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3. Orientações e Enquadramento Internacional

3.2. Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos

Em dezembro de 1966 foi adotado pela Assembleia Geral das Nações Unidas, o Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos, no qual as partes envolvidas comprometem-se a respeitar os direitos civis e políticos. Trata-se de um documento com raízes e inspiração similares às da DUDH que foi ratificado por Portugal em 1978 e que assume, portanto, o reconhecimento da inerente dignidade e direitos iguais e inalienáveis de todos os membros da família humana, fundamento da liberdade, justiça e paz no mundo. As disposições contidas na DUDH e na CEDH, nomeadamente aquelas que determinam que todas as pessoas gozam iguais direitos de liberdade, particularmente liberdade política, religiosa e de expressão, o direito a um julgamento justo, entre outros, estão também incluídas no Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos (PIDCP), como se vai agora analisar. De facto, os direitos mais relevantes da Declaração Universal dos Direitos Humanos são desenvolvidos neste documento e é feita uma reflexão aprofundada dos mesmos. Assim, o PIDCP configura-se como um documento de extrema relevância ao reafirmar os direitos civis e políticos das pessoas, o que assume uma relevância ainda maior em situações de vulnerabilidade acrescida, como é o caso das pessoas com doença mental em situação de internamento e tratamento involuntário.

Das partes I, II e III do PIDCP constam vinte e sete artigos. Nesta breve incursão, descrevem-se aqueles que se consideram relevantes para o enriquecimento dos assuntos a tratar. O artigo 1 refere-se ao direito de autodeterminação dos povos que livremente podem escolher o seu estatuto político e levar a cabo o seu desenvolvimento económico, social e cultural.

O artigo 2 refere que todos os indivíduos têm assegurados os direitos, sem distinções de raça, sexo, língua, religião, opinião política ou outra, sendo ainda de salientar a igualdade de direitos civis e políticos entre homens e mulheres que está consagrada no artigo 3.

Estes artigos remetem-nos para situações vividas na nossa história recente, envolvendo a psiquiatria e o tratamento e internamento involuntários, como as que ocorreram na Rússia. A denúncia do uso da psiquiatria para fins políticos na ex. URSS, feita em 1977, considerava que o país utilizava práticas de sequestro e terapêuticas farmacológicas forçadas por motivos políticos, através da constatação de casos de pessoas que foram consideradas doentes mentais e nas quais não se encontrou fundamento médico para o seu internamento em hospitais psiquiátricos (Ferreró, 1983). Aliás, cerca de uma década depois, no congresso mundial de psiquiatria em 1989, debateu-se a readmissão da associação oficial soviética de psiquiatria, após terem sido reconhecidos por esta, abusos na utilização da psiquiatria para fins repressivos (Acção Médica, 1989). De salientar que tal situação não se circunscrevia apenas aos dissidentes políticos, mas também àqueles que reivindicavam direitos culturais do seu grupo nacional, como era o caso dos ucranianos ou dos lituanos ou, ainda, direitos religiosos como era o caso dos budistas (Chodoff, 2008).

O artigo 4 exclui o direito à liberdade de pensamento, consciência e religião do âmbito dos direitos que os Estados podem derrogar em tempos de emergência nacional. O artigo 7 afirma a impossibilidade de alguém ser alvo de tortura, tratamento de forma cruel, desumana, degradante ou como castigo, situações já referidas nos dois anteriores documentos (DUDH e CEDH), mas acrescenta que ninguém pode ser submetido a experimentação científica sem o seu consentimento.

A este propósito poderemos relembrar os casos de doentes mentais que sob o regime Nazi foram submetidos a esterilização, de acordo com procedimentos legais, e mais tarde os programas de “eutanásia” em alguns hospitais psiquiátricos (Chodoff, 2008). A relembrar também a introdução, ao longo da história, de novos fármacos em populações vulneráveis, como no caso de doentes mentais em regime de internamento que foram submetidos a tais procedimentos sem consentimento.

