Caio Henrique Moura de Almeida59
Nada foi simples em minha cabeça quando descobri — muito criança — que o simples fato de eu ser o que eu era não poderia continuar existindo. Isso percorreu os meus pensamentos desde o início da quarentena. Estar em apenas um lugar, com as mesmas pessoas por um longo espaço de tempo ocasionou o aparecimento de sombras do meu passado. Porém, consegui seguir em frente ao longo do meu percurso.
Atualmente, namoro alguém. O nosso afeto é gigantesco, sinto-me amado em completude. Eu sei que essa é uma visão romantizada e exagerada, mas é o que me ocorre. Somos ambos afeminados, bichas. Tivemos alguns desafios parecidos, principalmente na questão da performance de nossos corpos. Compartilhamos os nossos tempos há mais de 3 anos. Os meus pais e minha irmã conheceram-no.
Contudo, demorou bastante tempo para que eu encontrasse com o pai dele (com a mãe e a irmã eu tenho contato desde o início de nosso relacionamento). A quarentena possibilitou algo que era dificílimo de concretizar: que eu, Caio, namorado de Rodrigo, conhecesse o meu sogro. Meu companheiro enfrentou a recusa e resistência de seu pai, e disse, sem pesares: “O Caio virá aqui em casa, ficará aqui comigo, lide com isso!”. O pai de meu amado recusou me conhecer em diversas ocasiões. Ele evitava as reuniões familiares em que eu estaria presente — por exemplo, não compareceu à festa de Réveillon da família dele, porque eu estaria por lá, mesmo com sua esposa, filha e filho indo à comemoração. Em uma outra ocasião, ele compartilhou uma foto de meu Facebook (sem ter-me como amigo) e legendou praticamente assim: “Esse é o menino assustado e inconstante que está levando meu filho para outros caminhos”. Ele fez referência à legenda da minha foto “assustado e inconstante”
e compartilhou-a em seu perfil. De qualquer forma, logo em seguida ele apagou a postagem. Nossa relação ficou em um grande vácuo afetivo por bastante tempo.
Inclusive, esqueci de dizer algo muito importante: eu mantenho um namoro a distância. Moro em Belo Horizonte e meu amado em São João del-Rei. Nós não nos víamos havia muito tempo — dois meses —, estávamos com saudades um do outro. Existia a possibilidade que nós dois fizéssemos o distanciamento social apropriado, juntos. Evidentemente, foi um grande risco fazer a viagem para a cidade dele. Eu poderia ter sido infectado. Ambos sabíamos dos perigos, mas
59 Gay/Bicha, 23 anos. Belo Horizonte, Minas Gerais.
188 persistimos. Era importante para ele e para nós, como casal. Não estive bem com a ideia de ir para a casa dele, sou extremamente inseguro, ainda mais no período da quarentena. Todas as minhas recusas anteriores, relacionadas a minha sexualidade e ao meu semblante, voltaram exacerbadas. Eu sabia que o incômodo que eu causava em meu sogro não era sobre mim, mas sobre o que eu representava, mesmo assim não conseguia estar em paz. O ser humano pode ser muitas coisas boas e muitas coisas ruins, eu também não sabia quem ele era, só o que falavam dele.
O que me restava era a minha voz, os meus pensamentos e o que eu acreditava. Caso eu sofresse alguma violência, moral ou física, eu poderia ser capaz de defender-me. Porém, tomar posições é uma tarefa árdua por causa de um gigantesco motivo: sou gago. Eu tenho sempre muitas coisas a dizer, faz parte de minha “natureza”, mas ainda não consigo lidar com o olhar do outro sobre minha fala. O silêncio que acontece entre uma palavra ou outra, e a repetição de fonemas faz com que eu fique desarranjado. Ainda bem que faço análise, isso tem mudado. Aprendi que posso estar desconcertado a todo momento e, ao mesmo tempo, seguir em frente com o que eu quero fazer. Posso agir com medo. Sou extremamente assustado, mas isso não é motivo para que eu me acovarde. Tenho pensado dessa forma, sei que há potencialidades em mim e quero testá-las.
Assim, vim para São João del-Rei em maio. Fui bem recebido por todos, até pelo meu sogro. Havia uma tensão muito forte de ambos os lados, talvez estivéssemos compartilhando o medo e a recusa da presença um do outro.
