[...] azul porque o crepúsculo mais tarde talvez fosse azul, faz de conta que fiava com fios de ouro as sensações, faz de conta que a infância era hoje prateada de brinquedos [...]
Clarice Lispector, Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres
Copyright © 2008 by Ondjaki e Editorial Caminho, sa, Lisboa
Edição apoiada pela Direcção-Geral do Livro e das Bibliotecas/ Ministério da Cultura de Portugal.
Grafia atualizada segundo o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990, que entrou em vigor no Brasil em 2009.
Capa
Mariana Newlandsv Foto de capa
© Altrendo Images/ Getty Images Revisão
Ana Maria Barbosa ISBN 978-85-8086-194-5
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— Gritos azuis? Nunca ouvi falar.
— São palavras gritadas no fundo do mar, as crianças é que sabem. Os pássaros também.
— E os peixes?
— Os peixes ainda não sabem gritar bem. Devem ser de outra cor, as palavras dos peixes.
— Tu já gritaste no fundo do mar?
— Tantas vezes. Queres experimentar?
A explosão até acordou os pássaros adormecidos nas árvores e os peixes devagarosos do mar — aconteceram cores de um
carnaval nunca visto, amarelo misturado com vermelho a fingir que é laranja num verde azulado, brilhos a imitar a força das estrelas deitadas no céu e barulho tipo guerra dos aviões Mig. Era afinal uma explosão bonita de ser demorada nos ruídos das cores lindas que os nossos olhos olharam para nunca mais esquecer.
Nós, as crianças, ficamos a olhar o céu se encher de umas
maravilhas acesas como se todos os arcos-íris do mundo tivessem vindo a correr fazer um brinde no tecto da nossa cidade escura de Luanda.
Uma explosão podia ser tão bonita, e as nossas bocas abertas testemunhavam um silêncio de pessoas perto de um barulho desenhado nas alturas dos pássaros todos que nessa noite aprenderam que o mundo era um lugar muito estranho, com pessoas de tantas nacionalidades e que em Luanda tudo podia mesmo acontecer de repentemente.
Foi na PraiaDoBispo, no largo onde havia a bomba de gasolina, perto da entrada da famosa obra do Mausoléu.
De tanto olharem as cores com barulhos voadores no céu
iluminado, poucos notaram que a enorme obra, que os mais-velhos diziam ser vertical, alta e com figura de um foguetão, essa obra de tantas tarefas com poeira e mil trabalhadores cansados, tinha
começado a não existir mais, sobrando apenas uma poeira cinzenta que demorou muito tempo a baixar.
Tudo aconteceu muito perto de casa da minha AvóAgnette, mais conhecida na PraiaDoBispo por AvóDezanove.
Foi num tempo que os mais-velhos chamam de antigamente.
Em frente à casa da AvóAgnette fazíamos desenhos no chão para depois fugirmos dos camiões de água que vinham ao fim da tarde para acalmar a poeira.
Era um largo grande, com uma bomba de gasolina no meio, que virava rotunda para camiões e carros darem a volta a fingir que a cidade era grande.
O camarada VendedorDeGasolina podia dormir muito durante o serviço porque a bomba nunca tinha gasolina. Só acordava com as falas do maluco EspumaDoMar:
— Essas estrelas que caem de repente têm nome: são estrelas calientes, e isto não é discurso de diamba, sei o que tou a falar com a minha boca de tantos dentes...
Do outro lado da bomba, estavam as gigantescas obras do
Mausoléu, um lugar que andavam a construir para guardar o corpo do camarada presidente AgostinhoNeto, que andava estes anos todos bem embalsamado por uns soviéticos craques nessa arte de manter uma pessoa ainda com bom aspecto de se olhar.
Atrás das obras, do lado de lá do nosso largo, ali onde a poeira não conseguia nunca aterrar, ficava essa coisa linda que todos dias me ensinava a cor azul: o mar grande, mais conhecido por oceano.
— Vocês falam estrelas cadentes, mas eu conheço os dicionários todos da língua angolana e da cubana. Estrelas calientes são
fenómenos dos céus do universo escuro, a poeira cósmica e etcetera... Seus patetas que nunca andaram nas escolas universitárias!
Nós, as crianças, ríamos gargalhadas redondas que quase se viam desenhadas no ar. Ficávamos calados em espanto e magia a ouvir as frases do camarada maluco.
— Aprendam meninos, há dois céus: o céu azul que pertence aos nossos olhos e às asas dos aviões e dos passarinhos. E existe um céu negro que é tão grande como um deserto.
Quase não tínhamos medo do EspumaDoMar, nunca que tinha feito mal a ninguém só.
— As estrelas calientes derreteram com os calores do sol e por isso caem em direção ao planeta mundo. Nuestro planeta es el
unico que tiene agua para elas arrefecerem outra vez. São estrelas calientes, e um dia, depois de arrefecidas, juro, esas estrellas van a querer volver a casa…
Ele arrastava os panos e ia embora a rir um riso nervoso que também podia ser choro, cada vez mais rápido quase a correr, a levantar poeiras com os pés dele descalços, a ir sempre em frente como se fosse entrar no mar.
— Ainda vamos ver essas estrelas subirem, da terra para lá em cima, nos céus que dormem longe vestidos de brilhos brilhantes...
Na nossa varanda poeirenta, a AvóCatarina, irmã da AvóAgnette, aparecia devagar vestida de preto no antigo luto dela e os cabelos branquinhos como algodão fofo.
— Ainda de luto, dona Catarina? — perguntava a vizinha DonaLibânia.
— Enquanto a guerra durar no nosso país, comadre, todos os mortos são meus filhos.
A AvóNhé regava as plantas, os arbustos e as árvores com um fiozinho de água que aparecia às terças e quintas-feiras. Regava a goiabeira e a figueira, a árvore de sape-sape, as rosas, a palmeira e a mangueira. Depois molhava as escadas e as flores dos vasos.
— Meninos!, todos para dentro. Está na hora do lanche.
A hora do lanche era uma coisa complicada para nós: tínhamos que ir lavar os sovacos, as mãos e a cara antes de sentar à mesa.
Comíamos meia fatia de pão, meia banana e um copo de água.
— Quem quiser pode também fazer ngonguenha mas com pouco açúcar que está quase a acabar.
Às vezes no caminho apanhávamos goiabas ou mangas que os morcegos tinham esquecido de atacar. Pouco depois das cinco, o camião com água dos soviéticos ia passar para acalmar a poeira da rua e dos passeios.
Um dos primos ficava com a missão de estar atento aos barulhos.
O camarada VendedorDeGasolina acordava quando, dentro das obras do Mausoléu, o condutor soviético ligava o camião da água.
Era o sinal. O maluco EspumaDoMar aparecia no portão da casa dele com um chicote pequenino a baloiçar com o vento nas pernas dele.
— AvóCatarina, é verdade que o EspumaDoMar tem um jacaré guardado no quintal dele, na casota do cão?
— Pode ser — a Avó ria.
— E jacaré cabe numa casota de cão?
— Se for pequenino.
Uns tinham medo dessa estória, outros riam de nervos, a comer depressa para irmos para a rua outra vez. A AvóAgnette não estava em casa, tinha ido a um funeral de última hora.
— Aqui em Luanda as pessoas morrem sem avisar. Que falta de educação! — a AvóCatarina dizia.
Uns remoinhos de vento levantavam a poeira do fim da tarde e as folhas do largo do Mausoléu dançavam no ar sem querer ir muito longe.
O camarada VendedorDeGasolina começava a fechar a bomba de gasolina, o EspumaDoMar dançava como se o vento fosse uma música de casamento e muitos trabalhadores, vestidos de fato- macaco azul e capacetes amarelos, saíam do portão principal do Mausoléu. Homens de mãos dadas, a rir, a tirar os capacetes, a beber umas poucas cervejas, a esfregarem os olhos por causa das lágrimas que a poeira inventa.
