Começo da quarentena, cidade universitária, nenhum armário me prende, respiro livre e todas as cores me são permitidas para viver e ser. Comento qualquer história sobre aquela menina que eu sou apaixonada para a minha companheira de apartamento, facetime sem papas nas línguas com os meus amigos, de Cássia Eller a Zélia Duncan no último volume. A bandeira colorida na parede, os desenhos de amor, as roupas, cada pedaço meu pertence inteiro, esparramado. Como disse Guimarães, coração cresce de todo lado, mistura amores, tudo cabe.
A saudade consome quase o tempo inteiro, principalmente da família, mas aqui de longe eu posso ser inteira, eu posso ser cada parte de mim. Porém a inevitabilidade de meses de pandemia fez com que eu voltasse para casa. Sentiu saudade da gente? Não estava ruim lá, tão sozinha? Por que parece tão triste? É esse vírus né? Tá deixando todo mundo pra baixo mesmo…
É o vírus sim mãe, é a pandemia, mas é tanta coisa mais também. Já me sentia numa pandemia diferente antes disso tudo acontecer, sabia? Essa falta de liberdade já me é antiga, estava ao meu redor antes da quarentena, o medo, a delicadeza no falar, a máscara diária, que não era essa física, de tecido que todo mundo vê, mas uma máscara que me escondia, que me tirava essas tantas cores arco-íris, que me sufocava, e não era só pela falta de ar.
Silêncio.
É o vírus sim mãe, deve ser essa pandemia mesmo.
Em casa a saudade da família não tem lugar, mas sinto falta de mim. Sinto falta de me derramar com tudo o que sou para todos os lados dessa construção, de exalar tudo o que eu sinto, amo e vivo. Um pedaço nosso morre um pouco mais quando a gente esconde nossos amores e poda uma das coisas mais bonitas sobre a gente, uma das coisas que faz o nosso coração bater mais forte.
Daqui o armário sufoca, e a cada ano que passa ele vai se tornando menor (ou eu que continuo crescendo?), e pode parecer uma ideia mais fácil sair dele, mas o medo ainda afugenta. O medo vem por meio de falas homofóbicas, da instabilidade, da decepção, porque, sim, meu amor é visto como uma decepção,
34 Lésbica, 21 anos. Campinas, São Paulo.
94 e isso é algo que eu nunca irei entender. Além desse pequeno manicômio mental, passar por uma quarentena, é uma dupla prisão, é o duplo cuidado, é o duplo medo. Prisões nunca fizeram bem para a saúde mental, e agora não poderia ser diferente.
Meu diário tem sido meu companheiro mais fiel nas últimas semanas, o papel me permite tudo e sempre está disposto, sem apedrejar, sem julgar. Escrever é terapêutico e me cabe por inteira. Minhas aquarelas também são boas amigas, me permitem todas as cores da paleta, me deixam criar do jeito que eu sou, cada gota de cor é linda e mal posso esperar para pendurá-las quando voltar para meu apartamento. Pintar é transbordar toda a cor que eu levo por dentro. Meu ukulele é meu saco de pancada, recebe toda enxurrada de sentimentos, cada choro, cada momento de excitação, me lembra como é possível produzir sons tão bons de serem ouvidos só com o dedilhar dos dedos. Tocar é transbordar. Não menos importante, minha câmera me permite me ver como eu gosto de ser vista e como eu gosto de enxergar tudo ao meu redor, com toda a sensibilidade e vulnerabilidade que merecem. Fotografar é me expor pelo olhar.
A arte é preciosa demais em locais onde não cabemos por inteiros, ela permite a expansão. Arte acolhe. Não haveria sanidade em me isolar tão longe da minha liberdade sem esses pequenos entorpecentes que me aliviam.
Meio da quarentena, interior, armários viram muralhas maiores do que eu posso sequer escalar, a falta de ar é culpa da ansiedade ou do corona? Tudo anda meio monocromático. Comento sobre o tempo e sobre a faculdade (só a parte acadêmica, claro) com a família, os facetimes com os meus amigos quase não acontecem mais, de Cássia a Duncan, nos fones de ouvido. As roupas são mais pensadas, nada tão “masculino” demais; as podas vêm nas coisas pequenas.
Cada pedaço meu cabe se apertando no que tem nas mãos, se diminuindo. Não sei se tenho muito ânimo para citar algum escritor ou escritora por agora.
