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4.2 A REDESCOBERTA DA VERIFICAÇÃO

4.2.1 Verdade, veracidade e objetividade

A verdade é o “primeiro e mais confuso” princípio jornalístico (KOVACH; ROSENSTIEL, 2004, p. 59). Está presente nos códigos deontológicos da profissão no mundo todo e, não raro, confunde-se com o próprio conceito do que é notícia. Se voltarmos à discussão sobre a expressão “notícias falsas” apresentada anteriormente, temos exemplos de como a reafirmação do compromisso jornalístico com a verdade é acionada na argumentação de muitos pesquisadores. Há uma expectativa de que a notícia tenha sempre uma “pretensão de verdade”. “Não há notícia sobre a qual não se imponha legitimamente uma obrigação de veracidade; aliás, só é notícia um ato verbal que comporte uma pretensão de ser verdadeiro” (GOMES, 2009, p. 11).

Ao discutir a “pretensão de verdade” no jornalismo, Wilson Gomes (2009) trata de fazer uma distinção entre verdade e veracidade, que nos parece útil para compreender a forma como o fact-checking retoma esse princípio normativo:

Sentenças podem ser verdadeiras ou falsas, em virtude da sua capacidade objetiva de expressar o que as coisas são, enquanto pessoas e argumentos podem ser ou não verazes, em virtude de formularem as suas expressões e os seus argumentos com ou sem sincera pretensão de que sejam verdadeiros. (GOMES, 2009, p. 10).

Portanto, diz o filósofo, o jornalismo é uma atividade integralmente afetada pela norma da veracidade, e empenha-se para que a verdade do que diz não seja apenas uma

79 International Fact-checking Network (IFCN) é a rede que congrega iniciativas de checagem no mundo todo. Baseada no Instituto Poyter, na Florida, a IFCN certifica seus signatários no intuito de garantir que sigam os protocolos compartilhados internacionalmente.

convicção subjetiva. “O jornalismo não se compromete apenas, em outras palavras, a ser honesto e sincero, mas a trabalhar objetiva e metodicamente para afastar o risco do engano ou do erro” (GOMES, 2009, p. 11).

Essa norma pragmática da veracidade ganha forma no compromisso entre o jornalismo e seus leitores, convertendo-se em um princípio moral, que estaria associado à legitimação do jornalismo como uma narrativa que pretende dizer algo sobre a realidade. Ou, como se pode inferir a partir de Miquel Rodrigo Alsina (2009), desenvolvendo rotinas para a produção de um discurso escrito “para dizer a verdade”, os jornais estabeleceram um contrato pragmático fiduciário com seus leitores, “um produto histórico da institucionalização e da legitimação do papel do jornalista” (ALSINA, 2009, p. 48). E também da construção da credibilidade dos jornais: “A credibilidade dos meios de comunicação está ligada à veracidade das notícias, à honestidade com que são tratadas, à exatidão de seu conteúdo” (CORNU, 1998, p. 65).

Como um princípio básico dos códigos deontológicos do jornalismo e parte de seu discurso social de legitimação, a verdade é muitas vezes associada à qualidade da informação:

Para que seja considerada boa, a imprensa deve corresponder às exigências da verdade: informações exatas, verificadas, apresentadas de modo equânime, opiniões expostas com honestidade livres de preconceitos, relatos jornalísticos verídicos e ciosos de sua autenticidade. (CORNU, 1998, p. 64).

A verdade é também uma das três condições elencadas por Silvia Lisboa e Marcia Benetti (2015) em um artigo no qual sustentam o jornalismo como “crença verdadeira justificada”. As pesquisadoras defendem que o jornalismo deve cumprir três condições para se tornar um conhecimento, sendo, além da verdade, a crença e a justificação. “Basicamente, o sujeito deve crer que o jornalismo diz a verdade, e esta verdade deve estar justificada em seu próprio discurso” (LISBOA; BENETTI, 2015, p. 11). Para as autoras, são esses os pilares que sustentam a crença no discurso jornalístico – ou sua credibilidade. Contudo, segundo as pesquisadoras, “os valores que sustentam a credibilidade percebida – atribuída pelo leitor – nem sempre correspondem aos valores “canônicos” que desenham o ethos do jornalismo e que são geralmente associados à credibilidade constituída” (idem, p. 12)80.

