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Panorama sobre mulher e trabalho no Brasil

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1.2. Do privado ao público: a mulher no trabalho

1.2.4. Panorama sobre mulher e trabalho no Brasil

Os resquícios históricos e sociais da caracterização do trabalho feminino como menos relevante em relação ao masculino ainda estão presentes até os dias atuais. Durante as discussões do primeiro capítulo, o caráter simbólico envolvido na hierarquia androcêntrica de gênero não deve ser entendido como irreal, pois as suas consequências subjetivas encontram consequências objetivas no mercado de trabalho brasileiro. Os estereótipos de gênero, de tão naturalizados que estão na dinâmica social, são mais facilmente explicitados por meio de levantamentos que comparam a distinta ocupação de homens e mulheres por carreira.

A segregação de gênero, por exemplo, pode ser percebida em meio à distribuição dos estudantes pelas diversas áreas do conhecimento, como mostram os dados do Censo da Educação Superior do INEP de 20133. Em uma análise geral, o levantamento aponta que a

3 Censo da Educação Superior 2013, realizado pelo Inep, disponível em:

<http://download.inep.gov.br/download/superior/censo/2013/resumo_tecnico_censo_educacao_superior_2013.p df>.

ocupação das mulheres na graduação é superior a dos homens, com 57,2% do total de estudantes. Por outro lado, os cursos de graduação mais procurados pelos homens são relativos às áreas das exatas, tais como engenharia, matemática e computação, enquanto as mulheres têm participação mais expressiva nas áreas da educação, saúde e serviços, segmentos dedicados ao cuidado, historicamente associados ao feminino.

Ao analisar a participação dos sexos pelas áreas do conhecimento verifica-se que nas “Humanidades e Artes” elas são 55,8%, na “Saúde e Bem-Estar Social” estão ainda mais fortemente concentradas com 76,5%, enquanto nas “Ciências, Matemática e Computação” chegam a apenas 31%, e em quantidade semelhante na “Engenharia, Produção e Construção”, com 31,5% de mulheres. Tais disparidades evidenciam como as ciências exatas, enquanto responsáveis pela produção de conhecimento de maior reconhecimento social, estão mais alinhadas ao universo masculino, o que reforça a ideologia de objetividade associada às características masculinas. Ao mesmo tempo em que às mulheres tendem a ser reservados os espaços do cuidar, da subjetividade e da emotividade.

A Síntese de Indicadores Sociais (2015), que divulgou a análise das condições de vida da população brasileira, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), fornece diversos levantamentos e recortes que possibilitam refletir sobre a ocupação do mercado de trabalho brasileiro por uma perspectiva de gênero. Os dados de 2014 foram colocados em uma perspectiva histórica de dez anos, e dentro das relações de trabalho destaca- se o esforço em mensurar e compreender a participação dos trabalhadores entre os mercados formal e informal. A economia informal ou subterrânea4 é a parte da economia, conforme Barbosa Filho (2008), que se desenvolve à margem do mercado formal de trabalho. Esta é caracterizada por não pagar tributos, não ser regulada, não ser controlada pelo poder público e nem contabilizada nas estatísticas governamentais.

Evidencia-se o caráter multifacetado e complexo desta parcela da economia, cujo fenômeno pode ser classificado, em pelo menos, três aspectos: político, social e econômico. Na esfera política, caracteriza-se pela fuga da regulamentação governamental, descumprimento da legislação e a falta de mensuração na renda nacional (PIB). No âmbito social, diferencia-se por uma maior autonomia e flexibilidade na relação de trabalho, maior facilidade na inserção e desenvolvimento de atividades produtivas. E, por fim, no aspecto econômico, assinala-se: a baixa ou nula carga tributária sobre as atividades econômicas; reduzidos custos de atendimento

4 Economia Subterrânea é o termo usualmente utilizado na literatura econômica para designar as atividades

à regulamentação; reduzidos custos legais, trabalhistas e previdenciários; e uma alternativa de trabalho aos desempregados.

Historicamente, a economia informal chamava pouca atenção e era negligenciada, pelo fato de ser considerada marginal e residual em relação à economia formal. Contudo, esta concepção foi alterada após as primeiras estimativas do tamanho e relevância da economia subterrânea. Dada a sua importância, o Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (lbre/FGV) aponta que 16,2% do PIB do Brasil correspondeu à economia informal em 2015. Ainda, aponta-se que entre 2003 e 2015 esta parcela da economia movimentou R$ 12,47 trilhões.

