2. A relação corpo-mente no KV
2.1 O Breve Tratado e a Ética: os diferentes resultados de um mesmo caleidoscópio
2.1.1. O agir e o padecer no KV
Com o intuito de esclarecer diferenças existentes entre o KV e a Ética no que tange a conceitos cruciais da filosofia espinosana, iniciaremos pelo tratamento das noções de agir e padecer. Neste sentido a primeira coisa a se observar é que o texto do KV emprega dois
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termos para se referir à paixão: lyding e passien.158 O primeiro é empregado por Espinosa para denotar um sentido mais amplo de padecer, como quando se diz que uma substância padece pela atuação da outra159; o segundo denota especificamente as paixões do ânimo, ou sentimentos.160 Em alguns casos, o termo lyding é empregado para designar essas últimas, mas sempre acompanhado do termo passien entre parênteses, explicando o sentido em que está sendo empregado naquele contexto.161 Compreende-se, assim, que o termo paixão não designa a mesma coisa nas afirmações de que “o entendimento/mente162
é uma pura paixão
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Ao consultarmos um dicionário da época percebemos que o termo “lyden” aparece em dois momentos. Em um primeiro momento é indicado que o termo designa “durar, sofrer, tolerar, suportar, ter paciência, padecer [Endurer, Soufrir, Tolerer, Suporter, Avoir Patience, Patir]”, em um segundo momento o termo designa “paixão, pena, sofrimento [Passion, Péne, Soufrance]”. Ainda que com campos semânticos muito próximos, as duas acepções do termo permitem entrever uma sutil diferença, qual seja, o primeiro sentido abarcar “padecer” e “suportar” e “tolerar” que indicam a ação de uma coisa sobre a outra, a segunda acepção do termo remete mais aos próprios sentimentos, ainda que estes sentimentos resguardem também o sentido de um sofrimento. Muito provavelmente é porque (i) o termo possui duas acepções distintas, mas (ii) também porque a diferença entre estas duas acepções é muito sutil, que Espinosa (ou o tradutor do KV para a língua flamenca) optou por inserir o termo passien entre parênteses toda vez que se tratava dos sentimentos, e não apenas dos efeitos da ação de uma coisa sobre a outra. Cf. verbete “lyden” in: ARSY, 1643.
159 Segue, abaixo, os momentos onde o termo lyding aparece no texto: (i) “Portanto, a divisão ou passividade [lydinge] sempre tem lugar no modo: igualmente, quando dizemos que o homem perece ou é destruído, isso só se entende enquanto é um composto e um modo da substância, e não da substância da qual ela depende.” (KV, I, 2, §22); (ii) “Por outro lado, já estabelecemos, como faremos de novo mais adiante, que fora de Deus não há nada e que Ele é uma causa imanente. Ao contrário, a passividade [lydinge], quando o agente e o paciente [lyder] são diversos, é uma imperfeição palpável, já que o paciente [lyder] deve depender necessariamente daquele que, do exterior, causou o padecer [lyden]: o que não tem lugar em Deus, que é perfeito.” (KV, I, 2, §23); (iii) “Para conhecer melhor este último ponto, é preciso observar que entender (ainda que a palavra tenha outro som) é uma simples ou pura paixão [pure lyding] [...].” (KV, II, 15, §5); (iv) “Pois dissemos que o entender é uma pura
paixão [pure lyding], isto é, uma percepção, na mente, da essência e da existência das coisas, de modo que
nunca somos nós que afirmamos ou negamos algo da coisa, mas que ela mesma, em nós, afirma ou nega algo de si mesma.” (KV, II, 16, §5); (v) “Assim, quando esses atributos vêm a agir um sobre o outro, resulta disso uma paixão [lydinge] produzida em um pelo outro [...]” (KV, II, 19, §11); (vi) “Quanto mais uma coisa tem de essência, tanto mais tem de atividade, e tanto menos de passividade [lyding]. Pois é certo que o agente age pelo que tem, e o paciente [lydende] padece [lydt] pelo que não tem.” (KV, II, 26, §7, art. 1); (vii) “Toda passividade [lyding], seja ela do não ser ao ser ou do ser ao não ser, deve se originar de um agente externo e não interno.” (KV, II, 26, §7, art. 2); (viii) “Como a essência de Deus é infinita, ela tem uma atividade infinita e uma negação infinita da passividade [lyding] (pela primeira proposição); por conseguinte, quanto mais as coisas, por terem mais essência, estão mais unidas a Deus, tanto mais têm também mais atividade e menos passividade [lyding], e tanto mais são livres de alteração e corrupção.” (KV, II, 26, §8, art. 1).