— Trabalhar deve ser muito chato — falou o Pi — todo mundo fica contente quando é hora de ir para casa.
O nome dele verdadeiro era Pinduca, e o nome de casa era só Pi, até que o EspumaDoMar, que tinha estudado muitas matemáticas em Cuba até ficar maluco, nos disse que Pi era igual a 3,14. Mesmo sem entender, gostamos muito desse nome com som de números e uma vírgula também.
Diziam que as obras do Mausoléu estavam quase a acabar.
Aquela parte comprida, cinzenta, feita de um cimento bem duro para não cair nunca, parecia um foguetão e acho que depois iam pintar com as cores da bandeira de Angola, mas isso podia ser mentira da Charlita.
— O meu pai tem um bar onde os trabalhadores compram lá cerveja. E ele ouve as conversas dos camaradas trabalhadores.
— Mas o bar do teu pai nunca tem cerveja — o 3,14 gozou e fugimos a correr no meio da poeirada.
O soviético do camião-cisterna buzinou e cuspiu as palavras dele na língua soviética que era muito estranha e não se entendia nada.
O camarada VendedorDeGasolina mudou de roupa e de sapatos e ficou ali à espera que o camião molhasse o largo todo. Os
trabalhadores desapareceram e começaram a chegar milhares de andorinhas de todos os lados do céu. O chão ficou úmido com um cheiro bonito a imitar a chuva verdadeira quando chega com força para regar o mundo.
O último a sair da obra, que tinha um capacete diferente e trancava o cadeado do portão grande, era o soviético
CamaradaBotardov, que nós lhe demos esse nome por causa do modo como ele dizia, quase a falar soviético, “bótard”, mesmo que fosse de manhã cedo ou à noite já bem noitinha. Nós imitávamos para depois rirmos.
— Bótard, CamaradaBotardov!
— Bótard — ele respondia sério.
— CamaradaBotardov, é verdade que as obras do Mausoléu tão quase a acabar? — o 3,14 perguntou.
— Niet! — ele disse com cara de mau.
Do outro lado do largo, o vento fazia desenhos no mar. Chegou também a Charlita com os óculos dela muito grossos.
— Tu vês o sol igual a nós, Charlita?
— Claro que sim.
— E se tirares os óculos?
— Aí não vejo quase nada. Só manchas.
— Eu ainda um dia quero ver essas manchas, devem ser tipo aguarelas.
O sol enorme, que parecia ali tão perto, mergulhava a ferver na água do mar. Se calhar é por isso que a água aqui em Luanda é tão quentinha nas praias. E ainda parece que o sol dava ordens ao
vento para ele se acalmar. O vento parava de assobiar e sobrava na PraiaDoBispo só o chão molhado e um silêncio de não se ouvir
quase nada.
— VóNhéte está? — perguntou o CamaradaBotardov.
— Niet! — respondi.
— Antón favor dizer eu vólt manhã.
— Kaput iés — o 3,14 inventou. — Vai lá tuparióvski!
Aquelas eram palavras do SenhorTuarles, que por tudo e por nada gostava de dizer “tupariov”.
O CamaradaBotardov afastou-se caminhando com os pés para dentro e muito rápido como se estivesse sempre atrasado. O carro dele, um Niva de cor horrorosa, estava do outro lado da rua.
Demorava a pegar, fazia explosões no tubo de escape e depois arrancava.
O EspumaDoMar fazia festinhas no chicote dele. A AvóMaria veio chamar a Charlita para entrar em casa, o camarada
VendedorDeGasolina fez adeus e desapareceu.
— Até manhóvski, camrade! — o 3,14 despediu-se.
Lá longe, numa escuridão de sombras, o VelhoPescador tinha acabado de chegar. Saiu da canoa dele, embrulhou a rede devagar, guardou as duas âncoras e fez-me adeus.
— Cuidado, mais-velho, o mar está cheio de águas salgadas — gritou o EspumaDoMar. — São as lágrimas dos que já morreram recentemente.
Alguém tinha ouvido, de manhã bem cedinho, o
CamaradaBotardov falar a palavra dinamite na língua dele. Para nós, dinamite era uma palavra dos filmes dos cobois tipo Trinitá e o gordo Bud Spencer com as barbas dele.
— Se calhar ouviste mal.
— Ouvi mesmo bem. Dinamite.
— Não será que ouviste Dimitri? Há outro camarada das obras com esse nome.
— Ouvi mesmo dinamite. Não sabes que há palavras que são completamente internacionalistas?
Fomos dar a volta pelo outro lado da vedação, ali onde ficava uma barroca com o lixo das obras e uns miúdos brincavam com
papagaios coloridos.
Ao passarmos pela casa do EspumaDoMar ouvimos ruídos estranhos com uma corrente pesada a arrastar no chão.
— Deve ser o jacaré do Espuma.
— Vamos masé fugir.
Corremos de braços abertos como os pássaros a levantar voo.
Atravessamos a lixeira e fomos pela beira do mar a esquivar os búzios e conchas cortadas para não aleijar os pés.
Lá estava o VelhoPescador sentado perto da canoa BarcoÍris. As mãos antigas dele desfaziam, com toda a paciência do mundo, os nós bem difíceis que as redes tinham.
Ali cheirava a mar, mas não esse cheiro aberto ou fresco como se fosse das escamas dos peixes. Era um cheiro mais de outros dias, outros anos, como mistura de água salgada com o alcatrão do fundo da canoa dele.
Chegamos com a respiração depressada, respiramos à espera que ele olhasse para nós, enterramos os pés na areia e cheiramos o mar, afinal, para conseguir cheirar a manhã.
— Hoje não vou no mar. Não há vento — o VelhoPescador falou finalmente.
— Talvez de tarde — a Charlita falou.
— Talvez — as mãos dele continuaram a desfazer os nós.
— Camarada pescador — o 3,14 começou — não ouviu falar de umas explosões?
— Explosão? Como assim?
— Hoje de manhã alguém disse que os soviéticos andam a trazer dinamite para a obra. Dinamite não é de desplodir muito?
— Parece que sim — ele fez cara de preocupado.
— Nos filmes de cobois, dinamite é para rebentar comboios, casas ou mesmo grutas, para encontrar o ouro.
— Nunca vi filme de coboi — disse o VelhoPescador.
O mar estava lisinho como um espelho bom para nuvens e pássaros. Os mais-velhos é que diziam que o mar era um grande espelho para quem conseguia voar muito alto.
— Os pássaros pensam, camarada pescador?
— Não sei se pensam, mas sentem. Sabem onde têm que ir, o caminho de regressar e nunca esquecem o lugar onde fazem os ninhos.
— E os peixes pensam?
— Tens de perguntar aos peixes.
— O camarada não fica assim triste de apanhar tantos peixes na sua rede?
— Apanho peixes para comer ou para vender. Os que vendo dão dinheiro para a roupa e os livros da escola. Tenho muitos filhos. A vida é assim mesmo.
— E o camarada nunca ouviu dizer que vão desplodir toda a PraiaDoBispo?
O VelhoPescador parou a olhar para nós com uns olhos tristes, não disse nada com a voz. Respirou só — a imitar no peito dele o barulho enrolado das ondas. O barulho se confundia com o voo dos pássaros e o grito de uma sirene qualquer assim longe noutro
bairro.
E o mar acordou — primeiro devagarinho como uma andorinha acabada de nascer, depois mais um pouco a imitar as nuvens —, e então todos ficamos só a olhar o azul-escuro dele: na pele bem enorme do mar, com a IlhaDoMussulo lá do outro lado, um vento chegou para empurrar o sol mais para baixo, ali onde ele se adormece todas as noites.
— Ché, miúdos, vocês trouxeram o vento.
— Vamos só embora, ainda os mais-velhos vão nos ralhar de já estar a escurecer quase depressa.