Assim sendo, ao crescimento desta economia deve-se, sobretudo, a menor burocracia e custo para exercer as atividades produtivas, maior flexibilidade e necessidade de menor qualificação para exercer as atividades laborais. Ademais, outros fatores que podem impulsionar a sua expansão são a complexidade e onerosidade do sistema tributário, trabalhista e legal de determinado país, assim como, o seu nível de desenvolvimento: pois na média os países menos desenvolvidos possuem maior grau de informalidade no trabalho. Neste sentido, o aprofundamento da desigualdade na distribuição de renda e recessões econômicas tende a diminuir as oportunidades de emprego no mercado formal e aumentar a inclusão na economia paralela.

Além disso, os agentes econômicos no mercado de trabalho informal por estarem sujeitos a reduzidos ou nulos custos legais, trabalhistas e previdenciários tendem a ter maiores ganhos financeiros. No entanto, na maioria dos casos, estes não são compartilhados com os empregados. Uma vez que os termos de negociação entre empregador e empregado, em um ambiente desregulado, tende a favorecer a parte de maior poder de barganha, o empregador. Ainda, o indivíduo que recorre à informalidade, em geral, é motivado pela impossibilidade de inserção adequada no trabalho formal e vislumbra uma alternativa ao aceitar os termos de troca inferiores na relação de trabalho informal.

Por meio da realização de entrevistas com as fotojornalistas, e da análise sobre o atual contexto das relações de trabalho dentro da área da comunicação, sobretudo dentro dos veículos de mídia, verificou-se a forte influência que as relações informais de trabalho ocupam. Assim, na tentativa de refletir sobre esse panorama por uma perspectiva de gênero reunimos alguns recortes sobre os dados divulgados pela Síntese de Indicadores Sociais (2015), do IBGE, que oferecem subsídios para comparação entre a questão específica de relações formais e informais. A tabela 1 traz a comparação entre os indicadores estruturais do mercado de trabalho por sexo.

Tabela 1 - Indicadores estruturais do mercado de trabalho para população com 16 anos ou mais por sexo (em milhões de Habitantes)

Sexo Ano PEA5 PNEA6 PIA7 Ocupada Desocupada Formal Informal Homens 2004 22,7 25,2 3,4 10,9 62,2 2014 32,6 23,0 3,1 15,5 74,2 Mulheres 2004 15,0 19,8 4,5 28,6 67,9 2014 24,0 18,5 4,0 35,0 81,5 Total 2004 37,7 45,0 7,9 39,5 130,1 2014 56,6 41,5 7,1 50,5 155,7 Variação no Período Homens 43,6% -8,7% -8,8% 42,2% 19,3% Mulheres 60,0% -6,6% -11,1% 22,4% 20,0% Total 50,1% -7,8% -10,1% 27,8% 19,7%

Fonte: Dados extraídos da Síntese de Indicadores Sociais (INSTITUTO...., 2015).

No período, a população feminina ocupada avançou 21,9%, enquanto o aumento da população masculina efetivamente no mercado de trabalho foi de 16,3%, mas eles ainda constituem a maior parte da população ocupada. Os dados evidenciam um aumento de 50,1% no total de pessoas no mercado formal, e dentro deste nicho as mulheres foram as que mais cresceram, em 60%, em comparação com os homens, com 43,6%. Os dados podem indicar que após um momento de crise o mercado formal pode estar se recuperando e recontratando profissionais, e dentro do contexto de recessão as mulheres podem ter sido o grupo que mais sofreu cortes, possivelmente pelo estereótipo empresarial dos homens ser mais importantes como arrimo de família e elas serem consideradas potencialmente mais onerosas pela expectativa cultural de afastamentos por razões familiares e reprodutivas.

O mercado informal que em 2004 era o que mais concentrava trabalhadores de ambos os sexos, diminuiu a sua dimensão em favor do trabalho formal em 2014. Houve uma queda em ambos os sexos perante a atividade informal, entretanto, comparativamente, as mulheres foram as que menos diminuíram a participação neste mercado, abaixo da variação total, o que

5População Economicamente Ativa (PEA). Representa a parcela da população acima de 15 anos que está

inserida no mercado de trabalho ou que, de certa forma, está procurando se inserir nele para exercer algum tipo de atividade remunerada. É a soma da população ocupada e desocupada.

6População Não Economicamente Ativa (PNEA). Representa a parcela da população acima de 15 anos que está

desempregada e não busca emprego, como estudantes que não trabalham e donas de casa que exercem funções domésticas não remuneradas.

7População em Idade Ativa (PIA). Representa a soma da População Economicamente Ativa (PEA) e da

pode ser motivado também pela flexibilidade desta modalidade de trabalho permitindo maior chance de coadunar as atividades domésticas e produtivas, ainda fortemente vinculadas às mulheres. Por meio dos números é possível afirmar a importância do mercado informal, que apesar da retração de trabalhadores ocupados no período ainda constitui uma parcela significativa do mercado, oferecendo uma saída para o desemprego, também em queda no período, e dividindo a população ocupada.

