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(2) . UNIVERSIDADE METODISTA DE SÃO PAULO ESCOLA DE COMUNICAÇÃO, EDUCAÇÃO E HUMANIDADES Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social. NATHÁLIA CUNHA DA SILVA. MULHERES NO FOTOJORNALISMO: Uma análise cultural da relação entre identidades de gênero e a prática do fotojornalismo na contemporaneidade. Dissertação apresentada em cumprimento parcial às exigências do Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social, da Universidade Metodista de São Paulo (UMESP), para obtenção do grau de Mestra. Orientadora: Profa. Dra. Marli dos Santos.. São Bernardo do Campo, 2017.
(3) . FICHA CATALOGRÁFICA. Si38m Silva, Nathália Cunha da Mulheres no fotojornalismo: uma análise cultural da relação entre identidades de gênero e a prática do fotojornalismo na contemporaneidade / Nathália Cunha da Silva. 2017. 156 f. Dissertação (Mestrado em Comunicação Social) -Escola de Comunicação, Educação e Humanidades da Universidade Metodista de São Paulo, São Bernardo do Campo, 2017. Orientação de: Marli dos Santos. 1. Fotojornalismo 2. Identidade de gênero 3. Prática profissional I. Título. CDD 302.2.
(4) . A dissertação de mestrado intitulada “MULHERES NO FOTOJORNALISMO - UMA ANÁLISE CULTURAL DA RELAÇÃO ENTRE IDENTIDADES DE GÊNERO E A PRÁTICA DO FOTOJORNALISMO NA CONTEMPORANEIDADE”, elaborada por NATHÁLIA CUNHA DA SILVA, foi apresentada e aprovada em 4 de maio de 2017, perante banca examinadora composta por Profa. Dra. Marli dos Santos (Presidente/UMESP), Profa. Dra. Magali do Nascimento Cunha (Titular/UMESP) e Profa. Dra. Rosana de Lima Soares (Titular/Universidade de São Paulo - USP).. ________________________________________________________. Profa. Dra. Marli dos Santos Orientadora e Presidente da Banca Examinadora. _____________________________________________________ Profa. Dra. Marli dos Santos Coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social. Programa: Pós-Graduação em Comunicação Social Área de concentração: Processos Comunicacionais Linha de pesquisa: Comunicação midiática, processos e práticas culturais Projeto temático: Práticas de investigação jornalística na contemporaneidade e relações de gênero.
(5) . Dedico este trabalho àqueles que são meus sustentáculos: minha família e meu companheiro Uirá..
(6) . AGRADECIMENTOS Tenho muito a agradecer por todo caminho que trilhei até aqui. Primeiramente, sou grata a Deus por me acompanhar, iluminar e não me deixar esmorecer. Ele também me abençoou com pais maravilhosos, esforçados em me passar valores de vida e me manter no caminho dos estudos. Aos meus pais, Marta e André, agradeço o apoio fundamental para perseguir a minha felicidade acima de tudo, por acreditarem no meu potencial e me instigarem a ir mais longe. Ao meu irmão Leonardo agradeço a paciência em ajudar a irmã de humanas nas metodologias quantitativas, e pelas nossas longas conversas de inquietações acadêmicas. Fico muito feliz em ver esse seu brilho no olhar pela vontade de pesquisar. Ao meu avô Raul (in memorian) agradeço o exemplo de curiosidade de um leitor voraz, que desde cedo me encantava com as suas histórias e o seu conhecimento. À minha avó Therezinha agradeço pelos cuidados dedicados desde a infância, e a oportunidade de agora poder retribuir a dedicação, me ensinando o sentido da vida. Agradeço à minha tia Nilza do coração por todo o carinho, cuidado, dedicação e sabedoria de vida compartilhada no seu jeito simples e sincero. Ao meu companheiro de caminhada Uirá Moreno agradeço por ser tão paciente, compreensivo, crítico, divertido e amoroso comigo em todo processo, mesmo quando nem eu estava me aguentando. O seu amor faz a minha existência mais leve e feliz. Ao Laan Mendes Barros agradeço pelas conversas e incentivo para que eu me aventurasse pela vida acadêmica e hoje poder sonhar em seguir esse caminho, também pelo seu exemplo. À Mary Rosário agradeço por todos os almoços, as dicas, as caronas, o carinho e a preocupação em me fazer sentir querida e aliviar o peso da rotina de estudos longe de casa. Ao Iberê Moreno agradeço por todas as conversas e trocas de leituras, que me ajudam a ampliar os horizontes. Tenho muito a agradecer a esta família que considero como minha e que colaboram para o meu progresso intelectual e pessoal. À minha orientadora Marli dos Santos profissional de intelectualidade ímpar, energia contagiante, grande generosidade e exemplo de que pode haver felicidade na pesquisa acadêmica. Professora Marli, sou muito grata por ter acreditado em mim, me guiado pelo mundo acadêmico e ser tão zelosa com o meu desenvolvimento. Agradeço imensamente também por ter aceitado que eu a acompanhasse nas aulas da graduação no curso de Jornalismo, e conceder a oportunidade de poder sentir que adoro esse contato de intercâmbio e estímulo aos alunos..
(7) . Agradeço também a todos os professores da pós-graduação em Comunicação por terem contribuído para a minha formação. Em especial, à Magali Cunha pelas contribuições importantíssimas sobre os estudos culturais e gênero, à Cicília Peruzzo pelos ensinamentos metodológicos e diversas consultas, à Beth Gonçalves pela ajuda em compreender o universo discursivo dentro do pós-estruturalismo e ao José Salvador Faro pelas inquietações culturais sobre a relação entre cultura e mídia. Não poderia deixar de agradecer também aos professores José Marques de Melo e Antônio Andrade pelos quase dois anos de desafios e aprendizado dentro da Cátedra Unesco/UMESP de Comunicação, como editora do Jornal Brasileiro de Ciência da Comunicação (JBCC). Aos funcionários da pós-graduação agradeço por sempre estarem a postos a ajudar, principalmente à Kátia Bizan, amiga para todas as horas. Ainda agradeço à Kátia Bizan e Arthur Marchetto por todo o auxílio na produção da pesquisa, sobretudo com as muitas horas de entrevistas. À professora Heidy Vargas Silva agradeço pelo generoso apoio à pesquisa, sobretudo pela ajuda em me ajudar a encontrar potenciais entrevistadas, a sua contribuição foi de suma importância. Agradeço a todos os meus colegas do Póscom pelas conversas, discussões, desabafos e trocas. Em especial àqueles que se tornaram mais do que colegas, ao meu irmão do coração, Ricardo Alvarenga, pela sua alegria, companheirismo e alento em todas as horas, além de todas as hospedagens maravilhosas, à Raija Camargo e Tancy Mavignier, pela partilha das inquietações de gênero, cursos e conversas de incentivo mútuo, à Adriana Rodrigues, por ser uma amiga mãezona, preocupada com o bem-estar de todos, partilhando a sua sabedoria e carinho de forma tão sincera. Ainda não poderia esquecer de agradecer ao querido Romulo Gomes por ser um amigo maravilhoso, pela acolhida carinhosa em sua casa, repletas de comidas deliciosas e muitas conversas. A todas as mulheres fotojornalistas entrevistadas agradeço, profundamente, pela confiança e dedicação com que se dispuseram em contribuir com a pesquisa, compartilhando suas experiências profissionais e de vida. Sem dúvida devo a vocês toda a riqueza deste trabalho. À Patrícia Garcia Costa da Criterium Textual agradeço pelo suporte emocional e pela revisão cuidadosa da dissertação. Por fim, agradeço à Capes - Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior, pelo apoio financeiro fundamental para a realização desta pesquisa..