O largo com a bomba de gasolina estava vazio. Folhas no chão estavam a ser varridas pela ventania. Soprava um ar quente e o maluco EspumaDoMar sorria de contente no portão da casa dele.
— Quem não tem guarda-da-chuva, vai se molhar... La lluvia no perdona a los que se ponen por debajo de ella... Afunda-te poeira, afundem-se pensamentos malditos! Viva a poesia de falar à toa!
A AvóAgnette me esperava no portão com o olhar dela de ver muito longe. Tinha nos visto a correr pela lixeira, dar a volta toda até chegar ali.
— Já para dentro. Parece que vai chover e andas aí a correr a chamar as crises de asma.
Chuva assim de começar de repente sem dar tempo de dizermos que estava ainda só a pingar com cheiro bonito de tirar a poeira das folhas e incomodar os morcegos: em noites assim, eles não voam, ficam desorientados com os barulhos, foi a AvóCatarina que disse, porque os morcegos só veem com os gritos deles, parece é radar, como os Migs quando voam à noite para ir bombardear as tropas dos sul-africanos carcamanos.
— No céu cabe tanta chuva, Avó?
— São os mortos a chorar ou a rir. Anda a morrer muita gente.
— Não assustes os miúdos, Catarina — a AvóAgnette pediu.
— As crianças não têm medo da verdade. A chuva limpa o mundo. Vou lá acima fechar as janelas.
Subi com a AvóCatarina para ver o ritual. As janelas, para dizer a verdade, estavam sempre fechadas, mas ela abria, muito mesmo, olhava a PraiaDoBispo ou alguma vizinha noutra casa, e fechava o par de janelas com estrondo, para que ninguém duvidasse que as janelas estavam mesmo abertas. A Avó saiu do quarto, e desceu.
Fui para o quarto de banho fechar a janela pequenina. Subi na sanita e espreitei, dali dava para ver o Mausoléu: na escuridão vi camiões chegarem e muitas caixas serem descarregadas por gente militar com aquelas fardas verdes-escuras. Apaguei a luz da casa de banho, para ninguém me ver de longe, aprendi isso num filme de
guerra ou alguém tinha me contado. Eram vários camiões, muitas caixas, puseram tudo num barracão bem grande.
Os trovões começaram e a choradeira da AvóAgnette também.
— Meninos, todos para a casa de banho.
Os primos começaram a chegar, a casa de banho foi ficando cheia.
A luz foi, mas a AvóCatarina já tinha preparado a lamparina com cheiro enjoativo do azeite a ser queimado devagarinho. Aquele era o lugar que a AvóAgnette dizia que era seguro no caso de cair um raio no tecto da casa dela. Depois de estarem todos lá dentro, era
sempre a mesma coisa:
— Cobriram os espelhos?
A AvóCatarina, sempre a rir sem medo dos trovões nem dos
raios, mandava a Madalena pegar em toalhas grandes para tapar os espelhos maiores. Um lá em baixo, na sala, a cristaleira cheia de loiça antiga e o serviço de chá chinês, depois o espelho no quarto da AvóAgnette, e um redondo, todo pesado, que ficava no corredor.
— Menina Tchissola, menina Naima — a Avó ralhava — tirem imediatamente essas blusas encarnadas. Madalena, traz outra roupa para elas.
O vermelho, em toalhas, em tapetes ou mesmo nas blusas, também podia atrair raios e nesse caso era muito chato um raio tocar numa pessoa, porque parece que os raios vinham cheios de uma electricidade toda descontrolada. O 3,14 até me disse uma vez que eles deviam usar o foguetão do Mausoléu, que era tão alto, para apanhar esses raios e depois ligar diretamente com os postes da PraiaDoBispo, assim nunca íamos ter problemas de falta de luz, mas disseram que isso não era possível, e talvez estragasse o aspecto embalsamado do camarada presidente AgostinhoNeto.
Felizmente a AvóAgnette se esqueceu de fechar a janela pequena e, junto com o barulho e a luz dos raios, começou a entrar uma
frescura de mar para aliviar aquele ambiente de tanta gente a respirar mais a catinga dos que tinham vindo a correr.
A AvóCatarina ficava no quarto dela, na cadeira de balouçar, e parecia servir-se de uma “bebida quente”, assim podia ser whisky ou aguardente, e deitava um bocadinho no chão do quarto dela.
— Para aqueles que já se foram e que esperam pelos outros...
Essa frescura de mar trazia um montão de cheiros que era preciso ficar de olhos fechados para conseguir entender aquela mistura como se fosse um carnaval de cores — as mangas ainda boas e verdes penduradas nas árvores, as mangas já roídas pelos morcegos, o cheiro esverdeado do sape-sape, a poeira escorrida das goiabas quase a caírem, a mistura do cheiro da pitangueira com a nespereira, cheiros de capoeiras com galinhas e porcos, o grito dos jacós e dos cães, dois ou três tiros de aká, um rádio que alguém esqueceu ligado na hora do noticiário em línguas nacionais, passos de pessoas que corriam para chegar a casa ou pelo menos a um lugar sem água de molhar e até, se já fosse tarde, os barulhos da padaria que ficava na rua de trás e onde se começava a trabalhar tão cedo, durante toda a noite, para ver se o pão no dia seguinte chegava quente na casa daqueles que afinal dormiram a noite toda.
Quer dizer, o cheiro da chuva afinal é uma coisa difícil de explicar para quem não conhece bem a casa de banho na casa da
AvóAgnette.
— Tás a dormir ou quê? — me perguntaram.
— Cala masé a boca. Tou a pôr a chuva dentro dos meus pensamentos.
— Ai é? Quando fores grande vais ficar maluco como o EspumaDoMar. E com pensamentos todos inundados.
— Mas pelo menos vou saber falar espanhol.
— Seu burro, ele fala cubano!
Um trovão tipo explosão de dinamite fez luz bem acesa e depois rebentou até estremecermos com medo de verdade, a AvóAgnette começou a fingir que estava a rezar, porque a AvóCatarina já nos tinha dito que a AvóAgnette não sabia rezar, esqueceu todas as rezas, só fica a fingir a mexer os lábios, que é como nós quando cantamos uma música em inglês e improvisamos sílabas de qualquer língua só emprestada no ritmo da música.
A AvóAgnette pegou na toalha de rosto, cobriu um espelho pequenino que estava em cima do lavatório. Lembrei da palavra dinamite, pensei que aqueles camiões podiam ser desse transporte escondido que afinal não queriam que os da PraiaDoBispo
soubessem quando é que iam desplodir as casas para aumentar as obras finais do Mausoléu.
— Raio pode acender uma caixa de dinamite? — perguntei a um primo mais velho.
— Só se for o raio que te parta, seu idiota.
Ele estava bem irritado porque na idade deles já não acreditavam nessas estórias de raios a entrarem em casa das pessoas à procura de espelhos grandes ou meninos vestidos com blusas encarnadas, mas a Avó reunia sempre todo mundo naquele espaço até que a chuva passasse.
Um vento soprado apagou a lamparina com azeite e os olhos ainda demoraram a conseguir entender o escuro. Só que bateram à porta lá em baixo.
— Ai meu deus — a AvóAgnette ficou assustada.
As primas agarraram-se num abraço tremido. Eu também tive medo, só que, com o meu primo a olhar para mim, fingi que era só frio mesmo.
— Quem será a esta hora?
— Só se for o Padre Inácio! — disse a AvóCatarina.
Mas a AvóCatarina estava a brincar numa hora séria. Ninguém queria descer e a AvóAgnette era mesmo um bocado medricas, sempre queria mandar outra pessoa descer.
— Madalena, vai ver quem é.
— Avó?
— Avó, quê? Não entendes? Vai lá abaixo e vê quem é que bateu à porta.
Bateram de novo, mais forte.
— A morte bate sempre forte, eu que o diga — a AvóCatarina começou a rir.