A comparação entre os rendimentos médios provenientes das atividades formal e informal por sexo, representados na tabela 2, evidencia a atividade formal como fonte de maiores ganhos financeiros, em comparação com a informalidade. A diferença entre os salários daqueles ocupados em trabalhos formais e informais era maior que o dobro em 2004, diferença que diminuiu em 2014, mas ainda permanece significativa, apontando o setor formal como o de maior estabilidade trabalhista e cuja oportunidade de participação tende a ser traduzida em maiores salários.

Tabela 2 - Comparação entre rendimentos médios formal e informal por sexo

Sexo Ano

População Ocupada - Rendimento Médio8 Formal Informal Homens 2004 2014 1.818 2.293 1.361 899 Mulheres 2004 1.314 567 2014 1.763 887 Total 2004 1.616 768 2014 2.068 1.165 Variação no Período Homens 26,1% 51,4% Mulheres 34,2% 56,4% Total 28,0% 51,7%

Fonte: dados extraídos da Síntese de Indicadores Sociais (INSTITUTO...., 2015).

A variação de renda no período demonstra um aumento salarial real de 28% para os atuantes na formalidade, e de 51,7% entre os informais, sinalizando uma tendência de melhora da remuneração informal ao diminuir a diferença entre as modalidades empregatícias. Na

compreensão deste relacionamento destes dois mercados, formal e informal, Barbosa Filho (2008) explica que o comportamento da economia subterrânea pode se expandir juntamente com a economia formal ou quando há a queda desta. Ambos os efeitos são possíveis. No primeiro caso, com o crescimento da atividade econômica há grande demanda de bens e serviços que também se apoiam no mercado informal para ser atendida. Em outras palavras, o acelerado crescimento da economia regular faz com que seja necessária uma maior produção da economia paralela.

Já no segundo caso, mediante a queda da atividade formal, há um maior contingente de desempregados que não conseguem a reinserção do mercado formal e vislumbraram o mercado informal como uma alternativa ao sustento e sobrevivência em um cenário econômico mais adverso. No caso do período de 2004 a 2014, houve um misto das duas situações, pois o PIB brasileiro oscilou bastante, passando pela recessão de 2009, uma forte recuperação em 2010, e depois queda gradativa até 2014, em um contexto em que a economia informal ofereceu tanto apoio quanto oportunidade de inserção frente à falta de empregos formais, ou colocando em prática a estratégia de aumento da margem de lucro sem o pagamento de impostos e encargos trabalhistas.

Ao considerar uma perspectiva de gênero, destaca-se o contexto de menor remuneração média feminina tanto formal quanto informalmente em todos os períodos em comparação com os rendimentos masculinos. Dentro deste contexto, o setor informal foi o que apresentou maior diferença, em que a remuneração dos homens foi 34% maior do que o das mulheres na média, em comparação com o setor formal, em que a defasagem ficou em 23,11%. A questão indica a maior precariedade do trabalho feminino, frente ao masculino, no mercado informal já caracterizado pela falta de regulamentação econômica e trabalhista, podendo representar uma expressão do estereótipo de mão de obra secundária que paira sobre as mulheres. Os números são sugestivos em apontar que o trabalho feminino tende a ser desvalorizado em todos os âmbitos de atividade, quando comparado à remuneração masculina, e que dentro deste contexto a atividade informal representa um gargalo ainda maior. E a inserção no mercado formal representa para ambos os sexos uma oportunidade real de receber melhores rendimentos em relação à informalidade, e ainda contar com a garantia dos direitos trabalhistas.

Sobre o trabalho feminino ainda pesa o acúmulo expressivo de trabalho doméstico, em uma associação cultural das esferas doméstica e produtiva que pouco se alterou na última década, ver tabela 3. Apesar do número de homens ocupados que realizam afazeres domésticos apresentar um aumento de 24,4%, enquanto na população feminina essa variação foi de 21,0%, em 2014, as mulheres ainda correspondem à maioria desta população, representando 57,46%.

Comparativamente, a jornada de trabalho principal de ambos os sexos pouco se alterou nos últimos anos, decrescendo em 2,4 horas para os homens, entretanto esta diminuição não influiu no aumento da dedicação masculina frente aos afazeres domésticos (ver tabela 3).

