CAPÍTULO II A TUTELA DAS MINORIAS
1. Evolução Histórica
1.3. A protecção das minorias e minorias religiosas no sistema da O.N.U
1.3.2. Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos de 1966
O Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos (PIDCP) constitui, junto com o Pacto Internacional sobre Direitos Económicos Sociais e Culturais, a segunda etapa da Carta Internacional de Direitos Humanos, havendo sido adoptado pela Assembleia Geral das Nações Unidas a 10 de Dezembro de 1966.
Originalmente, pretendia-se adoptar um único Pacto contudo, dissidências quanto ao que deveria ser o conteúdo do mesmo, resultou na adopção de dois Pactos. De um lado, os países ocidentais, com uma visão individualista dos direitos humanos, colocavam a tónica nos direitos civis e políticos; por outro lado, os países do bloco socialista acentuavam a importância dos direitos económicos, sociais e culturais172. Os dois pactos, apesar de reconhecerem direitos de natureza
distinta, são interdependentes.
171 Francesco CAPOTORTI – Study on the rights of persons belonging to ethnic, religious and linguistic minorities, Nações Unidas, Nova
Iorque, 1979, pp. 30-31, párrs. 155-164.
172 A estas duas posições juntou-se uma terceira dos Estados do 3.º mundo que consideravam importantes os direitos colectivos, direitos
de solidariedade como o direito à livre determinação, direitos dos povos à soberania sobre os seus recursos naturais, direito ao desenvolvimento e á alimentação, cf. Julio AÑOVEROS TRIAS DE BES – ―El Pacto Internacional de Derechos Económicos, Sociales y Culturales. Su vinculación con el Pacto Internacional de Derechos Civiles y Políticos‖, in Enric R. Bartllet Castellà, María Dolores Bardajé Gálvez (eds) - Del Pacto Internacional de Derechos
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O PIDCP, tem dois Protocolos Facultativos – o de 1966, que tem em vista, para melhor assegurar o cumprimento dos fins do Pacto, habilitar o Comité dos Direitos Humanos a receber e examinar denúncias de particulares que se considerem vítimas de uma violação dos direitos enunciados no Pacto173; e o de 1989 que tem em vista a abolição da pena de morte174.
No seu artigo 1.º, o Pacto reconhece o direito à auto determinação de todos os povos, mesmo daqueles cujos territórios estão sob a responsabilidade administrativa de outros Estados- parte, e é o primeiro instrumento a prever, especificamente, a protecção das minorias dos Estados- parte, no seu artigo 27.º175. A redacção deste artigo foi considerada satisfatória, não deixando de
reflectir o receio que a protecção das minorias ainda provocava em 1966, ao não conter qualquer referência às minorias nacionais, na forma como estava redigido na negativa e dirigindo-se especificamente às ―pessoas pertencentes a essas minorias‖176.
O estudo do artigo 27.º do PIDCP, feito pelo relator especial Francesco Capotorti, prendeu- se com a dificuldade interpretativa inerente à formulação do artigo, que levantou vários problemas,
Económicos, Sociales y Culturales a los Objetivos del Milenio, Seminario Permanente de Derechos Humanos Antonio Marzal, XII Sesión, Barcelona, Bosch, 2007, p. 26.
173 Artigo 1.º do Protocolo Facultativo Referente ao Pacto Internacional sobre os Direitos Civis e Políticos de 1966: ―Os Estados partes no
Pacto que se tornem partes no presente Protocolo reconhecem que o Comité tem competência para receber e examinar comunicações provenientes de particulares sujeitos à sua jurisdição que aleguem ser vítimas de uma violação, por esses Estados Partes, de qualquer dos direitos enunciados no Pacto. O Comité não recebe nenhuma comunicação respeitante a um Estado Parte no Pacto que não seja parte no presente Protocolo‖.
174 Artigo 1.º do Segundo Protocolo Adicional ao Pacto Internacional sobre os Direitos Civis e Políticos com vista à Abolição da Pena de
Morte de 1989: ‖Nenhum indivíduo sujeito à jurisdição de um Estado Parte no presente Protocolo será executado. Os Estados Partes devem tomar as medidas adequadas para abolir a pena de morte no âmbito da sua jurisdição‖.
175 ―Nos Estados em que existam minorias étnicas, religiosas ou linguísticas, as pessoas pertencentes a essas minorias não devem ser
privadas do direito de ter, em comum com os outros membros do seu grupo, a sua própria vida cultural, de professar e de praticar a sua própria religião ou de empregar a sua própria língua‖.
