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2. A relação corpo-mente no KV

2.1 O Breve Tratado e a Ética: os diferentes resultados de um mesmo caleidoscópio

2.1.2. Substância e atributo: a integração dos atributos realmente distintos em um único

Outro ponto crucial da filosofia de Espinosa e que tem levado a compreensões equivocadas do KV é a integração dos atributos realmente distintos em um único ser. Isto porque, na Ética, a maneira como os dois atributos são integrados à substância conduz à afirmação de uma não interação causal entre corpo e mente, posto que os atributos serão expressões realmente distintas de uma e mesma substância, ao passo que, no KV, a maneira como os atributos são integrados a um único ser configura-se como fundamento metafísico da interação causal entre pensamento e extensão. Acerca deste assunto, duas definições nos

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Isto que se coaduna perfeitamente com a afirmação de que existe padecimento “do não-ser ao ser” isto é, existe padecimento também quando este quantum de essência é aumentado por conta de causas externas: “toda passividade [lyding], seja ela do não-ser ao ser ou do ser ao não-ser, deve se originar em um agente externo e não interno.” (KV, II, 26, §7, art. 2)

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“[…] à medida que a alegria é boa, ela concorda com a razão (pois a alegria consiste em que a potência do homem é aumentada ou estimulada), e não é uma paixão senão à medida que a potência de agir do homem não é suficientemente aumentada para que ele conceba adequadamente a si próprio e as suas afecções” (EIVP59dem.)

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parecem cruciais: as definições de atributo e substância173 enunciadas na Ética, as quais não constam da mesma maneira no KV.

As definições citadas acima nos parecem cruciais devido às implicações que elas terão para o argumento proposto pelo autor na Ética. Na Ética o atributo é definido como sendo “aquilo que o intelecto percebe como constituindo a essência da substância”, e disso se segue que “quanto mais realidade ou ser uma coisa tem, tanto mais atributos lhe competem” (EIP9).174 A conjugação de tal afirmação juntamente com a afirmação de que cada atributo deve ser concebido por si mesmo (EIP10)175 e à dissociação entre as distinções real e numérica,176 são cruciais para afirmar que havendo um ser infinito ele deve constar de infinitos atributos, e, havendo um único ser infinito – a substância infinita em ato –, todos os atributos devem ser remetidos a ele. Assim, uma vez demonstrado EIP9 e EIP10177 bastaria a Espinosa demonstrar a existência de Deus que, necessariamente, ela abarcaria a totalidade dos atributos.178 E é exatamente isto que Espinosa faz em EIP11, a qual já enuncia Deus como sendo uma substância que consta de infinitos atributos, bastando à sua demonstração – de EIP11 – apenas provar a existência de Deus. Ou, dito de outra maneira, a integração dos atributos realmente distintos em uma única substância é operada, na Ética, recorrendo-se às definições de substância e atributo, e à dissociação entre distinção real e numérica, cabendo a EIP11 demonstrar apenas que essa substância de infinitos atributos existe necessariamente.

Ora, dado que os três elementos citados – EIP9, EIP10 e a dissociação entre distinção numérica e distinção real – implicam que não pode haver confusão entre substância e atributo,179 configura-se bastante improvável a hipótese sustentada por Deleuze e Gueroult180 de que as proposições iniciais da Ética estariam se referindo a substâncias de um único atributo e que haveria tantas substâncias quantos fossem os atributos, e que todos esses atributos ou substâncias qualificadas, sendo causa de si mesmo, reenviariam a uma única substância. Ainda acerca da interpretação oferecida pelos autores citados, convém notar que

173 Acerca da noção de substância e sua associação à causa sui na Ética, cf. GUEROULT, 1968, p. 40-47, Ap. 2, Ap. 6.

174 A demonstração de EIP9 é oferecida como decorrendo unicamente da definição de atributo. 175 A demonstração de EIP10 decorre apenas das definições de substância e atributo.

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Sobre o assunto cf. DELEUZE, 1968, p. 21-32.

177 Que são demonstrados recorrendo-se apenas às definições de substância e atributo.

178 Note-se que a integração dos atributos em uma única substância não é conteúdo de nenhuma proposição específica, e aparece já dada em EIP11, cujo único proposto é demonstrar que a substância que consta de infinitos atributos é realmente existente, e não que ela conste de infinitos atributos.

