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Troca de cartas entre o autor e a escritora Ana Paula Tavares

querida ana paula,

acabo de ler e reler esta estória de gentes e conchas com vozes de uma infância colorida,

me invade aquela ternura branda — quase triste — que não sei explicar nem aceitar. o fim dos livros tem esta coisa de fazer

abandonar o lugar que vivenciei para o escrever.

estavam lá os que foram convocados: a AvóAgnette, sempre; a AvóCatarina, quando lhe apetece; e os outros: os primos, a

Madalena, a Charlita e o EspumaDoMar (tu sabes quem é o

Espuma no mundo verdadeiro da PraiaDoBispo? um dia te conto...).

o soviético Botardov que existiu por conta de a AvóAgnette o ter inventado. a DonaLibânia, sim, era nossa vizinha. o comando André conheceu mesmo a guerra, os mortos e a tristeza de nem sempre vir a casa. o Pi é um miúdo que podia ser qualquer miúdo da

PraiaDoBispo.

chegou a hora de sair desse mundo.

há dias, na minha vida verdadeira, fui à PraiaDoBispo ficar quieto a olhar a casa que já não é da AvóAgnette. nunca mais vi o Gadinho ou o Paulinho. nem mesmo a Charlita. vi o mar,

o mar está lá, com as mesmas cores e a mesma dimensão.

o que me confunde é o modo como os tempos se articulam para se darem sob a forma de sonho. o Mausoléu está lá, não

“desplodiu”, nem as casas da PraiaDoBispo. mas cresci a ouvir a AvóAgnette com esse medo. esse e outros. e a criança que narra algumas das minhas estórias contou-me esse desejo explosivo:

e se as crianças acendessem a dinamite destinada às casas da PraiaDoBispo? e se a bomba de gasolina só tivesse água salgada nos seus tanques? e se um soviético, farto do seu trabalho e da sua saudade, ajudasse em segredo a completar o sonho das crianças?

tudo isso não poderia ser simplesmente uma explosão bonita?

...

como podes ler, convoco memórias distorcidas para inventar estórias,

exerço o direito de atribuir falas aos sonhos — mesmo os que não tenham sido bem assim. porque eu sou este que crê em gritos

azuis, em explosões com papagaios-pipa a esvoaçarem numa noite escura de luanda. continuo convocando as crianças para me

falarem das suas crenças em céus bailarinos. continuo escutando estórias para dar a ler a história...

vou aceitando as diferentes modalidades do meu exercício de sonhar. escrevo em busca de outros flancos — outros pontos cardeais — do mesmo sonho: a infância é abismal nos seus

segredos e magias; não é a séria astrologia que me interessa mas o manto de poesia que as estrelas libertam.

se isto serve, se é útil, o tempo dirá. se as cicatrizes da saudade saram, não sei,

apenas vou reunindo vozes como brilhos num céu que às vezes me sucede demasiado escuro — estou certo que sabes ao que me refiro. assim vou cruzando os dias, inventando o tempo, tecendo as vozes, reinventando as impossíveis constelações.

...

a cidade de luanda cresceu no seu caos de tempo moderno. o antigamente continua sendo importante e belo. devagarinho, adivinham-se passados como labirintos coloridos...

que o céu dançante, vestido de estrelas caintes, possa bailar outra e outra vez. que as crianças aprendam sempre com os pássaros a secreta magia dos gritos azuis.

...

não é dessas paisagens, sobretudo, que o sonho trata...?

ondjaki

ondjaki

Meu erro é meu espelho, onde vejo o que em silêncio eu fiz de um homem. Meu erro é o modo como vi a vida se abrir na tua carne e me espantei, e vi a matéria de vida, placenta e sangue, a lama viva.

[…]

O que eu quero é muito mais áspero e mais difícil, quero o terreno…

Clarice Lispector

Estas palavras de Clarice grudaram-se à tua carta como se fossem falas do EspumaDoMar e de fazer de arco-íris (o último arco-íris) a morrer no mar, assim mesmo em frente à PraiaDoBispo.

