CAPÍTULO I ENQUADRAMENTO TEÓRICO
2. SUPERVISÃO NA FORMAÇÃO DE PROFESSORES ONLINE
2.2. Papéis dos intervenientes: supervisor /moderador e formando
No domínio da formação a distância, o papel das tecnologias é fundamental na medida em que são estas que nos permitem ultrapassar as barreiras espácio-temporais, que caracteristicamente existem entre supervisor/moderador e formandos. Este impacto da tecnologia é tão forte que condiciona grandemente os modelos pedagógicos e organizacionais perfilhados nas iniciativas de formação a distância e particularmente no caso do eLearning. Face a estas novas exigências, os sistemas educativos devem ser orientados para a inovação, com o intuito de responder e, se possível, antecipar os novos desafios com que a educação se depara.
A evolução do conhecimento sobre o que é saber e como se aprende tem conduzido à formulação de modelos que apontam para a importância da participação activa dos formandos no processo de aprendizagem, de que é expoente máximo, o modelo construtivista em que sobressaem autores como Piaget e Vygotsky. Tendo por base trabalhos e experiências de vários investigadores, este paradigma advoga que visando uma aprendizagem significativa e eficaz, a participação activa dos formandos deve ser valorizada e estimulada, atribuindo ao supervisor/moderador o papel de mediador do processo de aprendizagem. Neste contexto, reconvertem-se as funções relacionadas com uma nova maneira de planificar, organizar e implementar o processo de formação, beneficiando das novas tecnologias. Reconverte-se igualmente a actuação e interacção dos formandos no processo de formação.
2.2.1. Papel do supervisor/moderador
No campo de acção da formação a distância os termos professor, formador, tutor, moderador, são associados ao prefixo “e” determinando designações como e-moderador, tutor online, e-professor, e-formador, formador virtual…usualmente utilizadas de forma indiscriminada. Apesar da panóplia de designações utilizadas, no contexto deste estudo, interessa focar a atenção no papel desempenhado pelo supervisor/moderador no processo de formação.
Neste sentido, Berge (1995), enfatiza o papel do moderador apresentando quatro pontos de actuação: social (criação de um ambiente de colegialidade promotor da aprendizagem); organizacional (planificação adequada de toda a actividade formativa a implementar), pedagógico (facilitador educacional focando a actuação no desenvolvimento
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de competências de auto-aprendizagem e de independência através do encorajamento e do estimulo à interacção) e técnico (orientação na utilização das ferramenta de comunicação disponibilizadas na plataforma). Esta actuação requer competências ou habilidades interdependentes, mas necessárias ao moderador na orientação e desenvolvimento dos grupos ou comunidades de aprendizagem.
De acordo com Salmon (2000a) o e-moderador deve ser detentor de uma panóplia de habilidades relacionadas com o conhecimento do processo de formação online, com a apropriação de competências tecnológicas de comunicação e dos conteúdos a abordar. Acrescem ainda competências relacionadas com a motivação e aspectos socioafectivos necessários à interacção online. A mesma autora presenteia-nos com um modelo de eLearning dividido em cinco níveis: Acesso e Motivação; Socialização; Troca de
Informação; Construção do Conhecimento e por último o Desenvolvimento. Cada nível
implica que os participantes possuam determinadas competências técnicas e exige diferentes intervenções e competências de moderação do e-moderador. O primeiro nível centra-se em apoiar e facilitar o acesso individual do formando ao sistema, visto poderem ocorrer várias complicações de ordem técnica. Esta acção do e-moderador, segundo Salmon (2000b, p.15), é crucial no alcance da motivação do formando,
“Motivation is an essential element to get participants though the early stages of use of the hardware and software systems and towards engagement and mobilization of learning. It is very important never to assume that the “joys” of the software and the systems themselves will provide any kind of motivation”
No segundo nível, o formando estabelece a sua identidade online e começa a interagir com os outros, favorecendo a criação de uma continuidade no desenvolvimento das actividades, não descurando os timings estabelecidos para a consecução das actividades. Neste nível o e-moderador deverá actuar como um “guia” respeitando a diversidade do tipo de respostas e estilos de comunicação dos formandos.
“…When they reach stage two (Socialization), they recognize the need to identify with each other, to develop a sense of direction online and they need some guide to judgment and behavior” (p. 20).
O terceiro nível é dedicado à troca de informação entre os formandos. Nesta fase deverão ser exploradas todas as potencialidades dos formandos, quer ao nível das suas participações activas na comunidade, quer ao nível da análise das fontes de informação disponibilizadas pelos mesmos.
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No quarto nível, realizam-se discussões decorrentes da informação partilhada no nível anterior, com o intuito de construir um trabalho comum. Quando os formandos progrediram nas suas aprendizagens, adquiriram autonomia e procuram retirar benefícios adicionais que os ajudem a alcançar as suas metas pessoais, estamos perante o quinto e último nível.
