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A propósito da terceira via, lembrei no artigo anterior que um debate animadíssimo foi desenvolvido nas décadas de 40 e 50. O protagonista desse debate foi o partido de ação através da pena de Guido Calogero, de quem iremos evocar uma conferência feita em Roma em novembro de 1944, mais tarde publicada em opúsculo com o título de A democracia na encruzilhada e a terceira via.

Também nesse tempo, a terceira via era entendida por cada um a seu modo. A fórmula tinha sido honrada nesses anos por Wilhelm Röpke num livro intitulado A crise social do nosso tempo e a terceira via, publicado em 1942 e saído na Itália em 1946, pela Editora Einaudi. Por terceira via Röpke entendia tanto a superação do capitalismo dominador como a do coletivismo opressor em favor de uma revisão do liberalismo que devia voltar à economia de mercado; um liberalismo que hoje se chamaria de "rosto humano" e que Röpke definia como "humanismo econômico". Se bem observamos, é uma coisa diferente de uma nova idéia de socialismo. Seria mais uma revisão do liberalismo do que do socialismo. Quando o livro apareceu foi recenseado e destacado por Einaudi e por Croce. O primeiro falava, em sua recensão,41 de uma "terceira via" entre os

séculos XVIII e XIX; o segundo, numa apostila intitulada A terceira via,42 defendeu ser ele também um fautor da terceira via desde que

esta fosse entendida como a síntese dos dois sistemas econômicos opostos num princípio superior, que era o princípio ético da liberdade. É preciso não esquecer, como já o lembrou Spadolini, que o fascismo também se apresentou como uma terceira via.

(41) Rivista di storia economica, junho de 1942. (42) La critica, ano de 1943.

Sou bastante experiente para lembrar, sem necessidade de voltar aos textos, todos os escritos de "doutrina do fascismo" nos quais com bela simetria se condenavam, de um lado, as plutocracias democráticas e se execrava, do outro, o bolchevismo, e, no meio, ou melhor, acima dos dois pólos, se exaltava o fascismo com sua teoria das corporações que superavam o individualismo anárquico do velho liberalismo sem cair no coletivismo despótico dos comunistas. Era Roma entre Washington e Moscou.

Dando um passo atrás, o que foi a doutrina do cristianismo social, de modo particular na sua variante italiana do partido popular e nos escritos de Dom Sturzo, senão um ataque em duas frentes, a saber, contra a frente do estatismo da direita histórica e contra a frente do estatismo dos socialistas, considerado igualmente nefasto, e em defesa de uma sociedade pluralista, articulada, que dava espaço às sociedades intermediárias?

Tampouco é novo o debate na esquerda, como destacou Leo Valiani num artigo publicado no Corriere della Sera, no dia 8 de setembro de 1978, com o título de "O caminho que leva à social- democracia", e como demonstra o renovado interesse pelo austromarxismo que foi tema de um recente congresso em Viena, saudado por Giacomo Marramao na Rinascita de 17 de novembro de 1978 como um congresso sobre a "terceira via".

Para se justificar tal proliferação de terceiras vias, todas diferentes umas das outras, seria necessário começar por lembrar a sugestão do velho princípio que dizia "que a virtude está no meio". Mas uma observação posterior pode ser feita confrontando os úteis serviços que pode oferecer à compreensão e à avaliação da realidade o esquema triádico (divisão do campo em três setores) em relação ao esquema diádico (divisão do campo em dois setores).

Geralmente, o esquema diádico é usado quando a realidade se nos apresenta como quebrada por uma contradição ou por um tipo de contraste que não admite uma solução intermediária e não pode ser resolvido a não ser sob a forma de aut aut. Um exemplo daquilo que

deu origem a esse debate: quando afirmo que entre democracia e ditadura não existe uma terceira via quero dizer que considero democracia e ditadura como dois termos que se excluem um ao outro, de tal maneira que em qualquer regime não pode haver senão democracia ou ditadura, na medida em que a aceitação da primeira implica necessariamente a rejeição da segunda, e vice- versa.