80 Lisboa e Benetti retomam a diferenciação entre a credibilidade constituída do jornalismo e a credibilidade percebida pela audiência em artigo posterior. “A credibilidade constituída diz respeito ao perfil do enunciador (jornalista, veículo jornalístico ou o próprio jornalismo) e do quanto ele se aproxima das dimensões ideais e socialmente reconhecidas sobre o que torna um enunciador digno de confiança. Há também questões de natureza subjetiva que são de difícil mensuração, mas que não podem ser desprezadas porque impactam na percepção do que é um orador credível. Já a credibilidade percebida é resultado da avaliação que o leitor faz do jornalismo a partir de indicadores

Se é notório que o compromisso com a verdade e a veracidade dos relatos sobre a realidade sustentaram a legitimação do jornalismo informativo no século XX, por outro lado, “os próprios jornalistas nunca tiveram uma noção clara do que querem dizer com veracidade” (KOVACH; ROSENSTIEL, p. 66). Tampouco com objetividade.

Kovach e Rosenstiel (2004, p. 68) dizem que a “verdade jornalística” é um processo seletivo. O que o jornalismo procura é “uma forma prática e funcional da verdade. Não a verdade no sentido absoluto ou filosófico”. E acrescentam: “A coerência deve ser o teste derradeiro da verdade jornalística” (KOVACH; ROSENSTIEL, 2004, p. 70). Gomes (2009, p. 13) daria uma pista para compreender essa coerência como a “adequação entre as coisas e o nosso entendimento delas”. Recorrendo às noções de “semiose ilimitada” de Peirce81 e dos “limites da interpretação” de Umberto Eco82, Gomes sustenta que:

É possível fazer com que um fato diga muitas coisas, é possível interpretá-lo de várias maneiras e, em alguns casos, num número potencialmente infinito de modos; o que não é possível e, sobretudo, não se pode fazer com legitimidade, é fazê-lo dizer o que efetivamente não diz, interpretá-lo de qualquer sorte. (GOMES, 2009, p. 61, grifos originais).

A objetividade surge como norma adjacente à verdade, como um princípio orientador dos procedimentos na busca pela verdade sobre os fatos:

Uma boa informação apresenta o reflexo do essencial dos fatos ocorridos no dia. Ela é plural e deve visar a objetividade, em particular, pela apresentação de todos os seus elementos constitutivos e a ausência de manipulações. Sua elaboração assenta-se em procedimentos de verificação de fatos e de controle de fontes. (CORNU, 1998, p. 65).

Em obra anterior, Daniel Cornu (1994, p. 326) chega a afirmar que “a discussão sobre a verdade no domínio jornalístico parece concentrar-se por inteiro na questão da objetividade, que lhe é subsidiária”. Para ele, se tivéssemos que exprimir a exigência da verdade no jornalismo em um só critério prático, este seria o “rigor do método”.

presentes na credibilidade constituída” (LISBOA; BENETTI, 2017, p. 58)

81 Charles Sanders Peirce (1839-1914), filósofo estadunidense que desenvolveu o conceito de semiose ilimitada para designar o processo de produção de significados na interação entre o signo, seu objeto e sua interpretação. 82 Umberto Eco (1932-2016), semiólogo italiano, cuja obra “Os Limites da Interpretação”, publicada em 1992, tratou sobre a interpretação de textos, no sentido semiótico da palavra, e seus limites.

O rigor é ir ao fundo das investigações materialmente realizáveis, no tempo dado para essas pesquisas. É a recolha de todos os factos confirmados disponíveis. É tudo o que se opõe à falsificação, à deformação, à mentira. (...) O jornalista não está dispensado de recorrer aos instrumentos elementares da sua deontologia, a fim de garantir uma correcta descrição dos factos: publicar unicamente informações cuja origem conhece, ou senão acompanhá-las das reservas necessárias; não suprimir informações essenciais; não alterar nem textos, nem documentos; rectificar uma informação publicada que se revele inexacta. (CORNU, 1994, p. 391, grifos originais).

Como se vê, o compromisso com a verdade, a norma da veracidade ou a disciplina da verificação sempre escorregam para o conceito de objetividade – defendida como método para se desvelar os fatos. Lippmann (2008) foi um dos primeiros na defesa de um “espírito científico”, que implicaria uma educação jornalística baseada no estudo da prova e da verificação – no método – já que “os fatos não são simples e nem tão óbvios” (LIPPMANN, 2008, p. 294). É interessante que, ao revisitar o tema da verdade nas notícias em Opinião Pública, Lippmann trata de distinguir verdade e notícia, e manifesta, por meio de uma nota de rodapé, que quando escreveu Liberty and the News não havia entendido suficientemente tal distinção: “A função das notícias é sinalizar um evento, a função da verdade é trazer luz aos fatos escondidos, pô-los em relação um com o outro e fazer uma imagem da realidade com base na qual os homens possam atuar” (LIPPMANN, 2008, p. 304).