A palavra Lésbica é o meu segredo a sete chaves para dentro de casa, parece até um crime digitá-la aqui. Mas é uma palavra linda e me cabe. É uma das coisas que eu sou: LÉSBICA. Com cada sílaba, e cada letra, ela me pertence. A quarentena me fez revirar algumas fotos da última parada LGBTQIA+, mais uma coisa que o corona está me privando esse ano: comemorar esse orgulho com todas as cores, jeitos e diferenças. Estamos em junho, mês da nossa visibilidade, quase 3 meses de quarentena, nunca me senti tão apagada.
Nesses dias tão compridos de convivência, às vezes gostaria de compartilhar algumas coisas que me entalam a garganta. Eu vivi um negócio tão incrível com uma mulher ano passado, foi tão especial pra mim, sabia, mãe? Ela cuidou de mim tão bem, de formas que nem achei que mereceria ser cuidada e amada, e foi uma história tão curiosa, deixa eu te contar... Nossa, essa live da Ana Carolina está sapatão demais, você viu o jeitinho que ela olhou para a esposa dela? Ai, acho que finalmente superei aquele rolo, mas ainda a amo demais, é normal isso, mãe? Acho que agora só queria chorar um pouco no seu colo, tudo bem? Acho
95 que estou interessada nessa mina da minha faculdade, olha aqui, ela é linda não é? Não consigo parar de rolar as fotos dela aqui no feed.
Mas é só o silêncio de coisas guardadas com muito cuidado e carinho. A vida real é pisar em ovos. É trocar o: “Tô tão preocupada com aquela mina que eu fiquei, ela trabalha na linha de frente do hospital, cara, eu gosto dela demais, não sei o que eu faria se ela se infectasse” por: “Tenho uma amiga que trabalha na linha de frente do hospital, espero que ela esteja bem.” É sutil, mas é a supressão nas coisas pequenas que mantém o medo e que me matam um pouco a cada dia durante o isolamento.
Me esconder dentro da minha própria casa é frustrante. Porque eu existo.
Existo para além do “L” da sigla, existo na vida cotidiana. Existo na minha universidade, nas minhas redes sociais, entre os meus amigos, quando eu estou ao lado de quem eu amo, quando falam sobre lesbianidades eu estou ali, eu existo para ter esse lugar de fala, eu existo para levantar e proteger outras mulheres, eu existo quando as amo. Mas pareço não existir dentro dessas quatro paredes.
Durante esses anos eu tenho crescido, e ao longo da quarentena o armário tem ficado menor pra se viver. Luto pelo movimento antimanicomial, mas me parece sempre tão difícil sair desse manicômio interno quando estou em casa. A opressão me deixa menor e ficar em quarentena me faz valorizar o tempo em que estava livre, e essa liberdade, para mim, é a possibilidade de ser quem eu sou, sem medo, insegurança. A quarentena pelo motivo do coronavírus é ruim, e quando combinada ao isolamento de não poder ser você mesmo, é insuportável.
Pensar na possibilidade de quebrar essas muralhas dentro de casa é atrelar ao pior cenário possível de convivência: medo, violência verbal, desamor. Pensar na possibilidade de nunca quebrar essas muralhas em casa é atrelar a esse cenário interminável de convivência com o medo, com a mutilação daquilo que eu amo, do desamor comigo mesma. De um jeito ou de outro, é pesado e dá medo. Mas, ao menos, quebrando as muralhas, as transformo em muros um pouco menores para as outras mulheres depois de mim, e pensar em tornar o processo menos doloroso para outra pessoa, já é tornar o processo um pouco mais leve para mim mesma.
As cores pedem veemente para serem vistas e espalhadas, o mofo do armário já está insuportável. Eu quero comentar sobre qualquer coisa que esteja no meu coração, sem medir as palavras sobre aquilo que eu amo. Eu quero ouvir mulheres que amam mulheres e me sentir representada no último volume. Quero bandeira arco-íris na parede, quero o triângulo negro invertido, quero o machado duplo, quero cuspir as sete letras que me entalam a garganta. Agora eu tenho uma citação, que não me sai da cabeça e tem me tirado o medo: “Seu silêncio não vai proteger você.” — Audre Lorde. Não vai, e não tem me protegido até agora.
Final da quarentena: “mãe, eu sou Lésbica.”
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