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2 O MOVIMENTO OLÍMPICO

2.2 Comitê Olímpico Internacional

2.2.1 Papel central

104 Regra 15.1 da Carta Olímpica. 105 Latty, 2007, 438-439.

106 Ibidem, pp. 195-196; e Regra 18.6 da Carta Olímpica. 107 Regra 2.3 da Carta Olímpica.

31 O prestígio dos Jogos reuniu a maior parte do movimento esportivo, favorecendo a criação de comitês nacionais olímpicos e reagrupando, sob a “autoridade suprema” do COI109, as FI‟s e outras instituições transnacionais de cunho esportivo. O COI exerce uma vasta competência, em prol da integração no Movimento através do reconhecimento, porque não é suficiente para uma organização se ocupar do esporte, nem mesmo proclamar sua anexação ao ideal olímpico, para fazer parte do Movimento e, assim, participar de uma competição olímpica. É o reconhecimento oficial pelo COI que lhe permite integrar os membros em um conjunto organizado110.

O reconhecimento do COI encontra-se no 6º Princípio Fundamental da Carta Olímpica, tal como na Regra 3.1, que condiciona o pertencimento ao Movimento à aceitação. Os Comitês Olímpicos Nacionais (CON) e as FI‟s são os principais órgãos a serem reconhecidos pelo COI, pois são eles que vinculam os outros possíveis reconhecidos no Movimento, como as associações continentais ou mundiais de CON‟s e, também, árbitros e atletas111. Dessa forma, o respeito à Carta, primeira condição de reconhecimento do COI112, supõe conformidade dos Estatutos federais e dos CON‟s (que também devem ter status de pessoa jurídica), o que, conseqüentemente, vincula diretamente outros membros, árbitros e atletas. Portanto, estes também estão submetidos à aprovação do COI, mesmo que a aceitação do compromisso não tenha sido feita diretamente por eles113.

A Carta Olímpica exige que se respeitem os Princípios Fundamentais como forma de reconhecimento. O respeito aos princípios éticos universais, por mais que possa soar abstrato ou tendencioso com a exclusividade de valores ocidentais, possui alguma capacidade de se concretizar, quando associada à proibição de qualquer forma de discriminação114. Foi assim que ocorreu quando o COI retirou o reconhecimento do CON da África do Sul e países que permitiram contatos esportivos (como a Nova Zelândia) em razão da discriminação racial institucionalizada115. Enquanto durou o Apartheid, não houve o reconhecimento do COI. É curioso que temas como esse possui em olhar específico no âmbito do direito internacional. A “Convenção internacional sobre a eliminação de todas as formas discriminação racial”, de 1968, trata desse tema entre Estados. Contudo, no âmbito esportivo, é necessária a regulação

109 3º Princípio Fundamental do Olimpismo. 110 Latty, 2007, p. 169 e 174.

111 Nesse sentido, Regra 3.2.

112 Regra 1.2, 2.5 e 26 da Carta Olímpica. 113 Latty, 2007, p. 175 e 181; Regra 3.2 da Carta.

114 1º e 5º Princípio fundamental e Regra 2.10 da Carta Olímpica; Chappelet e Kubler-Mabbott, 2008, p. 52 115 Allison e Monnington, 2005, p. 6.

32 interna como legitimadora de tais ações por parte do COI, enfocando o fim de políticas discriminatórias.

Por mais que existam Tratados que fundamentem os Direitos Humanos, na tentativa de construir uma semântica globalizada, verifica-se que existem múltiplas visões sobre o mesmo tema em diferentes ordens. A semântica dos direitos humanos possui múltiplos usos em função da multiplicidade de atores participantes. O debate universalismo versus relativismo dos direitos humanos perde um pouco seu foco nesse novo contexto116. Não que ele deixe de existir, eis que é ainda válido em um mesmo território, onde existam múltiplas culturas regidas por um mesmo ordenamento117. O que se quer deixar claro é que existem outros atores além do Estado que tratam de problemas semelhantes a eles, assim como possuem capacidade de fundar novos direitos humanos, quando na Carta Olímpica se apregoa, em seu 4º Princípio Fundamental, que “a prática do esporte é um direito humano[...]”. Nessas situações, a ordem desportiva parece afirmar-se como ordem autônoma, ao passo que não fecha os olhos para problemas comuns da sociedade mundial118.

Ao mesmo tempo em que os Princípios Fundamentais da Carta Olímpica podem restringir a participação de um país em razão de sua política discriminatória, o COI não aceita a intromissão política e econômica nos assuntos esportivos de cada membro. O 5º Princípio Fundamental estabelece que a organização, a administração e a gestão do esporte devem ser controladas pelas organizações esportivas independentemente. O suporte dessa interpretação é a Regra 28.6 da Carta que dispõe que os CON‟s devem preservar sua autonomia e resistir a todas as pressões. Podem, até, cumprir as ordens sem que, todavia, se restrinjam às pressões de ordem política, jurídica, religiosa ou econômica que impeçam de se conformar à Carta Olímpica. Existiram alguns exemplos mais antigos de grande intromissão política na esfera esportiva, como foi o caso da União Soviética119.