176 Várias foram as propostas submetidas quanto a este artigo. O representante da União Soviética propôs ―The State shall ensure to
national minorities the right to use their native tongue and to possess their national schools, libraries, museums and other cultural and educational institutions"; O representante da Jugoslávia submeteu a seguinte proposta: "Every person shall have the right to show freely his membership of an ethnic or linguistic group, to use without hindrance the name of his group, to learn the language of this group and to use it in public or private life, to be taught in this language, as well as the right to cultural development together with other members of this group, without being subjected on that account to any discrimination whatsoever, and particularly such discrimination as might deprive him of the rights enjoyed by other citizens of the same State" tendo, mais tarde feito uma emenda acrescentando: ―without being subjected on that account to any discrimination whatever, and particularly such discrimination as might deprive them of the rights enjoyed by other citizens of the same State"; O representante do Chile propôs a adição ao rascunho da Subcomissão "In those States in which ethnic, religious or linguistic minorities exist". O representante do Uruguai sugeriu um segundo parágrafo ao rascunho apresentado pela Subcomissão "Such rights may not be interpreted as entitling any group settled in the territory of a State, particularly under the terms of its immigration laws, to form within that State separate communities which might impair its national unity or its security‖. Cf. E/CN. 4/Sub. 2/384/Add. 2.20, Maio, 1977, pp. 63-64.
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de entre os quais, o mais importante, a definição do termo minoria177. No que concerne à
titularidade dos direitos garantidos pelo artigo 27.º, Francesco Capotorti defende, apontando três razões para este facto, que ainda que seja usual empregar a expressão ―direito das minorias‖, os direitos constantes no artigo 27.º respeitam aos membros do grupo, requerendo o seu exercício, uma execução colectiva178. Contudo, a implementação destes direitos implica uma intervenção activa
e sustentável dos Estados para garantir a observância do princípio da igualdade de pessoas pertencentes a minorias179.
O Pacto instituiu um Comité dos Direitos Humanos180 devendo os Estados-parte,
comprometem-se a apresentar-lhe relatórios sobre as medidas que houverem tomado dentro de um
177 Outros problemas relacionam-se com o significado da expressão ―minorias étnicas‖ por oposição a ―minorias raciais‖, o escopo da
frase ―Naqueles estados em que existem minorias étnicas, religiosas e linguísticas‖, o porquê do artigo conferir direitos ao membro da minoria e não ao grupo e, por último, seria necessário determinar como o conceito de protecção das minorias difere do conceito de igualdade e não discriminação e, em resultado disto, o âmbito de aplicação do princípio constante no primeiro parágrafo do artigo 2.º e no artigo 26.º do PIDCP e do segundo parágrafo do artigo 2.º do PIDESC, cf. Francesco CAPOTORTI – Study on the rights of persons belonging to ethnic, religious and linguistic minorities, op. cit., p. 34, párr. 195.
178 Francesco Capotorti destaca que, embora a expressão ―direitos das minorias‖ seja usada na linguagem comum, o artigo 27.º confere - o direito de
desfrutar de sua própria cultura, de praticar a sua própria religião e de usar sua própria língua – aos membros de um grupo minoritário. Para isto parece haver três razões. A primeira é histórica. No sistema de protecção das minorias estabelecido em 1919-1920, os direitos foram concedidos somente aos indivíduos. Ainda que se tenha desenvolvido uma teoria de uma personalidade internacional das minorias (principalmente devido ao facto de que o direito de petição foi concedida não apenas aos membros de grupos minoritários, mas também aos próprios grupos), os instrumentos tratados internacionais e outras relativas às minorias estavam preocupados expressamente com os direitos individuais - os direitos das pessoas pertencentes a minorias. A segunda razão foi a necessidade de uma formulação coerente de diversas disposições do Pacto Internacional sobre os Direitos Civis e Políticos. Por fim, dotar as minorias com personalidade jurídica pode aumentar o rico de atrito entre eles e o Estado (razão política). Para além de que, a liberdade dos membros de uma minoria de optar entre a assimilação voluntária com a maioria e a preservação de suas próprias características distintas, pode ser desconsiderada pelos órgãos da entidade formada pelo grupo minoritário, devido à sua preocupação em preservar a unidade e a força do grupo. Mas ―[A]t the same time, it must be borne in mind that the rights in question will be exercised by their holders «in community with the other members of their group», as stated in article 27. That is easily understandable when is considered that the rights provided are based on the interests of a collectivity, and consequently it is the individual as a member of a minority group, and not just any individual, who is destined to benefit from the protection granted by article 27. º‖, cf. Francesco CAPOTORTI – Study on the rights of persons belonging to ethnic, religious and linguistic minorities, op. cit., pp. 35-36 , párrs. 207-210, interpolação nossa.
179 Cf. Francesco CAPOTORTI – Study on the rights of persons belonging to ethnic, religious and linguistic minorities, op. cit., pp. 36-37.
Exemplo da necessidade de uma intervenção activa dos Estados são as obrigações impostas pelo Pacto Internacional de Direitos Económico Sociais e Culturais, nomeadamente as resultantes do artigo 13.º e 15.º, cf. Francesco CAPOTORTI – Study on the rights of persons belonging to ethnic, religious and linguistic minorities, op. cit., p. 36, párr. 214.