(8) . LISTA DE TABELAS Tabela 1 - Indicadores estruturais do mercado de trabalho para população com 16 anos ou mais por sexo (em milhões de Habitantes)...............................................................................52 Tabela 2- Comparação entre rendimentos médios formal e informal por sexo.......................53 Tabela 3 - Média de horas semanais trabalhadas no Trabalho Principal, Afazeres Domésticos e Jornada Total por sexo ..........................................................................................................55.
(9) . LISTA DE QUADROS. Quadro 1 – Etapas de seleção das fotojornalistas ...................................................................98 Quadro 2 – Distribuição das entrevistas segundo faixa etária e vínculo empregatício ..........98 Quadro 3 - Síntese do perfil das fotojornalistas entrevistadas ..............................................102.
(10) . SUMÁRIO. INTRODUÇÃO.......................................................................................................................13 CAPÍTULO I ...........................................................................................................................18 MULHERES, CULTURA E TRABALHO ..........................................................................18 1.1. Formação dos estereótipos de gênero ............................................................................18 1.1.1. Produção cultural de sexo e gênero ........................................................................19 1.1.2. Poder e interdição da sexualidade ...........................................................................22 1.1.3. Construção da identidade de gênero .......................................................................27 1.1.4. Divisão sexual dos papéis sexuais ..........................................................................32 1.2. Do privado ao público: a mulher no trabalho ................................................................36 1.2.1. Sagração da mãe e dona de casa .............................................................................36 1.2.2. Consumismo e a realização profissional .................................................................40 1.2.3. Divisão sexual do trabalho ......................................................................................45 1.2.4. Panorama sobre mulher e trabalho no Brasil ..........................................................47 CAPÍTULO II .........................................................................................................................55 FOTOJORNALISMO: RECONFIGURAÇÕES E RELAÇÕES DE GÊNERO .............55 2.1. Convergência entre fotografia e imprensa .....................................................................55 2.2. Pioneiras do fotojornalismo ...........................................................................................62 2.3. As revoluções do fotojornalismo ...................................................................................67 2.3.1. Pré-revolução do fotojornalismo.............................................................................68 2.3.2. Primeira revolução (1940 - 1959) ...........................................................................71 2.3.3. Segunda revolução (1960-1989) .............................................................................74 2.3.4. Terceira revolução (1990 - atualidade) ...................................................................80 2.4. Fotojornalismofeminino na contemporaneidade............................................................87 CAPÍTULO III ........................................................................................................................92 MULHERES FOTOJORNALISTAS: PRÁTICAS E PERCEPÇŌES .............................92 3.2. Metodologia empregada.................................................................................................92 3.2.1. Seleção das fontes ...................................................................................................93 3.2.2. Categorias de análise das entrevistas ......................................................................97 3.1. Perfil das fotojornalistas ................................................................................................99 3.3. Análise das entrevistas .................................................................................................102 3.3.1. Relações de trabalho no fotojornalismo ................................................................102 3.3.1.1. Formação profissional........................................................................................102 3.3.1.2. Aceitação profissional no meio fotojornalístico ................................................104.
(11) . 3.3.1.3. Relações formais e informais .............................................................................107 3.3.1.4. Nível de apropriação tecnológica.......................................................................109 3.3.1.5. Perspectiva de carreira .......................................................................................112 3.3.1.6. Critérios para distribuição de pautas ..................................................................116 3.3.2. Definição da autoimagem profissional .................................................................120 3.3.2.1. Pertencimento ao fotojornalismo .......................................................................120 3.3.2.2. Masculinização da identidade ............................................................................125 3.3.2.3. Impressão de um olhar feminino........................................................................127 3.3.2.4. Diferenças de perspectivas geracionais .............................................................129 3.3.3. Relação trabalho e família ....................................................................................133 3.4.3.1. Relação da família com o fotojornalismo ..........................................................133 3.4.3.2. Equilíbrio produtivo e reprodutivo ....................................................................135 CONSIDERAÇÕES FINAIS ...............................................................................................140 REFERÊNCIAS ....................................................................................................................148 ANEXO ................................................................................................................................ 152.
(12) . SILVA, Nathália Cunha da. Mulheres no fotojornalismo: Uma análise cultural da relação entre identidades de gênero e a prática do fotojornalismo na contemporaneidade.2017. 156 f. Dissertação (Mestrado em Comunicação Social) – Universidade Metodista de São Paulo, São Bernardo do Campo.. RESUMO Estudo sobre a influência cultural e histórica dos papéis atribuídos de gênero na atuação e desenvolvimento de mulheres no fotojornalismo paulistano. A pesquisa tem por objetivo compreender como as mulheres fotojornalistas atuam e percebem suas práticas dentro da profissão no cenário contemporâneo. Para tanto, toma-se o referencial teórico dos Estudos Culturais, na perspectiva feminista, e do pós-estruturalismo, tendo em vista as relações de poder presentes nos discursos de gênero no fotojornalismo, de acordo com Stuart Hall, Lipovetsky, Bourdieu, Judith Butler e Michael Foucault. Além disto, a configuração e o desenvolvimento históricos do fotojornalismo acontecem em consonância com os valores jornalísticos, segundo as definições de Jorge Pedro Souza e de Ciro Marcondes Filho. A metodologia empregada é norteada pelo método qualitativo, com uso de entrevista do tipo semiaberta. As entrevistas foram realizadas com nove mulheres que têm o fotojornalismo como principal atividade, com relações de trabalho formais e informais, que foram divididas em três grupos etários. O procedimento de análise abordou as relações de trabalho, a definição da autoimagem profissional e a família. Os resultados apontam a influência dos papéis atribuídos aos gêneros sobre a construção histórica do estereótipo da atividade estudada como uma prática masculina. Quadro que produz barreiras simbólicas de desestímulo à participação feminina desde a formação profissional, e a permanência na carreira permeada pela exigência de um desequilíbrio produtivo e reprodutivo. A dificuldade em conciliar a profissão com a divisão social dos papéis de gênero é apontada como um dos principais entraves à participação feminina, e as fotojornalistas apresentam resistências performativas de gênero para ressignificar o estereótipo profissional. Palavras-chaves: Fotojornalismo. Gênero. Práticas profissionais. Identidade..