Todos fizemos silêncio de medo com escuridão só perdoada pela luz que entrava pela pequena janela. Quase nem cabíamos na casa de banho e a AvóAgnette começou a empurrar devagarinho a
Madalena para ela sair dali.
A Madalena fazia força e segurava na porta para tentar não sair.
Tudo muito silencioso, parecia combate de formigas.
Bateram outra vez. Uma voz grossa falou umas palavras que ninguém entendeu.
— Disse quê? — perguntei ao meu primo.
— Disse que vem te comer!
A AvóAgnette continuou a empurrar a Madalena que, como tinha os chinelos todos molhados, escorregava devagarinho em direção às escadas. Ou ela decidia andar, ou ia mesmo cair pelos degraus até lá em baixo.
— A morte não gosta de esperar à chuva — a AvóCatarina ria.
A luz voltou.
Todos a olharmos assim uns para os outros, cada um a tentar ver onde é que afinal cada outro tinha se conseguido sentar, as primas abraçadinhas disfarçaram que não tinham medo, a Avó largou a Madalena como se nunca tivesse lhe empurrado e a campainha tocou três vezes.
— Podem abrir — falou a AvóCatarina. — É o palerma do soviético!
Era o toque do CamaradaBotardov, sempre três vezes, assim um pouco demoradas.
— VóNhéte, pod abril, su éu, Bilhardov. Muito chuve aqui.
— Há dez anos aqui e nunca aprendeu o português de Angola.
Estes soviéticos são uma vergonha do socialismo linguístico — a AvóCatarina falou.
Enquanto ele entrava todo encharcado a apertar a mão da AvóAgnette, sentamos todos nas escadas como se fosse assistência de matiné de cinema.
— Bótard, minine.
— Bótard, comrad — nós imitamos, a Avó fez cara de má.
Lá na terra do CamaradaBotardov deve mesmo fazer muito frio porque ele tinha esse mau hábito de andar sempre com um casaco grande e quente que lhe aumentava a catinga de um modo que se o vento soprasse virado para cá, uma pessoa sempre sabia que o Botardov estava quase a chegar.
— Tire lá esse casaco, parece um urso. Só lhe faltam as garras e um peixe cru na boca — a AvóCatarina dava graça.
O CamaradaBotardov ria à toa. E olhava para a Avó-
Agnette que não sabia bem para onde olhar. Nós não saíamos dali, gostávamos de assistir àquelas cenas como se fosse novela ao vivo.
— Ná tem bebid quént?
— Chá? — a AvóAgnette perguntou.
— Ele quer é uma quentinha. Diz-lhe que isto aqui não é o bar do SenhorTuarles.
— Descólpe?
O português angolano do CamaradaBotardov era mesmo muito engraçado, mas nós tínhamos conseguido descodificar. Ele dizia
“descólpe” para dizer “desculpa”, quando não tinha entendido alguma coisa, “minine” era “meninos”, e sempre gostava de dizer
“bótard”, aquilo já fazia parte das coisas que ele fazia ou usava. Eu entendo, às vezes é como uma camisola rota que uma pessoa gosta por gostar e não quer deixar mais de usar, ou porque lembra alguma coisa boa, ou porque traz uma saudade de alguém que não está perto.
— “Descólpe” é os tomates do padre Inácio! — a AvóCatarina falou enquanto a AvóAgnette foi à cozinha.
O soviético riu. Tinha marcas amarrotadas ao lado dos olhos e devia ser antigo aquele camarada, os dentes também não tinham boa cor, só os olhos dele, todas as crianças sabiam disso, só os olhos dele eram bonitos dum azul mais claro que o do céu, não sabemos se lá na UniãoSoviética todos têm os olhos assim ou se é coisa familiar mesmo.
— Família fica na tão-longe, Bilhardov tem sódade — falou para nós como se fôssemos uma só pessoa que podia conversar com ele. — Família larga, fica na frio, na niév. Angól muito quént! Bom cervéje, muite poeire!
Os primos riam e ficavam a dizer segredos nos ouvidos uns dos outros, até a AvóAgnette já tinha dito que isso era muito feio, estar a falar baixinho à frente de outras pessoas, mesmo que fossem
soviéticas. Todos distraídos, a água a ferver lá na cozinha, coitado do CamaradaBotardov, iam só lhe dar um chá na vez do vodka que ele devia estar a lembrar, de repente me deu pena, juro mesmo,
fiquei a pensar que isso de uma pessoa estar a misturar os
assuntos, falar da família dele, da “niév”, da poeira da PraiaDoBispo, e os olhos dele terem ficado mais brilhantes que às vezes é um
aviso do nosso corpo a dizer que as lágrimas podem aparecer de repente, tudo isso, eu pensei sem dizer a ninguém para não me estigarem, devia ser saudade. Ter a família toda a viver no tão-longe não devia ser fácil para o CamaradaBotardov. Será que era por isso que ele sempre tentava vir puxar conversa com a AvóAgnette?
Outra coisa que eu pensei, e deu-me vontade de sorrir, foi que o CamaradaBotardov nem imaginava que ele muitas vezes aparecia nas nossas conversas de depois do almoço com a AvóAgnette.
Ela fazia de propósito e era para nos convencer a dormir depois do almoço. Era um momento de confusão, subíamos todos para o quarto da AvóAgnette, enquanto escutávamos o barulho da
AvóCatarina a abrir e fechar janelas, a rezar qualquer coisa à frente do espelho da cómoda dela, depois escurecia o quarto para
adormecer e começava a ressonar devagar.
— Se pararem de me ouvir, venham acordar-me — avisava a AvóCatarina. — Depois adormeço outra vez.
A AvóAgnette fazia entrar num abraço todos os muitos netos que nós éramos, nem sei como conseguíamos caber naquela cama, mesmo sendo de casal, uma cama não foi feita para tantos netos ao mesmo tempo.
Ela cantava músicas de fados lentos e adaptados para nós
dormirmos, e ninguém dormia. Contava estórias malucas da amiga dela, CarmenFernandez que tinha ficado grávida uma vez mas tinha parido um enorme saco de formigas que lhe picavam dentro da
barriga, a segunda vez que ficou grávida acabou por ter um bebé, mas que tinha cabeça e asas de pássaro e, como a janela estava aberta, fugiu a voar. A Avó disse que a CarmenFernandez tinha medo de engravidar a terceira vez, mas nós não adormecíamos mesmo assim. Então a Avó começava com as ameaças dela:
— Ninguém gosta de mim.
— É mentira, Avó, nós gostamos.
— Então quem gosta de mim agora vai adormecer.
— Não, Avó, não queremos dormir.
— Então vou aceitar a proposta do soviético.
E a brincadeira, que sempre começava como uma brincadeira, apesar de nós sabermos para onde esse assunto ia, sempre deixava alguém muito triste ou mesmo a chorar.
— O quê, Avó?
— Vou-me embora para o tão-longe. O soviético já disse que quer me levar para o tão-longe. E eu vou mesmo. Ninguém vai sentir a minha falta.
— Avó, não diz isso — alguém podia começar a chorar.
— A Avó vai para o frio, fica lá com a família do soviético.
— Mas Avó, aqui é que nós gostamos de ti, não podes ir no tão- longe...
Era uma brincadeira estranha, mas resultava. No meio dessa conversa, nós, os netos, nos convencíamos que era melhor dormir um pouco do que aturar a imaginação da partida da AvóAgnette com o soviético, sobretudo porque parece que demora muito tempo para chegar lá no tão-longe e muito mais complicado deve ser
regressar lá desse lugar que ninguém sabia muito bem onde era.
— Chá de caxinde, conhece? — a AvóAgnette apareceu com a chávena na mão.
O CamaradaBotardov fez uma cara estranha, cheirou o chá e fez um sorriso como nós fazemos quando nos perguntam se a sopa de feijão está boa.
