O retorno, em 2016, revelou outros três projetos que intercalam paisagem e recursos arquitetônicos e urbanísticos. O primeiro, foi o Jardin Circunvalar (2015: EDU, primeira etapa). O projeto consiste em um caminho que conecta os bairros situados em franjas rurais que circundam o morro Pan de Azúcar. Foi desenvolvido como recurso para viabilizar o acesso do público a sítios arqueológicos e para delimitar, através da criação de espaços públicos, o crescimento da cidade que avança sobre a área rural. De uma abstração urbanística (delimitar o perímetro urbano) passamos diretamente a uma dimensão palpável de um equipamento de lazer: um caminho pavimentado que conecta outros três parques acima do morro.
A experiência de percorrer o Jardín Circunvalar permite uma reflexão sobre a construção da imagem da cidade. A escala de Medellín é apreendida facilmente a partir de muitos pontos altos da cidade, como nos dois cerros que se encontram na porção central Nutibara e Volador. As ladeiras, também, permitem sempre essa visualização da área verticalizada do centro, do rio, das bordas densas ao norte, das torres de condomínios isoladas ao sudeste, dos bairros pouco verticalizados e mais homogêneos à sudoeste. A leitura da morfologia urbana e da geografia, possibilita uma construção mental e coletiva da cidade de Medellín.
Figura 9: Unidad de Vida Articulada Los Sueños Fonte: Foto da autora
As Unidades de Vida Articulada, também merecem destaque. Construídas a partir de 2014, são espaços/equipamentos públicos que integram atividades de esporte, cultura e lazer, se tornaram um importante programa que deu origem a dois tipos de equipamentos:
as UVA tipo A e tipo B. As UVAs tipo A são resultado da adaptação de antigos tanques de água, normalmente grandes lotes públicos que configuravam uma área inacessível à população. Isso porque durante o desenvolvimento de um plano de iluminação urbana para Medellín, que a empresa estatal colombiana EPM (Empresas Públicas de Medellín) constatou verdadeiras ilhas escuras em meio ao tecido urbano, que coincidiam com a presença de 144 tanques de água que foram construídos nos bairros periféricos da cidade, conforme aponta Valencia (2016). Por meio de seu Departamiento de Intervenciones Urbanas Sostenibles (DIUS), cuja equipe integram diversos arquitetos proeminentes de Medellín, dentre os quais o arquiteto Carlos Pardo Botero (Obranegra Arquitectos), a EPM selecionou 32 tanques, com base em parâmetros como: densidade populacional, necessidades das populações do entorno, restrições geológicas, potencial de expansão do serviço de fornecimento de água, em função de critérios técnicos. Dessa lista maior, foram selecionados 14 tanques considerados como intervenção de prioridade maior, com indicadores sociais mais críticos que começaram a ser construídos a partir de 2014. Essas UVAs do tipo A, são então construídas pela empresa proprietária dessas áreas, a EPM. Tem programas mais compactos, apropriados aos salões de atividades construídos de maneira integrada a infraestrutura de fornecimento de água. Oferecem a comunidade local aulas de informática, oficinas literárias e de artesanato muito procuradas pela terceira idade.
Além de atividades ao ar livre para a população mais jovem, uma vez que todas essas UVAs contam, principalmente, com fartas áreas externas.
Já as UVAs tipo B são construídas pela EDU em parceria com a secretaria de esportes (Inder) e são chamadas de UVAs pesadas, porque resultam em equipamentos com maior área construída. As UVAs tipo B refletem a necessidade de distribuição mais equitativa de equipamentos de cultura, esporte e lazer pela cidade, ao mesmo tempo em que enfrentam o desafio da escassez de lotes em áreas já consolidadas. Em geral, são projetos que entrelaçam o programa de praça e mirante com o de um equipamento cultural e recreativo.
Por essa razão raramente podem ser lidos como objetos arquitetônicos unitários, autônomos, pois frequentemente a percepção geral do edifício é o do espaço público resultante de sua cobertura. Isso porque quase todos eles enfrentam grandes declividades e lotes com perímetros amorfos ou de geometria irregular, por serem espaços residuais ou pertencerem à lógica de uma infraestrutura e não de um espaço de acesso público.
O último projeto a ser analisado sob a perspectiva da paisagem reinterpretada é expressivo pela sua escala e complexidade construtiva, trata-se dos Parques del Rio (2015: EDU. Ver fig. 10). O projeto prevê a formação de um grande parque linear ao longo do rio, soterrando as 7 pistas da via regional. Esse parque iria conectar Medellín aos demais municípios do vale de Aburrá: Bello, Sabaneta, Envigado, La Estrella Caldas, Itagui, Girardota e Copacabana e tinha previsão para ser executado em 25 anos. Em Medellín, essa intervenção seria fundamental para conectar os dois lados do rio que dividem a cidade ao meio. Um primeiro trecho (etapa 1A) do lado ocidental foi
entregue no final de 2016, com 145.181m2 de espaço público. O investimento no parque é uma tentativa de adensar o centro, conectá-lo ao outro lado. O trecho entregue ainda não completa a travessia, de modo que o Parque de conectá-los pies descalzos, o centro cívico da Alpujarra e o teatro metropolitano de Medellín estão todos do outro lado. Esses equipamentos, tão próximos, ainda são dificilmente acessados por pontes de alto tráfego de veículos. A recuperação das margens do rio como uma área de lazer, a qualidade paisagística e a inserção urbana que integra o parque ao tradicional bairro Conquistadores, são alguns aspectos surpreendentes de uma obra infra estrutural de grande envergadura, que foi executada em um curto espaço de tempo (em pouco mais de 1 ano).