(13) . SILVA, Nathália Cunha da. Mujeres en el fotoperiodismo: Una análisis cultural de la relación entre las identidades de género y la práctica del fotoperiodismo en contemporaneidad. 2017. 156 f. Disertación (Master en Comunicación Social) – Universidade Metodista de São Paulo, São Bernardo do Campo.. RESUMEN Estudio sobre la influencia cultural e histórica de los roles socialmente asignados de género en la actuación y el desarrollo de mujeres en el fotoperiodismo de la ciudad de Sao Paulo. La investigación tiene como objetivo comprender cómo actúan las mujeres fotoperiodistas y darse cuenta de sus prácticas dentro de la profesión en la escena contemporánea. Se toma como base el marco teórico de los estudios culturales en la perspectiva feminista, así como el postestructuralismo, para analizar las relaciones de poder del discurso de género en el fotoperiodismo, según Stuart Hall, Lipovetsky, Bourdieu, Judith Butler y Michael Foucault. Más aún, la configuración y el desarrollo histórico de fotoperiodismo se llevan a cabo en consonancia con los valores periodísticos, como puede observarse en las definiciones de Jorge Pedro Souza y Ciro Marcondes Filho. La metodología que se ha utilizado es guiada por el método cualitativo, con el uso de entrevista de tipo semiabierta. Se entrevistó a nueve mujeres que actúan en el fotoperiodismo, con relaciones de trabajo formales o informales. Ellas han sido divididas en tres categorías de edad. El procedimiento de análisis puso de relieve: las relaciones laborales, la definición de la propia imagen profesional y las relaciones de trabajo y la familia. Los resultados muestran la influencia de los roles socialmente asignados a los géneros en el estereotipo histórico de que la actividad en cuestión es una actividad masculina. Lo que resulta en barreras simbólicas que desalientan la participación femenina en el fotoperiodismo, ya a partir de la formación profesional, así como la permanencia de esas profesionales es marcada un desequilibrio productivo y reproductivo. La dificultad en la conciliación de la profesión con la división social de roles de género es vista como un obstáculo importante para la participación de mujeres en este campo profesional. De tal manera que las mujeres fotoperiodistas adoptan resistencias performativas de género con el fin de replantear el estereotipo profesional. Palabras-clave: Fotoperiodismo. Género. Prácticas profesionales. Identidad..
(14) . SILVA, Nathália Cunha da. Women in photojournalism: A cultural analysis of the relationship between gender identities and the practice of photojournalism in contemporary times. 2017. 156 f. Dissertation (Master in Social Communication) – Universidade Metodista de São Paulo, São Bernardo do Campo.. ABSTRACT This is a study about the cultural and historical influence of the social attributed gender roles on the access and development of women photojournalists in São Paulo city. The research aims to understand how women photographers work in press and perceive their own professional practices in the contemporary setting. The theoretical framework is based on Cultural Studies in the feminist perspective, and post-structuralism, considering the power relations presents in the gender discourses in the photojournalism, according to Stuart Hall, Lipovetsky, Bourdieu, Judith Butler e Michael Foucault. Furthermore, the historical configuration and development of photojournalism takes place in consonance with the journalistic values, according to the definitions of Jorge Pedro Souza and Ciro Marcondes Filho. The methodology used is guided by the qualitative method, using semi-structured type interviews. The interviews were conducted with nine women who have photojournalism as their main activity, with formal and informal working relationships and divided into three age groups. The analysis procedure dealt with the work relations, the definition of professional self-image and the relations of work and family. The results point to the influence of gender roles on the historical construction of the stereotype of the activity as masculine, producing symbolic barriers to discouragement of female participation since the professional training, and indicated the permanence permeated by the demand for a productive and reproductive imbalance. The difficulty in reconciling the profession with the social division of gender roles is identified as one of the main obstacles to female participation, and the women photojournalists present performative gender resistances to re-signify the professional stereotype. Key-words: Photojournalism. Gender. Professional practice. Identity..
(15) 13. INTRODUÇÃO Estudar o fotojornalismo, em meu ponto de vista, significa, ao mesmo tempo, o aprofundamento e o amadurecimento de inquietações que trago desde a graduação. Durante o curso de jornalismo, na Universidade Presbiteriana Mackenzie, pude perceber a relevância do trabalho fotojornalístico, tanto para compor o contexto presente das notícias quanto o histórico. Entretanto, a carga da força expressiva das imagens divulgadas parecia fazer sombra aos seus devotos profissionais, que, com tanto afinco, enfrentam diversos desafios para garantir o registro e a perpetuação de "instantes decisivos". A partir destas questões, decidi investigar de perto a atuação dos fotojornalistas dentro das redações dos dois maiores jornais paulistanos, a Folha de S. Paulo e O Estado de S.Paulo, em busca de entender a rotina de trabalho dos fotojornalistas, suas motivações e desafios, e reunir as minhas descobertas práticas em um documentário intitulado Páginas Ilustradas (MERIGHI; DÓRIA; SILVA, 2010). De modo geral, o trabalho revelou que todos os fotojornalistas abordados compartilhavam uma paixão intensa pelo que faziam, eram muito politizados e possuíam uma rotina intensa de trabalho, motivo que por vezes interferia nas suas vidas pessoais. Lembro de ter me esforçado para tentar encontrar uma mulher fotojornalista para entrevistar, e, quando encontrei, ela possuía uma rotina especial de trabalho, era dedicada exclusivamente à produção de retratos, fato que me chamou a atenção, pois os outros profissionais, homens, cobriam todo o tipo de pautas. Depois disso, passei a olhar mais atentamente para o aspecto de gênero dentro da profissão e percebi que nas disciplinas sobre fotojornalismo os nomes dos profissionais de referência não incluíam nenhuma menção a mulheres. Era como se a contribuição feminina na área fosse invisível, inexpressiva e o próprio fotojornalismo fosse um campo fechado para as mulheres, que apareciam pontualmente como exceções. A historiadora da fotografia Naomi Rosenblum (2000, p. 7) denuncia que as pesquisas recentes sugerem que até relativamente pouco tempo atrás o trabalho de mulheres fotógrafas não recebia a devida consideração. Ela defende que registros indicam que as mulheres estiveram ativamente envolvidas com a fotografia desde que o meio foi inventado, em 1839. E o fato de elas não serem lembradas se explica, em boa parte, pela seleção do que seria lembrado ter sido realizada por estudiosos do sexo masculino. Afinal, a história, como em tantas outras áreas do conhecimento, não está livre de tendências e visões de mundo hegemônicas. Sobre isso Joan Scott argumenta que a “história pode ser entendida como discurso realizado pelos historiadores, e não simplesmente o ‘passado’” (SCOTT, 1992, p. 238)..