— Obrigade!
A AvóAgnette abriu a janela e viu que a PraiaDoBispo estava toda escura. Mas nós tínhamos luz.
— Este casa que tem luz eléctrico! Bilhardov liga na gerador de Masuléu. Avó Nhéte durme bem. Ligaçón direct na gerador.
Petromáx niet!
O soviético aproximava a chávena da boca mas não bebia. Só ria, com a boca e com os olhos dele azuis muito cianos.
— Bebe masé o chá — a AvóCatarina não parava de olhar para ele, como fazia conosco para controlar a sopa.
— Obrigado, CamaradaBilhardov — a AvóAgnette falou. — E as outras casas, não podem também ter luz do gerador?
— Outres casas, outres donas. Este muito pert de Masuléu, ligaçón dirét.
— Ouve lá, ó tupariov, já que estás aqui a beber o chá que nem bebes, só sopras — a AvóCatarina era assim mesmo, falava tudo o que lhe apetecia. — É verdade que vocês vão explodir as nossas casas?
— Desplode? Niét. Tode munde realojád. Casa novo, bonito.
Varande e tudo.
— Não estou a perguntar da varanda. Esta casa também tem varanda. Isso é quando?
— Quande? Mês do ano?
— Sim, mês do ano! E dia do mês. “Quande” é que “desplode”?
— Nã tem informaçón dirécte. Chefe general é que decide.
Bilhardov só conhece Masuléu.
— Mas parece que já trouxeram as caixas com as dinamites, Avó
— falei para a AvóCatarina.
— O menino esteja calado e não se intrometa na conversa dos adultos — a AvóAgnette me ralhou.
Depois a Avó fez cara de dor, pôs a mão na perna a esfregar assim na direção do pé.
— O que foi, mana, estás com aquela dor?
— Desde de manhã, mas está pior.
— É melhor ligares à tua filha a saber o que é. Já estás há meses com isso.
— Dor na pé, dona Nhéte? Na unión soviét todos médiques resólv problém. Bons médiques.
— Aqui também temos “médiques” e a minha sobrinha é médica, CamaradaBilhardov.
— Antón eu vou deitar, manhã acórde cedo. Bótard, minine!
— Bótard, CamaradaBotardov! — rimos de novo.
A Avó acompanhou o CamaradaBotardov até ao portão. Fomos espreitar. Sempre ficavam um pouco na conversa ali no portão.
Na casa do lado, a DonaLibânia também vinha sempre espreitar, qualquer coisa que acontecesse na casa da Avó ela sempre sabia, até quem tivesse dúvidas sobre quem tinha passado, ou a que horas, podia perguntar à DonaLibânia. Até mesmo coisas que se
passavam em outras casas que ela não conseguia ver, ela também sabia.
Depois a AvóAgnette entrou e vinha a caminhar com dificuldade.
Entrou e sentou de novo a esfregar a perna.
— É uma espécie de ardor.
— Ou telefonas à tua filha ou chamas o médico cubano.
— Amanhã já ligo. Esta hora já é tarde. Meninos, começar a preparar para ir dormir.
— Quem tem fome pode tomar um prato de sopa que a Madalena vai aquecer — disse a AvóCatarina. — Deixa-te estar, mana,
repousa aí com a perna esticada.
A chuva tinha mesmo parado. Um barulho bonito, devagar, tipo um assobio abafado começou a aparecer no lado do quintal onde ficava a figueira.
Jantamos só um bocadinho, ninguém gostava muito de sopa, mas a AvóCatarina ficava ali perto de nós a olhar devagarinho.
— Não é a boca que vai à comida — ensinava — é a comida que vem até à boca.
Treinávamos essa complicação de comer sem quase mexer o pescoço para baixo e ainda ouvindo as outras regras que já sabíamos de cor.
— Os cotovelos não ficam em cima da mesa. O estômago não encosta à mesa. Podemos não ter muita comida, mas sabemos como comer. E não se fala com a boca cheia, já sabem.
Subimos para lavar os dentes e fazer xixi. Os pijamas eram
camisas antigas e uma cueca. Fazia calor mas tínhamos que tapar o corpo nem que fosse só com o lençol por causa dos mosquitos.
— Não sei por que que os mosquitos têm esse vício de beber sangue.
— Deve ser que têm sede.
— Não fales à toa.
Espreitei ainda da janela da casa de banho. Uma coruja ficou na parte mais alta da figueira, como se a lua fosse uma caixinha de pôr fotografias e a coruja fosse a própria fotografia a preto e branco.
Uma fotografia que de vez em quando se mexia para falar um grito de coruja.
Ainda estávamos a matabichar quando ouvi lá fora os gritos do 3,14 e da Charlita a chamarem os nossos nomes para irmos ver o que estava a acontecer.
Era cedo mesmo, o sol já tinha nascido mas ainda se podia olhar aquele amarelo bruto e forte que não se pode afinal olhar. Eu gosto muito mais do amarelo-torrado que aparece ao fim da tarde, mas não nos últimos minutinhos antes de o sol mergulhar, aí é já amarelo a fugir para laranja quase encarnado. É antes disso. O amarelo- torrado é uma cor que aparece muito rapidamente e que não se pode demorar muito para se entender que já aconteceu. Mas há um segredo: o amarelo-torrado, às vezes, também aparece nos meus sonhos.
— Primeiro acabam de comer, depois podem sair. E não quero pressas. Alguém corre atrás dos meninos?
— Não, Avó.
— Então comam com calma. Têm o dia todo para brincar. A vossa vida é só brincar.
Os adultos pensam que “a nossa vida é só brincar”. Não é bem assim. A vida da Charlita nem sempre era fácil com a missão de dividir os óculos dela na hora da telenovela porque as irmãs também queriam utilizar os óculos para ver bem, a vida do 3,14 também era de ajudar em casa e nas vendas da avó dele que ia longe vender pão que tinha comprado mais barato ali na padaria da rua, a vida do Gadinho também nem sempre era fácil com essas coisas de aturar tudo o que ele não podia fazer: não podia brincar, não podia fazer festa de anos, nem podíamos lhe dar prendas, nem podia vir às nossas festas de anos e nem mesmo a prenda que todos juntamos para lhe dar o pai dele não aceitou na conta de serem testemunhas de Jeová. E a vida do Paulinho, além de ajudar em casa, sempre a acartar água porque a maior parte das vezes não havia, e o pai dele com peças pesadas porque era mecânico, ainda tinha que ir treinar judo e apanhar porrada porque parece que no judo isso faz parte do treino e no primeiro ano só aprendes a cair e a levar porrada sem reclamar do mestre nem dos colegas.
— Comam com calma, têm o dia todo para ir brincar. Madalena, vai ver se a padaria já abriu outra vez.
A MadalenaKamussekele saía e um de nós às vezes ia acompanhar.
Aquela segunda ida, para ver se a padaria já tinha mesmo começado a vender o pão quentinho, era mais calma. Mas todo o mundo sabia, muitas horas antes, talvez mesmo quatro e meia ou cinco da manhã, a Madalena já tinha acordado, e quase sem lavar a cara nem os dentes, ainda com um monte de sono na cara e no corpo, tinha ido “pôr pedra” na fila da padaria. Como a Madalena acordava bem cedo e a padaria ficava perto, a pedra dela ficava sempre quase sempre no início da fila.
As pessoas faziam isso, na PraiaDoBispo, e depois podiam ir para casa, porque o CamaradaPadeiro às vezes também estava ainda a dormir na conta da bebedeira da noite anterior, ou então algum funeral mesmo que tinha puxado bebidas quentes, ou até mesmo falta de algum produto para acabar o pão, talvez o sal grosso, ou então mesmo que não havia gás na botija enorme do forno do pão, e a fila de pedras, era conhecida e respeitada, às vezes o próprio CamaradaPadeiro podia abrir a padaria e ficar à espera que
chegasse o dono da primeira pedra para começar a venda.
