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2 IDENTIDADES: SITUANDO E RELACIONANDO A QUESTÃO

2.2 REVISITANDO CONCEPÇÕES: SUJEITO, CULTURA E PAPEL SOCIAL

2.2.3 Papel Social e Prática Social: Uma Interface

Ao trazermos para a nossa argumentação teórica a relevância de refletirmos sobre o papel social na conjuntura atual, ademais por sua estreita ligação com o mote da identidade, o fazemos diante do entendimento de que essa discussão não se restringe a situar meramente o sujeito em uma determinada função/ocupação na sociedade, mas para compreendermos as relações que estão imbricadas na constituição e assunção desses papéis.

Soma-se a isso, o fato de notarmos uma incongruência no tocante à conceituação de papel social, comumente confundido e/ou cambiante com a noção de prática social, o que, para nossa discussão, seria comprometedor, haja vista compreendermos tais questões como possuidoras de singularidades e pela possibilidade de circunscrevê-las em uma relação dialógica, o que implica, de nossa parte, apresentarmos nessa subseção um assentamento dessas percepções que julgamos producente para as nossas ponderações.

Conferimos que todo sistema social possui uma estrutura na qual estão circunscritos movimentos/fenômenos de variação das relações humanas e que atendem a uma organização específica (COSTA, 2005). Nesse sentido, qualquer instância social, considerando a conjectura ocidental, que compõe uma estrutura maior e invariável, conferente ao Estado, apresenta no seu seio mudanças que atendem pela natureza sócio-histórica, política, ideológica e/ou cultural. Em outras palavras, isso significa considerarmos que a estrutura social, constituída por instâncias, apresenta uma composição estática, mas passível de variações dentro das suas camadas constitutivas (COSTA, 2005), como podemos conferir, por exemplo, com as transformações que atravessam o sistema educacional.

Por esse entendimento, na estruturação da sociedade, teríamos posições sociais cuja ocupação pelos sujeitos atenderia a uma série de condições que são propaladas socioculturalmente e que, muitas vezes, podem evidenciar as estratificações sociais e/ou culturais (COSTA, 2005). Nesse sentido, o referencial de uma ocupação ou status social corresponderia, conforme Costa (2005), às diferentes funções que o sujeito venha a ocupar nas instâncias sociais. Essa mobilidade de atuação social, por sua vez, evidenciaria a colocação do sujeito dentro da pirâmide social, que hierarquiza os níveis de condição socioeconômica e culturais entre os sujeitos na sociedade. Ainda nas palavras do autor susodito, poderíamos delegar duas naturezas à posição social: atribuída, que independe de uma escolha, a exemplo da figura da mãe em um contexto familiar, ou adquirida, quando optamos por assumir determinada posição, como ser um professor, por exemplo.

Ao assumirmos determinada atividade social, seja mediante uma atribuição ou aquisição, nos confrontamos com certas normas, deveres, direitos, paradigmas que correspondem a uma perspectiva individual e/ou coletiva. Dessarte, ser mãe implica em direitos e responsabilidades, tanto no seio familiar quanto no contexto social, do mesmo modo que um professor precisa atender a um conjunto de responsabilidades e, em contrapartida, gozar de direitos que correspondam tanto à esfera do seu trabalho quanto ao nível pessoal. A esse conjunto de normas, valores, crenças e de percepções que estão imbricados à posição que ocupamos na sociedade podemos atribuir a significação de papel social (COSTA, 2005).

Entretanto, apesar de termos de corresponder a um esquema de comportamento e de ações dada a uma atividade específica, conferimos que o desempenho de um papel social atende por uma natureza heterogênea o que, por sua vez, comunga com a perspectiva de diversidade social, cultural, ideológica e política que atravessa o sujeito (MOITA LOPES, 2008). Desse modo, seria impraticável que todos os sujeitos que ocupassem uma determinada atividade na sociedade correspondessem de maneira idêntica às prerrogativas inerente a esse papel social. No entanto, espera-se, obviamente, que o desempenho do sujeito em uma determinada ocupação social condiga aos valores e concepções preconizados pela sociedade da qual ele faz parte.

Nesse sentido, partindo de uma dedução genérica, esperamos de um professor, mesmo considerando as suas singularidades, que ele seja um facilitar no contato, na construção e na (re)significação de conhecimentos, da mesma maneira que ao contratarmos um advogado o avalizamos como o nosso defensor e/ou representante no âmbito jurídico,

embora estejamos cientes de que o seu desempenho poderá ser um diferencial para o que buscamos naquela esfera social.

Tais considerações nos permitem compreender, portanto, a fragilidade que caracteriza um possível entendimento acerca da relação entre papel social e a sua correspondência pelo sujeito como sendo algo especular ou, ainda, o fato de que a ocupação de determinada atividade social implica, compulsoriamente, em um reconhecimento e assunção do papel que lhe é inerente. Nesse sentido, podemos esperar que o sujeito apresente certos comportamentos ao assumir determinada atividade social, no entanto, não podemos controlar as estratégias que o mesmo utilizará para corresponder a esse papel.

Por conseguinte, devemos atentar para o fato de que a relação entre uma determinada posição social e papel que lhe é atribuído nos coloca diante do outro, do social, em diferentes contextos e processos de interação e é nesse sentido que as práticas sociais são constituídas. Segundo Guareschi (1997) compartilhamos de um diversificado processo de interação e de atuação com e sobre o outro. Mesmo em situação de aparente passividade e/ou de omissão estamos produzindo uma prática social tendo em vista serem estas situações propagadoras também de um determinado efeito sobre o outro. Ainda, segundo o autor, nenhuma de nossas ações, por mais que os seus efeitos não sejam calculados, está isenta de parcialidade, pois “não há neutralidade na ação” (GUARESCHI, 1997, p.13).

De modo análogo, Garcia-Montrone et al (2004) entendem as práticas sociais no sentido de efetivação das relações interpessoais nas mais variadas dimensões das facetas socioculturais. Essa concepção endossa que as práticas atendem por uma situacionalidade sócio-histórica, através das quais é possível estabelecer a (re)significação de conhecimentos, a troca de experiências, a manutenção de crenças e de valores culturais e sociais. Isso contribui sobremaneira para a constituição do sujeito social e para suas produções de significação e de identificação. Destarte, à medida que compreendemos que o sujeito reflete a vida sociocultural, histórica e política que vivencia, tal como defende Moita Lopes (2008), podemos notar a estreita relação que há entre o desenvolvimento do papel social e as práticas sociais, sendo que essa interface acentua as dinâmicas de (re)construção e de (re)conhecimento das identidades.

Cabe-nos, em uma última reflexão, salientar que o estreitamento entre essas questões nos coloca diante da relevância que a linguagem figura sobre e nas malhas sociais. Tal perspectiva nos convida a pensar a linguagem como um modo de ação, atuação e de interações humanas que não só representa como viabiliza a (re)construção de identidades multifacetadas e hibridas, as quais, segundo Rajagopalan (2002, p. 42) “estão sempre num

estado de fluxo”. Em suma, a linguagem, enquanto prática discursiva e social, interatua com as dimensões e instâncias que nos permitem constituir e construir facetas da realidade mediante significações (FAIRCLOUGH, 1994). Por conseguinte, esses fios das interações socioculturais nos permitem interpretar os processos constitutivos e de (re)construção das identidades.