(16) 14. A fotografia nasceu no ambiente positivista do século XIX, fruto de avanços científicos que ansiavam por encontrar um meio que permitisse a reprodução mecânica da realidade visual. Logo a imprensa se apropriou do caráter testemunhal da fotografia para conferir mais credibilidade às suas coberturas. A evolução dos aparatos fotográficos e técnicas permitiram que, com o passar do tempo, a fotografia alcançasse mais mobilidade, instantaneidade e possibilidade de reprodução para que pudesse ser disseminada nas páginas dos jornais (SOUZA, 2004, p. 24-26). A vocação noticiosa do fotojornalismo, entretanto, se revelou durante a cobertura de guerras, conhecidas como temáticas das primeiras reportagens fotográficas publicadas. Com início em 1855, durante a Guerra da Criméia, ainda com uma cobertura estática, o fotojornalismo ganha agilidade somente após o término da I Guerra Mundial, quando inovações técnicas possibilitaram novas formas de utilização da fotografia pela imprensa. Deste modo, vemos a forte ligação entre o fotojornalismo e a tecnologia, ao possibilitar novas formas expressivas de registro e disseminação de conteúdo, a partir de incessantes inovações. Como visto, a afinidade entre a imprensa e o fotojornalismo foi praticamente imediata, relação que se mantém até os dias de hoje. É importante ressaltar que “para se abordar o fotojornalismo tem-se que pensar numa combinação de palavras e imagens: as primeiras devem contextualizar e complementar as segundas” (SOUZA, 2004, p.12). E, dentro do objetivo da presente pesquisa, foi escolhida a definição de Jorge Pedro Souza (2004, p.12) que distingue a fotojornalismo do fotodocumentarismo. A diferenciação entre as duas modalidades se reflete mais na prática e no produto gerado do que na finalidade que a imagem terá. Existe uma lacuna nos estudos sobre a prática do fotojornalismo, pois a maior parte das pesquisas se ocupa em analisar como determinadas temáticas são apresentadas nos meios jornalísticos, e não em dar voz aos seus profissionais, ou analisar as suas práticas. Entretanto, nenhuma atividade está imune às subjetividades envolvidas nas rotinas de produção de seus profissionais. A sexualidade representa um importante atravessador da identidade, sendo a primeira a ser assimilada pelo indivíduo, por estar envolta em significações estereotipadas do que representa ser um homem ou uma mulher. Os conceitos são colocados em oposição radical, em que pertencer a um sexo seria entendido como excluir os atributos performativos do outro. Esse sistema de valores tem as suas raízes em uma lógica androcêntrica e funcional dos corpos e das existências. Dentro deste contexto, o indivíduo constrói a sua identidade em um processo longo e ininterrupto, nunca completo totalmente, em que se cristaliza o entendimento do que é pertencer a um gênero, de acordo com os processos de identificação influenciados pela sua inscrição profissional, familiar, religiosa, de classe, etnia e tantas outras..
(17) 15. Em seu célebre artigo ‘Gênero: uma categoria útil de análise histórica’, Joan Scott (1995, p. 75) explica que o próprio termo ‘gênero’ foi desenvolvido para dar vazão à multiplicidade de questões envolvidas não apenas no estudo da mulher, mas na relação entre as esferas masculinas e femininas, de maneira inteiramente relacional. A concepção de gênero estaria em forte oposição em relação ao determinismo biológico, pois procura desconstruir a visão essencialista que divide o mundo social em dois universos radicalmente diferentes e opostos. O argumento da reprodução biológica é usado, em primeira instância, para associar e justificar características que colocam a mulher como mais frágil, emocional e pertencente ao ambiente doméstico do cuidado da família. Enquanto, ao homem cabe o mundo público, as atividades de grande visibilidade, objetivas e viris (BUTLER, 2015). Sobre esta questão, Bourdieu (2014, p. 86) defende que a própria noção de vocação profissional está vinculada ao sistema simbólico que busca combinar espaços sexuados, a partir de suas tarefas, com o estereótipo de gênero cultural atribuído. Na tentativa de naturalizar o determinismo biológico, as disposições de gênero, construídas socialmente, oferecem um conjunto de características que se aproximam mais de determinadas profissões e cargos e as afasta de outras. Assim, por estes mecanismos de "naturalização" de gênero, a afinidade com determinadas carreiras, entendidas como vocação, parecem ser mais evidentes que em outras. Adicionalmente à questão do estudo de gênero, na atualidade, também se torna necessário pensar a atividade do fotojornalismo e da imprensa em geral, dentro de um paradigma organizacional que se configura a partir da crise do capitalismo, chamado por alguns autores (SHIRKY; BELL; ANDERSON, 2013) de pós-industrial, que se reestrutura e expande desde a década de 1980. A evolução das técnicas de produção ao longo da história influenciou condicionalmente a forma de se pensar as relações com o trabalho, em diferentes relações de força. Dentro da área da comunicação isto nunca foi tão nítido, as redações terceirizam praticamente todo o seu quadro e enxugam a cada ano os profissionais remanescentes para cortar custos. Uma relação que tem um futuro nebuloso ao tentar se enquadrar à nova demanda pela informação, tão necessária e pulverizada na rede. Entretanto, somente atribuir a culpa da precarização das relações de trabalho às tecnologias seria deixar de reconhecer a atividade de interesse humano que está entrelaçada ao desenvolvimento tecnológico. Devemos, pelo contrário, combater qualquer tipo de essencialismo que separa as invenções em boas ou ruins e procurar a motivação das exclusões e mudanças nos processos dentro de uma perspectiva histórica e cultural. A partir deste cenário complexo, estudar a inserção e o desenvolvimento das mulheres dentro do fotojornalismo no cenário contemporâneo é importante para entender a contribuição.
(18) 16. da carga expressiva dos seus olhares para ampliar a pluralidade da cobertura dentro do jornalismo como um todo. Visto que nenhuma atividade está desvinculada dos atravessadores de gênero, sexualidade, etnia e classe social. E, ainda, se torna preciso compreender como o gênero está ligado à construção da valorização profissional feminina, sobretudo em áreas dominadas pelo estereótipo de pertencimento masculino, e como esta construção se reflete na prática profissional. Desta forma, nasce a inquietação central deste projeto que é sintetizada na pergunta: Como a mulher fotojornalista, vista a partir de estereótipos culturais, atua e percebe as práticas de sua profissão nas relações formais e informais no mercado de trabalho fortemente permeado pela tecnologia? A proposta é desconstruir a ideia de superação da problemática da igualdade de gênero, pois quando se analisa a questão de perto, encontra-se a baixa representatividade de mulheres em todos os âmbitos audiovisuais de controle do conteúdo, assim como no fotojornalismo, faltam mulheres cinegrafistas, diretoras de cinema, diretoras de fotografia, áudio, bem como em cargos de relevância, como em chefias, entre tantos outros cargos. O objetivo geral desta pesquisa é compreender como as cargas social, histórica e cultural, presentes nos estereótipos de gênero, interpelam o acesso, a ocupação e o crescimento profissional de mulheres dentro do fotojornalismo. O fotojornalismo está historicamente dominado por homens, pela associação ao seu florescimento em tempos de conflitos armados, levando a ser considerado como atividade em constante contato com a violência, portanto, permeada por situações inseguras. Já o estereótipo social feminino, que coloca as mulheres como mais emotivas, bem como física e psicologicamente mais frágeis, é conflitivo com a atividade do fotojornalismo. De maneira semelhante, as percepções das mulheres sobre sua atuação profissional são a de que ainda há preconceito em relação à presença feminina na cobertura fotojornalística, o que leva a fotojornalista a ser preterida, principalmente, quando as coberturas estão ligadas a situações mais complexas, socialmente mais valoradas, como no caso do futebol e política, e em situações que a coloque em vulnerabilidade física. Para responder à questão de pesquisa e também atingir o objetivo proposto, foi necessário aprofundar o estudo nas percepções das fotojornalistas, com o intuito de entender como elas se identificam com a profissão, seus desafios, e como são percebidas pelos colegas de trabalho. Para tanto, a opção foi a metodologia de pesquisa qualitativa, por meio da realização de entrevistas do tipo semiaberta. As fontes selecionadas foram mulheres fotojornalistas em atividade, residentes na cidade de São Paulo, atuantes nos mercados formal e informal e divididas em três faixas etárias: de 25 a 35 anos, de 36 a 49 anos e de 50 a 60 anos..