180 Este comité seria composto por dezoito membros, eleitos (artigo 28.º, n.º 1 PIDCP), nacionais dos Estados parte do Pacto, devendo ser
personalidades de alta moralidade e possuidoras de reconhecida competência no domínio dos direitos do homem, exercendo funções a título pessoal (artigo 28.º, n.º 2 e n.º 3 PIDCP) Os membros do Comité são eleitos por quatro anos podendo ser reeleitos no caso de serem novamente propostos. Todavia, o mandato de nove membros eleitos, aquando da primeira votação, terminaria ao fim de dois anos (artigo 32.º, n.º 1 PIDCP).
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ano, a partir da data de entrada em vigor do Pacto, e, posteriormente, sempre que o Comité o solicitar (artigo 40.º. n.º 1 PIDCP)181.
1.3.2.1. Direito das minorias religiosas
O artigo 27.º contempla três categorias no âmbito das minorias – etnia, língua e religião. Todavia, não se deve interpretar a formulação do artigo no sentido de que estas categorias sejam estanques, ou seja, uma minoria pode partilhar todas ou algumas destas características. Portanto, o direito a professar e praticar a religião inclui o direito a desfrutar do desenvolvimento das tradições culturais religiosas e a manutenção da identidade do grupo religioso182.
Em 1956 Arcot Krishnaswami foi encarregue pela subcomissão, da elaboração de um estudo sobre discriminação no que respeita aos direitos e práticas religiosas183. Este estudo,
publicado em 1960, tratou diversas questões relacionadas com a implementação dos direitos das pessoas pertencentes a minorias religiosas e serviu de base ao trabalho da subcomissão na elaboração de princípios concernentes à liberdade e não-discriminação em matéria religiosa184.
Este é um tema que tem estado bem presente nas discussões de diversos órgãos das Nações Unidas desde 1962, altura em que a Assembleia Geral requereu, pela Resolução 1781 (XVII) de 7 de Dezembro, ao Conselho Económico e Social que pedisse à Comissão dos Direitos Humanos para preparar um rascunho de uma declaração e de uma Convenção para a eliminação de todas as formas de intolerância religiosa185. Desde os trabalhos iniciados pelo relator especial
181 Todos os relatórios devem ser dirigidos ao secretário-geral das Nações Unidas, que os transmitirá ao Comité para apreciação (artigo
40.º, n.º 2 PIDCP). O Comité estuda os relatórios apresentados e faz as observações gerais que julgar apropriadas, podendo transmiti-las ao Conselho Económico e Social acompanhadas de cópias dos relatórios que recebeu de Estados-parte (artigo 40.º, n.º 4 PIDCP). Se uma questão submetida ao Comité não for regulada satisfatoriamente pelos Estados- parte, o Comité pode, com o assentimento prévio dos Estados-parte interessados, designar uma comissão de conciliação ad hoc, composta por cinco membros nomeados com o acordo dos Estados-parte interessados (artigo 42.º, n.º 1, a) e b)). A cada ano, o Comité apresentará à Assembleia Geral das Nações Unidas, por intermédio do Conselho Económico e Social, um relatório sobre os seus trabalhos (artigo 45.º PIDCP).
182 Eugenia RELAÑO PASTOR – La Protección Internacional de las Minorías Religiosas, op. cit., pp. 192-193.
183 Para um aprofundamento do estudo, cf. Eugenia RELAÑO PASTOR – La Protección Internacional de las Minorías Religiosas, op. cit., pp.
217-223.
184 Francesco CAPOTORTI – Study on the rights of persons belonging to ethnic, religious and linguistic minorities, op. cit., p. 38, párr. 225. 185 Francesco CAPOTORTI – Study on the rights of persons belonging to ethnic, religious and linguistic minorities, op. cit., p. 38, párr. 226.
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Krishnaswami, a Subcomissão encontrou vários indicadores da relação próxima entre o artigo 18.º186
do PIDCP e o artigo 27.º do mesmo187. Conclui-se, de acordo com o artigo 18.º, que toda a pessoa
tem direito à liberdade de religião, isento de pressões, direito este que implica a liberdade de adoptar ou manifestar uma religião, só podendo sofrer restrições previstas na lei e que, para além disto, sejam necessárias à protecção da ordem pública ou ao respeito das liberdades e direitos fundamentais de outrem. Este é o artigo geral da liberdade religiosa mas que podemos dizer que contempla directamente as minorias ao afirmar que os Estados-parte comprometem-se a respeitar a liberdade dos pais e, em caso disso, dos tutores legais, a fazerem assegurar a educação religiosa e moral dos seus filhos e pupilos, em conformidade com as suas próprias convicções. Por seu turno, o artigo 27.º dispõe, mais restritivamente, ao promover a protecção específica dos direitos das pessoas pertencentes a minorias, reflexo da situação das minorias ao longo da história188.