— Ninguém se mexe. Esta pedra é da DonaLibânia, é a pedra esverdeada.
Ou então uma outra dica qualquer.
— Vamos esperar a Madalena da casa da AvóAgnette. Esta pedra pequenina é dela.
Poucas vezes a Avó nos deixava ir com a Madalena na hora de ir recuperar a pedra e comprar mesmo o pão.
Quando eu ia, gostava dos dias em que na fila estava também o maluco EspumaDoMar a fazer o estilo dele, com os panos longos de cores já cansadas, pés descalços ou chinelos simples tipo canoa rasa, e ficava na fila o tempo que fosse preciso, com sol ou com chuva miudinha, com poeira ou não, com fome ou sede, só para poder chegar perto do CamaradaPadeiro e dizer a frase dele:
— Só vim afirmar que ainda não tou munido do cartão necessário para usufruir de los afamados serviços desta caliente padaria.
Levou-me algum tempo para decorar esta frase complicada e mesmo o sotaque dele quase cubano a dizer “caliente”, para depois se retirar com o espanto de todo o mundo incluindo a boca aberta do CamaradaPadeiro.
— Mas você não se cansa de dizer sempre a mesma coisa?
— O mundo ainda não aprendeu as verdades mais simples. La luna aparece todos os meses e ainda não aprendemos a desenhar o formato dela. Quanto mais...
O EspumaDoMar estendia a mão dele e o CamaradaPadeiro não podia recusar o gesto. Pegava no carimbo de carimbar o cartão do pão, e carimbava devagar a mão esquerda do maluco.
— Para que ninguém diga que yo no comparecí a la chamada matinal. Hoje não se canta o hino, camaradas?
Se todos fizessem silêncio e não olhassem para ele, o
EspumaDoMar, com o carimbo na mão esquerda e o chicote na mão direita a abanar devagarinho, se retirava e ia tomar banho de manhã cedo na zona proibida da praia da PraiaDoBispo. Os guardas
soviéticos, com a pele toda avermelhada do sol bem quente e a farda azul-escura, já não lhe podiam impedir de banhar ali todas as manhãs.
— Um dia o Mausoléu vai voar — ia dizendo o EspumaDoMar — e levar com ele todas mas todas as formigas azuis...
Os soviéticos riam no meio da língua cuspida deles de não se entender nem sequer só uma vírgula ou uma palavra mais
internacionalista, ficavam mais vermelhos, ajeitavam os bonés e sacudiam as fardas azuis, rindo do maluco, imitando os gestos desajeitados de mergulhar dele, sem saberem, que eram eles as formigas azuis que o EspumaDoMar queria que fossem embora num voo inventado das obras do Mausoléu.
Quando a Madalena voltou da padaria, trazia o saco de pão
quente numa mão e a pedra dela na outra. Escondeu a pedra atrás do vaso branco da varanda, sacudiu a mão e deixou o pão em cima da mesa.
— Hei de sempre sentir saudades do pão, pena que os caixões sejam lugares demasiado apertados.
— Sempre a falar em caixões e morte, Catarina, credo! — a AvóAgnette não gostava.
— A morte é a nossa próxima casa, Agnette.
Sentado na varanda, eu gostava de fazer essa brincadeira de primeiro olhar as nuvens brancas a dançarem no céu empurradas pelo vento, na escola sempre ensinaram que o vento é invisível, e até é, mas, sem querer parecer maluco tipo o EspumaDoMar, às vezes eu acho que, pelo modo de as nuvens voarem, quase fica possível ver de onde vem o vento e sobretudo para onde ele quer ir.
O vento não deve gostar de andar sozinho, se repararem bem, porque sempre quer levantar poeira, dobrar as árvores, soprar as folhas e arrastar as nuvens para longe. O vento deve ter uma casa no tão-longe e está sempre a tentar levar as nuvens para a casa dele, mas isso é uma coisa que eu penso sozinho sem contar a ninguém, porque outras crianças podem me chamar de chanfru e os mais-velhos podem querer me dar remédios para ver se fico bom da cabeça.
De olhos fechados eu tinha ainda outra brincadeira, chamava-se
“adivinhar barulhos” e era só isso mesmo: ficar de olhos fechados a escutar os barulhos pequeninos do jardim da AvóAgnette. Os
passos da AvóMaria, avó da Charlita, no quintal ao lado, e o arrastar dos chinelos e a velocidade do corpo dela, podiam dizer se ela
estava com a bacia de kitaba na cabeça ou não. O barulho das chaves que o CamaradaBotardov trazia penduradas no cinto, podia dizer se ele ia conduzir um trator, se ele ia abrir o portão grande ou se ele ia para a despensa onde escondia a garrafa de vodka. Um outro barulho de sapatos podia fazer entender quantos degraus a AvóCatarina já tinha subido a caminho da janela, na primeira vez que ela fazia isso durante a manhã, “vou ver se deixei a janela aberta”, àquela hora ela ainda tinha força para subir mais rápido e um barulho diferente podia querer dizer que ela tinha curvado à esquerda e entrado na casa de banho. Barulho molhado de pano de água a ser escorrido significava que a AvóAgnette já tinha arrumado a cozinha e a Madalena estava de joelhos a limpar o chão, depois ia sacudir os tapetes lá fora, dar milho às galinhas ou, se não
houvesse milho, podia ser restos de pão duro, talvez mais tarde
varrer o quintal das folhas que caíam da figueira e só no fim limpar a gaiola dos jacós de um modo estranho porque, com a
MadalenaKamussekele por perto, os jacós ficavam calminhos e não diziam disparates. O último dos barulhos, o que eu mais gostava para dizer mesmo a verdade, era o mais difícil e bonito de todos:
ficar muito quieto, tentar respirar devagarinho e de olhos bem
fechados, para escutar, do outro lado dos buraquinhos do pequeno muro, o barulho das lesmas nas pedras do jardim ou a subir as folhas largas que pareciam estradas enormes para as lesmas treparem.
— Quantas lesmas? — a Madalena conhecia a minha brincadeira.
— Sem abrir os olhos, seu batoteiro.
— Não preciso de fazer batota.
— Quantas?
— Três!
— Falhaste. São quatro.
— Não pode ser!
Eram mesmo. Uma mais pequena na ponta da folha e sem rasto nenhum de baba tinha me feito enganar no número.
— Não vale, a pequenina não se mexeu. Assim não posso saber.
— Não interessa. Tá errado — a Madalena voltava contente para o quintal.
No portão estava o 3,14 a rir daquela maluqueira.
— Tavam a fazer quê, vocês?
— Nada.
— Nada? “Nada” se faz a conversar vocês os dois mais um conjunto de lesmas a subir uma folha?
— Epá, não fala só à toa. Qual é a dica?
— A dica é que a casa da tua Avó tem bué de luz e nós ficamos sem ver telenovela. Tão a dizer que a tua Avó meteu cunha no soviético tupariov! Se calhar até são namorados.
— Para com isso. Vou te partir os cornos!
— Calma, ouvi dizer. Mas que vocês ontem tinham luz, isso é verdade.
— Queria falar contigo sobre isso.
— Vamos puxar cabo da casa da tua Avó? Era bem bom.
— Não. Vamos cortar o cabo.
— Como assim?
— Se as outras casas não têm luz, é melhor esta não ter. Isso pode dar maka. Ainda por cima a televisão está estragada e nem dá para ver novela. Sabes qual é o cabo?
— Sei. A tua Avó não vai te ralhar?
— Só se ela descobrir. Tu és um queixinhas como a Charlita?
Ahn?
Essa era a melhor maneira, o 3,14 detestava que lhe chamassem queixinhas ou que lhe comparassem com meninas.
— É só conseguirmos um alicate.
— Acho que a Madalena pode nos ajudar.
— Ela vai pedir o quê?