(19) 17. No total, foram entrevistadas nove profissionais, e as informações coletadas a partir dos objetivos da pesquisa foram classificadas, organizadas e divididas em grupos de temas comuns. Desta maneira, a presente pesquisa exploratória produziu uma análise interpretativa com base nas categorias criadas e do referencial teórico delimitado. Optou-se por apresentar o detalhamento da metodologia no terceiro capítulo para melhor organização do conteúdo. Os resultados alcançados pela pesquisa estão concretizados nesta dissertação que tem três capítulos. No primeiro deles intitulado "Mulheres, Cultura e Trabalho" são apresentados os conceitos que, a partir do trabalho de naturalização das diferenças sexuais, definem a identidade de gênero feminina em forte oposição à masculina, ao restringir comportamentos, sexualidades, espaços sociais, carreiras, entre outros. E como forma de compreender o acesso das mulheres ao mercado de trabalho e as diferentes formas de encarar a atividade feminina, foi realizado um apanhado histórico crítico, que culmina com a discussão sobre as novas formas de desigualdade quanto à caracterização da atuação feminina profissional como secundária. O segundo capítulo intitulado "Mulheres no fotojornalismo" discute as mudanças históricas ocorridas no jornalismo e na fotografia com o intuito de compreender as três revoluções do fotojornalismo, segundo a visão de Jorge Pedro Souza (2004). Os períodos são marcados por evoluções tecnológicas cada vez mais velozes que influem na forma como o fotojornalismo se relaciona com a imprensa e o domínio público. Além disso, é apresentado um breve panorama do fotojornalismo na atualidade, por meio da discussão de pesquisas recentes que oferecem dados para delinear a situação atual da atividade, sobretudo dentro de um recorte de gênero. O último capítulo intitulado "Mulheres fotojornalistas: enfoques e percepções" apresenta o perfil das fotojornalistas entrevistadas, o detalhamento da metodologia e a análise interpretativa das entrevistas por meio das categorias criadas sobre as percepções das mulheres fotojornalistas, baseado no referencial teórico. Com este trabalho espera-se contribuir para o avanço nas pesquisas sobre fotojornalismo, principalmente dentro da perspectiva de análise das relações de gênero presentes na atividade..
(20) 18. CAPÍTULO I MULHERES, CULTURA E TRABALHO 1.1. Formação dos estereótipos de gênero O estudo sobre gênero pressupõe a necessidade de realizar uma abordagem interdisciplinar, uma vez que a desigualdade entre gêneros está inscrita em aspectos históricos que refletem na construção cultural resultante desse processo, sempre em movimento. Dentro da presente pesquisa adotamos o marco teórico de gênero inscrito no conceito discursivo do pós-estruturalismo. Tal visão inscreve a cultura dentro de uma estrutura organizada segundo determinados preceitos construídos socialmente, e esta construção pressupõe que nada pode ser anterior ou externo ao discurso (WILLIAMS, 2012, p. 36). Isso implica afirmar que não existe um gênero verdadeiro, ou até mesmo uma identidade de gênero ontológica, isso porque todo e qualquer entendimento sobre gênero provém, necessariamente, de uma interpretação cultural (BUTLER, 2014, p. 30). A formação dos estereótipos sociais está ligada, primeiramente, à defesa do gênero como apenas a interpretação cultural de um sexo natural, que inscreve as mulheres dentro da função reprodutiva, mais emotiva; logo, irracional e predisposta ao cuidado dos filhos e do ambiente doméstico. Enquanto aos homens atribui a racionalidade, objetividade e o pertencimento ao espaço público. A lógica essencialista alimenta todo um sistema que busca normalizar e interiorizar as divisões sexuais, como radicalmente opostas, a partir da perspectiva androcêntrica. Desta forma, as atividades femininas recebem uma conotação inferior às masculinas, inseridas “naturalmente” nas carreiras de maior valorização social. Neste capítulo, serão apresentados os conceitos que, a partir do trabalho de naturalização das diferenças sexuais, definem a identidade de gênero feminina em forte oposição à masculina, ao restringir comportamentos, sexualidades, espaços sociais, carreiras, entre outros. Apesar de, atualmente tais questões parecerem subjetivas, suas consequências são objetivas - como no caso dos meios de comunicação que mantêm ainda redutos profissionais masculinos, a exemplo do que acontece no fotojornalismo..
(21) 19. 1.1.1. Produção cultural de sexo e gênero A cultura, segundo a visão de um dos fundadores dos estudos culturais, Raymond Williams (apud CUNHA, 2011, p. 41), é entendida como o processo social geral de dar e assimilar significados ‘comuns’, nos dois sentidos do termo. O primeiro refere-se à cultura como o processo social de atribuir e receber sentidos, relacionalmente falando, e o segundo refere-se à cultura não apenas como uma manifestação intelectual, como também fora de uma restrição elitizada. Nela, todos os sujeitos sociais colaboram, pois é composta por múltiplas visões culturais, plurais, em um movimento perpétuo de ressignificações. Entretanto, este processo, de atribuição de definições organizadoras, integra o cenário conflituoso de poderes inerente aos interesses sociais múltiplos, que estão sempre em jogo em diversas instâncias: classe, etnia, localidade, gênero, entre outras. Por conseguinte, podemos entender os estereótipos sociais como a forma com que aos diferentes grupos são atribuídos sentidos, sem que, necessariamente, estes sejam negativos. Para Walter Lippmann (2008, p. 96), os estereótipos seriam imagens mentais que auxiliam os indivíduos a compreender e se situar no mundo, a partir da sua inscrição social. Um mundo que oferece conforto daquilo que é familiar ao indivíduo, que reúne e ajusta suas esperanças e onde qualquer inconformidade causaria um abalo em suas estruturas. Admite-se, assim, que nenhum estereótipo é neutro, pois “são as fortalezas da nossa tradição, e atrás de nossas defesas podemos continuar a sentir-nos seguros na posição que ocupamos” (LIPPMANN, 2008, p. 97). Em uma visão complementar, Agnes Heller (1998) defende que os estereótipos são formas de ultrageneralização do saber, inevitáveis na vida cotidiana, pois auxiliam na sua organização e fluxo. De modo contrário, a necessidade de pensar cada uma das ações cotidianas interromperia a continuidade da vida. O processo pelo qual os estereótipos são formados é descrito pela autora: De duas maneiras chegamos à ultrageneralização característica de nosso pensamento e de nosso comportamento cotidianos: por um lado, assumimos estereótipos, analogias e esquemas já elaborados; por outro, eles nos são “impingidos” pelo meio em que crescemos e pode-se passar muito tempo até percebermos em atitude crítica esses esquemas recebidos, se é que chega a produzir-se uma tal atitude (HELLER, 1998, p. 44, grifo da autora).. Desse modo, os estereótipos são formados e reproduzidos na dinâmica social, e a contestação ou não aceitação de certas analogias está condicionada a experiências pessoais, levando a não validação ou desconfiança de que algumas dessas premissas podem ser falsas. Os estereótipos, ou ultrageneralizações, são juízos provisórios, pois, quando não encontram.
