CAPÌTULO II – Formação e Posição da Identidade do Sujeito Constitucional.
3. Papel da negação na formação da identidade constitucional.
Antes de analisar como se realizam as construções e reconstruções da identidade constitucional no discurso constitucional, cumpre expor o relevante papel que a negação exerce para o estabelecimento de uma dada identidade constitucional81. Segundo Rosenfeld, três são os principais mecanismos relevantes para a articulação do discurso constitucional: a
80 ROSENFELD, Michel. A Identidade do Sujeito Constitucional. p. 40.
81 Apesar de a ordem original de exposição dos temas não ser esta, preferiu-se trabalhar primeiramente a
negação, a metáfora e a metonímia82, que “(...) combinam-se para selecionar, descartar e organizar os elementos pertinentes com vistas a produzir um discurso constitucional no e pelo qual o sujeito constitucional possa fundar a sua identidade.”83
A negação é fundamental na medida em que o sujeito constitucional apenas surge como eu distinto da tradição pré-revolucionária e dos “outros” sociais por meio da renúncia e da exclusão. Assim: “O papel da negação no processo de estabelecimento da identidade do sujeito constitucional é multifacetado, intrincado e complexo. Ele envolve, dentre outras coisas, a rejeição, o repúdio, a repressão, a exclusão e a renúncia. Essas funções podem se entrelaçar de vários modos e operar simultaneamente em vários níveis de realidade.”84
Rosenfeld retorna ao pensamento de Hegel: na concepção da dialética do sujeito, é a negação que permite ao sujeito transitar de sua posição inicial, na qual ele é uma mera ausência, para seu estágio final, no qual o sujeito converte-se em substância, tornando-se um em si para si. De acordo com tal lógica, a identidade inicial do sujeito é adquirida no momento em que a negação permite-lhe compreender que sua identidade não se confunde com os objetos do seu desejo. Ou seja, o primeiro rudimento de identidade depende da negação dos objetos como elementos constantes da identidade. “(...) Essa identidade inicial do sujeito, no entanto, é puramente negativa e oposicional na medida em que enfoca aquilo que o sujeito não é, sem revelar o que ele é.”85
82 Metáfora e metonímia serão analisadas na segunda parte do segundo capítulo. 83 ROSENFELD, Michel. A Identidade do Sujeito Constitucional. p. 50. 84 ROSENFELD, Michel. A Identidade do Sujeito Constitucional. p. 51. 85 ROSENFELD, Michel. A Identidade do Sujeito Constitucional. p. 51.
Em outros termos, o primeiro estágio representa a emergência do sujeito como negação. O estágio seguinte da evolução lógica do sujeito é a busca por uma identidade positiva. Constitui-se na negação pelo próprio sujeito de que ele seja apenas um vazio, uma ausência, que culmina na procura por: “(...) uma identificação positiva na multifacetada diversidade de suas manifestações concretas.”86 Entretanto, na medida em que acolhe essas manifestações, fragmenta-se a unidade do sujeito, tornando-se impossível para ele reconhecer a nascente identidade positiva como sendo efetivamente sua. Justamente por conta dessa impossibilidade, o sujeito se auto-aliena.
No terceiro e final estágio, o sujeito hegeliano nega a negação, ou seja, nega o segundo estágio – nega que a identidade positiva emergente não seja a sua própria identidade – e, portanto, assume como própria sua identidade positiva, tornando-se para si o que ele é em si.
O estabelecimento da identidade do sujeito constitucional dá-se de forma semelhante à lógica hegeliana supradescrita:
(...) No primeiro estágio, a identidade do sujeito constitucional é a pura negação, porque o sujeito constitucional adquire uma identidade diferenciada, distinta, mediante a negação daquilo que é o sujeito pré-constitucional, ou seja, um mero produto das identidades cultural, histórica, étnica ou religiosa vigentes. Em outros termos, o sujeito constitucional primeiramente entra em cena ao se diferenciar atravessando todos os sujeitos já constituídos encontráveis no quadro espaço temporal relevante. O sujeito constitucional chega a essa identidade puramente negativa mediante o repúdio ao passado pré- revolucionário; por meio da rejeição das identidades tradicionais; da repressão à sua necessidade de acolher uma identidade positiva, forte, em detrimento da pluralidade de identidades não-constitucionais que requeriam ser protegidas pelo constitucionalismo; da exclusão de qualquer tendência agressivamente,
militantemente, antipluralista que pudesse derrotar o constitucionalismo; e, por fim, mediante a renúncia aos sonhos de hegemonia daqueles em condição de moldar o destino do sujeito constitucional.87
Logo, percebe-se que esse primeiro momento do sujeito constitucional assemelha-se ao estágio inicial da identidade do sujeito hegeliano, na qual ele percebe que sua identidade não é redutível aos objetos de seu desejo, do mesmo modo que o sujeito constitucional compreende que sua própria identidade não se resume às tradições já vigentes na comunidade da qual ele emerge.