— Como assim?
— Em troca do alicate.
— Vamos lá saber.
No quintal os jacós assobiavam ou diziam palavras de disparates que a Avó não gostava nada. Também podia acontecer dizerem combinações de disparates, ou mesmo frases de angolano misturado com o russo, ou algumas palavras de cubano, por exemplo, “cabrón” diziam muito, “que te parió”, ou uma outra que aprenderam nos filmes —acho que se dizia “fác iú” —, e esta é que não se podia mesmo repetir.
Um jacó, o de penas cinzentas muito claras se chamava mesmo SóJacó, o outro era NomeDele, por causa de uma estória que agora não dá para contar. Esse NomeDele era um jacó antigo de uma idade que ninguém sabia, tinha as asas cortadas e o corpo todo chamuscado e quem lhe trouxe para o quintal da AvóAgnette foi o André, que é comando, e apanhou esse jacó depois de uns
combates nervosos mais para sul que a província do Kwanza-Sul.
— Esse jacó assim todo chamuscado? — a AvóNhé ria. — Tens a certeza de que está vivo?
— Tá sim, Avó.
— Vê lá, não quero bichos feiticeiros aqui no quintal. Qual é o nome dele?
— É mesmo NomeDele.
— Como é que sabes?
— Foi o nome que lhe demos. O soldado que lhe encontrou tinha esse nome também.
— E onde está esse soldado?
— Morreu nessa explosão onde o jacó escapou.
O NomeDele comia com vontade, deve ser porque a guerra, como dá muito medo, deve abrir o apetite. Quando ele chegou, nos
primeiros tempos, o jacó SóJacó começou a emagrecer tipo que ia parar. Depois tivemos que dar comida em gaiolas separadas,
porque o NomeDele comia com apetites muito antigos.
— Tão aí a fazer o quê? — a Madalena nos encontrou perto da gaiola grande.
— Tava a lembrar a estória do NomeDele. É verdade que ele veio mesmo de uma explosão que não lhe matou?
— Isso são mentiras do André.
— E comando mente, Madalena? Não fales à toa, ainda o André vai te dar uma surra de meia-noite.
— E para dar já? Quando muito, lutamos...
— Ahahah, tu vais lutar com um comando? Nem já tropa normal.
— Shiu, pouco barulho que as galinhas tão a pôr ovos. Vieram aqui fazer o quê?
— Precisamos de um alicate.
— Alicate? Para quê?
— Não podemos dizer.
— Então não posso arranjar.
— Mas tens ou não?
— Posso ter.
— Madalena, assim nem sabemos bem se vale a pena te contar.
Porque se não tens, vais logo fazer queixinhas e ficamos sem o alicate.
Ela ficava confusa com muita conversa. Era mesmo esse o objectivo, começar a falar à toa até ela dizer se tinha ou não um alicate e ainda o que ela ia pedir para nos emprestar sem ninguém dar conta.
A Madalena controlava bué de chaves da casa, podia ir às
capoeiras, abrir a gaiola dos jacós, as portas de casa, a despensa e
até a porta grande da garagem onde ficavam mil objectos antigos cheios de poeira que traziam tosse aos mais asmáticos.
— Vocês... Ficam aí a falar a falar e a não dizer nada.
— Tu é que ficas a não responder nada.
— Qual era a pergunta?
— A pergunta era do alicate.
— Deve ter na caixa de ferramentas.
— Não podes emprestar só?
— “Emprestar só”? “Só” como?
— Só assim.
— E se me apanham na Avó? Não vão me dar uma surra “só assim”?
— Não, a Avó só te dá uma surra mais ou menos.
— Posso ir ver se tá lá.
— Obrigado, Madalena.
— Qual obrigado é esse? Obrigado é na escola do camarada professor. Aqui vai ter de sair sal grosso para comermos logo com manga verde.
— Mas a chave da despensa não fica contigo?
— Não. Fica na cristaleira.
— E a chave da cristaleira?
— Fica no quarto da Avó.
Ficou combinado, o sal em troca do alicate, depois ela mostrou um alicate enorme e com pegas de plástico bem boas para uma pessoa cortar cabo de electricidade, isso já tínhamos visto nos filmes e todo mundo sabia: para cortar fios eléctricos, tem de se estar calçado, pegar num alicate com um pano e não ir com os pés ou as mãos molhadas. Se o alicate tiver pegas de plástico, melhor ainda. De qualquer modo, atiramos moeda a ver quem ia mesmo cortar o cabo e quem ficava a vigiar as entradas, antes que
aparecesse algum mais-velho ou mesmo o CamaradaBotardov.
— Bom, se acontecer alguma coisa, já sabes, dá-me só um pontapé — pediu o 3,14. — Se não ainda podemos ficar os dois colados aqui na força da electricidade.
Era na parte de trás da casa da AvóAgnette, cavamos um
bocadinho e o cabo apareceu, o CamaradaBotardov bem que tinha
enterrado para ninguém ver mas o 3,14 é bom para encontrar essas coisas, seguimos um pouco o fio e vimos logo que só podia ser aquele.
— Corto?
— Positivo, camarada.
Primeiro estava difícil, mas depois decidimos que íamos mesmo fazer força os dois e conseguimos cortar.
Ouvimos um barulho do lado das obras do Mausoléu e nos
escondemos atrás de um abacateiro todo poeirento que ficava ali a rebentar o cimento das casas com as raízes dele. Era o
CamaradaDimitri, a entrar num barracão com gaiolas cheias de pássaros coloridos e mais uma com jacós lá dentro. Talvez fosse o mesmo lugar onde estavam escondidos os caixotes de dinamite.
O 3,14 pegou numa pedra e atirou na direção das gaiolas. Tive de lhe agarrar e trazer de novo para o esconderijo, o CamaradaDimitri deixou cair a gaiola dos jacós que começaram a gritar “um só povo, uma só nação” e “de Luanda, capital da República Popular de
Angola, transmite a Rádio Nacional”, com uma voz igualita ao
camarada da Rádio que todos os dias dizia isso no noticiário das 13 e das 20.
Nós rimos a tapar as bocas para não sermos apanhados.
— Vamos bazar agora.
Aproveitamos a atrapalhação do CamaradaDimirtri e fugimos.
Entramos no quintal a correr para devolver o alicate à Madalena antes que alguém chegasse e ela tivesse vontade de fazer
queixinhas.
— Tá aqui, Madalena, obrigado mesmo.
— Qual obrigado é esse? Já vos disse, sal grosso, depois do almoço, porque no fim do dia vão trazer mangas verdes.
— Tá bem. Depois vamos trazer. Ninguém veio aqui?
— Não. Tão com visitas.
— É quem?
— A vizinha. DonaLibânia.
— Então é só uma visita.
— Não, porque a DonaLibânia fala como se fosse três visitas. E gosta de comer mais jinguba que os jacós.
— Madalena... Sabes se a luz foi aqui em casa?
A Madalena não respondeu e como todos estavam sentados na sala a olhar para a perna esticada da Avó- Agnette, aproveitamos para ir à despensa gamar o sal grosso.
— Vais sozinho porque é pouco sal, basta uma mão tua.
— Tens é medo de ser apanhado.
— Não é isso, é só que na minha casa já me batem bué e se formos apanhados aqui ainda vou apanhar mais na conta de uma maka que não é minha. Já te ajudei a conseguir o alicate e te mostrei onde estava o cabo do soviético.
— Ya, pode ser, controla então a retaguarda.
— E se vier alguém?
— Fazes o barulho daquele gato bêbado.
— Qual gato é esse?
— O da novela Cambalacho. Não viste?
— Não.
— Epá, assim não temos código de chamada, no caso de emergência.
— O tempo que tamos aqui a falar já tinhas gamado o sal.
Ele controlou a sala e foi bem rápido. Uma mão de sal grosso devia chegar e fui a correr até ao quintal chamar a Madalena.