160 Cf. (i) KV, II, 3, §11; (ii) KV, II, 4, §1; (iii) KV II, 4, §4; (v) KV, II, 5, §5; (vi) KV, II, 5, §12; (vii) KV, II, 6, §1; (viii) KV, II, 6, §2; (ix) KV, II, 7, §1; (x) KV, II, 8, §3; (xi) KV, II, 8, §7; (xii) KV, II, 9, §4; (xiii) KV, II, 9, §5; (xiv) KV, II, 14, §1; (xv) KV, II, 14, §3; (xvi) KV, II, 14, §4; (xvii) KV, II, 18, §6; (xviii) KV, II, 19, §1;
(xx) KV, II, 19, §2; (xxi) KV, II, 19, §2, nota marginal; (xxii) KV, (II, 19, §15; (xxiii) KV, II, 19, §17; (xxiv)
KV, II, 19, §17, nota marginal; (xxv) KV, II, 19, §18; (xxvi) KV, II, 20, §1; (xxvii) KV, II, 25, §4; (xxviii) KV, II, 26, §2.
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Cf. (i) “Diremos que do primeiro [modo do conhecimento] surgem todas as paixões [Lydinge (passien)] que
são contrárias à boa razão” (KV, II, 2, §3); (ii) “Vejamos agora, tal como prometemos, de que maneira as paixões [(Passien) Lydinge] vêm a nascer da opinião.” (KV, II, 3, §1). O termo lyding aparece designando as paixões da alma ou emoções também em KV, II, 2, §4 e no título de KV, II, 3. Nestes dois casos o termo passien não consta entre parênteses, todavia, o parêntese indicando o seu sentido já apareceu no parágrafo anterior ou aparecerá no parágrafo seguinte.
162 O termo original é “verstand”, que pode designar, segundo o dicionário da época: “entendimento” (entendement), “conhecimento” (connaissance) ou “inteligência” (intelligence) (cf. ARSY, 1643). Não nos parece tão evidente a tradução direta para “intelecto”, ainda mais se levarmos em conta que o autor, por vezes, se refere a este entendimento como algo considerado em geral (Cf. KV, II, 20, §2, nota marginal). Outro fator a ser
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(lyding)”163 e que “o conhecimento é a causa próxima das paixões (passien) na mente”.164 O entendimento/mente é uma pura paixão no sentido em que ele é causado por seu objeto, e neste sentido o entendimento/mente padece em relação à ação do objeto;165 por outro lado, o conhecimento é a causa próxima das paixões na mente porque o juízo de valor brota do conceito que fazemos das coisas, e este, por sua vez, direciona o desejo, gerando as nossas emoções.166 Deve-se, então, distinguir dois sentidos de paixão no KV: (i) a paixão entendida enquanto resultante da ação de uma coisa sobre a outra (lyding), e (ii) a paixão entendida enquanto sentimentos, ou emoções da alma (passien).167
O segundo ponto a se esclarecer é a maneira como o agir e o padecer (lyding) são definidos no KV e na Ética. Sobre este assunto convém notar que nesta última o agir e o padecer são definidos em termos de causa adequada e causa inadequada,168 ao passo que, no KV, são definidos em termos de quantum de essência169 e de causalidade externa.170 Embora as definições da Ética e do KV não sejam excludentes, não são, todavia, equivalentes, e nem nos autorizam a extrair as mesmas conclusões.