(22) 20. comprovação prática, quando desafiados, tendem a ser modificados na atividade social ou individual. Os preconceitos se originariam, segundo Heller (1998, p. 47), quando os juízos de valor, provisórios, se conservam inabalados mesmo contra os argumentos da razão. A problemática, em relação aos gêneros sociais, acontece quando os estereótipos, de tão arraigados, encobrem necessidades individuais ao generalizar um grupo de sujeitos. No caso dos gêneros, os estereótipos são, predominantemente, utilizados para o controle sobre os corpos das mulheres, limitando as suas possibilidades sociais, econômicas e cidadãs. A compreensão, socialmente instituída, defende que o gênero é a simples interpretação cultural do sexo biológico, que seria estável e permanente, ora natural. A vinculação do sexo como natural surge, na verdade, para salvaguardá-lo de qualquer possibilidade de interpretação cultural fora da estrutura binária. A crítica feminista1 inicial, sobre esta formulação, surge para questionar a biologia como destino, pelo fato da distinção conceitual entre sexo e gênero reforçar que “por mais que o sexo pareça intratável em termos biológicos, o gênero é culturalmente construído: consequentemente, não é nem o resultado causal do sexo nem tampouco tão aparentemente fixo quanto o sexo” (BUTLER, 2015, p. 27). Assim, a análise mais profunda do gênero, nesses termos, abre brecha para contestação da unidade do sujeito, em primeira instância. A partir da lógica, explicitada pela autora pós-estruturalista, Judith Butler (2015), se os gêneros constituiriam os significados culturais assumidos pelo corpo sexuado, não quer dizer que ele decorra de um sexo, já que a própria interpretação de que um determinado sexo, anatômico, tem ligação com um gênero denota uma interpretação cultural inerente que interligaria ambos. Percebe-se a existência de um aparato de produção a partir do qual os próprios sexos são estabelecidos. E, este aparato teria motivação inteiramente cultural, visto que “se o sexo é ele próprio, uma categoria tomada em seu gênero, não faz sentido definir o gênero como a interpretação cultural do sexo” (BUTLER, 2015, p. 27). Desta forma, instituir o sexo como natural seria uma tentativa de retirá-lo do meio discursivo/cultural, estabelecendo-o como “prédiscursivo”, em uma produção compreendida como efeito do aparato de construção cultural designado como gênero. Com efeito, a definição de gênero ou sexo como fixos ou não faz parte de uma função discursiva que busca estabelecer os seus limites analíticos, e antecipar as possibilidades das. 1. O feminismo aqui é entendido como movimento político, não centralizado, que afirma o sexo como político e busca expor as suas relações de poder. Assim, o seu discurso propõe, em linhas gerais, “apontar o caráter também subjetivo da opressão, e para os aspectos emocionais da consciência, revela os laços existentes entre as relações interpessoais e a organização pública” (ALVES; PITANGUY, 1983, p. 8)..
(23) 21. configurações imagináveis e realizáveis do gênero na cultura, em defesa de uma existência discursivamente condicionada. Para Butler (2015, p. 31) “tais limites se estabelecem sempre nos termos de um discurso cultural hegemônico, baseado em estruturas binárias que se apresentam como a linguagem da racionalidade universal”. Com isso, não se espera, por outro lado, negar a existência de corpos sexuados, mas sim denunciar que todos os mecanismos existentes para as suas interpretações seguem códigos culturais, logo discursivos, que não permitem que eles sejam acessados sem a atribuição de estereótipos. E a forma com que são construídos serve para controlar as possibilidades sexuais ao encadear sexo, gênero e desejo dentro de um código heteronormativo e androcêntrico, de forte cunho funcional. Dentro desta mesma lógica, a obra “A dominação masculina”, do sociólogo francês Pierre Bourdieu (2014, p. 27-28), também denuncia a visão que institui o sexo como natural, e o gênero como a sua interpretação cultural, uma vez que esta interpretação é utilizada para impor a lógica androcêntrica como neutra. Isto porque, se o sexo é compreendido apenas como a descrição da “[...] diferença anatômica entre os órgãos sexuais, pode assim ser vista como justificativa natural da diferença socialmente construída entre os gêneros e, principalmente, da divisão social do trabalho” (BOURDIEU, 2014, p. 25, grifo do autor). Logo, entender o sexo como natural seria reforçar a máquina simbólica que tende a ratificar a dominação masculina sobre a qual se alicerça. Ainda de forma hierarquizada, a força da organização androcêntrica “vem do fato de acumular e condensar duas operações: ela legitima uma relação de dominação inscrevendo-a em uma natureza biológica que é, por sua vez, ela própria, uma construção social naturalizada” (BOURDIEU, 2014, p. 40, grifo do autor). A partir da concepção jurídica, que determina o gênero como interpretação de um determinado sexo dado, é possível perceber que a saída, para a modificação desta dinâmica de atribuição, de justificativa biológica para a dominação feminina, está na cultura. E a reflexão de Heleith Saffioti (1992) revela na prática social o peso da cultura: Quando se insiste na natureza relacional do sexo, não apenas se nega enfaticamente a postura essencialista, como também se revela adesão à crença de que é mais fácil recorrer a procedimentos cirúrgicos e fazer as mudanças desejadas na genitália do que intervir no sentido de alterar o gênero, socialmente imposto a uma pessoa e, simultaneamente, por ela conquistado (SAFFIOTI, 1992, p. 188).. Por esta perspectiva, a inscrição cultural do gênero se manifesta tão inexorável quanto o sexo natural. Neste caso, vemos que a cultura acaba por se tornar o seu destino e não a biologia. Isso porque, os dois conceitos estão tão profundamente imbricados, dentro do estereótipo de gênero, que, recorrer à alteração anatômica da genitália, a fonte do argumento.
(24) 22. biológico fixo, seria a única forma de modificar a interpretação de gênero a ela atribuída. Esforço, este, do indivíduo para ser reconhecido quanto ao gênero com que se identifica, mas que, preso na dinâmica binária social, não encontra outra forma de se tornar inteligível, inclusive como cidadão.. 1.1.2. Poder e interdição da sexualidade Historicamente, desde a Idade Média, nas sociedades ocidentais, o exercício do poder sempre esteve fortemente vinculado ao direito, em uma concepção do poder que entendia o corpo como uma superfície de aplicação de suplícios e penas. Entretanto, houve a transformação muito profunda desses mecanismos de poder a partir da época clássica, em que o direito sobre a vida é reconfigurado para o direito de gerar a vida. “Agora é sobre a vida e ao longo de todo o seu desenrolar que o poder estabelece seus pontos de fixação; a morte é o limite, o momento que lhe escapa; ela se torna o ponto mais secreto da existência, mais ‘privado’” (FOUCAULT, 1985, p. 130). A partir do século XVII, esse poder de preservação da vida desenvolveu-se em duas formas principais: no corpo como máquina e em uma bio-política da população. O primeiro polo a ser formado é o do corpo como máquina, que visa o adestramento dos corpos, a ampliação de suas aptidões e forças, e o crescimento de sua utilidade e docilidade, para prevenir revoltas e potencializar a sua produção econômica por meio do trabalho. Estes procedimentos de poder caracterizam, dentro do pensamento de Foucault (1985, p. 131), as chamadas disciplinas desenvolvidas para aplicação sobre corpo humano. O segundo polo, diferente e em oposição ao primeiro, se formou por volta da metade do século XVIII, é centrado na preservação do corpo como espécie. Basicamente, este mecanismo busca se apropriar do corpo pelo viés da mecânica do ser vivo, como suporte dos processos biológicos, como, por exemplo, o controle da natalidade, mortalidade, a qualidade da saúde, a duração da vida, e todas as suas condições de variação, e ao tomar para si o controle regulador desses processos, por meio de uma série de intervenções, surge uma uma bio-política da população. Tanto o desenvolvimento das disciplinas do corpo quanto as regulações da população constituem os dois polos em que se desenvolveu a organização do poder sobre a vida, cuja função principal não é mais matar, mas gerir a vida em todos os seus âmbitos. Elas são entendidas como uma “grande tecnologia de duas faces”, anatômica (disciplinas) e biológica (bio-política), para atuar sobre os corpos, diferencialmente, de forma individual, detalhadamente, e coletiva, destinadas a se ocupar dos desempenhos do corpo e os processos.
