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5.2 A NÁLISE DA DEGRADAÇÃO AMBIENTAL DA BHRP IMPOSTA PELOS MUNICÍPIOS INTEGRANTES DA MESMA

5.2.4 O papel exercido pelo Município de Natal na BHRP

Foto: MPP, Jô Carvalho (21/01/2001).

FIGURA 5.28: Visão do desmatamento da mata ciliar, à margem direita do rio Pitimbu (Fazenda Boa Esperança) – Ao fundo, visão do desmatamento e deslizamento das dunas,

assoreando do rio, à montante da ponte na Av. Trampolim da Vitória (RN-066) – Nova Parnamirim/RN.

com 2,07km2; ZPA-3, com 1,47km2 e a ZPA-4, com 0,14km2, cujos percentuais em relação à bacia são 1,63%, 1,16% e 0,11%, respectivamente. Reunidas, abrangem apenas 2,9% da bacia em epígrafe.

Destaca-se, nesse cenário, a ZPA-3 (regulamentada em 2001), por localizar-se à margem esquerda do rio Pitimbu, estendendo-se por aproximadamente 3,96km, correspondendo ao comprimento de margem de rio que esse município detém. Todavia, nos últimos anos, a aludida área encontra-se sob forte pressão do capital imobiliário com a intenção de implantar condomínios habitacionais nessa área. Destarte, passa a correr o risco de perder essa condição mínima de proteção ambiental.

É importante mencionar que, nessa zona, Oliveira (1999) identificou três pontos em processo de erosão, com carreamento de sedimentos para o rio Pitimbu; trinta e cinco pontos com deposição de resíduos sólidos a céu aberto; dois pontos com ocorrência de desmatamento; três pontos com queimada da vegetação e três pontos utilizados para retirada de sedimentos para Construção Civil

A paisagem da área em análise contempla uma Geomorfologia composta, quase que totalmente, de cordões dunares sobrepostos ao pacote sedimentar Barreiras, chegando ao leito do rio Pitimbu. Cabe ressaltar que, contrapondo essa Geomorfologia, a paisagem à margem direita desse rio nesse trecho caracteriza-se pelo completo afloramento do pacote sedimentar acima referido. Esse cenário paisagístico deve-se ao fato de que o rio Pitimbu

possui sua gênese relacionada aos processos tectônicos, apresentando um traçado morfológico de vale estrutural, onde ocorre o ‘Graben Parnamirim’.

Caracteriza-se como um terraço fluvial entulhado por sedimentos oriundos do processo de acumulação fluvial (SANTOS, 1999, p. 38).

Deve-se ainda lembrar que as unidades morfológicas encontradas na região da BHRP são dunas fixas, que acompanham o Graben Parnamirim na direção noroeste-sudeste, localizadas à margem esquerda do rio Pitimbu na área de Natal e as formas tabulares, ou seja, os Tabuleiros Costeiros, são encontrados predominantemente nos municípios de Macaíba e Parnamirim.

É importante por em relevo que o setor da BHRP que pertence ao Município de Natal encontra-se quase que totalmente sobre um cordão dunar, que, segundo Nunes (2000), trata-se de uma área que apresenta baixos topográficos e baixos estruturais (BB). Como foi visto anteriormente, são domínios inadequados para implantação de aterros sanitários, cemitérios, fossas sépticas, lagoas de rejeitos industriais, lagoas de captação e infiltração de águas pluviais e construção de estradas e habitações.

Tem uso restrito/inadequado à mecanização agrícola, e uso restrito a obras enterradas e como fonte de empréstimo de material para a construção civil (areia e argila), onde a retirada de areia nas dunas recentes e argila, nos vales fluviais, destinados a construção civil, poderá ser feita de forma monitorada em áreas previamente escolhidas e fiscalizadas por órgão competente, para que não haja degradação ambiental.

Todavia, foram identificadas áreas com a existência de expansão urbana desordenada e desenfreada, notadamente no bairro Guarapes; existência de vários conjuntos habitacionais de médio porte no âmbito da bacia hidrográfica do rio Pitimbu, com destaque para um Conjunto residencial de grande porte denominado Cidade Satélite, com 3.545 casas, assentado em um vasto campo de dunas que recobrem o Barreiras, com alto poder de infiltração, em uma área desprovida de saneamento básico.

