• Nenhum resultado encontrado

III. Primeira Parte: Sexto dia A obra do Messias (2,1-19,42).

1.2.3 Perícopes da Sub-unidade: 10,1-

1.2.3.1 Parábola do Pastor e do assaltante: 10,1-

1 “Em verdade, em verdade vos digo: quem não entra pela porta no redil das

ovelhas, mas subindo por outra parte, esse é ladrão e salteador; 2 porém o que entra pela porta é o pastor das ovelhas. 3 A este o porteiro abre; e as ovelhas ouvem sua voz; ele chama por seu nome suas próprias ovelhas, e as conduz para fora. 4 Depois de conduzir para fora todas as que lhe pertencem, vai adiante delas, e as ovelhas o seguem, porque conhecem a sua voz; 5 porém nunca seguirão um estranho, antes fugirão dele, porque não conhecem a voz dos estranhos”. 6 Jesus propôs-lhes esta parábola; mas eles não entenderam o que ele lhes dizia. 7 Tornou, pois, Jesus a dizer-lhes: “Em verdade, em

84 KITTEL. V. X. col. 1218.

verdade vos digo: eu sou a porta das ovelhas. 8 Todos aqueles que vieram antes de mim são ladrões e salteadores; mas as ovelhas não os ouviram. 9 Eu sou a porta; se alguém entrar por mim será salvo; entrará e sairá e achará pastagens. 10 O ladrão não vem senão para roubar, matar e destruir; eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância”.

Esta parábola que descreve o Pastor, confronta-o com um ladrão e com um estranho (10,1-10). Há uma diferença fundamental entre eles: Ele, o verdadeiro Pastor, entra pela porta (vv.1-2); o mercenário foge quando se depara com o desconhecido (o lobo - vv.3-5). A parábola remonta a uma antiga tradição palestinense86. Continua com uma interpretação alegórica e paráfrase, no estilo pictórico, típico dos orientais, apresentando dois conceitos na mesma parábola: a “porta” (vv.7-10) e o “pastor das ovelhas” (vv.11-18), aplicados à Cristo87. Pano de fundo da parábola: o rebanho fica recolhido durante a noite num redil rodeado de muros, enquanto o pastor descansa com sua família em uma tenda. Pela manhã, o pastor vai buscar suas ovelhas e o porteiro lhe abre a porta. Ao ouvir sua voz conversando com o porteiro, mesmo antes de terem sido chamadas, as ovelhas vão se incorporando e saem com ele para pastar. O pastor caminha na frente delas, fazendo com que ouçam sua voz, para que não se percam. As ovelhas não seguem um estranho, porque não estão familiarizadas com sua voz: elas se espantam e fogem. O chamar as ovelhas pelo nome tem talvez a intenção de facilitar a interpretação do conjunto, pois são poucos os animais que têm nome próprio. Possivelmente não há um nome próprio para cada uma e sim de vários grupos delas, 86 KITTEL

.v. X. col. 1218-1219. 87 KITTEL. v. X. col. 1219.

pertencentes a diferentes donos. O pastor (vv.3-4) entra no redil e chama, com seu grito tradicional, as ovelhas que lhe pertencem. Os ouvintes, os judeus incrédulos, não compreendem a linguagem figurada de Jesus, pois não pertencem ao número de suas ovelhas (não conhecem a sua voz). Deseja-se ilustrar com esta parábola: 1º. evidenciar o modo de trabalhar e a missão do pastor, e 2º. observar que os que pertencem ao Salvador enviado de Deus o reconhecem e seguem, com a mesma segurança com que as ovelhas reconhecem e seguem seu pastor88.

A perícope que corresponde aos vv. 1-5 é designada "parábola" (paroimi,a89 -

discurso figurado, misterioso, que necessita de interpretação. Razão pela qual seus ouvintes não terem compreendido seu significado (v.6); é a descrição de um episódio da vida diária (pastoril). Detalhes como porteiro, porta, redil, ladrão e assaltante não correspondem a fenômenos ou personagens históricos concretos. Em uma parábola o que se deve buscar é a verdade que esta se propõe ilustrar, caso contrário, torna-se simples alegoria90. Na maneira de trabalhar e na missão do pastor, percebemos a

contraposição que há com as atitudes do ladrão. O contraste entre os dois se dá quando o pastor entra no redil de manhã pela porta, para levar as ovelhas às pastagens, enquanto que o ladrão escala o muro durante a noite, para roubá-las e matá-las (v.10)91. Esta idéia é muito importante no curso da parábola (vv.3 e 4), porque ainda aparece três vezes na explicação que lhe segue (vv.8.14.27). Jesus se denomina a si próprio como pastor (v.11.14); as ovelhas são os que estão destinados à fé e à salvação: os eleitos (cf.v.16),

88 WIKENHAUSER, A. El evangelio según San Juan, 296

89 Bauer acredita que João usa paroimi,a em 10,6 simbolizando um dito obscuro. As imagens,

principalmente as grandiosas (mais importantes), são escondidas. BAUER'S W. A Greek-English Lexicon

of the New Testament, 629.

