perspectiva comparativa, o trabalho proposto pretende analisar como as noções de posse e propriedade aparecem nos discursos e nas práticas de homens e mulheres em dois contextos rurais brasileiros distintos e em que elas incidem sobre o conjunto de direitos em relação à terra. Um dos con- textos é o Sertão nordestino, em relação ao qual a pesquisa etnográfi ca revelou um “sistema de direitos combinados”, ancorado nas noções de posse e propriedade e no pertencimento a um “tronco familiar”. A
outra situação etnográfi ca se encontra na Amazônia Oriental, no Meio -Norte brasileiro, onde também encontramos um “sistema de direitos combinados”, mas de uma maneira muito diversa daquele encontrado no Sertão. Nesse segundo caso, embora as noções de posse e propriedade não estejam ausentes, elas não marcam com a mesma força o acesso ao sistema de direitos em relação à terra, que se dá antes pelo compartilhamento de uma história comum, que vem associada para muitos a um pertencimento étnico. Trata -se de um trabalho comparativo que pretende trazer elementos que possam alargar a comparação para além das fronteiras nacionais, estendendo -a, particularmente, aos países de colonização portuguesa.
Iglesia y utopía desde la justicia, solidaridad y comunión con los más débiles frente a propiedad privada y capitalismo salvaje
Juan Antonio Delgado de la Rosa (Gredos San Diego Cooperativa – ES)
Los Santos Padres tampoco piensan que la propiedad privada sea necesariamente injusta, y tampoco piensan que la propiedad privada de la tierra sea exigida por el derecho natural, es decir, que la propiedad privada puede no ser contraria al derecho natural, si cumple condiciones severas. Santo Tomás, sigue la línea de pensamiento de los Santos Padres. Para él la comunidad de bienes no es de derecho natural a título de positiva exigencia, de modo que el derecho natural excluya a priori la legitimidad de la propiedad privada. La comunidad de bienes se atribuye al derecho natural, porque éste no establece la distinción de las posesiones. La propiedad privada deriva de un derecho humano positivo. Este derecho es, en la termi- nología de Tomás de Aquino, el derecho de gentes.
Reconhecimento de Direitos Territoriais: da territorialidade móvel à fi xação dos limites Renata Medeiros Paoliello (Universidade Estadual Paulista – BR)
Os reconhecidos como remanescentes de quilombos, como outras populações rurais no Brasil, vivem hoje a tensão entre suas práticas correntes e móveis de constituição de patrimônios territoriais por moradia e cultivo, incorporadas desde o período colonial, no modelo do direito sesmarial, e as exigências da nova legislação, que impõe limites fi xos, mas ao mesmo tempo lhes assegura o direito ao território. A pesquisa visou analisar essa tensão, e o processo político que ela marca, por meio de uma etnografi a de redes so- ciais, e entender alianças, oposições, e tomadas de decisão que revelam a reorganização das relações e a redefi nição de sua dinâmica.