Liriam Sponholz (2009) também defende a objetividade jornalística como método. “O que está em jogo não é a aproximação do texto jornalístico da verdade, mas sim o caminho para a verdade” (SPONHOLZ, 2009, p. 150). As técnicas utilizadas devem permitir a confiabilidade do processo. “Isto significa que as fontes e o método utilizado devem ser transparentes para que outros jornalistas ou experts possam repetir o mesmo procedimento dentro das mesmas condições” (SPONHOLZ, 2009, p. 153).

A remissão à transparência do método é salientada na concepção de “objetividade jornalística” da pesquisadora, que faz questão de diferenciá-la da “objetividade em jornalismo”:

Objetividade em jornalismo é entendida como a correlação entre a realidade midiática e a realidade social. Objetividade jornalística se refere à produção desta correlação. Para produzir tal correlação, a observação da realidade através dos jornalistas deve seguir regras e normas que contribuem para evitar uma percepção falsa. (SPONHOLZ, 2009, p. 17).

Assim, a objetividade jornalística está ligada ao processo de produção da notícia – ao método jornalístico: “o sistema de regras que tem como objetivo a produção de uma semelhança estrutural entre realidade social e realidade midiática” (SPONHOLZ, 2009, p. 17). Na descrição da disciplina da verificação, Kovach e Rosenstiel (2004, p. 118) perseguiam justamente esse sistema de regras, mas admitem que “não existe nada que se aproxime de regras padrão para levantar provas, como no Direito, ou um método consensual de observação, como na realização de experiências científicas”. Também consideram que, “no conceito geral, o método seria objetivo, não o jornalista” (KOVACH; ROSENSTIEL, 2004, p. 116). E postulam os conceitos básicos do método jornalístico de apuração traduzido na disciplina da verificação:

1. Nunca acrescente nada que não exista. 2. Nunca engane o público.

3. Seja o mais transparente possível sobre seus métodos e motivos. 4. Confie só no seu próprio trabalho de reportagem.

5. Seja humilde. (KOVACH; ROSENSTIEL, 2004, p. 123)

Destaca-se, para a discussão do “jornalismo de verificação” como tipo específico, a transparência como “a melhor proteção contra erros e enganos por parte das fontes” (KOVACH; ROSENSTIEL, 2004, p. 127). O princípio é o mesmo que orienta o método científico: “explicar como aprendemos alguma coisa e por que nela acreditamos – de forma que o público possa fazer a mesma coisa” (KOVACH; ROSENSTIEL, 2004, p. 128)

Na ciência, a confiabilidade de um experimento, ou sua objetividade, se define pelo fato de se alguém pode ou não reproduzir o experimento. No jornalismo, só explicando como sabemos o que sabemos podemos fazer com que o público possa, queira, reproduzir a informação. É isso o que significa objetividade de método na ciência, ou no jornalismo. (KOVACH; ROSENSTIEL, 2004, p. 128).

Os pesquisadores defendem um jornalismo mais transparente porque acreditam que “isso ajudará, a longo prazo, no surgimento de um público mais perceptivo. Um público que pode prontamente ver a diferença entre o jornalismo de princípio e a imitação descuidada e de interesse próprio” (KOVACH; ROSENSTIEL, 2004, p. 131).

A crítica corrente ao fact-checking é que, ao se agarrar a esses princípios normativos, especialmente o da objetividade, ficam de fora nuances do discurso público que não correspondem a critérios “objetivos” de seleção do que é checável. Na descrição de sua metodologia, as agências de checagem delimitam como verificáveis discursos que contenham

números, dados estatísticos, comparações, que remetam a fatos históricos ou jurídicos83. “Em nome de um jornalismo ‘moderno’ e ‘objetivo’, desprezou-se a reportagem – em especial, a reportagem em profundidade – para dar lugar a um enfoque que privilegia as estatísticas como a medida suprema da verdade” (FUSER, 1996, s/p). Os desdobramentos dessa crítica fazem parte da discussão da próxima seção, que consiste no estudo exploratório desta pesquisa.