2.2 Estudo dos pretéritos simples e composto no espanhol através dos gêneros e das
2.2.5 O papel das tradições discursivas (TDs)
Assumimos com Kabatek (2008) que os textos têm história e que essa história tem relevância na hora de escrever ou de falar, por isso é importante ter em conta as tradições discursivas na descrição lingüística. Dessa maneira, antes de qualquer discussão, faz-se necessário um breve estudo sobre o que vem a ser as tradições discursivas e, sobretudo, a sua importância para o presente trabalho.
2.2.5.1 Origem das TDs
Sabemos que três foram os níveis de observação da língua propostos por Coseriu: a) nível universal – o falar, antes de qualquer especificação das línguas; nível histórico – as tradições históricas do falar, que valem para cada uma das comunidades lingüísticas que se formaram historicamente e nível individual – ato de fala ou série de atos de fala ligados entre si por um indivíduo em uma determinada situação de comunicação (Koch, 1997).
No entanto, pelo fato de haver formas comunicativas recorrentes, tradicionais, que devem ser diferenciadas das línguas históricas, ou seja, por existirem formas e fórmulas tradicionais de textos que vão além das fronteiras das línguas históricas, Koch (1997) sugere a duplicação do modelo de Coseriu no nível histórico. Dessa maneira, tem-se de um lado, as línguas históricas (espanhol, português, francês, inglês, etc) e de outro, as tradições de textos ou as tradições discursivas, englobando aspectos relativos aos gêneros discursivos, literários, retóricos, atos de fala, etc.
No quadro abaixo temos a diferenciação dos níveis da linguagem proposta por Koch (1997):
Nível Campo ou área Tipo de norma Tipos de regras Universal Atividade do falar Normas do falar Regras do falar
Línguas históricas Normas da língua Regras da língua histórica Histórico
Tradições discursivas
Normas discursivas Regras discursivas
Individual Discurso ou texto - -
Quadro 2: Os níveis da língua, segundo Koch (1997)
É importante destacar que aspectos relativos às tradições discursivas não estão restritos ao texto, também podem ser encontrados na fonologia, na morfologia, na
sintaxe e no léxico. Como exemplo, o autor cita o significado metafórico dos lexemas que aparecem em cantigas de amor representando o conceito de amor do trovadorismo. Esse significado não se encontra nos dicionários das línguas históricas, mas sim na lírica do trovadorismo, presente em qualquer língua. Isso tudo não tem a ver com regras da língua, trata-se, na verdade, de uma prática discursiva tradicional.
Koch (1997) reconhece assim, o domínio das tradições discursivas como uma riqueza que, juntamente com os outros três níveis, integra o contínuo pelo qual se pode fazer uma análise adequada da língua.
Kabatek (2006), baseando-se nos trabalhos de Koch (1997) e Oesterreicher (1997), propõe o seguinte esquema para compreender a reduplicação do nível histórico e, conseqüentemente, as tradições discursivas, (ver figura 2):
ENUNCIADO
Figura 2: Representação das tradições discursivas, segundo Kabatek (2006)
Kabatek (2006) sustenta a afirmação de que existem dois fatores no nível histórico do falar, a língua como sistema gramatical e lexical e as tradições discursivas. Em outras palavras, pode-se dizer que a atividade do falar, com uma finalidade comunicativa concreta, atravessaria dois filtros até chegar ao ato comunicativo ou enunciado: primeiro à língua e segundo às tradições discursivas.
Para o autor, além de atos de fala fundamentais (como a saudação, o agradecimento, etc), as tradições discursivas também podem estar ligadas a finalidades mais complexas exclusivas a determinadas culturas, como por exemplo, todas as tradições escritas, restritas às culturas com escrita e dentro delas, tradições discursivas ligadas a determinadas instituições, como por exemplo, os gêneros jurídicos.
É importante ressaltar que embora haja uma grande relação entre as tradições discursivas e os gêneros textuais, não quer dizer que uma seja sinônimo da outra. Vejamos no próximo tópico o que seria uma tradição discursiva.
