3.5.1 Política Nacional de Saneamento Básico - Lei Federal Nº 11.445/2007
O legislador brasileiro, preocupando-se quanto à ordenação e melhorias das diretrizes urbanísticas para o crescimento das cidades, havia estabelecido através da Lei Federal Nº 6766/79, um conjunto de regras para o parcelamento do solo urbano, conhecida como
“Lei Lehmann”, contudo, sem definir uma política nacional. A própria Organização das Nações Unidas, evidenciando a importância do saneamento básico, aprovou em 2010 a resolução ONU A/RES/64/92, que reconhece o direito dos cidadãos ao abastecimento de água e esgoto sanitário como essenciais a efetividades dos direitos humanos.
Neste contexto o governo brasileiro decreta, através da Lei Federal Nº 11.445 de 2007, as Diretrizes Nacionais para o Saneamento Básico e para a Política Federal de Saneamento Básico. Essas diretrizes são baseadas em quatro eixos fundamentais do saneamento, que são: Drenagem, Resíduos Sólidos, Esgotamento Sanitário e Abastecimento de Água.
A partir da definição dessas diretrizes, a Política Nacional de Saneamento Básico definiu seus princípios, dando papel de destaque a atuação dos municípios, na condição de titular dos serviços de saneamento básico e de limpeza pública. Esse papel ganhou maior destaque com a vigência de outras importantes leis, como a de Resíduos Sólidos, de Consórcios Públicos e a Lei de Parceria Pública e Privada.
Tais princípios são elencados nos seguintes tópicos: Universalização do acesso ao saneamento básico, promoção da saúde pública, articulação política de desenvolvimento urbano, proteção ambiental, interesse social, adoção de tecnologias apropriadas às peculiaridades regionais e locais, gestão transparente e sustentabilidade econômica.
Segundo o IBGE68, através da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios - PNAD, realizada no ano de 2013, 85,3% dos lares brasileiros contavam com rede de abastecimento de água, 64,3% deles possuíam rede de esgotos e 89,8% tinham coleta regular de lixo.
4 POLÍTICA NACIONAL DE RESÍDUOS SÓLIDOS – PNRS - LEI FEDERAL Nº 12.305/2010
Dentro do contexto da promoção de ações ambientais, as discussões acerca da necessidade de criação de uma política nacional de resíduos sólidos, podem ser consideradas antigas. Com a promulgação da Constituição Federal do Brasil de 1988, esta necessidade se tornou premente, em vista do cumprimento de seu artigo 225:
Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para às presentes e futuras gerações.69
Assim, para fazer valer a Constituição Federal, o Brasil aprovou várias normas legais para implementar ações políticas ambientais, dentre as quais se destaca, por sua fundamental importância, a Política Nacional de Resíduos Sólidos, outorgada através da Lei Federal Nº 12.305, de agosto de 2010. Para bem entendê-la, lê-se em seu Capítulo I, artigo 4º:
Reúne o conjunto de princípios, objetivos, instrumentos, diretrizes, metas e ações adotadas pelo Governo Federal, isoladamente ou em regime de cooperação com Estados, Distrito Federal, Municípios ou particulares, com vistas à gestão integrada e ao gerenciamento ambientalmente adequado dos resíduos sólidos.
Tal definição se une às normas estabelecidas por outros quatro importantes sistemas, que unidos completam esta política. A saber:
Sistema Nacional do Meio Ambiente – SISNAMA, Sistema Nacional de Vigilância Sanitária – SNVS; Sistema Único de Atenção à Sanidade Agropecuária – SUASA e Sistema Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial – SINMETRO.
Os principais objetivos da implantação da Política Nacional de Resíduos Sólidos podem ser resumidos nos seguintes itens: Proteção à Saúde Pública e Ambiental; Incentivo a indústria de recicláveis; Adoção da Logística Reversa, seus acordos setoriais e da Responsabilidade Compartilhada; Implantação dos Planos de Resíduos Sólidos aos níveis Nacionais, Estaduais, Metropolitanos, Intermunicipais, Municipais e Setoriais; Fim dos lixões e implantação de aterros sanitários e inclusão social.
A Política Nacional de Resíduos Sólidos é um chamamento à sociedade para o seu papel de agir de forma integrada visando obter as mudanças necessárias no seu comportamento frente ao consumo. Acima de tudo destacando a responsabilidade da fonte geradora dos resíduos pelo seu destino final, retirando o entendimento até então consolidado de que é o Poder Público local, ou seja, as prefeituras municipais as responsáveis pelo destino de todos os resíduos. O Município tem a responsabilidade pela coleta e destinação apenas dos resíduos domésticos classificados como orgânico ou úmido.
Observa-se que essa norma legal propõe uma mudança de comportamento frente à gestão de resíduos sólidos que se tornou um dos maiores problemas ambientais da atualidade no planeta. Assim, a sociedade precisa assumir uma nova responsabilidade
67Art. 10, Lei Federal Nº 6.938, de 31 de agosto de 1981.
compartilhada no ciclo de vida dos produtos que consome, e que vai desde o desenvolvimento do bem até a disposição final de seus resíduos. Esse esforço conjunto no sentido da diminuição de rejeitos gerados pelo consumo humano tem em vista uma melhor qualidade de vida.
