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Pacto de Estabilidade e Crescimento e Pacto Orçamental

Capítulo V Discurso ordoliberal no quadro regional UE

5.3 Pacto de Estabilidade e Crescimento e Pacto Orçamental

O Pacto de Estabilidade e Crescimento teve como principal função fazer cumprir as regras acordadas no Tratado de Maastricht, de forma a garantir que os países se comprometiam a orientar as suas políticas pela “sound finance” em prol da estabilidade e coordenação da zona euro (Busch et al, 2013).

75 “Within the framework of the provisions set out in the Chapter, all restrictions on the

movement of capital between Member States and between Member States and third countries shall be prohibited.” (Tratado de Maastricht 1992: 3)

56 Desde a entrada em vigor de Maastricht que o Pacto de Estabilidade e Crescimento foi reforçado, principalmente em 1997, no sentido de uma maior vigilância e controlo sobre as contas públicas dos Estados-membros. Em 1997, decretou-se o regulamento que entrou em vigor em 1999 sobre as medidas corretivas a aplicar aos países, e declarou-se quais seriam os desígnios do reforço do “Pacto de Estabilidade e Crescimento”. Entre os principais objetivos, constaram as finanças públicas sãs, o controlo da inflação, e crescimento sustentável forte conducente à criação de emprego. O termo finanças públicas sãs acabou por repetir a ideia de “sound finances” encontrada nos documentos do FMI, BM e OMC. Todas estas regras europeias foram fortemente influenciadas pelo ordoliberalismo alemão, que pretendia conformar os países a partir de regras claras que preservassem a “ordem” da zona euro (Dullien e Guérot 2012; Beck e Kotz 2017). Estas regras pretendiam assegurar a conformação dos Estados de acordo com as leis de um mercado competitivo, que prescressem regras claras com o objectivo de atingir défices baixos e baixa inflação (Dullien e Guérot 2012; Beck e Kotz 2017).

“Considerando que o Pacto de Estabilidade e Crescimento se baseia num objectivo de finanças públicas sãs como meio de reforçar as condições de estabilidade dos preços e de um crescimento sustentável forte conducente à criação de emprego” (JOCE 1997, NºL209/10)

As medidas de “controlo” e “disciplina orçamental” (JOCE 1997) das contas públicas justificaram-se em nome da estabilidade e funcionamento correto da moeda única. Foi a partir desta mesma justificação que se reforçaram os mecanismos de “correção” e o processo de vigilância das contas públicas dos Estados-membros de cariz ordoliberal (Beck e Kotz 2017). O termo “disciplina”, tornou-se cada vez mais usado no âmbito da zona euro, e o discurso ganhou um cunho moral que associava as “alternativas” como comportamentos “indisciplinados” que deveriam ser sancionados por mecanismos burocráticos e automáticos76. A sanção revelou-se como um instrumento de punição essencial

para fazer com que os objetivos do Tratado de Maastricht fossem cumpridos. Caso

76“Considerando que para que a UEM funcione correctamente é necessário que a convergência

dos resultados económicos e orçamentais dos Estados -membros que adoptaram a moeda única, adiante designados « Estados-membros participantes », se revele estável e duradoura; que na terceira fase da UEM a disciplina orçamental é necessária para salvaguardar a estabilidade dos preços” (JOCE 1997, NºL209/10)

57 os países não cumprissem com a orientação político-económica consagrada no Tratado de Maastricht - especialmente a regra dos 3% de défice – , estes seriam punidos de acordo com mecanismos automáticos de sanção que pretendiam ser concebidos como neutrais ou procedimentos técnicos77.

Nas diretivas conhecidas por “Six Pact”, propostas pela dupla Sarkozy e Merkel, pretendeu garantir-se que os países passariam a prestar informações atempadas sobre a gestão das suas contas públicas perante as entidades europeias no controlo das contas públicas dos Estados-membros. Também se delegou à CE um papel mais presente no processo de elaboração das previsões e decisão sobre as estratégias a adotar para que os Estados cumprissem com os critérios do Tratado de Maastricht. Esta diretiva teve como objetivo conseguir fazer com que passasse a existir uma maior transparência na prestação de informação sobre a gestão do orçamento público dos Estados de forma a garantir que estes estariam empenhados no cumprimento da “disciplina orçamental” e que não seguiriam políticas macroeconómicas erróneas.