Encontraram-se desmatamento; queimada; retirada de sedimentos sem controle;

deposição a céu aberto de resíduos sólidos em áreas de vertente e no próprio rio Pitimbu;

drenagem urbana precária; carência de um sistema de esgotamento sanitário público, utilizando-se para tal fim o sistema individual fossa-sumidouro; erosão, assoreamento do rio Pitimbu; dentre outras atividades impactantes.

Cumpre destacar que os bairros de Natal que estão inseridos parcialmente nesse setor da bacia são Guarapes (Planalto) (3,10km2), Cidade Nova (0,64km2), Pitimbu (7,41km2), Candelária (0,57km2), Neópolis (0,57km2) e Ponta Negra (0,07km2), sendo que o bairro Pitimbu é o que possui a maior área, além de conter a ZPA-3 e o conjunto habitacional Cidade Satélite, com suas três etapas que somadas totalizam 3,28km2 (2,59% da BHRP).

Ainda segundo informações obtidas nesta pesquisa, cabe revelar que o Cidade Satélite fora implantado na década de 80 em uma área desprovida de saneamento básico. Ressalta-se que a paisagem local apresenta uma geologia constituída por paleodunas quaternárias de alto poder de infiltração, as quais compunham um vasto campo de dunas que recobrem o Barreiras. Assim sendo, verifica-se que esse cenário põe em risco de contaminação por nitrato (NO3) o aqüífero livre, podendo estender-se ao rio Pitimbu.

Marinho (2000)43 ratifica essa hipótese ao afirmar que a contaminação do rio Pitimbu por nitrato (NO3) é iminente. Explica que isso poderá ocorrer através do processo de nitrificação desenvolvido durante a infiltração no solo dos efluentes do sistema de esgotamento sanitário fossa-sumidouro, utilizado na aludida área. Como exemplo, Marinho

43 Elmo Marinho – Geólogo e pesquisador do Instituto de Desenvolvimento e Meio Ambiente do Estado do Rio Grande do Norte (IDEMA) – Palestra à comunidade do Bairro Pitimbu em 17 de maio de 2000.

(2000) informa a evolução cronológica da concentração de nitrato (NO3) na água de um poço tubular na Cidade Satélite. Os dados revelam que em 1987 o valor era de 6mg/l. Já em 2000, a concentração desse íon eleva-se para 30mg/l (informação verbal).

É imprescindível ressaltar que ao longo de toda planície de inundação do rio Pitimbu, constatou-se que em vários pontos há ressurgência do aqüífero livre. No entanto, aqueles locais em que há afloramento da Formação Barreiras (Grupo Barreiras), sobretudo com a vegetação preservada, há uma forte presença da ressurgência desse aqüífero, contribuindo, desse modo, para a perenidade desse rio.

Também, foi verificado que a proximidade dos cordões dunares da planície de inundação em alguns trechos desse rio, proporciona uma retroalimentação de suas águas, tendo em vista serem “verdadeiros filtros naturais” (Vilaça, 1999)44 (informação verbal) que, particularmente com a sua cobertura vegetal preservada, retêm as águas pluviais e vão, aos poucos, alimentando esse curso d’água permanentemente. Essa constatação evidencia, portanto, a importância de se preservar a vegetação existente, bem como promover o reflorestamento daquelas áreas já degradadas.

Em última análise, portanto, pode-se afirmar que o escoamento de base predominante em toda bacia torna o rio Pitimbu mais vulnerável à contaminação por substâncias químicas.

Pontualmente, identificam-se vários problemas ambientais na bacia em relevo. Pode-se destacar como primeiro exemplo a deposição de resíduos sólidos (Lixo) à margem da rua dos Cometas em Guarapes, a qual dá acesso à “Ponte Submersa” no rio Pitimbu, via pública sem revestimento que possui significativa declividade, construída na vertente esquerda do rio Pitimbu (FIGURAS 5.29 e 5.30).

Torna-se oportuno expor que a decomposição do lixo produz um líquido altamente poluído e contaminado denominado chorume. Esse líquido contém concentração de material orgânico equivalente a 30 a 100 vezes o esgoto sanitário, além de microorganismos patogênicos e metais pesados (BENETTI; BIDONE, 1993).

Esse fato apresenta risco de poluição e contaminação do rio em tela, notadamente quando da presença de chuvas que, através do carreamento desse material e dos compostos bioquímicos líquidos formados a partir da decomposição da matéria orgânica existente no mesmo, atingem o rio. (FIGURA 5.31).

44 José Gilson Vilaça - Geólogo e Chefe do Departamento de Controle e Impacto Ambiental da Secretaria Especial de Meio Ambiente e Urbanismo de Natal (SEMURB) – Informações prestadas em entrevista semi-estruturada (1999).