5 LOGÍSTICA REVERSA E O PLANO NACIONAL DE RESÍDIOS SÓLIDOS
Uma das principais novidades trazidas pela Política Nacional de Resíduos Sólidos foi à introdução e previsão da Logística Reversa e a responsabilidade compartilhada pelo ciclo de vida dos produtos como instrumentos de política ambiental. Consta na Lei Federal Nº 12.305/2010, que instituiu Política Nacional de Resíduos Sólidos, sobre a responsabilidade compartilhada pelo ciclo de vida dos produtos, a seguinte definição:
Conjunto de atribuições individualizadas e encadeadas dos fabricantes, importadores, distribuidores e comerciantes, dos consumidores e dos titulares dos serviços públicos de limpeza urbana e de manejo dos resíduos sólidos, para minimizar o volume de resíduos sólidos e rejeitos gerados, bem como para reduzir os impactos causados à saúde humana e à qualidade ambiental decorrentes do ciclo de vida dos produtos, nos termos desta Lei70.
A Logística Reversa tem, portanto, o papel de atuar como instrumento de aplicação da responsabilidade compartilhada, pelo ciclo de vida do produto, e conforme a PNRS é definida como:
Instrumento de desenvolvimento econômico e social caracterizado por um conjunto de ações, procedimentos e meios destinados a viabilizar a coleta e a restituição dos resíduos sólidos ao setor empresarial, para reaproveitamento, em seu ciclo ou em outros ciclos produtivos, ou outra destinação final ambientalmente adequada71.
Regulamentada através do Decreto Federal Nº 7404/2010, a Logística Reversa pode ser implementada e operacionalizada através de vários instrumentos, entre os quais podemos destacar: o regulamento expedido pelo Poder Público, os acordos setoriais e os Termos de Compromissos.
6 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Foi possível observar ao longo desta pesquisa que a Logística Reversa pode ser implementada por diversos meios, mas principalmente por regulamentos expedidos através de decretos do poder executivo. Trata-se de uma alternativa oportuna que deve ser aproveitada pelo setor empresarial e organizacional, no sentido de unir forças e oportunidades para tratar do meio ambiente de forma responsável, ao mesmo tempo em que se obtêm resultados sociais e econômicos para quem investe.
O Brasil já possui leis importantes em defesa do meio ambiente, mas precisa aplicá-las de maneira sistemática e estruturada, já que além das regulações, no caso da Logística Reversa, é necessário também um comitê composto por técnicos de cinco ministérios: Meio Ambiente, Desenvolvimento, Indústria e Comércio, Agricultura Pecuária e Abastecimento, Fazenda e Saúde, a fim de que possa proceder a verificação da viabilidade técnica e econômica da proposta. Além disso, antes também de sua implantação, os sistemas de Logísticas Reversa, estabelecidos por decretos, devem passar por consulta pública. O caminho é esse e precisa ser trilhado a fim de que os desafios se tornem oportunidades para muitos investidores.
Para se implantar um sistema de Logística Reversa pode-se também tomar o caminho dos Acordos Setoriais entre setor público e privado para sua implantação e operacionalização. Tais acordos são simplesmente contratos estabelecidos entre o poder público e a cadeia de produção e distribuição de determinado tipo de produto, com o objetivo de assegurar a efetiva responsabilidade compartilhada sobre o ciclo de vida dos produtos72.
Em outras situações, no caso de não haver acordo setorial ou mesmo regulamento específico conforme estabelece o Decreto Federal Nº 7404/2010, ou mesmo em situações que necessite de estabelecimento de compromisso e metas complementares, o poder público poderá firmar Termos de Compromisso –TC – com os fabricantes, distribuidores e comerciantes de produtos passíveis de Logística Reversa. No entanto, tais Termos de Compromisso só terão eficácia após sua homologação oficial, feita por órgãos ambientais reconhecidos e integrantes do Sistema Nacional de Meio Ambiente – SISNAMA.
É certo, ao final, que os instrumentos jurídicos necessários à implantação da Logística Reversa no Brasil estão já codificados, restando uma maior adesão à sua proposta, a qual certamente trará condições para o desenvolvimento de forma economicamente viável, socialmente justa e ecologicamente equilibrada.
REFERENCIAS
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70 Lei Nº 12.305/2010, de 02 de agosto de 2010.
71 Id, Ibid.
72 Cf. estabelecido nos procedimentos descritos na subseção I da seção II do Capítulo III do Decreto nº 7.404/2010.
BRASIL. LEI FEDERAL Nº 6803 DE 2 DE JULHO DE 1980. Dispõe sobre as diretrizes básicas para o zoneamento industrial nas áreas críticas de poluição, e dá outras providências. Brasilia: Diário Oficial da União, 1980.
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