(25) 23. da vida. Dentro deste contexto, o sexo assume importância como foco de disputa política, pois está na articulação entre os dois polos de desenvolvimento da tecnologia política da vida. Ele pertence tanto às disciplinas do corpo - adestramento, intensificação e distribuição das forças, ajustamento e economia das energias - quanto à regulação das populações - manutenção da vida, reprodução e demais efeitos globais que induz. E, em decorrência desta importância estratégica que o sexo assume, ele: [...] dá lugar a vigilâncias infinitesimais, a controles constantes, a ordenações espaciais de extrema meticulosidade, a exames médicos ou psicológicos infinitos, a todos um micropoder sobre o corpo; mas, também, dá margem a medidas maciças, a estimativas estatísticas, a intervenções que visam todo o corpo social ou grupos tomados globalmente (FOUCAULT, 1985, p. 136-137).. Sobre a sexualidade foi disseminado um medo generalizado a respeito dos seus males, ao ser definida “por natureza” como um domínio sujeito a patologias, requisitando, portanto, intervenções terapêuticas ou de normalização. Ao invés dos comportamentos divergentes serem considerados somente avessos à lei, transgressores e passivos de punição, agora eles passam a ser investigados profundamente em busca de suas origens, motivações e tratamentos que possam recuperá-los. Assim, a sexualidade se constituiu como domínio a conhecer, a partir de relações de poder que a determinaram como objetivo possível; e, em troca, ela foi tomada como alvo de investimento por meio de técnicas de saber que se articulam por meio de procedimentos discursivos (FOUCAULT, 1985, p. 66-67). A sexualidade passa a ser o correlato de uma prática discursiva desenvolvida lentamente, que é a ciência sexual. Nesse sentido, Foucault (1985, p.93) alerta para a inexistência de um domínio da sexualidade que pertença ao conhecimento científico desinteressado e livre. Mas que, sobre este processo, pesaram exigências do poder, tanto econômicas quanto ideológicas, a favor de mecanismos de proibição. Entretanto, a estratégia de colocar a sexualidade sob o ponto de vista, teoricamente, “purificado e neutro” da ciência é significativo, pois sinaliza um esforço para apagar os mecanismos de poder sociais, históricos e culturais que a constituem. A ciência sexual se desenvolve nas bases de um sistema de conhecimento marcado pelos grandes atos fundadores da ciência moderna, a formação de uma sociedade industrial e a ideologia positivista que a acompanha. Esta relação se forma, sobretudo, pelo modo com que a verdade se desenvolve na história da filosofia, mais especificamente, com o ‘momento cartesiano’, a partir do qual o acesso à verdade se dá pelo conhecimento. Daí a importância do saber como estratégia de exercício do poder, pois é ele que define o discurso que diz a verdade,.
(26) 24. que estabelece a distinção entre o racional e o não racional, o normal e o anormal, o científico e o não científico, normalização de condutas, definição de comportamento, padronização de pensamento, são estas as estratégias que dispõe o saber para realizar a objetivação do sujeito (TEMPLE, 2013, p. 47-48).. O discurso de verdade surge pela mudança na vontade de saber, que determinou novos planos de objetos possíveis - observáveis, mensuráveis, classificáveis -, por meio do desenvolvimento de métodos técnicos, rituais, para a validação do conhecimento. Inaugura-se, assim, em meados do século XVI e XVII, uma nova história da vontade de saber, em que o conhecimento, para ser útil e verdadeiro, deve ser verificável, por meio do ritual científico. E a ciência passa a ser portadora institucional do saber. Ainda assim, o discurso de verdade é fortemente influenciado pela vontade de verdade, interessada em dar continuidade a sistemas de exclusão que a engendram. O que não invalida o conhecimento científico, mas alerta para como ele se converteu em uma nova forma de produção social de verdade, e, como qualquer discurso, não está imune à vontade de verdade culturalmente construída (FOUCAULT, 2001, p. 15-17). Como por exemplo, a histerização do corpo da mulher pelo dispositivo sexual aconteceu dentro da perspectiva de especialistas, sobretudo da área médica, que ao buscarem compreender a problemática da mulher burguesa “ociosa” lhe atribuíram um novo rol de obrigações conjugais e parentais. Conseguiram estipular, assim, um ponto de fixação do poder sobre a sexualidade da mulher burguesa, a partir do: [...] tríplice processo pelo qual o corpo da mulher foi analisado – qualificado e desqualificado – como corpo integralmente saturado de sexualidade; pelo qual, este corpo foi integrado, sob efeito de uma patologia que lhe seria intrínseca, ao campo das práticas médicas; pelo qual, enfim, foi posto em comunicação orgânica com o corpo social (cuja fecundidade regulada deve assegurar), com o espaço familiar (do qual deve ser elemento substancial e funcional) e com a vida das crianças (que reduz e deve garantir, através de uma responsabilidade biológico-moral que dura todo o período da educação): a Mãe, com sua imagem em negativo que é a ‘mulher nervosa’, constitui a forma mais visível desta histerização” (FOUCAULT, 1985, p. 99).. As marcas deste processo podem ser percebidas até hoje presentes nos estereótipos construídos sobre as mulheres, mesmo que em novas configurações, à medida que todas as atividades femininas sempre evidenciam as suas marcas sexuais, seu corpo saturado de sexualidade e que é julgado por esse enlace. Alguns exemplos comuns aparecem quando as mulheres têm uma ocupação em posição de destaque, logo surgem suspeitas que ela teria trocado favores sexuais para estar lá, ou ainda que as mulheres são muito "nervosas" para ocuparem algum posto, e assim por diante..