No artigo 9, à luz do direito à liberdade e segurança da pessoa, podemos verificar a determinação de que ninguém pode ser privado da sua liberdade a não ser de acordo com procedimento estabelecido na lei. Além disso, voltamos a ver reforçado que, ao ser detida, a pessoa tem de ser informada, em linguagem que entenda, das razões da privação da liberdade; no caso de processo criminal, deve ser apresentada prontamente perante o juiz e ter julgamento num tempo razoável ou ser libertada; a pessoa detida deve ter acesso a procedimentos perante o tribunal, de modo a que este possa decidir, sem atrasos, acerca da legalidade da medida de detenção. Determina ainda, o artigo 10, que todas as pessoas privadas da sua liberdade devem ser tratadas com humanidade e respeito pela dignidade inerente à pessoa humana. O artigo 14 refere-se à igualdade perante os tribunais e ao direito a um julgamento por entidades imparciais e independentes. A imprensa e o público podem estar excluídos de todo ou parte do processo pela moral, ordem pública, por interesse nacional, da vida privada ou quando prejudique interesses da justiça. Salvaguardando-se, ainda, que um processo criminal deve ser público, exceto nos casos da salvaguarda de interesses de menores. A pessoa deve ter tempo e meios para a preparação da sua defesa, comunicar com defensor da sua escolha, ser julgado sem demora presencialmente, poder defender-se através de defensor escolhido, ser informado deste

direito e ter assistência legal disponível, sem pagamento, se não tiver meios para tal. Encontra-se também determinada a igualdade para as testemunhas de defesa e acusação e o direito a um intérprete se não entender a língua. É ainda estabelecido o direito a pedir revisão do processo por um tribunal superior e se, após condenação, surgirem dados relevantes que demonstrem erro da sentença, a pessoa tem direito a ser compensada.

Todas estas salvaguardas que atualmente nos podem parecer óbvias têm, como já foi referido anteriormente, razão de existir. Ainda no âmbito do que foi abordado acerca dos abusos verificados na ex URSS, assistiram-se a situações em que, após avaliação psiquiátrica, as pessoas eram consideradas doentes, julgadas de forma a que, nem família, nem amigos tivessem acesso a todo o processo, sem qualquer possibilidade de defesa (Chodoff, 2008). Assim, o reforço da necessidade de respeitar o estipulado nesta Convenção é de extrema importância pois permite e reforça a proteção dos direitos das pessoas com doença mental submetidas a internamento e tratamento involuntário. Através da análise destes artigos podemos também perceber o porquê de, no nosso enquadramento legal, como veremos mais à frente, o processo de internamento compulsivo estar no âmbito do juízo criminal e verificar que todas estas determinações estão focadas na Lei de Saúde Mental portuguesa.

O artigo 16 estabelece que todos devem ter o direito a ser reconhecidos como pessoa perante a lei e o artigo 17 reconhece que ninguém deve ser sujeito de forma arbitrária ou à margem da lei a interferência na sua privacidade, família, lar, correspondência, ataques à honra ou reputação, situações que também já estavam previstas nos documentos anteriormente analisados.

O artigo 18 estipula que todos devem ter liberdade de religião, pensamento e consciência, sendo que a liberdade de os manifestar só pode ser limitada pela lei e para proteger a segurança pública, ordem, saúde, moral, direitos e liberdades fundamentais de terceiros. O disposto no artigo 19 consagra que todos devem ter direito a exprimir opiniões e liberdade de procurar e difundir a informação sob forma oral, escrita, arte ou qualquer outro meio. Neste âmbito, apenas podem existir restrições nos casos de respeito pela reputação e direitos de terceiros, ordem pública, saúde pública ou moral. No âmbito dos direitos do cidadão, o artigo 25 refere que este deve tomar parte em assuntos públicos diretamente ou através do voto, votar e ser eleito e ter acesso aos serviços públicos no seu país. O artigo 26 estabelece que todas as pessoas são iguais perante a lei e têm direito a igual proteção, sem discriminação, devendo a lei garantir igual e efetiva proteção. É reforçado, no artigo 27, que nos países em que existam minorias estas não devem ver negado o direito a gozar a sua cultura, religião e língua (United Nations, 1966).

Nesta análise dos artigos do Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos constata-se a importância conferida ao exercício dos direitos civis, abordados e explanados para além do que estava disposto na DUDH e na CEDH, o que vem relembrar e reforçar a necessidade do seu respeito. Tais desígnios, a preservar mesmo em casos de internamento ou tratamento involuntário situações em que as pessoas podem ver os seus movimentos restringidos e as suas liberdades e direitos enquanto cidadãos coartadas, assumem uma relevância incontestável. Considera-se, portanto, que o conhecimento destes padrões estabelecidos pela comunidade internacional, aplicáveis à área geral do cuidado de saúde mental e psiquiatria, vêm enquadrar e contextualizar as normas atuais vigentes e clarificar pontos de partida, bem como fundamentos das mesmas.