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A proposta de uma anistia geral para os presos políticos, feita por Piperno, foi interpretada como uma proposta de trégua entre os terroristas e a República italiana. Se a proposta fosse essa, deveríamos concluir que as relações entre terroristas e Estado são consideradas relações de guerra. A trégua é um instituto de direito internacional, ainda que por vezes a palavra seja empregada impropriamente para designar relações internas, como é o caso da freqüente expressão "trégua sindical".

As relações de direito internacional estão reguladas por um direito diferente daquele que regula as relações entre o Estado e os cidadãos. O princípio fundamental desse direito é a autotutela, segundo o qual cada um dos grupos soberanos, ou que se têm como tais, se defende por si com as forças que tem ou com as forças que consegue obter de seus aliados. Quando o conflito se torna violento, é regulado pelo ius belli (direito de guerra), que permite aos dois contendores ações como a de matar o inimigo sem processo legal algum, o que a Constituição de um Estado democrático não permite. Ele não o permite aos cidadãos, cujo dever é obedecer às leis. Entre essas leis está a que proíbe o homicídio em todos os níveis, salvo em casos excepcionais. Também não o permite aos órgãos do Estado, cujo dever é punir os transgressores das leis segundo as normas de procedimento preestabelecidas, acertadas e reconhecidas, de tal maneira que os acusados, quem quer que sejam, poderão se defender e comprovar sua inocência, e puni-los, no caso específico do Estado italiano, com penas diferentes, à exceção da morte.

O direito de guerra não reconhece tribunais acima dos contendores, e não há outra regra para saber quem não tem razão a não ser o veredito da guerra: tem razão quem vence e não tem razão quem perde. Trata-se, como se pode ver, do direito do mais forte.

Ninguém é tão ingênuo que acredite existir um direito sem força. Mas no direito de guerra a força é a regra, no direito interno de um Estado, é a exceção. Falo do Estado democrático, quer dizer, do Estado fundado sobre uma Constituição que reconhece os direitos civis e pessoais. Outro discurso deveria ser feito para os Estados despóticos. Mas os Estados despóticos, como sempre foi reconhecido pelos escritores liberais e que os revolucionários responsáveis por terem dado vida a tantos Estados despóticos nunca leram, são a continuação e, num certo sentido, a cristalização do estado de guerra. Não tenho conhecimento de que num Estado democrático tenham acontecido desgraças como as dos gulags na União Soviética ou dos judeus na Alemanha nazista. Com isso não quero dizer que o Estado democrático esteja livre de abusos. Estou informado disso, especialmente no que diz respeito ao processo democrático italiano. Há muita gente que não está convencida com o modo como foram formuladas as acusações contra os presos desde o dia 7 de abril de 1979 em diante, se bem que certas notícias sensacionalistas possam atribuir-se mais à imprensa do que aos magistrados.

Uma vez considerada a relação entre terroristas e Estado como uma relação de guerra, torna-se necessário tirar daí todas as conseqüências. O direito de guerra é um direito entre iguais ou pelo menos entre entes soberanos ou que assim se autodenominam, que se consideram formalmente iguais. Sendo um direito entre iguais, funda-se sobre uma regra fundamental, que é a da reciprocidade. Segundo esta regra, o que é permitido a um dos contendores é permitido também ao outro. Posto o problema nestes termos, não conseguimos ver por que os atos de violência que os terroristas praticam contra o Estado e seus "súditos" não deveriam ser lícitos ao Estado contra os terroristas. Os brigadistas já se habituaram a declarar-se prisioneiros de guerra. Isso quer dizer que se declaram beligerantes apenas quando a guerra acaba e são depostas as armas que matam, e que com base no direito de guerra têm direito de matar. E antes? O princípio de reciprocidade, na base do qual eu

não posso estar em guerra com o outro sem que o outro esteja em guerra comigo, exige que quem declara guerra se considere em estado de guerra do princípio ao fim, e reconheça ao outro que está em guerra contra ele, que o considere um inimigo, e não um cidadão sujeito às normas do direito público interno e por estas protegido, também durante o conflito e portanto em todos os momentos, mesmo quando é mais perigoso e não apenas quando o conflito terminou. Ê muito cômodo assumir as vantagens da condição de prisioneiro de guerra sem aceitar as desvantagens da condição de beligerante.

Afirmei acima que falar de trégua nas relações entre terroristas e Estado pressupõe a idéia de que entre uns e outro existe um estado de guerra. Ora, o pressuposto para o reconhecimento do direito de guerra interna ou civil é a ruptura violenta da unidade nacional após um grave processo de deslegitimação do ordenamento vigente e a formação de fortes grupos armados que ocupem estavelmente uma parte do território nacional. Um partido armado só pode ser considerado um Estado em embrião quando é, ainda que incipiente, um poder territorial que age a descoberto. Entre outras coisas é impensável que possa ser reconhecido, no sentido próprio da palavra, um grupo, por mais amplo que seja, quando está na clandestinidade. Para reconhecer é necessário conhecer. Não é possível compreender em que consistiria o reconhecimento de gente que não se sabe quem é, que vive marginalizada, com nomes falsos, com carteiras de identidade de outras pessoas, etc.

Importa dizer, finalmente, que, apesar da violência difundida e de uma crescente apatia política, a crise de legitimação do Estado republicano não tem sido muito grave, até agora. Não obstante todos os defeitos, vivemos num Estado em que os partidos constitucionais obtiveram em eleições livres a adesão da grande maioria dos cidadãos italianos. Qual é a parcela de cidadãos italianos que os terroristas e seus amigos crêem representar para poderem pretender ser considerados um verdadeiro "partido" armado?

Sou o primeiro a reconhecer que a nossa classe política se perde em estéreis jogos de poder, faz tudo para encorajar a violência destrutiva e comete contínuos erros na maneira de conduzir a luta legal contra a subversão. Mas falar hoje em trégua entre terroristas e Estado, como se estivéssemos em estado de guerra civil, significaria perder o sentido da proporção, pecar por megalomania e procurar tirar vantagem do estado de confusão mental em que vivem muitos jovens, além de nos servirmos das idéias dos habituais irresponsáveis que pensam que entre os direitos civis existe o de disparar contra os policiais e se levantar com uma ação armada contra o Estado.

A esquerda revolucionária ignorou durante séculos os direitos da liberdade. Não existe em toda a literatura marxista ou marxizante um único tratado sobre os direitos do homem. Existem, por outro lado, muitos escritos onde se procura demonstrar que os direitos da liberdade nada valem porque são direitos burgueses. Agora que os está descobrindo, ampliá-los em vantagem própria até deformá-los, até defender que uma vez que a liberdade do dissenso é garantida, é lícita toda forma de dissenso, até aquela forma que, através de um eufemismo, pode ser chamada a "crítica das armas"; que a liberdade de palavra consiste também em escrever nos muros, como por exemplo nos muros das universidades, que é preciso matar tal indivíduo, fazendo listas com nome e sobrenome dos que é preciso eliminar; que entre os direitos reconhecidos pelo Estado democrático está também o de rebelar-se contra o Estado através da violência.

Agora que a esquerda revolucionária reconheceu os direitos da liberdade, quer todos os direitos, e imediatamente. Inclusive o direito de impunidade que foi sempre a prerrogativa dos soberanos absolutos e dos déspotas.