(27) 25. Por outro lado, ao mesmo tempo em que as mulheres foram histerizadas pelos discursos, o efeito de colocá-las como foco de uma análise aprofundada também abriu espaço para a reação a este discurso. Assim como aconteceu com os homossexuais e com a classificação das sexualidades tidas como “divergentes”, que foram esmiuçados em seus comportamentos e práticas, mas, ao mesmo tempo, por meio desta visibilidade puderam gradualmente falar de si mesmos. Se antes eles eram simplesmente rotulados como a sombra da sociedade e excluídos do convívio social, a partir do momento em que eles são estudados abre-se espaço para uma reação dentro dos mesmos termos. O poder fala deles, interroga, hierarquiza, e isso também permite que os mecanismos normativos sociais fiquem mais evidentes neste discurso, mesmo o científico. Dentro do discurso articulam-se poder e saber, e, “por essa mesma razão, deve-se conceber o discurso como uma espécie de segmentos descontínuos, cuja função tática não é uniforme nem estável” (FOUCAULT, 2001, p. 95). Os discursos, assim, não devem ser entendidos como unicamente divididos entre dominantes ou dominados, admitidos ou excluídos, mas como uma forma múltipla entre os elementos discursivos que podem entrar em estratégias diferentes. Se existem diversas posições sociais para exercer o poder, espaços de fala diferentes, segundo o contexto institucional em que se encontra, situação de poder, supõemse que existam diferentes efeitos de fala, deslocamentos e reutilização de fórmulas semelhantes para objetivos opostos. É preciso admitir um jogo complexo e instável em que o discurso pode ser, ao mesmo tempo, instrumento e efeito de poder, e também obstáculo, escora, ponto de resistência e ponto de partida de uma estratégia oposta. O discurso veicula e produz poder; reforça-o, mas também o mina, expõe, debilita e permite barrá-lo. Da mesma forma, o silêncio e o segredo dão guarida ao poder, fixam suas interdições; mas, também, afrouxam seus laços e dão margem a tolerância mais ou menos obscuras (FOUCAULT, 2001, p. 95).. Existiria, conforme o autor, uma polivalência tática dos discursos. Isso porque o poder não deve ser entendido como um fenômeno de dominação maciço e homogêneo de uns contra outros, ao invés disso, ele deve ser analisado como algo que circula e que só funciona em rede. Nesta dinâmica, os indivíduos não apenas circulam, mas estão sempre em posição de exercer este poder e de sofrer a sua ação, longe de serem alvos inertes ou consentidos do poder. Ou seja, pensar que o poder não se aplica aos indivíduos mas passa por eles, seria também combater uma noção de indivíduo fixo, inerte e fora das relações, sujeito a ser atingido e submetido sem saída. “Efetivamente, aquilo que faz com que um corpo, gestos, discursos e desejos sejam identificados e constituídos enquanto indivíduos é um dos primeiros efeitos de poder. Ou seja,.
(28) 26. o indivíduo não é o outro do poder: é um de seus primeiros efeitos” (FOUCAULT, 2004, p. 183). E a chave para a condição da possibilidade do poder, que permite tornar o seu exercício inteligível em todas as partes, está nos seus mecanismos de produção de inteligibilidade do campo social. A onipresença do poder existe, justamente, porque se produz em todas as relações, em todos os pontos e provém de todos os lugares. É desmontada a hipótese de um poder central, porque esta sensação advém, por outro lado, apenas de um efeito de conjunto. Toda a estratégia de controle sobre os corpos, e sobre os discursos, entra em um jogo em que a sexualidade é um dos elementos mais dotados de instrumentalidade estratégica, mas que encontra em contraposição, resistência, barreira, discursos contrários e formas de contestação que fazem com o poder se reestruture, o que gera uma reação da outra parte, e a batalha continua. Efetivamente, o poder não deve ser tomado como puramente negativo, já que ele produz identidades, por meio de jogos complexos de poder, abre a possibilidade para que o indivíduo tenha acesso à sua inteligibilidade social. Isso porque se o indivíduo é um efeito do poder, ele também, simultaneamente, é seu centro de transmissão, como ponto de passagem do poder. Sem aderir ao jogo do poder, em suas variadas formas, o indivíduo não entraria para a sociedade, pois todas as relações sociais pressupõem relações de poder intrínsecas. A chave para entender a complexa trama de poderes envolvidos na hierarquização de gênero tem suas raízes em mecanismos de poder desenvolvidos para controlar a sexualidade, tanto do ponto de vista do corpo quando dos discursos. A ciência sexual desenvolvida com o intuito de investigar as práticas sexuais e orientar o saber sobre o sexo aconteceu dentro de uma sociedade androcêntrica, e o discurso que resultou deste estudo colocou a sexualidade sob tutela, uma área sujeita a patologias que recaíam com maior peso sobre as mulheres, privadas do controle sobre seus próprios corpos uma vez que a própria maternidade corresponderia a um domínio da ciência, da medicina e da pedagogia. Por meio desta rede de discursos orientadores as mulheres foram hierarquizadas como inferiores aos homens, por serem histéricas, emocionalmente instáveis e funcionais dentro do ambiente doméstico por causa do seu sexo, sobre o qual existe o dever moral da procriação e do cuidado materno. Assim, as mulheres passaram a ser orientadas a partir desses discursos para constituição da identidade de gênero, pois para poderem existir e se perpetuarem, estes discursos precisam ser exercidos em rede, o que não significa afirmar que não existiram e existam resistências a estes discursos limitantes. Graças às mulheres do passado que colocaram em curso discursos divergentes sobre gênero foi possível acontecer a luta para a conquista de direitos, que segue em curso até os dias atuais. E a ocupação profissional de uma área majoritariamente masculina.
(29) 27. como o fotojornalismo demonstra a continuidade deste processo, lento e gradual de resistência para produzir novos estereótipos de gênero mais justos, pois eles sempre irão existir por serem organizadores sociais do conhecimento que é mutável.. 1.1.3. Construção da identidade de gênero Como apontado anteriormente, entendemos que toda a cultura está calcada, fundamentalmente, em uma estrutura discursiva, que objetiva, organiza e estabelece relações hierárquicas entre os seus elementos. De maneira a auxiliar na organização, entretanto, ela também acaba por produzir, pelos mesmos mecanismos, os sujeitos que serão reconhecidos como inteligíveis, inclusive juridicamente. Isto porque o sujeito constitui uma questão crucial para a política, pois os sujeitos jurídicos são produzidos por práticas de exclusão que são normalizadas pela estrutura jurídica da política estabelecida (FOUCAULT, 1985; BUTLER, 2015). Assim, as noções jurídicas regulam a vida política em termos negativos, pois utilizam a limitação, regulamentação e controle dos indivíduos para o seu condicionamento, definido e reproduzido de acordo com as suas exigências externas. O que termina por funcionar como uma das formas de legitimar a estrutura funcional de gênero, baseada no argumento da natureza biológica objetivada, para manter os corpos sob controle. A própria inteligibilidade social, vista como mecanismo de acesso político, só pode ser conquistada se o sujeito adquirir o seu gênero em conformidade com os padrões reconhecíveis, estabelecidos por relações de coerência e continuidade entre sexo, gênero, prática sexual e desejo. Nesse sentido, a identidade sexual é um dos principais alvos de normatização, já que é nela que são cristalizadas as noções que regem a manifestação dos gêneros incorporados. A questão da identidade é central para os estudos feministas, já que a identidade sexual é um dos seus principais atravessadores e a primeira a ser assimilada pelo sujeito. O principal, nesse caso, é entender que a identidade sexual - assim como a identidade como um todo - não é unificada, homogênea e coerente. Para Butler (2015, p. 42), “[...] a ‘coerência’ e a ‘continuidade’ da ‘pessoa’ não são características lógicas ou analíticas da condição de pessoa, mas, ao contrário, normas de inteligibilidade socialmente instituídas e mantidas”. A noção de identidade é fundamental também para uma diversidade de áreas disciplinares, pois é por meio dela que se estabelece a relação de si com o mundo. Uma articulação muito especial dentro da quantidade de possibilidades disponíveis e, talvez também por isso, aberta a mudanças e novas configurações. Sobre esta perspectiva, Stuart Hall (2014) propõe uma reflexão sobre a.
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