O esquema triádico, só pelo fato de colocar à nossa disposição três termos e não dois, é mais flexível e permite um maior número de combinações. Podemos distinguir três: 1. Consideram-se os dois termos que se excluem não como contraditórios mas como contrários, ou seja, como dois termos que embora se excluam reciprocamente não excluem um terceiro termo entre eles (entre branco e não-branco, que são contraditórios, não existe nenhuma cor intermediária, mas entre branco e preto, que são contrários, existem todas as outras cores). Deriva daí não já a necessidade de escolher um ou outro, mas a possibilidade de não escolher nem um nem outro. Um exemplo atualíssimo desse modo de pensar é o dos fautores da terceira via entendida como terceira meta: nem o socialismo dos regimes do Leste, nem o capitalismo, incluindo o corrigido em regime de Estado assistencial das democracias ocidentais. 2. Os dois termos a mediar através de um terceiro termo não são considerados nem contraditórios nem contrários, mas completamentares, de tal maneira que é possível uma combinação ou composição entre eles ou até uma mistura com um terceiro termo que tem algo de um e de outro: entre o branco e o preto estão todas as outras cores, mas com o branco e o preto se faz o cinzento. O liberal- socialismo e o socialismo liberal acima mencionados são um exemplo luminoso de tal operação. 3. Juntando a dimensão do tempo, os três termos podem ser compostos como três momentos sucessivos: o primeiro como afirmação ou tese, o segundo como negação ou antítese e o terceiro como negação da negação, ou seja, uma afirmação num plano mais alto, que é a síntese. Esse esquema e a vulgarização da

dialética hegeliana e marxista, num dos seus muitos significados. Aqui o terceiro gênero não é o que está no meio entre dois extremos, nem a combinação de dois complementares, mas a superação de dois opostos que ao mesmo tempo se elidem e se integram.

O que essas três e todas as formas triádicas de pensamento têm em comum é a atribuição de um significado positivo a um terceiro termo que exclui, integra ou supera os outros dois, considerados ou como negativos ou insuficientemente positivos. Enquanto no esquema diádico o positivo é a única alternativa possível para o negativo, no esquema triádico o positivo pode ser tanto a rejeição dos dois termos extremos como a combinação dos dois termos complementares e também a superação dos dois termos opostos. Daí, a variedade e também a freqüência do seu emprego.

Aplicando essas considerações ao debate atual sobre a terceira via, pode-se fazer o seguinte comentário. Antes de tudo, o recurso ao esquema triádico, em contraposição ao uso do esquema diádico, como acontecia, por exemplo, durante a Guerra-fria, mostra mais uma orientação favorável ao desenvolvimento gradual do que a uma revolução brusca e a perspectiva de uma meta não-imediata. Em segundo lugar, tendo presentes as três variantes do esquema, podem ser identificadas no debate atual três posições: 1. Uma posição que, partindo da negação das sociedades existentes (nem capitalismo nem comunismo), busca uma solução intermediária ainda não bem- definida. 2. Uma posição que, partindo da afirmação daquilo que existe de positivo nos dois modelos dominantes, propõe uma integração de liberalismo e socialismo. 3. Uma posição que, partindo da interpretação do socialismo real como negação do sistema capitalista, mas ao mesmo tempo como momento negativo, se necessário, do momento histórico, vê a solução na superação do momento negativo e ao mesmo tempo na recuperação daquilo que se revelou positivo no momento precedente. Parece-me poder-se interpretar desse modo o destaque insistentemente dado pelos projetos socialistas tanto ao mercado, como regulador do

desenvolvimento econômico, como à garantia dos direitos de liberdade, como condição imprescindível de uma convivência civil.

Não pretendo supervalorizar a importância dessas distinções. Sei, entretanto, que não faz mal colocar um pouco de ordem em nossos raciocínios nem mostrar o movimento interno, por vezes elementar, das nossas elucubrações. O esquematismo está inerente, no caso, à simplificação de uma realidade complexa a que nos induz qualquer raciocínio através de díades ou tríades. Desejaria dizer que a retomada do debate sobre a terceira via, especialmente pelas esquerdas, é um indício de insatisfação com o presente e de incerteza em relação ao futuro.