A autora referenciada dá especial relevo ao papel que o e-moderador deve assumir para que o sucesso da comunidade de aprendizagem se verifique, opinião também partilhada por Barnes (2000).
Na perspectiva de Shepherd (2003) a intervenção do formador no apoio à aprendizagem em regime de eLearning exige a aquisição de um amplo leque de competências a diversos níveis. A participação activa do formador é primordial para o sucesso da formação.
Glikman (2002) considera que a função do professor transforma-se em tutor, englobando dimensões diversas, adivinhando-se a sua importância, não para transmitir conhecimento, mas para guiar o processo de aprendizagem, para aconselhar sobre a utilização dos suportes pedagógicos e para acompanhar e orientar os formandos.
Deschryver (2003) considera que o papel do tutor centra-se nas ajudas fornecidas aos formandos no sentido de construir uma comunidade colaborativa focando-se na comunicação no seio do grupo, na elaboração de projectos e sua realização, na organização de ideias, no acesso a recursos educativos diversos, na avaliação do trabalho desenvolvido e no domínio das ferramentas de comunicação.
Verificámos que são usados vários termos para definir o professor que acompanha o processo formativo dos formandos. Atendendo a que o âmago do nosso estudo é a Supervisão, consideramos mais oportuno fazer uso da expressão supervisor no decorrer do nosso trabalho.
2.2.2. Papel do formando
Ao longo dos tempos, e à semelhança das transformações verificadas no papel desempenhado pelo supervisor, também o formando deixa de ser um mero receptor de informação para passar a ser sujeito activo do seu próprio processo de construção do conhecimento. Este protagonismo é mais vincado na formação a distância, dada a peculiaridade das suas características, do que na formação presencial.
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Deste modo o formando tem de ser possuidor de um certo grau de autonomia - no sentido de escolher prioridades, estratégias de aprendizagem, organizar o horário, seleccionar a informação pertinente, reflectir sobre as suas acções e ter consciência do seu ritmo da aprendizagem e das dificuldades - na consecução da formação a que se propôs.
Procura-se que a formação seja um processo de autogestão, ou por outras palavras, de autoformação. Ser agente da sua própria formação exige uma mudança de mentalidade.
Lewandowski, citado por Meirinhos (2006, p.67), salienta que:
“Choisir eux-mêmes à quel moment, pendant combien de temps, de quelle manière ils vont étudier; décider de contacter un tuteur [superviseur] ou un autre apprenant; et s’impliquer dans la définition de leur propre parcours de formation. En outre, alors que la formation traditionnelle s’accommode souvent d’une participation assez «distraite» pendant la classe, le e-learning exige de l’apprenant une attention accrue”
Para além do citado, e não menos importante, são a atitude, a motivação, a maturidade e a autodisciplina absolutamente necessárias para participar com regularidade. Não se pretende fomentar uma aprendizagem individual convencional, mas antes uma aprendizagem colaborativa alicerçada no trabalho de grupo, partilhando e reflectindo sobre a partilha, facultada pelos ambientes online, permitindo a interacção, a cooperação e a colaboração.
A aprendizagem efectuada no ambiente online não requer apenas desenvolvimento conceptual mas também habilidade para gerir os relacionamentos sociais estabelecidos pelo formando ao longo do seu processo de aprendizagem.
Na senda de Pinto (2002, p.17) a formação a distância “tende a responsabilizar mais os formandos envolvidos no processo, dado que a ênfase é deslocada do ensino para a aprendizagem”. O papel mais activo cabe ao formando, devendo este procurar informação utilizando os seus próprios métodos e ritmo para a construção do conhecimento. Não se pode deixar de enaltecer que essa construção do conhecimento é uma aventura colectiva onde todos contribuem para a construção do conhecimento de todos.
Um outro factor de extrema importância, e já referenciado, é a motivação. Um formando que se sinta impelido a criar objectivos e a deixar enredar-se por novos ambientes colaborativos de formação é um bom princípio para que se verifique mudança de práticas. O interesse, a motivação e a participação regular são condições intrínsecas ao formando e, caso não as possua, qualquer tentativa de facilitar a aprendizagem, através das mais variadas estratégias pedagógicas, poderá não alcançar os resultados desejáveis.
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“Motivation is important. Intrinsically motivated learners and those with high expectations for grades and completion of a degree tended to have higher success rates. A positive attitude toward the instructor would also be a factor contributing to the success of distant learners”.
À guisa de conclusão, podemos afirmar que estamos perante o traçado de novas competências exigidas aos formandos de forma a serem capazes de enveredar por uma aprendizagem colaborativa ao longo da vida de cariz individual e colectivo. Assim, formandos e supervisores assumem novas funções em ambientes interactivos suportados pelas tecnologias e a sua relação pedagógica transforma-se.