Porém, estava sendo tudo muito novo para os envolvidos. A minha sogra, a minha cunhada e o namorado da irmã de meu amado também se encontravam na residência. Seis pessoas em um mesmo recinto.
Nos dois primeiros dias compreendi-me como um intruso. Todos eles sabiam das dinâmicas interativas de cada um e eu não tinha conhecimento de como eles agiam no cotidiano — nem eles sobre as minhas ações. Como gostavam que as louças fossem secadas ou as roupas estendidas? Isso pareceu um completo inferno na Terra em meu cérebro. Porém, tudo se resolveu com a minha constante presença.
Na casa deles há algo que não ocorre na minha: eles comem todos juntos na mesa, durante o almoço. Essa situação tornou-se intrigante. Era naquele momento em que eu encarava de frente, com mais firmeza, o meu sogro.
Consegui perceber minúcias divertidas, constatações de que minha presença era nova demais e extremamente repulsiva. Quando começava a falar sobre algo, ele não conseguia pregar os olhos em mim. Era um diabo fugindo da cruz. Quando ele abordava sobre qualquer assunto (ele é extremamente tagarela), não conseguia olhar em meus olhos e expor o que queria dizer. Não foi fácil no início, achava que era algo pessoal. Contudo, consegui manter uma postura que deu determinados frutos, apesar de verdes: encarava-o sempre que podia. Não fugia o meu olhar da presença dele. Quis parecer convidativo e aberto.
189 Essa ação, de não recusa e da não exposição de meu desconforto, contribuiu para uma leve abertura da possibilidade de um desenvolvimento de nossa relação. Com o tempo, ele conseguiu, de forma breve, olhar para mim ao mesmo tempo que eu olhava para ele. Uma vez perguntei se ele e minha sogra queriam ajuda para colocar o cabo HDMI na televisão e, com grande surpresa, ele sorriu para mim e disse que não precisava porque estavam indo recolher as roupas secas no varal. Também existiu um outro episódio interessante: estava comendo ao lado dele na mesa e ele surpreendentemente puxou a manga de meu suéter, para evitar que a roupa tocasse a comida. Ele se permitiu tocar em mim! Fiquei tão assustado nessa ocasião, achava que qualquer tipo de toque voluntário da parte dele viria num momento inexistente. A partir daí percebi que eu, o Caio, estava sendo enxergado como um ser humano ímpar e não como uma representação de algo.
De uma maneira ou de outra eu tornei tudo isso como algo pessoal. Eu tenho convicção de que a recusa inicial não era sobre mim, mas sobre a relação dele com meu amado e, sobretudo, acerca da homossexualidade. Porém, é árduo separar o trigo do joio, não há como eu ignorar o fato de que isso envolve-me. A quarentena tem mostrado, para mim, que o confinamento possibilita afetos. Eles não estão sendo os mais ideais ou os mais desejados, mas estão presentes. Tenho entendido que os processos são lentos, não posso acelerar a visão de outrem sobre conceitos que em minha cabeça são óbvios de serem abraçados. As relações familiares são muito complexas.
O pouco tempo em que estou aqui — e devo voltar para casa em breve, pois meus pais estão com muitas saudades de minha presença — contribuiu para que a minha relação com meu querido Rodrigo chegasse em um novo nível. O fato de meu sogro ter “aceitado” que meu corpo estivesse presente em sua residência, mudou o ritmo invisível das coisas. A engrenagem agora é outra. Não somos melhores amigos, não conversamos mais do que com “bons-dias” e com elogios ao preparo de um determinado alimento. Tenho focado na linguagem não-verbal, mas não apenas eu. Cheguei aqui pensando que teria uma experiência insuportável, mas tenho tido grandes surpresas, mesmo com altos e baixos.
Esse período amargo foi capaz de solucionar uma lacuna na relação entre meu sogro e meu namorado. Se fosse em outros tempos, o desenvolvimento dessa dinâmica relacional estaria ainda mais lento. A (possível) nova percepção que meu sogro está (possa estar) tendo sobre a homossexualidade foi graças ao tempo em que estou hospedado aqui — há um mês. As pessoas só mudam as suas respectivas visões de mundo quando presenciam momentos. A experimentação é impactante. Às vezes as palavras podem mudar comportamentos e entendimentos, disso eu não tenho dúvidas, faço terapia e acredito no poder da conversa, sei dessa potência. Contudo, o incremento das palavras com as ações e performances podem reformular um ser humano num piscar de olhos. E digo isso não visando a rapidez das mudanças, não concordo
190 com a agilidade desenfreada que as coisas têm que acontecer em nossos tempos.
