CAPÍTULO 4 - DAS DECISÕES DA JUSTIÇA DESPORTIVA
4.1 P RINCÍPIOS P ROCESSUAIS C ONSTITUCIONAIS
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processuais constitucionais. A existência de princípios processuais em âmbito constitucional cria, segundo Rita Vasconcelos, a tutela constitucional do processo.66 Para Ada Pellegrini Grinover, “A própria Constituição se incumbe de configurar o direito processual não mais como um mero conjunto de regras de aplicação do direito material, mas, cientificamente, como instrumento público de realização da justiça”.67
Dessa forma, depreende-se que os princípios que regem o processo tomaram a devida relevância ao serem alocados na Constituição. Não só isso, passaram para o patamar de direitos fundamentais, que Gilmar Mendes denomina de direitos fundamentais de caráter judicial e garantias constitucionais do processo, apontando que estes “fundamentam-se no princípio da dignidade da pessoa humana, e a compreensão do processo como um fim em si mesmo e o homem como objeto dessa finalidade”.68 Para Luiz Wambier e Eduardo Talamini, “os princípios constitucionais são o núcleo de todo o sistema e orientam toda a lógica mínima do processo”.69
Nestes alhures, resta evidente a relevância desses princípios para o direito. São estes, acima de tudo, garantias fundamentais de todo e qualquer cidadão que viva em um contexto de Estado de Direito. Seguimos, portanto, à análise dos princípios processuais constitucionais que importarão para o presente trabalho.
4.1.1 Inafastabilidade da jurisdição e acesso à justiça
O acesso à justiça e a inafastabilidade da jurisdição são garantias de todo e qualquer cidadão e resumem-se, basicamente, à necessidade de que todos tenham acesso à Justiça para a tutela de seus direitos, aliada à impossibilidade de a Justiça se esquivar da apreciação de uma causa. É o que se extrai da norma insculpida no inciso XXXV, do art. 5º de nossa Carta Magna:
a lei não excluirá da apreciação do Poder Judiciário lesão ou ameaça a direito.
66 VASCONCELOS, Rita de Cássia Corrêa. Princípio da fungibilidade: hipóteses de incidência no processo civil contemporâneo. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2007. p. 31.
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68 MENDES, Gilmar Ferreira; GONET BRANCO, Paulo Gustavo. Curso de Direito Constitucional. 8. ed. São Paulo: Saraiva, 2013. p. 386.
69 WAMBIER, Luiz Rodrigues; TALAMINI, Eduardo. Curso avançado de processo civil: teoria geral do processo e processo de conhecimento. 15. ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2013. v. 1. p. 68.
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Nestes alhures, para Wambier e Talamini, por meio desses princípios é:
“essencialmente assegurado que toda situação conflituosa, que implique ameaça ou lesão a direitos, sejam eles individuais, sejam coletivos, possa ser submetida ao controle jurisdicional, independentemente de possuir ou não expressão econômica”.70 Na visão de Rita Vasconcelos, a confluência desses dois postulados, “além de vedar a criação de qualquer obstáculo aos jurisdicionados, na busca de seus direitos, abre as portas do Judiciário a toda espécie de conflito”.71
Isso tudo representa, de modo inegável, uma maior aproximação do jurisdicionado ao Poder Judiciário, e demonstra o caráter eminentemente popular da Constituição de 1988, ao conceder a todo e qualquer cidadão o direito de ter acesso à justiça e ver o seu direito adequadamente tutelado – uso esse advérbio para salientar que não é garantido um mero acesso, mas sim uma verdadeira prestação jurisdicional de qualidade. Tempos atrás, isso não era sequer cogitado: a Justiça era algo para poucos. Portanto, esses princípios basilares do processo são muito mais do que simples postulados – são garantias fundamentais do cidadão, conquistadas ao longo do tempo, e possuem inúmeras implicações relevantes para a manutenção do Estado de Direito.
4.1.2 Devido processo legal
O princípio do devido processo legal pode ser classificado como um resultado da interpretação extensiva dos princípios supracitados. Ao se falar em prestação jurisdicional adequada, extrai-se que também devam ser oferecidos todos os artifícios processuais para que a decisão seja a mais clara e justa possível. Não há decisão adequada sem o devido processo legal, isso é fato.
Além disso, ele é expressamente trazido pelo art. 5º, LIV. Sobre o dispositivo, precisa a lição de Wambier e Talamini:
70 WAMBIER, Luiz Rodrigues; TALAMINI, Eduardo. Op. cit., p. 69.
71 VASCONCELOS, Rita de Cássia Corrêa. Op. cit., p. 38.
“(...) quer dizer que toda e qualquer consequência processual que as partes possam sofrer, tanto na esfera da liberdade pessoal quanto no âmbito de seu patrimônio, deve necessariamente decorrer de decisão prolatada em um processo que tenha tramitado de conformidade com antecedente previsão legal e em consonância com o conjunto de garantias constitucionais fundamentais.”72
Dessa forma, pugna-se por que toda decisão tenha passado pelos princípios do contraditório, da ampla defesa, etc., consagrados no rol de garantias fundamentais, como bem ensina Fredie Didier:
“Há, inegavelmente, um acúmulo histórico a respeito da compreensão do devido processo legal que não pode ser ignorado. Ao longo dos séculos, inúmeras foram as concretizações do devido processo legal que se incorporaram ao rol das garantias mínimas que estruturam o devido processo. Não é lícito, por exemplo, considerar desnecessário o contraditório ou a duração razoável do processo, direitos fundamentais inerentes ao devido processo legal.”73
Ensina, nesse sentido, Rita Vasconcelos:
“No sentido processual, o devido processo legal é visto como garantia no campo do processo. De conteúdo mais abrangente que o princípio da legalidade, o princípio assegura que o processo se desenvolva por instrumental previamente previsto e lei, dele decorrendo todos os demais princípios relativos ao processo e ao procedimento, como o do contraditório, o da ampla defesa e o do duplo grau da jurisdição.”74
O princípio do devido processo legal, portanto, assegura outros inúmeros princípios estampados na Constituição e no Código de Processo Civil, como, por exemplo, o da proibição de provas ilícitas; o do tratamento paritário às partes do processo; o da publicidade deste; o da
72 WAMBIER, Luiz Rodrigues; TALAMINI, Eduardo. Op. cit., p. 65.
73 DIDIER, Fredie. Curso de Direito Processual Civil. 16. ed. Salvador: JusPodivm, 2014. v. 1. p. 47.
74 VASCONCELOS, Rita de Cássia Corrêa. Op. cit., p. 44.
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motivação das decisões; o da razoável duração; o do juiz natural; entre outros.
Fica evidente, portanto, que o princípio do devido processo legal é um dos baluartes do sistema processual, assim como das garantias processuais. Ele, acima de tudo, garante que, quando se esteja mexendo na ferida do jurisdicionado (seu direito), isso seja feito da maneira imposta e limitada pela Constituição Federal e pela lei, evitando injustiças das mais variadas espécies: impossibilidade de se manifestar quanto a seu direito, impossibilidade de se recorrer de decisão, impossibilidade de buscar provar algo, etc. De novo, deparamo-nos com um princípio fundante do Estado de Direito.