Constata-se, ainda, a retirada de lenha em uma pequena propriedade que fica a rua dos Cometas, próximo ao rio Pitimbu – Vertente esquerda.

Fotos: Aldan Borges (12/03/2001).

FIGURA 5.29: Rua dos Cometas –Margem esquerda do rio Pitimbu – Vertente - Deposição de lixo próximo ao Conjunto Habitacional Parque Zona Sul - Guarapes/Planalto/Natal (RN) –

Carreamento de resíduos pelas chuvas.

Fotos: Aldan Borges (12/03/2001).

FIGURA 5.30: Rua dos Cometas – Margem esquerda do rio Pitimbu – Vertente - Deposição de lixo próximo ao rio – Carreamento de resíduos pelas chuvas.

Foto: Aldan Borges (12/03/2001).

FIGURA 5.31: Rua dos Cometas – Margem esquerda do rio Pitimbu – Estudantes da UFRN realizando a limpeza simbólica do rio.

Nesse ponto encontra-se um cenário à margem desse rio e em seu próprio leito caracterizado por um uso inadequado do rio em análise, tendo em vista que há travessia de veículos automotores, banho de pessoas e animais, lavagem de veículos automotores, lançamento de resíduos líquidos e sólidos (Lixo) à margem e no próprio canal fluvial, dentre outras agressões exemplificadas pela população local (FIGURA 5.32).

Foto: MPP, Jô Carvalho (14/01/2001).

FIGURA 5.32: “Ponte Submersa” – Divisa dos municípios de Natal e Parnamirim – Margem direita do rio Pitimbu – Lazer popular – Domingo.

Há uma ponte que atualmente encontra-se submersa devido ao assoreamento do rio Pitimbu ao longo do tempo. De acordo com o Sr. Cícero, morador há mais de 40 anos no local, essa ponte foi construída em 1944, pela Campanha de Erradicação da Malária (CEM),

sob responsabilidade da SUCAM. Relatou, ainda, que essa era uma área endêmica de Esquistossomose, inclusive ele contraíra a doença na época (FIGURA 5.33).

Foto: Aldan Borges (30/09/1999).

FIGURA 5.33: “Ponte Submersa” – Divisa dos municípios de Natal e Parnamirim – Margem esquerda do rio Pitimbu.

Observa-se que está havendo um crescimento urbano significativo nessa localidade, onde pode ser constatada a implantação de diversos empreendimentos imobiliários com a anuência dos poderes públicos sem que haja qualquer infra-estrutura sanitária (Esgotamento sanitário e Drenagem urbana) no bairro como um todo, comprometendo a conservação da bacia hidrográfica do rio Pitimbu.

Na zona urbana dessa localidade existe um sistema de drenagem de águas pluviais implantado pela Prefeitura de Natal em 1998, cuja destinação final constitui-se no lançamento, à céu aberto, sobre a superfície dunar (areia) que recobre o Barreiras, próximo ao canal fluvial do rio Pitimbu, revelando ser um ponto de possível contaminação desse curso d’água (FIGURAS 5.34 a 5.36). Ressalta-se, ainda, que esse lançamento ocorre na Zona de Proteção Ambiental 3 (ZPA-3).

A utilização desse sistema para o esgotamento sanitário corrobora com a teoria de que em locais desprovidos de esgotamento sanitário público e, principalmente, sem uma atuação eficiente e eficaz do poder público, no sentido de coibir ações dessa natureza, o meio ambiente é o prejudicado e que no final acontecimento, a população é que arca com as conseqüências, adquirindo diversos tipos de doenças, comprometendo sua qualidade de vida.

Foto: Aldan Borges (30/09/1999).

FIGURA 5.34: Localidade de Planalto (Guarapes/Natal/RN): Visão de um ponto de captação d’água do sistema de drenagem de águas pluviais.

Foto: Aldan Borges (14/11/2001).

FIGURA 5.35: Localidade de Planalto (Guarapes/Natal/RN): Visão do ponto de lançamento dos efluentes do sistema de drenagem de águas pluviais – Ao fundo, visão dos cordões

dunares que sobrepõem o Barreiras à margem esquerda do rio Pitimbu.

Foto: Aldan Borges (14/11/2001).

FIGURA 5.36: Localidade de Planalto (Guarapes/Natal/RN): Detalhe da tubulação do ponto de lançamento dos efluentes do sistema de drenagem de águas pluviais.