A tua carta arde-me lentamente nas mãos e a queimadura é doce, como quando lembramos um tempo antigo sem raiva e um sorriso doce inicia o riso da nossa alma.

Todos nós somos de um lugar, como de uma infância (estou a citar, como já deste conta), mas para se ser de um lugar e de uma infância, é preciso escrevê-la, ensinaram os antigos (de Platão a AvóCatarina) e não há poema, semba ou prosa muito afinada que possa fixar o gesto e a palavra igual à daqueles que viveram, passaram por lá, escutaram os sons, tocaram o mar. Só assim a palavra pode surgir tão conforme às regras do dizer e tão fiel às normas do lugar.

Encontro isso, no teu livro, na geometria implacável das palavras ditas (escutadas, repetidas) para descrever a exata curva da praia, seus sangues misturados, seus antigos misoso e a vida e a morte dos fantasmas diários.

Talvez estivesse à espera deste livro há muito tempo, passeando por Clarice, e de tanto que sabia das falas dos escravos nas

barrigas dos navios, de tanto me ter sentado na cadeira de baloiço nessa varanda voltada para o mar que é a PraiaDoBispo:

há uma vista pela praia acima a que chamaram do bispo, por sobre ela haver tido seu Palácio Episcopal

Disse o Cadornega, no século xvii, e disto sabia o EspumaDoMar, com a sua ciência de adivinhar futuros, lendo rastos de sonhos na areia e sabendo de cor receitas “de fazer meu mar”.

As crianças também, porque têm o tempo nas mãos, mapas emprestados por anjos para locais do tesouro e não gostam que a vida seque, com betão armado, os antigos leitos dos rios, a

possibilidade das fontes e os sítios de contar e crescer. As crianças, no seu infinito “faz de conta”, recusam o sonho partido ao meio a meia água os lugares sombrios da vida. São mais da água e não precisam de perpetuar o tempo em mausoléus, ou pirâmides. Olham nos olhos a esfinge e aprendem o medo no voo do milhafre. Das palavras dos adultos retiram apenas as conchas separadas perdidas pela praia. Crescem pelos cantos e choram a mudança. Gostam do sonho mesmo que este lhes rebente nas mãos.

Por isso, meu caro, e de certo que a avó Catarina te diria o

mesmo, fizeste bem em convocar as vozes do antigamente que era ainda ontem. Há adultos que se esquecem de crescer e andam sempre a misturar sonhos com sal grosso para ver se explodem. As vozes são o que nos resta para ajudar a suportar as cicatrizes que suportamos por dentro. Matéria inflamável, “já se vê”.

Fazes sempre perguntas difíceis e a esta última não sei responder (e olha que fui ao Shakespeare, à Clarice e ao Ruy Duarte). Só

posso lembrar matéria dos meus próprios sonhos (uma serra antiga, o cheiro da goiaba, meninas e missangas) e deixar-te para pensar a espuma do mar nos nossos difíceis dias.

ana paula

agradecendo

aos da PraiaDoBispo: AvóAgnette, AvóCatarina, TiaMaria, Sankarah, os primos, MadalenaKamussekele, SenhorCharles, Charlita,

DonaLibânia, Gadinho, Paulinho, André, Xana;

a Ana G. Iglesias, Andrea M., ManZefas, Isabel G., Paula T.;

aos momentos com a música de Cat Power, Wim Mertens, The Cure, Jorge Palma, Stacey Kent, Novos Baianos, Ryo Kunihino,

McKatrogiPolongopongo aka NdengueBebé, Keyta M., Maninho aka Leonardo W.;

aos dois jacós, ao jacaré na casa do EspumaDoMar, ao mar e à poeira da PraiaDoBispo;

aos cacimbos, estrelas e noites brilhantes de Luanda.

— Estórias de antigamente é assim que já foram há muito tempo?

— Sim, filho.

— Então antigamente é um tempo, Avó?

— Antigamente é um lugar.

— Um lugar assim longe?

— Um lugar assim dentro.

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