179 Sob pena de se confundir os níveis ontológico e formal e de invalidar as demonstrações de EIP9 e EIP10. 180 “A identidade entre substância e atributo se encontra nas oito primeiras proposições da Ética., mas com a diferença [em relação ao KV] de que estas substâncias possuem a causa sui e são habilitadas, neste sentido [à ce titre], a constituir Deus.” (GUEROULT, 1968, Ap. 2, p. 427). Cf. também GUEROULT, 1968, p. 164-165; DELEUZE, 2006.

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em momento algum da Ética Espinosa se refere a substâncias infinitas em gênero;181 e se, em EIP8dem., o autor afirma que não existe senão uma única substancia do mesmo atributo, é porque trata-se, aí, de demonstrar que não podem existir duas substâncias de mesmo atributo, e não porque Espinosa estaria concebendo que existe uma substância por atributo.182 É justamente porque os atributos exprimem uma única substância que eles exprimem uma única ordem causal e não estabelecem entre si qualquer sorte de interação (EIIP6);183 e, porque exprimem uma única ordem causal segue-se que “a ordem e a conexão das idéias é o mesmo que a ordem e a conexão das coisas” (EIIP7).184

É esse o motivo pelo qual EIIP7 pôde ser

181 Esta terminologia é própria do KV, e não da Ética. O único momento em que o infinito em gênero intervém na Ética é em EIP16 quando Espinosa afirma que cada um dos atributos exprimem uma essência infinita em seu gênero, e não que são uma substância infinita em seu gênero.

182 A passagem de EIP8dem. na qual Espinosa afirma que não existe senão uma única substância por atributo é remetida pelo autor à EIP5, que afirma que “não podem existir, na natureza das coisas, duas ou mais substâncias de mesma natureza ou de mesmo atributo”, e é este o sentido em que a mesma deve ser concebida. Em seu comentário Gueroult parece inverter a ordem e submeter o sentido de EIP5 à passagem de EIP8dem., fazendo com que EIP5 pareça enunciar que existe uma substância por cada atributo. Ademais a interpretação de Gueroult entra em choque com (i) o fato de que Espinosa pretende demonstrar justamente que existe uma única substância que consta de infinitos atributos, e não que existem várias substâncias, uma para cada atributo, (ii) com a afirmação de que dois atributos realmente distintos não constituem dois entes realmente distintos (EIP10esc.). Ademais, se não podem existir substâncias de mesmo atributo, e se existem duas – a substância extensa e a substância pensante – que além dos atributos pensamento e extensão, possuem também – e em comum – a propriedade de ser causa de si, segue-se daí que a causa de si é uma propriedade comum a duas substâncias. Isto que comprova que o sentido das afirmações contidas em EIP5dem e EIP8dem devem ser submetidos à EIP5, e não o inverso. Ocorre que, ao priorizar a terminologia da Ética em detrimento da terminologia do KV, Espinosa mantém, justamente, a precisão terminológica que distingue substância e atributo, evitando que um se passe pelo outro. Neste sentido, como bem nota Rusmando, diferentemente do KV, as proposições iniciais da Ética não se referem a substâncias infinitas em gênero, mas a substâncias que possuem atributos: “[…] em primeiro lugar, é preciso notar que nessas proposições, quando Espinosa fala do atributo (no singular) de uma substância (também no singular), longe de dizer que as substâncias se constituem de apenas um atributo, o faz para determinar que duas substâncias não podem ter nada em comum, isto é, não podem ser iguais. Em outras palavras, nas primeiras proposições da Ética, ao se referir aos atributos das substâncias, Espinosa objetiva mostrar que, independente do número de atributos que cada uma destas possua, nenhum atributo de uma substância pode ser igual a nenhum atributo de outra substância, para assim mostrar que toda substância é realmente distinta da outra. Desta maneira, quando Espinosa afirma que ‘existe apenas uma única substância da mesma natureza’ (E I, P8, esc. 2), quer dizer que não podem existir duas substâncias iguais, e não que toda substância deve possuir um atributo (o qual deve ser realmente distinto do atributo das outras substâncias), ou, em suma, que as substâncias são apenas infinitas em um único gênero. Em segundo lugar, é preciso observar que se Espinosa tivesse querido se referir com as primeiras proposições da Ética aos atributos, teria definido estes como substâncias e não como constituintes da essência destas. Seria estranho, numa obra que se inicia com as definições dos conceitos que permeiam o processo demonstrativo da mesma, Espinosa se referir inicialmente aos atributos como sendo substâncias, sem fazer nenhuma observação sobre essa alternação conceitual, em relação a como ele os define no início da obra.” (RUSMANDO, 2010, p. 95-96)

