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3 Efeitos de sentido

3.3 Para o bem estar e segurança sociais

A questão da seguridade social passa, também, pela ideia de manutenção da vida, melhor seria, perpetuação da espécie. Vejamos o seguinte enunciado, construído por França (2004, p. 229):

No relacionamento sexual do homem e da mulher, não existe apenas a satisfação da posse carnal. Há, isto sim, uma compensação afetiva que ultrapassa a simples exigência institivo-material e que oferece significações maiores.

A partir da leitura dos enunciados linguísticos que compõem esse trecho, a passagem citada parece apontar para práticas discursivas que traduzem sentidos para anulação ou mesmo invizibilização da existência de relacionamentos afetivo-sexuais homoeróticos, demarcado na frase No relacionamento sexual do homem e da mulher, não existe apenas satisfação da posse carnal.

As práticas discursivas médico-legais parecem estar assentadas no terreno da heteronarmatividade, da heterossexualidade compulsória (BUTLER, 2008), ou seja,

qualquer arranjo sexual ou afetivo que se estabeleça fora dos limites “aceitáveis”, além de serem desconsiderados em sua existência, podem ser colocados no domínio das patologias, dos transtornos. Já que perpetuação da espécie humana depende da relação de procriação mantida pelos casais heterossexuais.

Analisemos, em seguida, os seguintes enunciados:

(16)Eu já passei por uma situação numa lanchonete com um amigo meu, a gente tava conversando, aí chegou um gay e ele fez isso. E eu achei estranho. Na hora e disse “oxe, o que foi que aconteceu?”. “Viu não? Um viado véi aí?” Aí eu olhei pra ele disse: “E precisa fazer isso?”. “Home, é porque toda vida que eu olho prum gay eu fico imaginando ele beijando a boca de outro cara, aí me dá nojo.

(17)(Depois de o gay falar) O machão olha com uma expressão de nojo.

Algumas expressões desses depoimentos, (16) e (17), merecem especial atenção: termos como viado e expressão de nojo. Parece-nos que o termo viado recebe um efeito “de riso”, isto é, ao termo são agregados sentidos “de fazer rir”, aspecto comum em enunciados jocosos sobre gays. Como já chamamos atenção, esse mesmo fazer rir, faz morrer (FOUCAULT, 2001). Então, o termo viado, já bastante difundido e reiterado em nossa sociedade, traduz práticas simbólicas de preconceito e discriminação.

No entanto, maisinteressante é tentar buscar os efeitos de sentido da expressão nojo. Parece-nos que tal palavra esteja carregada historicamente pelo fantasma de uma doença surgida na década de 1980, depois do período da “revolução sexual”: a AIDS. É comum a associação, ainda hoje, apesar das inúmeras pesquisas que afirmam ser a AIDS uma doença sem grupos de risco, entre homossexuais e a síndrome da imunodeficiência. O nojo,a partir de efeitos de sentido do enunciado com essa memória discursiva que relaciona homossexualidade à AIDS, estaria associado diretamente ao risco, risco de contaminação, risco de falha no sistema de perpetuação da espécie humana. Essa formação de grupos de risco, embora amplamente tenha sido criticada e rejeitada, parece permanecer no imaginário popular. Assim, surge uma repatologização da homossexualidade em termos epidemiológicos, que se mantém sob o invólucro de ideias biopolíticas da coletividade sob ameaça constante. “Fantasma de impureza em que repugnância e desejo se associam na reiteração da norma heterossexual por meios sanitários.” (PELÚCIO & MILKOLCI, 2009)

O uso do verbo misturar, na sequência linguística abaixo (18), tende a reforçar o ideário de repatologização das performatividades ininteligíveis:

(18) Diogo se altera exageradamente e diz: - Ei meu irmão vamos parar de viadagem aqui, eu não quero me misturar.

(19) Ei cara, você está vendo aquela figura? Gostaria de saber se ele é mesmo desse planeta. Sinto náuseas só de pensar na possibilidade de tê-lo como amigo! Não que eu tenha preconceito a homossexual, mas, pô meu, usando essas roupas não dá né! (REFERINDO-SE AO GAY) [...]

– Não quero criar nem um tipo de discussão mas que que você falou alto demais e acho que a criatura quer fazer contato. Kkkkk! [...] – Ei homens com h, ouvi o que vocês comentaram sobre minha pessoa e não gostei nem um pouquinho! Tá!!!

- Qual foi? C vai encarar! Coisa do outro mundo!!

(20) As três pessoas dentro do elevador começaram a ficar impacientes com a demora do conserto, o gay já estava de cara feia e o machão com medo do metrossexual se encostar nele.

De repente o metrossexual, olhando para uma revista falou: -Ai, que calor!

O machão pensando que essa frase tinha outro sentido e que poderia estar mexendo com ele, ele falou assim:

-Se afaste de mim para não transmitir o calor.

(21) Entrou no elevador um machão, um metrossexual. De repente, por ironia do destino ou por azar mesmo, o elevador quebra e o silencio começa a tornar-se constrangedor. O machão logo ficou irritado e desconfiado, se afastando o máximo possível dos outros dois e ficou apenas observando.

Nas sequências (18), (19), (20) e (21), gostaríamos de destacar as seguintes expressões: me misturar (18), náuseas (19); encostar e afaste (20) e se afastando (21).

A sensação de asco, revelada “amigo” da colaboradora da pesquisa, o se misturar revelado pelo machão parecem justificar, pelo menos em princípio, o incômodo causado pelas práticas sexuais transtornadas, por oferecem algum risco, seja de contaminação, seja de propor o fim da espécie, dada a impossibilidade de reprodução. Incômodo esse que nos é também revelado por práticas discursivas da Medicina Legal:

(DF-7) Se este instinto se equilibra dentro de padrões de normalidade, teremos o ideal. Todavia, vez por outra, surgem distúrbios, transtornos, perversões e alterações da identidade sexual capazes de comprometer a segurança das pessoas e o equilíbrio da sociedade. (FRANÇA, 2004, p. 229).

Nesse enunciado acima, entendido ainda como um discurso fundador, França (2004) chama atenção para os aspectos da segurança e do equilíbro que esses indivíduos anormais podem proporcionar à população. Vejamos, então, as próximas materialidades linguístico-discursivas:

(22) De repente, por ironia do destino ou por azar mesmo, o elevador quebra e o silencio começa a tornar-se constrangedor.

(23) E por uma obra do acaso o elevador quebra e olhando um para o outro o silêncio toma conta do ambiente.

Em várias narrativas, um aspecto chama nossa atenção: as constantes brigas e desentendimentos ocasionados pelo azar do destino. Os efeitos de sentido produzidos por esses enunciados sugerem que o contato entre gays e heterossexuais está predeterminado ao desentendimento, talvez pela intolerância entre os grupos. O termo azar indicia, inclusive, que ter esse contato é “falta de sorte”, como algo a ser evitado. Por isso, provavelmente, o silêncio constrangedor se estabeleça de imediato para manter a distância do contato entre esses grupos. Associando os efeitos de sentido de (22) e (23) a (DF-7) perceberemos que a insegurança, o desconforto e o equilíbrio, podem, dessa maneira, ser entendidos como a iminência de conflito físico e/ou verbal entre gays e heterossexuais.

A atualização poder sobre a vida, pelas leituras realizadas, parece indicar que as sexualidades anormalizadas conferem, de algum modo, o status de insegurança à sociedade.