PARTE I – REVISÃO DA LITERATURA
Capítulo 2 – A Auditoria Interna e o Controlo Interno nos Municípios em Portugal
2.3. Auditoria Interna Municipal
2.3.3. Papel actual do Auditor Interno e do Gabinete de Auditoria Interna no
A leitura do ponto anterior pode trazer-nos como conclusão que, de facto, a função de auditoria interna municipal é muito mais do que auditoria financeira, considerando a extensa amplitude de competências e áreas de uma intervenção num município. Esta função vai para além da aferição do cumprimento com as normas, constituindo-se, antes, um órgão estratégico de parceria com a estrutura de gestão municipal e produzindo informação interna fundamental para o desenvolvimento e sucesso organizacional.
Também já foi referido várias vezes ao longo deste trabalho que a auditoria interna se baseia na gestão de risco, o que requer uma evolução técnica dos auditores internos para alterar a orientação, objectivos e resultados dos trabalhos.
Desta forma, é importante que o auditor interno possua um profundo conhecimento do município onde se insere, que tenha uma relação privilegiada com o Executivo, que procure ter uma visão global e integrada da actividade, da organização e funcionamento do município no seu todo e dos respectivos serviços, dos meios disponíveis e da sua utilização, dos métodos e processos e das tecnologias utilizadas, dos seus pontos fortes e das suas insuficiências, dos valores essenciais e da filosofia em que assenta o município.
É essencial que o auditor interno tenha a capacidade de se adaptar ao constante clima de mutação que uma autarquia envolve. Por isso, o desenvolvimento profissional contínuo é fundamental para que possam acompanhar as alterações nas práticas da organização.
Além disso, os profissionais que desempenham funções em serviços de auditoria devem reunir um conjunto de aptidões e características pessoais e comportamentais.
A nível psicológico e comportamental, um auditor interno deve ser honesto, íntegro, objectivo e o mais independente possível, considerando as limitações que já foram mencionadas anteriormente. Precisa de ser flexível e adaptável, mas pragmático.
Necessita de ter capacidade de iniciativa, criatividade e curiosidade intelectual, poder de observação, saber ouvir, ter capacidade de percepção e assimilação rápida, possuir espírito analítico, mas saber ser sintético e conclusivo, ter facilidade de comunicação (oral e escrita) e capacidade de persuasão. Deve ter um bom controlo emocional, ser
rigoroso, mas ter respeito e consideração pelo trabalho dos outros e pelo trabalho por eles desenvolvido, ser capaz de trabalhar com eles, ser persistente e resistente a frustrações, ser sociável e ter diplomacia. Precisa de ter capacidade para ver e analisar para além das aparências, identificar insuficiências e problemas, procurar identificar e compreender as suas causas e avaliar as suas consequências, mas também deve ser capaz de procurar encontrar propostas de soluções para os superar.
Segundo um estudo apresentado no I Fórum de Auditoria Interna das Autarquias (IPAI, 2014), esta função de auditoria interna é, ainda, considerada menor, sendo importante consolidar a função como um dos principais alicerces da estrutura de governação e da valia do seu papel no contexto da gestão pública.
Neste sentido, a existência de um Gabinete de Auditoria Interna nos municípios revela-se muito importante. Os revela-seus objectivos, o âmbito da actuação, as atribuições e competências e o modo de funcionamento, devem ser claramente definidos e adequadamente divulgados, no âmbito de um processo mais vasto que tenha como objectivo criar condições que lhe possibilitem um bom desempenho das suas funções.
Costa (2008:34) refere que o Gabinete de Auditoria Interna deve:
● “Colaborar no processo para a definição de objectivos, estratégias e políticas globais a adoptar;
● Colaborar na avaliação do grau de realização dos objectivos globais definidos, da forma como foram implementadas as estratégias e as políticas globais adoptadas e dos resultados alcançados;
● Colaborar na avaliação do grau de realização dos objectivos sectoriais e departamentais e dos respectivos programas de acção;
● Contribuir para o aperfeiçoamento e a modernização continuada e sistemática do município e do seu funcionamento no seu todo, e dos departamentos, serviços e equipas de trabalho que a integram, através das suas apreciações e recomendações, designadamente no que respeita:
o à implementação das estratégias, políticas e demais orientações da Administração;
o à adequada dos sistemas e tecnologias de informação às necessidades;
o à adequação e eficácia dos meios e dos processos;
o à racionalização das decisões de investimento, em termos técnicos e económicos, designadamente à luz do princípio benefício/custo;
o à racionalização dos aprovisionamentos, relativamente à identificação e quantificação de necessidades, à qualidade dos artigos, aos preços e condições de pagamento;
o à gestão orçamental, analisando o rigor das previsões e da execução dos orçamentos, os mecanismos e processos do seu acompanhamento e controlo, da análise dos desvios e da tomada de medidas correctivas;
o à gestão administrativa e financeira, apreciando aspectos relativos à estrutura financeira, aos financiamentos e à gestão da dívida, ao património e aos seguros;
o à gestão de tesouraria, apreciando o rigor das previsões de tesouraria e os procedimentos para o acompanhamento da sua realização, a análise dos desvios e a tomada de medidas correctivas e verificando a eventual existência de desnecessárias imobilizações de recursos financeiros;
o à fiabilidade, oportunidade e utilidade da informação, de índole financeira e operacional, produzida pelos diferentes serviços e áreas funcionais para os diferentes níveis de decisão;
o à avaliação do cumprimento das disposições legais, directivas, normas internas e externas e demais normativo aplicável, bem como a adequação, exequibilidade e eficácia;
o à identificação da necessidade de alterar normativos, critérios e procedimentos;
o à avaliação da adequação e da eficácia do sistema de controlo interno e de gestão;
o ao acompanhamento e análise da adequação e da eficácia das medidas
o à imagem exterior do município;
● Contribuir para a melhoria do rigor da gestão de custos e de cobrança de créditos/receitas;
● Contribuir para a melhoria da qualidade de serviço e da imagem do município, analisando as condições de atendimento e tentando identificar insuficiências que possam afectar a satisfação das necessidades dos contribuintes.”
É importante acrescentar que nos municípios de grande e média dimensão tendem a existir alterações rápidas e profundas, nomeadamente ao nível das opções estratégicas, da organização, dos sistemas, das tecnologias e, portanto, é necessário estar-se atento e encontrarem-se soluções para que os serviços de auditoria interna continuem a ter possibilidade e capacidade para cumprir a sua função com eficácia e utilidade e para impedir que sejam atacados de ineficácia. Costa (2008:36) defende que “a solução para este tipo de preocupações pode passar pela adopção de processos conducentes à sua avaliação periódica, feita interna ou externamente mas de forma ajustada a cada realidade em concreto.”