90 WIKENHAUSER, A. El evangelio según San Juan, 296 91 WIKENHAUSER, A. El evangelio según San Juan, 295

os que, segundo João, o Pai deu ao Filho (6,37), os que o Pai atrai (6,44), os que lhes foram concedidos pelo Pai (6,65), os que estão na verdade (18-37), que são de Deus (8,47). A menção do pastor entrar no aprisco passando pela porta significa seu direito de propriedade sobre as ovelhas, enquanto que o ladrão simboliza todos aqueles que, de alguma forma, podem ser causa de ruína para os eleitos92. A expectativa é de que Jesus

se identifique como o verdadeiro pastor (cf. v.11); porém, nos vv.7.9, relacionados entre si, diz que é a porta por onde passam as ovelhas, ou a entrada para o redil onde estão as ovelhas. Assim, pode-se explicar evgw, eivmi h` qu,ra(vv.7.9) “a porta” - das ovelhas - sou eu (vv.7.9), simples fórmula explicativa da parábola93. Entende-se o v.7 (cf. vv.1-

2) como se tratando da porta que serve de entrada ao aprisco. Neste caso, Jesus quer dizer que os verdadeiros pastores das ovelhas são os únicos que dele recebem a missão de sê-lo; os demais “pastores” são ocasião de ruína para o rebanho. Os escritores antigos94, ao se referirem “à porta”, fazem-no como o lugar por onde passam as ovelhas95. Só nos vv.8.10, ao contrapor-se aos ladrões e assaltantes, se proclama bom

pastor. Os ladrões e assaltantes são todos aqueles que se apresentam usurpando os títulos que Jesus reivindica para si próprio. A estes, Jesus nega-lhes a pretensão, e acusa-os de arrebatarem das mãos de seu legítimo proprietário aqueles que foram chamados à fé, e de levá-los à perdição. Só ele foi enviado para oferecer a vida eterna aos eleitos, e a oferecê-la em abundância (cf.10,28)96. A interpretação dos vv.8.10 é

92 WIKENHAUSER, A. El evangelio según San Juan, 296. 93 KITTEL. V. X. col. 1219-20.

94 Parece que Inácio de Antioquia se referia a Jesus, em Jo 10,9 dizendo: “enquanto sumo sacerdote, é a

porta que conduz ao Pai, pela qual entram Abraão, Isaac, Jacó, os profetas, os apóstolos e a Igreja, tudo para realizar a união com Deus” e em Pastor de Hermas que “Jesus é a porta, pela qual todos hão de entrar no reino dos céus”. WIKENHAUSER, A. El evangelio según San Juan, 298-299.

95 WIKENHAUSER, A. El evangelio según San Juan, 298. 96 WIKENHAUSER, A. El evangelio según San Juan, 297.

uma resposta ao significado da comparação da parábola. Neste caso o termo parábola tomado em sentido estrito: a vinda de Jesus simbolizada na chegada do pastor ao redil, identificando-a com sua vinda ao mundo97. Como entender a porta pela qual passam as ovelhas? Quanto ao v.9, o último significado é a afirmação que o próprio versículo contém, de que somente Jesus possibilita que se pertença à comunidade dos eleitos e de receber os bens que asseguram a salvação e a vida eterna.

Quanto ao estudo da origem da imagem - porta, há diversidade nas respostas. Alguns comentaristas crêem que foi tomada da gnosis pré-cristã, onde a imagem da porta é de uso freqüente. Léon-Dufour 98 no quesito em questão define: “Aberta, a porta deixa entrar e sair, permitindo livre circulação. Exprime acolhida (Jó 31,32), uma possibilidade que se apresenta (1 Co 16,9). Fechada a porta, impede a passagem: protege (Jo 20,19) ou exprime recusa (Mt 25,10)”. Esta imagem também sugere idéia de triagem, seleção99. No AT utilizam o vocábulo com duas colocações: porta da cidade (de tal forma é a identificação de uma com a outra que, se apossar da porta é tomar a cidade (Gn 22,17) e libertar os cativos (Sl 107,16; Is 45,2) e porta do céu, aberta pelo próprio Deus para enviar a chuva, o maná (Sl 78,23) e bênçãos à terra (Ml 3,10). Entretanto, para entrar no Templo há condições de ingresso: fidelidade à Aliança e justiça (Sl 15,24; Is 33,15s, cf. Mq 6,6-8; Zc 8,16s). Após a destruição do Templo, Israel pede a Deus que “rasgue os céus e desça ele próprio” (Is 63,19); “que tome a frente do rebanho e o faça franquear as portas” (Mq 2,12; cf. Jo 10,4)100.

97WIKENHAUSER, A. El evangelio según San Juan, 297-298.

98 LÉON-DUFOUR, X et al. Vocabulário de Teologia Bíblica, col. 793-794. 99 LÉON-DUFOUR, X et al. Vocabulário de Teologia Bíblica, col. 793-794. 100 LÉON-DUFOUR, X et al. Vocabulário de Teologia Bíblica, col. 794-795.

Passagens da época cristã influíram Jo 10,7.9101. Existem ainda duas passagens do Sl 118 (117) usadas em sentido messiânico: o v.22, que Jesus refere a si mesmo (cf. Mc 12,10-11 par; cf. At 4,11), e o v.26 (Mc 11,9). Neste caso, concluímos que a imagem da porta foi sugerida por uma interpretação messiânica do v.20 do mesmo salmo102. Cidade e céu coincidem, no final dos tempos. Os anúncios de Isaías,

Ezequiel e Zacarias realizam-se no Apocalipse: a Jerusalém celeste tem doze (12) portas que estão sempre abertas; o mal nelas não entra mais; é a paz e a justiça em plenitude; é o intercâmbio perfeito entre Deus e a humanidade. (cf. Ap 21,12-27. 22,14-15)103.

101 As Homilias pseudoclementinas 3,52 são um exemplo: “Jesus disse: ‘Eu sou a porta da vida; quem

passa por mim, entra na vida’”. Outros autores preferiram ver na imagem da porta uma alusão ao Sl 118 (117),20, como o traduzido na versão dos LXX: “Esta é a porta do Senhor, os justos entrarão por ela”. WIKENHAUSER, A. El evangelio según San Juan, 299.

102 WIKENHAUSER, A. El evangelio según San Juan, 299. 103 LÉON-DUFOUR, X et al. Vocabulário de Teologia, col. 795.

Documentos relacionados