Como já citado neste trabalho, os comandos normativos referentes ao sistema político-eleitoral foram projetados com ligações profundas ao sistema partidário. Em consequência disso, é demonstrada uma grande importância dos partidos políticos, que detém de forma exclusiva o direito de apresentar candidaturas aos cargos públicos, ou seja, é através dos partidos políticos que toda a população será representada politicamente, tanto nos cargos do Poder Executivo quanto do Poder Legislativo. Assim, pode se dizer que os partidos políticos assumem hoje papel central no contexto da democracia representativa, sendo instituições indissociáveis dos mecanismos de exercício do poder representativo.
Caso venham a serem admitidas as candidaturas avulsas nesse sistema político-eleitoral, com a consequente perca do monopólio das candidaturas pelas agremiações partidárias, é coerente afirmar que haverá um enfraquecimento dos partidos políticos como um todo, visto que estes receberão a concorrência dos candidatos avulsos na busca pela representação (ou seja, pelo voto) dos eleitores, embora não seja possível mensurar o quantum desse enfraquecimento, que só seria verificado na prática.
Por outro lado, com a concorrência dos candidatos avulsos, é bem possível de imaginar que os partidos políticos buscassem se fortalecer, a partir de explanação maior de suas ideias, ideologias, maneiras de se pensar uma realidade, que, dado o caráter estrutural e perene dos partidos, seriam mais desenvolvidas que as dos candidatos avulsos. Também precisariam criar mecanismos internos de transparência, desde as suas finanças, passando pelos critérios de eleição dos seus diretórios e escolhas de candidatos, quem sabe até para atrais potenciais candidatos avulsos a uma agremiação com ideais semelhantes.
6 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Diante do julgamento pelo STF da repercussão geral que definirá se as candidaturas avulsas são constitucionais, nesse trabalho buscou, de forma limitada e longe de esgotar o tema, trazer os fundamentos jurídicos que vêm sendo apresentados a favor da sua permissibilidade, bem como o contraponto de quem refuta a ideia, para, na medida do possível, contribuir com o debate.
Nesse sentido, o objetivo deste trabalho foi o de analisar a possibilidade jurídica das candidaturas avulsas no Brasil à luz da Constituição Federal de 1988 e do Direito Internacional e quais as consequências nas eleições futuras, em caso de eventual adoção. Numa análise bem pessoal, pode-se dizer que o objetivo foi alcançado, sendo respondidas as questões formuladas na introdução.
Para tanto, de início, foi feita uma revisão bibliográfica acerca dos requisitos estabelecidos que formam o jus honorum, qual seja, o direito de ser votado, através do estudo das condições da elegibilidade e das causas de inelegibilidade. Um desses requisitos, a filiação partidária, estabelecida no art. 14, § 3º, V, da Constituição Federal, de plano, é taxativamente inibitória à candidatura avulsa. Por isso, na data de conclusão deste trabalho, é incontestável que os partidos políticos possuem o monopólio na indicação dos candidatos postulantes ao exercício dos mandatos eletivos no Brasil. É dizer que não existe outra forma de sequer concorrer a um cargo representativo da população, se não à sua vinculação a algum dos partidos políticos vigentes e à submissão ao processo interno de escolha dos candidatos, promovido pelo próprio partido, com suas regras estabelecidas no respectivo estatuto.
Porém, ampliando a pesquisa, adentrando no direito internacional, mais especificamente da Convenção Americana de Direitos Humanos, foram encontrados dispositivos que apontam possíveis conflitos normativos com a Constituição brasileira, especialmente o enunciado no art. 23.2 da CADH. E tendo em vista que o Art. 1º do Decreto nº 678/1992 determina que a CADH “deverá ser cumprida tão inteiramente como nela se contém”, a exigência da filiação partidária poderia se tornar inconvencional.
Assim, também por meio de revisão bibliográfica, foi analisado a hierarquia normativa existente entre os tratados internacionais em geral e, sobretudo, acerca dos tratados que versam sobre direitos humanos. Verificou-se que
a doutrina pátria se divide em 4 correntes sobre a “força” dos tratados internacionais de direitos humanos internalizados anterior à EC 45/2004: acima, abaixo ou no mesmo nível que a Constituição e/ou as leis. Diante do embate doutrinário que parece longe de se tornar pacífico, o STF no RE 466.343/SP definiu que a CADH possui status supralegal, o que tornou ineficaz a possibilidade constitucional de prisão civil do depositário infiel.
Posteriormente, por essa mesma lógica jurídica, qual seja, conflito da CADH com o ordenamento jurídico brasileiro, o tema das candidaturas avulsas chegou ao STF através do ARE 1.054.490/RJ, que em 05/10/2017, no julgamento do seu recurso, foi atribuída repercussão geral à questão, a qual encontra-se próxima de uma definição.
