4.3 A ORIGEM DO FACT-CHECKING
4.3.1 Panorama da checagem de fatos
A prática de fact-checking vem ganhando destaque não só no cenário midiático contemporâneo, mas também em conferências, debates e formações para jornalistas. Isso é importante porque o discurso dos jornalistas sobre sua prática é um dos elementos indicados por Charron e Bonville (2016) para identificar tendências de mudança. No 13º Congresso da Abraji98, a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo, realizada em junho de 2018, em São Paulo, a desinformação e a verificação marcaram os debates, contando com a presença de pesquisadores de destaque internacional, como Claire Wardle99 e Jason Reifler100. Foi também durante o Congresso da Abraji que 24 veículos de mídia brasileiros anunciaram a coalizão ComProva, liderada pela própria Abraji e pelo First Draft – projeto liderado por Wardle –, para verificar discursos e desbancar boatos durante a campanha eleitoral brasileira de 2018, corroborando para a construção de um discurso de legitimação social que reaproxima jornalismo e verdade.
Tido como um dos pioneiros no fact-checking, o site PolitiFact101, fundado em 2007, nos Estados Unidos, ganhou o prêmio Pulitzer em 2009, na categoria Reportagem Nacional, pela cobertura das eleições presidenciais de 2008. Iniciativas inspiradas nessa experiência pioneira crescem a cada ano e hoje já contam até mesmo com uma rede internacional de colaboração – a International Fact-Checking Network (IFCN), ligada ao Poynter Institute, com sede na Florida. O princípio básico dessas iniciativas é etiquetar102 informações, apresentando dados que permitam comprová-las ou desmenti-las – e inserir os links consultados para que o leitor possa acessar as fontes de informação, se desejar. A priori, o fact-checking pode ser tomado como prática desviante do paradigma do “jornalismo de comunicação”, uma “microinvenção”, da qual emerge um tipo específico de texto jornalístico, constituído pelo processo de apuração em si.
98 O Congresso da Abraji é tido entre os jornalistas brasileiros como o principal evento profissional da área, reunindo centenas de jornalistas e convidados internacionais a cada ano. Participei da 13ª edição como palestrante, apresentando o case do Filtro Fact-checking.
99 Já citada neste trabalho, Wardle é professora na Universidade Harvard e tem realizado importantes estudos sobre a “desordem informacional”.
100 Reifler é pesquisador na Universidade de Exeter e é coautor em artigos que analisaram o impacto das “notícias falsas” nas eleições dos Estados Unidos de 2016. Seu trabalho também é referenciado nesta pesquisa. 101 politifact.com
102 Cada agência de checagem define, a seu critério, as etiquetas que irá utilizar (ver capítulo 5). O método de etiquetagem prevê etiquetas “intermediárias”, pois nem sempre é possível crivar uma informação como verdadeira ou falsa. Exagerado, contraditório, insustentável e impreciso são alguns exemplos dessas etiquetas.
Ao redor do mundo, o fact-checking vive uma expansão prodigiosa, e cresceu em número e notoriedade no Brasil em 2018103. Em seu discurso de boas-vindas aos 225 participantes de 55 países no 5º Global Fact-checking Summit, realizado em Roma, em junho de 2018, Alexios Mantzarlis, diretor da IFCN, destacou o crescimento da prática desde a primeira edição do encontro, em 2014. Muito embora o número de iniciativas seja crescente, o cenário não é assim tão favorável, uma vez que, dos 42 fact-checkers certificados pela IFCN que responderam a uma pesquisa da rede104, 26 operaram com orçamento de 100 mil dólares ou menos em 2017, e o número total de funcionários em tempo integral nesses projetos foi de 229 (MANTZARLIS, 2018, on-line)105.
Chama atenção que 64,3% dos signatários se identificam como organizações sem fins lucrativos, 28,6% pertencem a um grupo de mídia comercial e 7,1% são iniciativas acadêmicas. Todos afirmaram que publicam seus conteúdos primeiro em plataformas online, ainda que tenham parcerias com jornais, rádios e canais de televisão para divulgar checagens em outros formatos. Dos 42 respondentes, 11 têm oito anos ou mais de existência, o que, para os analistas do relatório, é um sinal da longevidade da prática.
O diretor da IFCN reconhece que isso representa cerca de 50% de todos os projetos de fact-checking do mundo, pois há muitos não-signatários da rede em atuação. Mas ele destaca: “O que mais mudou desde o primeiro encontro global não é o número de verificadores de fatos ativos. É o papel que eles desempenham” (MANTZARLIS, 2018, on-line)106. E complementa: “Nossa influência cresceu muito mais rápido do que nossos números” (MANTZARLIS, 2018, on-line)107.
Mantzarlis (2018) cita o Brasil entre os países em que agências de fact-checking foram chamadas para aconselhar formuladores de políticas públicas contra fake news e nos quais opera a parceria do Facebook com agências de checagem. Os ataques sofridos por jornalistas de agências de fact-checking após o anúncio da parceria com a rede social108 são tomados
103 Ver seção 1.2 – Novas práticas, novos textos
104 Todas as informações constam no documento State of the Fact-checkers, divulgado pela IFCN Poynter no Global Fact, em junho de 2018. Ver referências finais.
105 Of the forty-two IFCN verified fact-checkers here today, twenty-six operated with a budget of $100,000 or less in 2017. The total number of full-time employees working for those fact-checking projects last year was 229, almost precisely the same as the total number of participants of this conference.
106 What has changed most since the first Global Fact isn’t therefore the number of active fact-checkers. It’s the role they play.
107 Our clout has grown much faster than our numbers have.
108 Jornalistas de Agência Lupa, Aos Fatos e Truco sofreram uma onda de ataques em seus perfis pessoais em redes sociais logo após o Facebook anunciar, em maio, a parceria com os verificadores para sinalizar
informações duvidosas na rede. Um documento intitulado “Censores”, com mais de 300 páginas, circulou pelas redes sociais expondo dados da vida pessoal dos jornalistas e classificando-os como de “extrema-esquerda”, no intuito de desqualificar seu trabalho. No capítulo 5 são recuperados outros exemplos de ataques.
como referência quando o diretor da IFCN passa a descrever o que ele considera “o momento mais delicado desde sua reinvenção na era digital, em 2003”:
Uma nuvem escura paira sobre nós. O descontentamento e a desconfiança que atormentam os meios de comunicação da mídia tradicional há muitos anos estão se espalhando para os verificadores de fatos. Na Turquia, nas Filipinas e, especialmente, no Brasil irromperam na forma de campanhas coordenadas destinadas a difamar a checagem de fatos. (MANTZARLIS, 2018, on-line)109.
O que o jornalista diz na sequência dá o tom do encontro: “O fact-checking não é mais o movimento jornalístico novato e reformista que avança de vento em popa, empurrado por ventos de expectativas positivas. Somos os árbitros de uma guerra cruel pelo futuro da internet” (MANTZARLIS, 2008, on-line)110. Enfim, Mantzarlis afirma que os fact-checkers já não podem mais “bancar os inexperientes” e que é necessário “pensar profundamente sobre como nosso movimento reformista talvez precise reformar a si próprio”111.