O COI se obriga a só reconhecer uma só FI por esporte e um CON por país120, o que contribui em grande parte a assegurar o monopólio das ditas organizações. O valor das

116 Em outra vertente sobre o universalismo dos direitos humanos, Cf. Parekh, 1999, pp. 150 e 158. 117 Como a proibição do uso de qualquer símbolo religioso nas escolas públicas francesas.

118 No capítulo cinco, ter-se-á uma visão mais detida das limitações impostas do direito internacional sobre a

ordem transnacional esportiva.

119 Latty, 2007, pp. 176-178.

120 Os critérios de reconhecimento de representação nacional nas competições internacionais não são,

necessariamente, seguidas conforme o critério do COI. Enquanto que nas Olimpíadas existe a participação do Reino Unido, na Copa do Mundo de futebol, competição organizada pela FIFA, pode haver a participação do País de Gales, Irlanda do Norte, Escócia e Inglaterra. Vale ressaltar que existem situações políticas que

33 Olimpíadas contribui para que só uma FI ou um CON reconhecido possa agir em seu propósito. Caso haja um segundo ator que lide com a matéria de um desses membros e não seja reconhecido pelo COI, dificilmente ele conseguirá algum espaço de relevância no plano mundial121, como também não obterá êxito na produção de concorrência sobre o assunto122. Isso fica claro quando se tem, como exemplo, a Federação Mundial de Caratê (WKF), que não é a única a se intitular como organização mundial de Caratê123. O artigo 1.9 de seu estatuto expressa que “a WFK fará todos os esforços possíveis para que o Caratê seja aceito nos Jogos Olímpicos e todos os outros Jogos do ciclo Olímpico”. Tais “esforços” parecem buscar maior credibilidade em comparação com outras FI‟s de mesmo esporte.

Em razão do poder sobre os seus membros, o COI conseguiu forçar a implementação do Código Mundial Antidoping (CMA) em 2004 a todos, em especial as Federações Internacionais, sob condição de reconhecimento. A Regra 44 da Carta Olímpica afirma que o Código Mundial é obrigatório a todo o conjunto do Movimento Olímpico, tornando-se um fator importante para o combate uniforme e universal ao doping. Nesse sentido, conforme a Regra 59 da Carta, a submissão dos membros às decisões do Tribunal Arbitral do Esporte (TAS) 124, no que se refere às lides relacionadas aos Jogos Olímpicos (JO), é também ligada à condição de reconhecimento125. Reforça essa perspectiva o fato de que o “Texto de Aplicação da Regra 45”, 6º ponto, da Carta exprime que, para participar dos Jogos, o participante deve reconhecer a jurisdição do TAS. Nesse contexto, o participante é representação nacional do CON, da mesma forma que é representação esportiva da FI. Essa vinculação direta do atleta ao COI demonstra um caráter contratual dessa relação, em que se elege foro desvinculado do Estado126. Demonstra, também e acima de tudo, a importância do COI na construção de uma

lex sportiva harmonizada, independentemente de esporte ou nacionalidade127.

Mesmo que o pretendente a membro preencha todas as condições, o reconhecimento procede de um ato discricionário do COI, não sendo, inclusive, suscetível a recurso128. A influenciam no reconhecimento de um país. Com o fim da Iugoslávia, Montenegro foi reconhecido pelo COI em 2008.

121 Exceto no caso de alguma Federação esportiva profissional, como as que tratam do boxe profissional. 122 Latty, 2007, p. 179; Chappelet e Kubler-Mabbott, 2008, p. 26.

123 Há também Federações que tentam se diferenciar pela matéria (Shotokan ou tradicional) ou pela tentativa de

governar mundialmente, como a Associação Internacional de Caratê (IKA).

124 Mais detalhes sobre a Agência Mundial Antidoping e o TAS nos próximos capítulos. 125 Latty, 2007, pp. 176-181.

126 Nesse caso, assemelha-se com a lex mercatoria.

127 Foster, 2005, p. 61. O importante papel do COI na uniformização da legislação e de decisão dos litígios não

exclui do conceito de lex sportiva das FI‟s que não participam desse contexto olímpico.

34 Regra 3ª e seus incisos são claros na terminologia de que o COI “pode” reconhecer, não significando que “reconhecerá”. O reconhecimento pode ser, segundo Regra 3.6, provisória ou definitiva, não garantindo, todavia, participação nos Jogos. Independentemente de qual seja a modalidade do reconhecimento, a investidura esportiva amplia o número de obrigações e direitos a serem considerados por seus membros. Ou seja, mesmo antes do reconhecimento, o pretendente a membro precisa se condicionar aos ditames do COI antecipadamente, abrindo mão de parte de sua autonomia.

No capítulo primeiro, foi possível notar que as FI‟s têm uma existência independente do COI para ser eficaz. De maneira contrária, os CON‟s só existem como tais se houver reconhecimento pelo COI. A autoproclamação não possui nenhum sentido no plano Olímpico, pois isso não lhe dá direito de participar em uma competição organizada pelo COI129. Pode-se concluir que, na sua função principal de harmonizar as mais diversas regulações em direção de um Movimento esportivo, o COI necessita de órgãos que elaborarão e julgarão tais regras. Internamente, ele possuirá alguns órgãos que exercerão parte da função regulatória.

No documento MESTRADO EM DIREITO SÃO PAULO 2011 (páginas 43-47)