Silvana Kalff31
Eixo Temático: Educação Ambiental na construção das sociedades sustentáveis. Tema: Espaços de Construção de Saberes, Fazeres e Sentires.
Palavras-Chave: Paisagem sonora; Educação sonora; Qualidade de vida.
Resumo Expandido: O mundo está repleto de sons que compõe as relações humanas
em diferentes culturas e sociedades. Nossa relação com o ambiente transita pelos órgãos dos sentidos e pelos significados que são atribuídos às sensações mediadas por essas vias de percepção. É destacando a audição e a comunicação acústica, que este texto tem como objetivo discutir a qualidade da paisagem sonora ambiental, chamando a atenção para as relações entre o sujeito e os sons dos espaços em que vive. Como paisagem sonora compreende-se os sons que fazem parte de um ambiente. Diante disso questiona- se qual o impacto da paisagem sonora na qualidade de nossas vidas? De que forma podemos interferir sensivelmente nas transformações e nas construções sonoras ambientais? Esta discussão fundamenta-se em um estudo bibliográfico qualitativo, destacando autores e pesquisas que tratam dos temas aqui apontados. O estudo da paisagem sonora ou “soundscape”, teve início na década de setenta, com Raymond Murray Schafer, sendo esse termo criado por ele. Segundo Fonterrada (2004), Murray Schafer, nasceu em 1933, é compositor, educador, pesquisador e autor de livros relacionados à música e aos sons e ruídos dos ambientes. Foi fundador do “Projeto Paisagem Sonora Mundial” (iniciado em 1969), marcando com isso seus estudos no campo da “ecologia acústica”. Para Schafer (2001, p.364):
A ecologia acústica é, assim, o estudo dos efeitos do ambiente acústico, ou paisagem sonora, sobre as respostas físicas ou características comportamentais das criaturas que nele vivem. Seu principal objetivo é dirigir a atenção aos desequilíbrios que podem ter efeitos insalubres ou hostis.
Conforme Fonterrada (2004), este projeto conta com profissionais de diversas áreas, que tratam de temas como a contenção de ruído e danos causados pela super exposição ao mesmo. O termo ruído é compreendido nesse contexto principalmente como um som não- desejado, tornando-se subjetivo. Parte da pesquisa realizada pela equipe desse projeto foi reunida no livro: “The Tuning of the Word” - de Murray Schafer; traduzido no Brasil como “A Afinação do Mundo”. Um dos objetivos do autor nesta obra foi “[...] mostrar de que modo a paisagem sonora havia evoluído no decorrer da história e de que modo as mudanças por que passou podem ter afetado nosso comportamento.” (SCHAFER, 2001, p.11). As cidades estão crescendo, e seus sons estão se transformando essencialmente devido aos avanços industriais e tecnológicos. Para o autor, existe hoje em dia uma guerra pela posse dos nossos ouvidos, sendo que grande parte dos sons das cidades pertencem a alguém, e/ou são utilizados para atrair nossa atenção ou vender algo, ficando assim o mundo “[...] cada vez mais superpovoado de sons, mas, ao mesmo tempo, a variedade de alguns deles decresce” (SCHAFER, 2001, p.12). O som constante ouvido nas grandes e médias cidades contemporâneas, está mais restrito a sons de
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revista brasileira deeducação
ambiental
máquinas, carros, sirenes, propagandas, do que a outras variedades, por exemplo. De acordo com Schafer (2001, p. 17):
A paisagem sonora do mundo está mudando. [...] Esses novos sons, que diferem em qualidade e intensidade daqueles do passado, têm alertado muitos pesquisadores quanto aos perigos de uma difusão indiscriminada e imperialista de sons, em maior quantidade e volume, em cada reduto da vida humana. A poluição sonora é hoje um problema mundial.
Nesse sentido se faz necessário um projeto acústico que nos sensibilize e nos previna da poluição sonora. Como proposta de projeto acústico, Schafer (2001, p.366) desenvolve uma pesquisa que procura descobrir os motivos pelos quais a paisagem sonora possa ser melhorada, incluindo: a eliminação e/ou a restrição de certos sons ou ruídos; avaliação de sons antes que sejam lançados no ambiente; e a preservação de sons que possibilitem criar ambientes acústicos atrativos e estimulantes. No Brasil, vêm crescendo o número de teses e dissertações que abordam os temas aqui discutidos. Entre essas pesquisas encontram-se: Castorino (2012), abordando em sua dissertação a poluição sonora como agente da perda de qualidade ambiental e de vida nas grandes cidades, e como essa poluição extrapolou os limites das instalações industriais, para as ruas e “shopping centers”, por exemplo; Cirino (2012), quando discute a paisagem sonora como uma das variáveis que condicionam a sustentabilidade ambiental; e Rodrigues (2016), que levanta a necessidade de propostas pedagógicas para uma educação sonora na sala de aula. Mesmo com o aumento de pesquisas que chamam a atenção para a qualidade sonora dos ambientes, raramente encontramos expressa esta preocupação nos currículos e propostas pedagógicas de escolas brasileiras, ou até mesmo no plano diretor de nossas cidades. A discussão aqui levantada, alerta para a urgência das pessoas ouvirem criticamente sua paisagem sonora, e contribuírem no planejamento dos ambientes acústicos compartilhados. Em “uma sociedade verdadeiramente democrática, a paisagem sonora será planejada por aqueles que nela vivem, e não por forças imperialistas vindas de fora.” (SCHAFER, 2001, p.12). A proposta é a de que educadores e gestores de diferentes áreas, criem estratégias que contribuam para composição da qualidade auditiva da sociedade, tornando-a sustentável também sonoramente.
Referências
CASTORINO, A.B. 2012. 105f. O mundo que se ouve: uma análise da paisagem sonora dos shopping centers. Dissertação (Mestrado em Geografia) – Curso de Pós-Graduação
em Geografia, Universidade Federal de Goiás. Disponível em:
<http://repositorio.bc.ufg.br/tede/handle/tde/1877>. Acesso em: 23 de maio de 2017. CIRINO, T.L. 2012. 151f. “Paisagem sonora” dos espaços públicos urbanos, sob a ótica da sustentabilidade ambiental. Dissertação (Mestrado em Desenvolvimento e Meio
Ambiente) – Curso de Pós-Graduação em Desenvolvimento e Meio Ambiente,
Universidade Federal de Pernambuco. Disponível em:
<http://repositorio.ufpe.br/handle/123456789/10643>. Acesso em: 23 de maio de 2017. FONTERRADA, M.T.O. O lobo no labirinto: uma incursão à obra de Murray Schafer. São Paulo: UNESP, 2004.
RODRIGUES, A.B. 2012. 76f. A paisagem sonora da sala de aula: escuta e criação, desenvolvimento da compreensão musical e da consciência sobre ecologia acústica.
Dissertação (Mestrado em Artes) – Curso de Pós-Graduação em Artes, Universidade
Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”. Disponível em:
<http://hdl.handle.net/11449/142823>. Acesso em: 23 de maio de 2017.