“As previsões macroeconómicas e orçamentais erróneas e irrealistas podem prejudicar consideravelmente a eficácia do planeamento orçamental e, consequentemente, comprometer o empenho no cumprimento da disciplina orçamental, enquanto que a transparência e a discussão das metodologias previsionais podem aumentar significativamente a qualidade das previsões macroeconómicas e orçamentais necessárias ao planeamento orçamental.” (PEC 2011)

Apesar das diretivas apresentarem um discurso pretensamente independente, técnico e meramente burocrático. Os Estados-membros foram “aconselhados” a evitar uma política orçamental pro cíclica (possivelmente keynesiana), que era associada a uma conduta macroeconómica expansionista e, portanto, errónea do ponto de vista da consolidação orçamental (Stiglitz 2016). Desta forma se encontra patente uma normatividade ordoliberal que se apresenta como poliliticamente neutra por parte das instituições europeias, que pretendem

77“Quando o défice excessivo resultar do não cumprimento do critério relativo à relação do défice

orçamental referida no n'-' 2 , alínea a ), do artigo 104''C, o montante do primeiro depósito incluirá uma componente fixa , correspondente a 0,2 % do PIB, e uma componente variável correspondente a um décimo da diferença entre o défice expresso em percentagem do PIB no ano anterior e os 3 % do valor de referência do PIB. “ (JOCE 1997, NºL209/10)

58 ser concebidas como um mero “guardião” da ordem económica consagrada nos Tratados.

“Os Estados-Membros deverão evitar a adopção de políticas orçamentais procíclicas e, perante uma conjuntura económica mais favorável, os esforços de consolidação orçamental deverão ser reforçados. Regras orçamentais numéricas claramente enunciadas conduzem à consecução destes objectivos e deverão ser reflectidas na lei do orçamento anual dos Estados-Membros.” (TECG, 2012)

Esta tendência para reforçar os mecanismos de punição e vigilância sobre as contas públicas dos Estados-membros no sentido de evitar políticas macroeconómicas alternativas acabou por estar também patente no Pacto Orçamental (TECG) assinado em 2012 (Busch et al 2013). Neste tratado intergovernamental, estabeleceu-se que a regra do défice fosse transposta para o quadro constitucional dos Estados-membros, bem como se tornou automático o processo de adoção de “medidas corretivas”. Este tratado foi elaborado num contexto em que o discurso político assumiu formas cada vez mais “disciplinadoras” sobre os países “incumpridores”, “maus alunos”, ou “países que andam a viver acima das suas possibilidades”78. Este reforço das regras

orçamentais correspondeu às preferências da Alemanha e de países como Holanda ou Finlândia, que se mostraram favoráveis à introdução de sanções automáticas e do limite constitucional ao endividamento público (Moury 2016).

Com o Pacto Orçamental (TECG), a regra da política macroeconómica foi transposta para o quadro legal dos Estados-membros, com a inclusão da regra de 0.5% de défice estrutural (TECG 2012). A política macroeconómica promovida no Tratado de Maastricht, reforçada pelos PEC's e pelo Pacto Orçamental(TECG), eliminava a possibilidade de políticas económicas keynesianas ou expansionistas (Busch et al, 2013). Existiu desta forma uma transposição de uma normatividade ordoliberal para o quadro jurídico dos países, que impediu que estes adotassem outro tipo de políticas económicas, restringindo as possibilidades de decisão das

78 “TENDO PRESENTE que a necessidade de os governos manterem finanças públicas sãs e

sustentáveis e de evitarem défices orçamentais excessivos é determinante para preservar a estabilidade de toda a área do euro e, consequentemente, exige a introdução de regras específicas, incluindo uma "regra de equilíbrio orçamental" e um mecanismo automático para a adoção de medidas corretivas” (TECG, 2012)

59 democracias79 (Beck e Kotz 2017).

A “regra de equilíbrio orçamental” estabeleceu que os países com dívidas acima dos 60% do PIB não pudessem ter um défice estrutural acima dos 0,5, e aqueles que têm dívidas abaixo, não pudessem ultrpassar do 1% de défice estrutural. Estas medidas consagradas no Pacto Orçamental(TECG) acabaram por introduzir uma “disciplina financeira” que impossibilita a adotação de medidas pro-cíclicas (Stiglitz 2013). Estas restrições macroeconómicas, fazem com que alguns Estados-membros, como o caso de Portugal ou Grécia, tivessem de seguir um caminho de contenção permanente do investimento público. Todas estas condicionantes, acabaram por forçar os países a ter de reduzir o papel do Estado na economia de acordo com os princípios do mercado, o que levou a um deterioramento das condições de financiamento do modelo social europeu.