183 Note-se que, apesar de ser comum atribuir a interdição à relação de causalidade entre corpo e mente ao enunciado contido em EIIP7, é, todavia, EIIP6 quem enuncia que os modos de qualquer atributo têm Deus por causa enquanto é considerado sob aquele atributo, e não sob algum outro.

184 A este argumento poder-se-ia objetar o escólio mesmo de EIIP7, onde Espinosa afirma que a substância extensa e a substância pensante são uma e a mesma substância, expressa ora sob um atributo e ora sob outro; e, ao afirmar isto, Espinosa estaria compreendendo que o pensamento e a extensão são substâncias infinitas em gênero. No entanto o que o escólio pretende afirmar é justamente o contrário, ou seja, que não existe uma substância pensante e uma substância extensa, mas que aquilo que se considera como tal são, na verdade, atributos distintos de uma única substância. Isto que fica ainda mais claro se atentarmos para o fato de que os termos “substancia pensante” e “substância extensa” não serão mais empregados pelo autor neste escólio, sendo substituído pelo termo atributo.

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demonstrado apoiando-se apenas em EIA4. Ora, se cada atributo fosse ele mesmo uma substância contendo a propriedade de ser causa de si, então EIIP7 jamais decorreria de EIA4. Isto porque de cada substância decorreria uma ordem causal própria e nada garantiria que a ordem causal do pensamento fosse equivalente à ordem causal da extensão, a não ser apelando-se para um ocasionalismo; e, colocar em xeque as demonstrações de EIIP6 e EIIP7 significa colocar em xeque as proposições elas mesmas.

Isto significa dizer que a identificação entre atributo e substância infinita em gênero enunciada pelo KV é inaplicável à Ética, uma vez que tal concepção (i) invalidaria as diferentes definições de substância e atributo, (ii) invalidaria a demonstração de EIP9 e EIP10, que são estabelecidas apoiando-se única e exclusivamente em tais definições (iii) inseriria uma autonomia do atributo-substância em relação à série causal constituída por Deus, haja vista que cada atributo-substância seria, também, causa de si mesmo, isto que colocaria em xeque a demonstração de EIIP6 através de EIP10 e EIA4, e de EIIP7 através de EIA4;185 e, além disso, (iv) seria necessário explicar porque a definição de substância infinita em gênero não consta na lista de definições, e porque Espinosa estaria associando-a à noção de atributo sem nenhuma explicação.

Voltemos, então, ao KV. Nesta obra como já dissemos não consta a definição de atributo enunciada na Ética, bem como, por outro lado, é presente a identificação entre atributo e substância infinita em gênero. Isto que tem implicações diretas para a integração dos atributos realmente distintos em um único ser. Vejamos.

No KV, Espinosa nos oferece três razões pelas quais se pode dizer que os diversos atributos constituem um único ser, quais sejam:

1) Porque já descobrimos anteriormente que deve existir um ser infinito e perfeito, pelo qual não se pode entender outra coisa senão um ser tal que dele se deve afirmar absolutamente tudo. Com efeito, assim como a um ser que tem alguma essência se lhe devem atribuir [alguns] atributos, e tantos mais atributos quanto mais essência se lhe atribui, assim também, em consequência, um ser que é infinito deve ter infinitos atributos. E isso é justamente o que chamamos um ser perfeito. 2) Pela unidade que vemos por toda parte na Natureza, na qual, se fossem seres diversos, não poderiam