Digo isso pensando que criamos nossos próprios caminhos, opiniões, visões, interpretações, quando usamos os nossos cinco sentidos dentro de uma determinada experiência. É necessária a exposição. Por isso, hoje mais do que nunca, entendo que para viver e para amar é necessário expor-se. Cada um de sua maneira, cada um em seu tempo, cada um de sua forma. O confinamento contribui em dobro para isso. E, sem sombra de dúvidas, estou radiante com os rumos que as coisas estão tomando. O mundo real pode ser grotesco, ainda me sinto desconfortável por aqui, mas sigo em frente. Apenas sigo. E penso, reflito.
As minhas emoções foram para diversas direções nesta casa. Consegui driblar minhas angústias lendo e usando um caderninho (escrevo frases, trechos e poemas que me impactaram e também permito-me criar novos entendimentos e histórias). “Ser recusado pelo meu sogro/ não pode tornar-se um gozo/ de sofrimento num corpo amoroso/ Entenda: isso é mesmo doloroso”. Não sou bom em construir poemas, mas, por algum motivo, em momentos extremos gosto de produzi-los. Acima está um trecho de um poema que escrevi quando estava no auge de meu desconforto. E, de fato, eu estava certo: é realmente doloroso, mas não preciso deixar essa sensação dominar-me. Além disso, refugio-me na literatura e na escrita, pois é difícil, para mim, falar sobre esse assunto de forma aberta e totalmente sem filtros. Não posso dividir tudo com meu companheiro e também é difícil com que eu exponha tudo o que sinto com minha psicóloga — estou sendo consultado de forma online e por estar na casa de meu amado, as chances de eu ser escutado são maiores, a acústica da casa tem seus problemas.
A gagueira, inclusive, que é algo que me traz dores de cabeça, está inativa quando busco métodos de alívio que não utilizam a fala.
O percurso agora é outro
A pandemia da covid-19 tem mostrado a todos e todas caminhos muito singulares, travessias dolorosas e, sobretudo, visões reformuladas. Hoje recebi a notícia de que meu pai foi demitido de seu emprego. Ele obtinha a maior renda de minha casa. Eu, meus pais e minha irmã tínhamos planos de nos mudar de casa, queríamos uma residência mais confortável e que nos desse privacidade.
Infelizmente esse sonho teve que ser adiado e eu estou imobilizado. Foram tantas surpresas que março, abril, maio e junho de 2020 proporcionaram-me. Eu entendo que neste momento eu preciso agir e ajudar com mais firmeza os meus pais nas contas de casa. Tenho feito isso desde abril, quando a quarentena foi necessária e afetou em minha renda familiar (antes de ser demitido, meu pai foi dispensado). Sei dos percalços que é ser gay afeminado e gago. Entendo as dispensas que obtive em vagas de emprego ou de estágio por causa disso. Dói-me saber a inexatidão de Dói-meu destino.
Comecei o texto falando de uma experiência e acabei-o falando de outra. O fluxo da vida tem mostrado que existe e que não dá avisos prévios. Suponho que
191 é hora de aceitar as coisas, pois o que aconteceu terá acontecido. Não há mais nada que eu possa fazer. Pretendo voltar para Belo Horizonte na semana que vem, encarar de frente as feras que preciso conhecer. O meu maior desejo é que as pessoas certas entrem em meu caminho, gostem do que demonstro ser e possam contribuir para as mudanças que quero realizar em minhas vidas e nas vidas daqueles que amo com muita intensidade. A quarentena tem sido o puro caos. Neste momento, sinto-a insuportável. O que a torna enfrentável é a presença de Rodrigo. Ele escuta-me, ajuda-me (até financeiramente) e contribui para as minhas melhoras. E digo isso visando a potência de meu relacionamento, que favorece o meu avanço como pessoa. Então, é hora de mudar-me mais uma vez. Encarei meu sogro, agora é hora de presenciar a queda de minha renda familiar e a frustração de sonhos não realizados. O que você quer de mim, Corona?
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