Figura 10: Parques del Rio.
Fonte: foto da autora 4.5 Habitat e lugar
Na Quebrada Juan Bobo, uma região que conecta um córrego, foi possível entender como funciona o programa de Melhoramento Integral de Barrios. O mesmo acontece em grande parte do bairro Francia. Na cota mais alta encontram-se os edifícios de habitação de interesse social. Só foram construídos edifícios novos para substituir as residências em situação de risco. As demais receberam verbas e auxílio técnico para serem reformadas internamente e externamente, garantindo condições de habitabilidade e materialidade compatíveis com uma moradia digna. Receberam verbas também para conformar o novo calçamento. A requalificação das vias, a canalização do córrego e a existência de mobiliário urbano criaram áreas que não resultam da simples soma de ruas, calçadas ou praças. Foram qualificadas com pavimentação, guarda-corpo e pequenas intervenções para transposição dos níveis, de modo que já não são áreas residuais, pois se reintegram ao tecido projetado. A inexistência de recuos, que é típica da ocupação irregular, acaba por criar uma extensa “frente de urbanidade” com suas fachadas associadas em série, por onde entram seus moradores, sendo as crianças as grandes responsáveis pela vitalidade desses espaços. O principal atributo desse projeto foi diluir os limites entre o espaço privativo e o público, anulando a percepção dos lotes, integrando o dentro e o fora das casas, como é típico da apropriação dos espaços intersticiais da favela. Novamente, a presença do mobiliário urbano, bem como a sinalização, o material e o desenho das guias e elementos de pavimentação conectam as áreas de intervenção a linguagem utilizada nas demais áreas da cidade: a cidade informal e a formal têm sua identidade conectada por estes simples elementos.
5 REFLEXÕES E RETICÊNCIAS
Ainda que não seja mensurável a relação entre as interessantes estratégias projetuais verificadas e os benefícios sociais conquistados, a vivacidade, simultaneidade e variedade verificada na forma como se dá a apropriação dos espaços, por parte dos usuários, parece apontar para um cenário promissor. Com base nos projetos analisados, foi possível identificar que os atores do poder público, dinamizados pela intersetorialidade das instituições e das políticas urbanas, bem como o quadro singular de apoio e engajamento da sociedade civil e das entidades privadas, não são os únicos agentes dessa transformação. Os arquitetos e urbanistas envolvidos demonstram um esforço na concepção dos esquemas espaciais (ver fig. 11), na construção de situações urbanas e na reinterpretação dos programas, para estabelecer relações com as dinâmicas existentes: circunstanciais e locais.
A tentativa de gerar espaços vivos adequados às expectativas de seus usuários passa também por elaboradas estratégias de interpretação e transformação da condição topográfica, contando com uma espécie de sublimação de referências formais e materiais do existente. Isso se dá com um atento olhar que não permite analogias diretas àquilo que concerne à precariedade de meios. São trazidas, para o âmbito do projeto, relações que fazem parte da compreensão do espaço por parte dos habitantes e resulta que eles, mesmo sem uma prévia iniciação ao exercício das abstrações e sínteses da arquitetura, parecem estabelecer uma singular familiaridade com esses novos espaços, o que é vital para a ambição de transformação socioespacial que estas intervenções internalizam. As potencialidades reveladas pedem novos matizes nas considerações sobre o potencial da arquitetura em transformar a cidade e a sua sociedade.
Figura 11: Jardim-de-infância visto do Colégio Antonio Derka em Santo Domingo Sávio.
Fonte: foto da autora
De fato, viabilizar as potencialidades de uma arquitetura inovadora em contextos urbanos periféricos, com questões sociais extremadas, demandou a criação de condições especiais para que estas se desenvolvessem. Nesse sentido, a Prefeitura de Medellín tem oferecido parâmetros inovadores para a intervenção na cidade informal como a criação de um eficiente espaço institucional operando com especial liberdade garantida pela conquista da governabilidade: a EDU. Também a transformação dos processos de produção do espaço público em procedimentos participativos, a vinculação da ação de arquitetos – externos aos órgãos públicos – aos projetos urbanos também são circunstâncias e estratégias com características muito particulares. Esses arquitetos, interagindo com essa estrutura institucional, desenvolveram os projetos a partir de experiências locais, mas demonstram também a influência de instrumentos de projeto e planejamento externos a essa realidade.