185 A relação das definições de atributo e substância com a demonstração de EIIP7 fica ainda mais evidente se atentarmos ao fato de que o “Q.E.D.” (Quod erat demonstrandum) não é empregado na demonstração de EIIP7, e nem na demonstração de EIIP8, que se apóia apenas em EIIP7. É apenas em EIIP9, que se apóia em EIP28, EIIP6, EIIP7 e EIIP8 que a questão é considerada demonstrada. Isto que nos leva a dizer que a demonstração de EIIP7 só se encerra, strictu sensu, com a demonstração de EIIP9. Ora, os elementos novos trazidos por EIIP9 foram EIP28 e EIIP6, esta última, por sua vez é demonstrada apoiando-se apenas em EIA4 – o mesmo axioma utilizado em EIIP7 – e em EIP10. Por sua vez, EIP10 é demonstrada apoiando-se apenas nas definições de substância e atributo. Isto que revela em que medida as definições de substância e atributo possuem implicações para EIIP7. Ora, nem a definição de substância e nem a definição de atributo enunciadas na Ética estão presentes no KV, isto que, novamente, torna improvável o enunciado afirmado por EIIP7 esteja presente nesta última obra, ou, ao menos, se estiver, não é fundamentado da mesma forma, e nem dele se seguem as mesmas coisas, como veremos adiante.

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de maneira nenhuma se unir um com o outro. 3) Porque, como acabamos de ver que uma substância não pode produzir outra, assim também é impossível que uma substância que não existe comece a existir. Vemos, por outra parte, que em nenhuma substância concebida separadamente (que sem dúvida sabemos que existe na Natureza) há alguma necessidade de realmente existir, dado que à sua essência particular não pertence nenhuma existência; donde deve se seguir necessariamente que a Natureza, que não procede de nenhuma causa e contudo sabemos muito bem que existe, deve ser necessariamente um ser perfeito, ao qual pertence a existência.186

A primeira das razões elencadas por Espinosa para integrar a diversidade dos atributos-substâncias em um único ser é o fato de que quanto mais essência um ser possui, mais atributos lhe devem ser atribuídos, e, consequentemente, um ser infinito deve possuir infinitos atributos.187 Tal argumento é justamente o que enuncia EIP9. Como vimos, EIP9 demonstra-se justamente através da noção de atributo. Pergunta-se, então, se a definição de atributo enunciada na Ética já está presente no KV por que ela não intervém neste momento? Ou, dito de outra maneira, por que Espinosa não faz este argumento decorrer da própria definição de atributo, mas, antes da existência de “um ser infinito e perfeito, pelo qual não se pode entender outra coisa senão um ser tal que dele se deve afirmar absolutamente tudo”?

A segunda das razões enunciadas por Espinosa para integrar os atributos em um único ser é, antes, uma prova pelos efeitos, ou seja, os diversos atributos devem compor um único todo, uma vez que vemos, por toda parte, a união entre coisas realmente distintas. Isto significa dizer que a união entre coisas distintas é um efeito cuja causa é a integração dos atributos realmente distintos em um único ser.188 Assim sendo, o modo como o pensamento e a extensão são integrados em um Ser perfeito – como substâncias distintas, e não como atributos exprimindo uma mesma substância – parece justamente fundamentar a atuação de um sobre o outro, já que o argumento pelo qual Espinosa defende que corpo e mente atuam um sobre o outro consiste em afirmar que eles assim atuam porque o fazem como parte de um único todo.189 Aliás, é exatamente as diferentes formas de integrar o pensamento e a extensão

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KV, I, 2, §17.

187 E é neste sentido que dissemos, mais acima, que, dada a definição de atributo, segue-se que havendo uma única substância, a diversidade de atributos explica-se, então, como expressões distintas de uma única substância.

188 Interpretação esta que é corroborada pela nota adicionada pelo autor à passagem citada, e que possui implicações para o tema da causalidade entre corpo e mente: “[...] se fossem substâncias diversas que não estivessem implicadas com um único ser, então a união seria impossível, já que vemos claramente que elas não têm entre si absolutamente nada em comum, como pensamento e extensão, em que, não obstante, consistimos.” (KV, I, 2, §17, nota marginal n.º 1). Sobre o assunto, veja-se também, KV, II, 20, §3, nota marginal: “Não há nenhuma dificuldade em que este modo [a mente], que se distingue infinitamente do outro [o corpo], atue sobre o outro, porque o faz como parte de um único todo, já que a mente nunca foi sem o corpo nem o corpo sem a mente.”