Tendo em vista, então, o debate das candidaturas avulsas renascido posteriormente àquela sessão, foram pincelados no trabalho alguns posicionamentos de autores que se manifestaram tanto sobre a possibilidade quanto a impossibilidade jurídica da repercussão geral ser aprovada. Quanto a este autor, o posicionamento foi o de que, dado que o STF concedeu status de supralegalidade à CADH, deve-se respeitar sua jurisprudência para manter a integridade do sistema jurídico. Assim, a CADH, por estar posicionada com “força” acima das leis, revoga as regras infraconstitucionais de exigência de filiação partidária nas candidaturas, permitindo juridicamente as candidaturas avulsas.
Entretanto, foi mostrado que, diferentemente da revogação da prisão civil do depositário infiel, muitas são as consequências da permissão das candidaturas avulsas, visto que o sistema eleitoral é todo desenhado para funcionar por intermédio dos partidos políticos, pois existe uma série de regramentos eleitorais que, se não mudarem, impossibilitará a realização das eleições com a participação de candidatos sem partido político; além disso, a Lei de Inelegibilidades e a Lei de Ficha Limpa sofreriam forte enfraquecimento, pois a quase totalidade das hipóteses ali previstas não se enquadram nas hipóteses de restrição de direitos políticos previstas na CADH; também tem a questão da fidelidade partidária que, pelas regras atuais, os candidatos avulsos eleitos seriam privilegiados em relação àqueles com filiação partidária; por fim, outras temáticas tratadas pelo Pacto de San José poderiam também passar por novas discussões de constitucionalidade.
Assim, de tudo que foi pesquisado, há que se fazer novas indagações caso o STF eventualmente decida pela inconstitucionalidade das candidaturas
avulsas pura e simplesmente: – Quem legislará sobre a adequação das normas infraconstitucionais controversas, para possibilitar as candidaturas avulsas na eleição? – Valerá para todos os cargos, majoritários e proporcionais? – Poderá qualquer candidato avulso se registrar livremente, ou, como ocorre na maior parte dos países que permitem candidaturas avulsas, necessitará de apresentar, por exemplo, um apoiamento mínimo para que figure como candidato? – A quantidade de candidatos avulsos será limitada?
A teoria da tripartição dos poderes, na qual se baseia a maioria dos Estados ocidentais modernos, adotada no Brasil pela Constituição Federal de 1988, limita a atuação de cada um dos três Poderes que formam o Estado, incumbindo ao Poder Legislativo a função típica de promover a criação e alterações normativas.
Então, por respeito ao art. 2º da Constituição Federal, caso o STF admita as candidaturas avulsas, não poderá por conta própria discutir essas novas regras eleitorais entre seus ministros muito menos defini-las, por ultrapassar o limite de sua competência constitucionalmente estabelecida, bem como por caber ao Congresso Nacional a função típica de legislar, promovendo as alterações normativas necessárias às candidaturas avulsas.
E considerando que, além da declaração de constitucionalidade, as candidaturas avulsas necessitam que as normas eleitorais sejam alteradas para se tornarem compatíveis e eficazes com a quebra do monopólio das candidaturas via partidos políticos, o debate sobre o tema sai do espectro jurídico e entra no espectro político. Dessa forma, o autor, mesmo tendo anteriormente opinado pela possibilidade jurídica das candidatas avulsas, entende que é por meio do Congresso Nacional que o tema deve ser definido, pois essa liberação necessitará de complementação legislativa. Inclusive, há Propostas de Emenda à Constituição tramitando no Congresso Nacional nesse sentido.
Acontece que a relação entre Congresso Nacional e STF não anda das mais harmônicas, com ameaças de CPI da “Lava Toga”, ameaças de impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal, etc. Se chegar uma demanda de adequação de normas eleitorais, que daria menos importância aos partidos políticos, a partir de uma decisão do STF, pode ser interpretado como mais uma afronta à tripartição dos poderes. Podendo também, em caso de eventual aprovação pelo Poder Legislativo de regras bastante restritivas às candidaturas avulsas, que se
tornem quase impossível sua prática, é bem provável que isso seria objeto de ADI, o que inflamaria ainda mais essa relação.
Por fim, numa opinião pessoal, o autor é favorável às candidaturas avulsas por entender que, com sua permissão, se amplia o conceito de democracia, permitindo que pessoas que não compactuam com o modelo de organização partidária atualmente vigente possam se postular como candidatos, inclusive com a bandeira de mudar esse sistema. Afinal, não se pode fechar os olhos para o que vem ocorrendo na ordem político-social: uma crise político-partidária no Brasil nunca vista e um enfraquecimento generalizado na imagem dos partidos políticos enquanto entidades, que passaram a viver um dos momentos mais difíceis de suas histórias. Uma pesquisa divulgada em agosto de 2019 mostra que 73% dos brasileiros dizem não confiar nos partidos políticos (PODER360, 2019), o pior índice de um total de 20 instituições.
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