Tabela 3 - Média de horas semanais trabalhadas no Trabalho Principal, Afazeres Domésticos e Jornada Total por sexo

Sexo Ano Trabalho Principal Domésticos Afazeres Jornada Total

Homens 2004 44,0 10,0 54,0 2014 41,6 10,0 51,6 Mulheres 2004 35,5 22,3 57,8 2014 35,5 21,2 56,7 Diferença entre Mulheres e Homens 2004 -8,5 12,3 3,8 2014 -6,1 11,2 5,1

Fonte: Dados retirados do IBGE 2015

As mulheres gastam em média mais que o dobro do tempo que os homens despendem dedicadas aos afazeres domésticos, reunindo uma sobrecarga de trabalho em relação a eles que chega a 5 horas semanais, representando uma diminuição em relação aos valores de 2004. Ao mesmo tempo, a diferença entre a carga de trabalho principal entre os gêneros tende a se estreitar, como apontado no período, em reflexo da maior inserção das mulheres no mercado de trabalho, sobretudo formal, e o aumento da importância que elas atribuem às atividades produtivas.

O aumento apresentado, na parcela de trabalhadores ocupados que se dedicam aos afazeres domésticos por ambos os sexos, pode indicar um acréscimo na consciência da necessidade de dividir as tarefas no âmbito familiar, mas ainda é perceptível que estas tarefas recaem majoritariamente sobre as mulheres. A dificuldade de desvincular o papel social feminino perante os âmbitos doméstico e reprodutivo constitui um entrave simbólico e prático para o desenvolvimento das mulheres no mercado de trabalho.

Ao relacionar estas questões levantadas com a questão específica da ocupação e desenvolvimento das mulheres dentro do fotojornalismo, é possível compreender a forte carga cultural e social que as coloca em uma posição de inferioridade profissional simbólica em relação aos homens. Isto porque, a construção histórica do pertencimento das mulheres dentro

do mercado de trabalho tende a acumular a esfera doméstica, reprodutiva e de suas responsabilidades numerosas, em uma dificuldade real de dividir as demandas entre a família. A partir deste contexto, podemos compreender melhor a fala das fotojornalistas entrevistas, empenhadas que estão, mesmo em diferentes momentos de vida, em se manterem dentro de um mercado de trabalho competitivo, no qual pesa sobre elas o estereótipo feminino de menos capazes para a atividade dominada por homens. Isso as leva a sentir que devem provar constantemente a excelência das suas produções, em uma cobrança que interfere no processo de identificação delas com o fotojornalismo, por meio de aproximações e distanciamentos. Adicionalmente, a informalidade delineia-se como uma tendência de mercado, acompanhando tanto o crescimento quanto os períodos de crise da economia, ao possibilitar a subsistência daqueles sem espaço no mercado formal. Entretanto, como visto, o vínculo representa uma precarização ainda maior para a atuação feminina, sem a garantia dos direitos trabalhistas, a regulamentação da jornada de trabalho, cobertura em caso de acidente trabalhista, licença maternidade e um salário médio inferior em quase a metade do disponível formalmente.

CAPÍTULO II

FOTOJORNALISMO: RECONFIGURAÇÕES E RELAÇÕES DE

GÊNERO

A história do fotojornalismo está fortemente vinculada ao desenvolvimento do jornalismo, na medida em que evoluções culturais, sociais e tecnológicas possibilitaram que a função de mediação social fosse compartilhada pela imprensa. Ao longo da história da formação e consolidação da imprensa, é possível estabelecer ligações, entre os seus valores vigentes por época e as suas consequências sobre o fotojornalismo, em uma relação histórica marcada por mudanças constantes, rupturas, reformulações, desenvolvimento e superação de rotinas e convenções profissionais, entre a busca da objetividade e o florescimento da subjetividade, de novas formas de expressão e da expansão dos temas entendidos como fotografáveis.

Assim, neste capítulo, vamos entrelaçar os fatos mais relevantes da história do jornalismo e da fotografia para ajudar a compreender as revoluções que ocorreram no fotojornalismo, tendo como referência a obra de Jorge Pedro Souza, "Uma história crítica do fotojornalismo ocidental", além de outros autores que nos ajudam a pensar sobre essas mudanças. A publicação é uma das poucas dedicadas a estudar em profundidade os processos que influíram no desenvolvimento do fotojornalismo ocidental, ao realizar uma compilação histórica crítica que contribui para compreender "as fotografias jornalísticas como artefatos de gênese pessoal, social, cultural, ideológica e tecnológica" (SOUZA, 2004, p. 9). A localização do fotojornalismo, neste contexto mais alargado, nos auxilia a compreender os desafios que ecoam nas falas das fotojornalistas entrevistas para a presente pesquisa. Além disso, será apresentado um breve panorama do fotojornalismo na atualidade, por meio da discussão de pesquisas recentes, sobretudo dentro de um recorte de gênero.

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