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Cf. KV, II, 20, §3, nota marginal. Assim como Descartes, Espinosa mantém a distinção real entre pensamento e extensão, mas concebe que existem efeitos que decorrem de sua união, dentre esses efeitos está a sensação, utilizada por Descartes para provar a referida união (AT VII 81); e, como vimos no primeiro capítulo, Espinosa –

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a uma única substância o que faz com que, na Ética, eles não possam atuar um sobre o outro, e no KV essa atuação ocorra. Na Ética o pensamento e a extensão não podem atuar um sobre o outro justamente porque são atributos que exprimem uma e a mesma substância; no KV, por sua vez, o pensamento e a extensão podem atuar um sobre o outro porque são atributos- substâncias unidos em um único todo.

O terceiro argumento elencado por Espinosa divide-se em duas partes. A primeira parte do argumento é a afirmação de que uma substância não pode ser produzida por outra, e que é impossível que uma substância que não existe passe à existência. Posto isso, a única maneira de concebermos uma substância é concebendo que sua essência envolve a existência. Por outro lado, e esta é a segunda parte do argumento, as substâncias infinitas em gênero não possuem em si a razão de sua existência, donde se segue que a Natureza deve ser um Ser perfeito que possui em si a razão de sua existência, e que as substâncias infinitas em gênero devem ser atributos desta Natureza.190 Diante da terceira razão elencada para integrar os diversos atributos em uma única substância, percebemos que aquilo que faz com que as substâncias infinitas em gênero (pensamento e extensão) sejam consideradas atributos não é uma razão positiva, isto é, uma definição de atributo sob a qual elas caem, mas simplesmente o fato de que elas não possuem, em si, a razão de sua existência, e, assim sendo, devem pertencer a alguma outra substância. Note-se que, na Ética, o fato de o pensamento e a extensão não possuírem a razão de sua existência e não poderem ter sido produzidos não desempenha papel algum na integração dos atributos na substância. Este argumento aparecerá apenas em EIP10esc., e com algumas reformulações, quais sejam, (i) o pensamento e a extensão não mais são considerados como substâncias infinitas em gênero, (ii) a sua integração à substância não decorre do fato deles não possuírem a razão de sua existência, mas da própria definição de substância e atributo.191

Em suma, nenhuma das três razões oferecidas faz qualquer menção ao fato de que os atributos exprimem, de forma distinta uma única substância. Além disso, das três razões assim como Descartes – faz uso de tal conceito em sua juventude; novamente, assim como Descartes, Espinosa também afirma que mente e corpo podem atuar um sobre o outro desde que componham um único ser; e, por fim, assim como Descartes, a esta época Espinosa também concebe que esta união, que fundamenta a interação causal entre mente e corpo, é algo evidente por si mesma e algo cuja experiência nos mostra por toda parte. Sobre esta última afirmação, atente-se para o que é dito por Descartes em correspondência à Arnauld datada de 29 de Julho de 1648: “Ademais, que a mente, que é incorpórea, pode colocar um corpo em movimento, nos é mostrado quotidianamente pela mais certa e mais evidente experiência, sem necessidade de qualquer raciocínio ou comparação com alguma coisa.” (AT V 222).

190 Cf. KV, I, 2, §17, nota marginal nº 2. 191

“Pois é da natureza da substância que cada um de seus atributos seja concebido por si mesmo, já que todos os atributos que ela tem sempre existiram, simultaneamente, nela, e nenhum pôde ter sido produzido por outro, mas cada um deles exprime a realidade, ou seja, o ser da substância.” (EIP10esc.)

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oferecidas no KV para integrar os diversos atributos em uma única substância, a única que sobrevive na Ética é a primeira, a qual, no entanto, nesta última obra, é colocada como uma decorrência direta da noção de atributo. Caso, ao tempo do KV, Espinosa estivesse operando com a noção de atributo enunciada na Ética, então, algumas perguntas seriam cabíveis:

(i) Por que a definição de atributo não é enunciada no KV?

(ii) Por que em momento algum do KV Espinosa afirma que o pensamento e a extensão são expressões de uma mesma substância, como o faz, por exemplo, em EIP10esc. e EIP11?

(iii) Por que a primeira das razões elencadas para integrar os diversos atributos