No período em que o sujeito constitucional não passa de pura negatividade e ausência, invariavelmente surgirá a necessidade de preencher o vazio e o hiato internos nos quais o sujeito se percebe por meio do estabelecimento de uma identidade positiva. O segundo estágio do desenvolvimento lógico da identidade do sujeito constitucional é caracterizado pela busca por uma identidade positiva, que só pode ser alcançada recorrendo-se às mesmas tradições e identidades que, em um primeiro momento, foram repudiadas e descartadas. Tal ocorre porque: “(...) os objetivos do constitucionalismo não podem ser perseguidos no vácuo; eles requerem o estabelecimento de um aparato institucional viável que deve, necessariamente, se assentar na história, nas tradições, no patrimônio cultural da comunidade política pertinente.”88
De acordo com Hegel, a transição de um estágio para o outro ocorre por meio de um processo de subsunção89, no qual tudo que surge em um determinado estágio é preservado e
87 ROSENFELD, Michel. A Identidade do Sujeito Constitucional. p. 52. 88 ROSENFELD, Michel. A Identidade do Sujeito Constitucional. p. 53. 89 Aufhebung, ou sublation, em inglês.
superado a partir do contexto e da perspectiva do próximo estágio. Desse modo, quando o sujeito constitucional recorre às identidades anteriormente descartadas para se preencher positivamente, não ocorre um retorno ao passado pré-constitucional; pelo contrário, trata-se de uma incorporação seletiva de elementos das identidades repudiadas, em consonância com os objetivos e interesses do próprio sujeito constitucional. “(...) Em outras palavras, as tradições incorporadas ao sujeito constitucional no segundo estágio o são em seu próprio benefício. Essas tradições só são invocadas à medida que sejam capazes de servir aos interesses do constitucionalismo.”90
Dessa forma, as identidades pré-constitucionais repudiadas são parcialmente re- incorporadas à identidade do sujeito constitucional no segundo estágio; entretanto, combinam-se e ocupam posições distintas daquelas que anteriormente ocupavam no período pré-revolucionário. Ou seja, importantes identidades da comunidade política, de cunho histórico, cultural, étnico, religioso, etc., não são simplesmente eliminadas do universo constitucional – pelo contrário, elas são seletivamente incorporadas à identidade constitucional, na medida em que promovam, ou, ao menos, que não interfiram nos objetivos específicos do constitucionalismo e da ordem constitucional instituída na comunidade política.
O momento final da evolução dialética da identidade do sujeito constitucional consubstancia-se em uma nova inversão de perspectiva, caracterizada pela negação da negação, ou seja, pela negação de que a busca pela identidade representa igualmente a perda da unidade e da subjetividade – possibilitando ao sujeito constitucional compreender
que o desenvolvimento de sua identidade positiva é efetivamente determinado por sua própria vontade e interesses, e não por forças externas alheias a seu controle. Desse modo:
(...) o trabalho da negação da negação encontra-se completo quando o sujeito constitucional compreende que, embora o material bruto que figura em sua identidade positiva se origine do mundo objetivo exterior, sua seleção, combinação, organização e emprego em um todo coerente é o produto de sua própria obra, o resultado de seu próprio trabalho, de seus próprios esforços na luta por uma identidade distinta. (...) a construção pelo sujeito constitucional de sua identidade positiva não pode ser completada sem que o material bruto originariamente externo à esfera constitucional seja submetido aos limites normativos prescritos pelo constitucionalismo.91
Percebe-se, portanto, que a evolução da identidade do sujeito constitucional culmina, similarmente ao sujeito hegeliano, no tornar-se um em si para si. Na medida em que o sujeito constitucional compreende que ele é o senhor da sua identidade, sua evolução lógica se completa com o estabelecimento de uma identidade positiva que, ao incorporar e re-combinar seletivamente elementos externos oriundos de outras identidades relevantes da comunidade política, possibilita a construção de uma linguagem constitucional comum e compartilhada, apta a unir os “eus” e os “outros” da comunidade política em questão.