Figuras 12, 13 e 14: Livros da Mesa Editores retratando a produção contemporânea na Colômbia.
Fonte: site plataformaarquitetctura 18.
Essa é uma consideração razoável se ponderarmos a formação do principal urbanista a ocupar um cargo público nos primeiros anos de transformação (Alejandro Echeverri se doutora na ETSAB) ou pelas colaborações entre a prefeitura de Medellín e de Barcelona que marcaram o governo de Fajardo-Salazar. Também verificamos esse aspecto em grande parte dos jovens arquitetos, ganhadores de um número significativo desses concursos, que também apresentam formação em universidades estranjeiras. Sobre esses aquitetos, Silvia Arango (2011) comenta:
“Ainda que naturalmente essa geração compartilhe de algumas características da anterior, apresenta também singularidades, como seu interesse por teorias orientadas pelas ciências sociais e exatas, ou pensamento sistêmico e sua tendência em agrupar-se em empresas anonimas - como Plan:B, Opus, Ctrl G ou MGP - ou associar-se a outros arquitetos para encargos muito específicos. Essa prática que dificulta a atribuição de autorias parece indicar uma reação contra a arquitetura "de autor" das gerações precedentes. No entanto, por sobre as diferenças, as quatro gerações estão trabalhando de maneira responsável para melhorar as condições de vida dos colombianos, com consciência social e qualidade arquitetônica.”
Ainda que não se possa determinar especificamente as influências desse pensamento arquitetónico ou única tendência ou origem desse processo, essas arquiteturas urbanas relatadas apresentam alguns traços em comum: surgem da interação entre planos urbanos e pensamentos projetuais das mais diferentes escalas, adotam uma postura conciliadora com a matriz urbana real. Por meio de instrumentos próprios da disciplina da arquitetura e urbanismo, se lançam na tentativa de dissolver as tensões criadas pelos agentes e forças atuantes no território: privados e públicos, coletivos e particulares, socializantes e individualizantes.
A leitura das diferentes gradações e instâncias em que a vida urbana se desenvolve é facilitada pelo trabalho da gerência social, mas mostra que essa postura projetual se deixa informar por esses conteúdos que, em princípio, poderiam ser considerados extra-arquitetônicos19.O campo da arquitetura e do urbanismo, sob essas circunstâncias, passa a gerar diferentes estruturas espacializadas para a noção de esfera pública, uma evidência um tanto quanto concreta pela população que usa essas novas articulações espaciais criadas por esse processo: equipamentos, áreas livres e infraestruturas urbanas apresentam notável vitalidade. Esse trabalho não pode verificar os efeitos da valorização imobiliária e da possível gentrificação, como uma hipotética relativização dessas experiências. Nesse sentido, pondera-se que qualquer melhoria no espaço conduz inevitavelmente aos efeitos contraditórios inerentes à gerência capitalista do espaço. Para esse problema, mostra-se necessário verificar os instrumentos e políticas que regulam a negociação dos valores e rendas do solo urbano, o que foge ao escopo desse trabalho. Sendo assim, essa análise, ao perscrutar os instrumentos projetuais e as estratégias de interpretação dos programas nesses estudos de caso – por esse prisma – sinaliza que Medellín oferece novos e promissores campos de debate.
AGRADECIMENTOS
Agradecemos à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo - FAPESP pelo financiamento da pesquisa (bolsa 2017/26688-0 e 22017/26688-015/19847-9).
REFERENCIAS
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GIRALDO-RAMÍREZ, J.; PRECIADO-RESTREPO, A (2015), Medellín, from Theater of War to Security Laboratory. Stability: International Journal of Security & Development, v. 4, n. 1.
18 Imagens publicadas em uma matéria que destaca as publicações da Mesa Editores, que tem dado destaque a publicações sobre a arquitetura colombiana em projetos gráficos diferenciados. Esta editora é dirigida por Miguel Mesa, arquiteto da Faculdade de Arquitetura da UPB e professor de Projetos FAUPB desde 2004, que trabalha junto com Veronica Restrepo e David Juan Diez. São livros que refletem os questionamentos de uma geração e que, através de uma linguagem que se reflete na publicação e na arquitetura, o uso de novos materiais incorporados a questões locais, tem contribuído para criar a percepção de uma sólida cultura arquitetônica colombiana contemporânea.
Ver: http://www.plataformaarquitectura.cl/2009/11/27/mesa-editores-equipaje-de-mano-la-arquitectura-de-camilo-restrepo-arquitectura-en-espera-plan-b-arquitectos/
19 Esse termo é utilizado no sentido proposto por Luiz Recamán, particularmente em dois textos “Oscar Niemeyer e o Brasil – anotações“ e “Álvaro Siza e o Brazil” in O problema da formação da arquitetura moderna brasileira. Tese de Livre docência. FAUUSP: São Paulo, 2018.
HYLTON, F. A (2010), revolução colombiana. São Paulo: Editora Unesp.
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