levado em consideração é que, como bem nota Mignini (MIGNINI, 1997, p. 119-120), mesmo no TIE, escrito em latim, o termo “intellectus” nem sempre designa o seu sentido usual encontrado na filosofia madura do autor, uma vez que o seu sentido oscila entre o intelecto considerado de maneira geral, isto é, como designando a mente, e o intelecto em seu sentido de – para usar a expressão de Mignini – “órgão da verdade”, ou mesmo como sendo idêntico à própria verdade (cf. TIE, §68). Maior prova de que o intelecto nem sempre é usado, no TIE, como designando as ideias verdadeiras é o próprio título da obra, que propõe uma correção do intelecto (cf. também TIE, §16). Ora, se, no TIE, “intelecto” designa sempre as ideias verdadeiras que nos chegam pelo quarto modo da percepção, qual o sentido de corrigi-lo? Além disso, tanto em KV, II, 15, §5 quanto em KV, II, 16, §5, ao tratar da passividade do entendimento, o autor associa explicitamente a afirmação de que o entendimento é uma pura paixão (lyding) à percepção que a mente (ziel) – e não o intelecto – tem das coisas, e o termo “Ziel” é colocado em itálico no texto. Dessa maneira, para não perdermos o sentido do termo em sua língua original e para não perdermos, também, a terminologia adotada nesta tese, adotaremos a expressão “entendimento/mente” quando o termo “verstand” estiver sendo empregado no sentido de “mente”, e manteremos o termo “intelecto” quando o termo estiver sendo empregado no sentido de “ideias verdadeiras” (terceiro modo do conhecimento, ou intelecção clara e distinta, cf. KV, II, I, §2).
163 KV, II, 15, §5. 164 KV, II, 2, §4. 165
Este ponto será esclarecido mais adiante, por ora, basta remeter à passagem contida em KV, II, 16, §7 na qual Espinosa afirma que “o objeto é causa do que, verdadeiro ou falso, se afirma ou nega dele”, ou à KV, II, 19, §15 onde o autor afirma que o corpo atua sobre a mente fazendo-se conhecer enquanto objeto.
166 KV, II, 17, §3
167 Nos referiremos à paixão (passien) pelos termos “sentimentos” ou “emoções”, ao passo que manteremos o termo paixão ou padecimento exclusivamente para nos referir à lyding.
168 “Digo que agimos quando, em nós ou fora de nós, sucede algo de que somos a causa adequada, isto é (pela def prec.), quando de nossa natureza se segue, em nós ou fora de nós, algo que pode ser compreendido clara e distintamente por ela só. Digo, ao contrário, que padecemos quando, em nós, sucede algo, ou quando de nossa natureza se segue algo de que não somos causa senão parcial.” (EIIID2)
169 “Quanto mais uma coisa tem de essência, tanto mais tem de atividade, e tanto menos de passividade. Pois é certo que o agente age pelo que tem, e o paciente padece pelo que não tem.” (KV, II, 26, §7, art. 1)
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“Toda passividade, seja ela do não-ser ao ser ou do ser ao não-ser, deve se originar de um agente externo, e não interno. Pois nenhuma coisa, considerada em si mesma, tem em si a causa para poder se destruir, se é, ou poder se fazer, se não é.” (KV, II, 26, §7, art. 2)
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Além disso, deve-se notar que as definições de ação e paixão por quantum de essência e causalidade externa não ocorrem sem dificuldades. Suponha-se, como hipótese, que um objeto “Y” atue sobre um objeto “X” de modo a aumentar o seu quantum de essência.171
O que temos aí? O que se passa com o objeto “X”: ele age ou padece? Na medida em que sofre a ação de um objeto externo, ele padece (lyding); contudo, na medida em que aumenta o seu quantum de essência ele age. Essa ambivalência resultante da definição de ação e paixão (lyding) pelo quantum de essência e pela causalidade externa, e não pela adequação e inadequação, talvez tenha sido um dos motivos pelos quais as definições de ação e paixão são alteradas na Ética, onde o problema da paixão-ação, por nós colocado na hipótese mais acima, se resolveria como sendo uma paixão alegre. Ora, o que é, na Ética, uma paixão alegre? É exatamente uma paixão que aumenta a nossa capacidade de agir, e que não deixa de ser paixão enquanto não concebermos adequadamente as suas causas.172
Não se pode, pois, tratar da relação ação-paixão no KV ignorando-se o duplo sentido – lyding e passien – adquirido pelo padecimento, nem – e muito menos – os problemas decorrentes pela maneira como o agir e o padecer (lyding) são definidos na obra em questão. Anular os problemas que decorrem da maneira como agir e padecer são definidos no KV não consiste senão em uma má compreensão da maneira como os conceitos funcionam na obra em questão, posto que estaríamos pressupondo como resolvidos problemas que o próprio autor ainda não resolvera.
2.1.2. Substância e atributo: a integração dos atributos realmente distintos