FINALIDADE COMUNICATIVA
2.2.5.2 Conceito e importância das TDs
De acordo com Kabatek (2006), o traço definidor das tradições discursivas é a relação de um texto em um momento determinado da história com outro texto anterior: uma relação temporal com repetição de algo. Esse “algo” pode ser a repetição total do texto, mas também pode ser apenas a repetição parcial ou ainda a ausência total da repetição concreta e unicamente a repetição de uma forma textual. Acrescenta que, se por um lado uma tradição discursiva implica sempre a repetição de algo no tempo, o contrário não é certo, uma vez que nem todas as repetições de algo são tradições discursivas.
Um fator importante é que a tradição discursiva deve pertencer ao discurso, ou seja, ficam excluídas todas as repetições não lingüísticas, além disso, mesmo no caso da repetição de elementos lingüísticos, nem toda repetição forma uma tradição discursiva. As repetições não são ainda tradições discursivas, mas são repetições que podem estar intimamente ligadas a elas, ligadas mediante o que se chama evocação.
A relação de tradição de uma tradição discursiva apresenta duas faces: a TD em si e a constelação discursiva que a evoca, segundo o esquema proposto pelo autor, em que o eixo horizontal representa a evocação e o eixo vertical a repetição, ou seja, o tempo entre os dois textos, (ver figura 3):
evocação texto 1 situação 1 repetição repetição texto 2 situação 2 evocação
Figura 3: Representação da evocação e da repetição: TDs (Kabatek, 2006)
Assim, uma definição para as tradições discursivas seria, segundo Kabatek (2006), a repetição de um texto, de uma forma textual ou de uma maneira particular de escrever ou falar que adquire valor de signo próprio. Pode-se formar em relação a
qualquer finalidade de expressão ou qualquer elemento de conteúdo, cuja repetição estabelece uma relação de união entre atualização e tradição; qualquer relação que se pode estabelecer entre dois elementos de tradição que evocam uma determinada forma textual ou determinados elementos lingüísticos empregados.
É importante ressaltar que uma tradição discursiva é mais do que um simples enunciado, é um ato lingüístico que relaciona um texto com uma realidade, uma situação, etc, mas também relaciona esse texto com outros textos da mesma tradição. Além disso, uma tradição discursiva não é sempre um texto repetido da mesma maneira, pode ser também uma forma textual ou uma combinação particular de elementos.
Uma das aplicações das tradições discursivas é sua relação com a gramática histórica. Quando se estuda a história de uma língua, o que se estuda na verdade não é a língua, mas sim textos de diferentes épocas, textos que parecem representativos dos respectivos estágios de língua. Assim, o que se estuda é a história dessa tradição discursiva.
A inovação se dá, geralmente, em um texto determinado, um texto que pertence a uma tradição discursiva, a partir daí a inovação pode generalizar-se nessa tradição, mas ainda não é geral na língua, para que isso ocorra é necessária a adoção da inovação em outras tradições. E assim como a inovação pode se localizar em um texto e uma tradição concreta, também a perda de elementos não é geral e repentina em toda a língua, mas que começa em algumas tradições até, talvez, atingir todas. Porém, os elementos ficam fossilizados durante muito tempo em algumas tradições antes de seu total desaparecimento.
Para a teoria da mudança lingüística, é imprescindível ter em conta a importância da relação entre tradições discursivas e evolução da língua. Sabendo-se que a tradição discursiva pode “frear” ou “acelerar” mudanças lingüísticas, em outras palavras, que determinados tipos de textos exigem a manutenção ou não de certas fórmulas ou seleção de variedades, interessa-nos verificar com o nosso corpus constituído por dois gêneros textuais diferentes (entrevistas sociolingüísticas e notícias internacionais), se estes exigem e / ou condicionam a manutenção ou não das diferentes formas verbais de passado em análise (os pretéritos simples e composto). Assim, ao seguir os passos do modelo de traduções discursivas, procuramos enumerar os condicionamentos que possam atuar para o uso de uma ou outra forma de passado no espanhol de três centros urbanos (a saber Madri, Cidade do México e Buenos Aires), por acreditarmos que os usos estão marcados também pelos contextos textuais.