— Madalena! Toma então o teu sal.
— Ai, é assim que se entrega? Sem pacote de papel nem nada?
— Ché, tás a gozar? Pensas que aqui é loja do povo ou quê? E é se queres.
Íamos dar a volta para sair pelo quintal mas ouviram os nossos passos.
— Meninos! — a AvóAgnette chamou. — Venham cá dentro cumprimentar as pessoas.
— Avó, não podemos, tamos só bem transpirados.
— Já para dentro, já disse.
Entramos na sala ainda com a respiração atrapalhada e eu a limpar as mãos nos bolsos para não mostrar marcas ou cheiro de sal.
— Tira as mãos dos bolsos, que falta de educação é essa?
— Desculpa, Avó.
— Digam boa tarde à DonaLibânia que veio visitar a Avó.
— Boa tarde, DonaLibânia — eu comecei.
— Que veio visitar a Avó — o 3,14 completou e os mais-velhos riram, não sei porquê.
Mas aquilo ajudou. Foi a própria DonaLibânia que disse “vão lá brincar, seus marotos”. A AvóNhé fez sinal com os olhos para podermos sair.
— Com licença, Avó.
— Podem ir.
No muro da casa do SenhorTuarles não estavam as filhas do SenhorTuarles para virem brincar conosco. No portão grande feito de redes metálicas que quase já não existiam, num banquinho pequenino e bonito, estava a AvóMaria sentada a vender kitaba.
— Boa tarde, AvóMaria — cumprimentamos e saímos a correr, batendo forte com os pés na areia para levantar a poeira, a imitar os carros quando derrapam de andar com velocidade, e com as bocas fazíamos barulho de aceleração e travagem, mudança de
velocidades e derrapas também.
— Stop! Bom dia camaradas! Por favor, documentação total da viatura e identificações pessoais dos respectivos camaradas! — falou o maluco EspumaDoMar, muito perto de nós.
— Camarada agente, estas viaturas são dos nossos chefes, nós somos só motoristas — eu entrei na brincadeira dele, o 3,14 tinha medo do Espuma.
— Essas viaturas todas antigas e com tubo de escape rouco?
— Sim.
— Acelera lá um bocado para eu controlar.
— Vrummm, vrummm!
— Está no limite. Quem são os vossos chefes?
— São uns camaradas muatas tipo ministros.
— Então podem passar. E cuidado com a velocidade máxima e o atrito nas curvas escorregadias. Buena suerte!
— Sim, camarada. Obrigado e até amanhã.
— Hasta mañana!
Continuamos de vrummm na boca, aceleramos bué, levantamos muita poeira até que paramos cansados, do outro lado do largo, a
descansar os corpos à procura de uma sombra que ali não havia. O camarada VendedorDeGasolina olhou para nós a rir.
— Acabou a gasolina?
— Sim.
— Podem vir abastecer.
Andamos bem devagar com o suor todo a pingar dos queixos e os sovacos bem ensopados. Parei de repente.
— Vem então — o 3,14 me chamava.
— Tens de empurrar, amigo. Gasolina acabou completamente.
Vamos ter de sangrar o carro.
— Apanhei-te na pura mentira. Sangrar é nos carros a gasóile.
— Epá!, é verdade.
Encostamos mesmo junto à bomba. O camarada
VendedorDeGasolina tinha uma garrafa de água. Primeiro nos molhou as mãos para nós lavarmos a cara e depois deu um bocadinho a cada um para beber.
— Qualquer dia — pegou naquela manete de pôr gasolina nos carros — até se pode beber diretamente daqui.
— Por quê, camarada?
— Porque esta bomba mete água por baixo. Só falta ter
peixinhos. O tanque deve estar furado, um dia destes trago uma cana de pesca.
— Seria bem fixe.
— Shiu!, é segredo, o chefe não pode saber, nem os soviéticos.
São muito queixinhas os formigas azuis.
— É verdade.
Vimos um Lada branco a descer a rua comprida da PraiaDoBispo.
Vinha desde o BairroAzul.
— Conhecem aquele carro? Alguém está doente.
— De quem é?
— É do camarada médico cubano, RafaelTruzTruz.
— Rafael quê?
— Vocês vão entender — o camarada VendedorDeGasolina ficou a rir sozinho.
O Lada deu a volta ao largo e parou mesmo ali no lugar onde nós estávamos.
— Buenas camaradas!
— Buenas tardes — talvez o camarada VendedorDeGasolina também falasse cubano.
— Oye niños, como están?
— Tupariov masé, niños é o padre Inácio — o 3,14 não gostava que lhe chamassem de criança.
— Calma então 3,14, você falta o respeito assim num médico que você nem conhece? — ele se acalmou. — Buenas, camarada
doutor.
— Dónde es la casa de la camarada Agnette?
— É minha Avó.
— Muy bien. El compañero puede llenar por favor? Voy a hacer una visita.
— No puedo, no — o VendedorDeGasolina começou a rir. — Porque esse seu carro funciona a gasolina.
— Si, por supuesto, hombre.
— Si, mas por supuesto, eu só vendo água salgada com alguns vapores de gasolina.
— De verdad? — o médico estava espantado.
— Só digo verdades verdadeiras. Vá lá à sua consulta, eu guardo o carro.
— Gracias. — Depois falou comigo. — Me acompañas?
— Sí. Té chamas cómo? — quis improvisar um cubano. O 3,14 riu.
— Me llamo Rafael. Pero me llaman TruzTruz.
— Camarada Rafael, aqui em Luanda não gostamos de nomes feios, e o camarada pode ser vítima de estiga violenta. Depois não diga que não avisei.
— Aunque no te entienda bien, te lo agradezco.
— Vamos lá, a minha Avó tem muitas dores no pé.
— En el pie izquierdo?
— Por supesto, camarada. Por supuesto.
Depois dos três degraus onde eu gostava de sentar, chegamos à porta. O camarada médico cubano olhou para mim com os olhos a brilhar como se fosse um menino mais novo que eu e fez sinal de quem ia fazer alguma magia. Baixou-se um pouco, passou a maleta
que trazia para a mão esquerda, e com a mão direita bateu
devagarinho, na porta, tão devagarinho que parecia fazer carinhos à madeira antiga da casa da AvóAgnette. E falou baixinho.
— Truz-truz! Ahahah.
Aquela gargalhada estragou o momento e, para dizer a verdade, nem cheguei a entender o que era aquilo.
— Un ritual, pequeño hombre, solamente un ritual — falou, antes de bater com força à porta.
A Madalena veio abrir com o sorriso dela cheio de dentes.
— Buenas. La señora Agnette, por favor?
— Entre, camarada.
A Avó ia se levantar mas o médico disse que não era preciso.
Olhei para o chão a ver se havia alguma coisa a impedir o caminho ou se por acaso estava molhado. Nada.
O camarada médico cubano, antes de dar mais um passo, olhou para a AvóAgnette a sorrir, olhou para a sala toda, viu a televisão a preto e branco com aquele plástico azul no ecrã, olhou para a
cristaleira e para as cadeiras da sala de jantar, viu a fotografia do AvôMbinha na parede, e nesse momento o relógio alto que ficava pendurado perto das escadas deu o som escondido dos sinos dele a dizer as horas certas. Só não viu a AvóCatarina que estava num canto, calada, com as roupas pretas a olhar para nós.
— Não repare na pobreza, senhor doutor. É uma casa simples — falou a AvóAgnette.
— Puedo?
— Sim, claro. Esteja à vontade. Sente-se.
A AvóCatarina subiu lentamente as escadas mas não falou a frase dela “vou lá acima fechar as janelas” e parecia que ninguém olhava para ela. A Madalena foi para a cozinha e voltou com uma bandeja com um copo de água.
— Aceita uma água fresca?
— Sí. Gracias.
Ficaram a falar coisas de médicos e de pessoas com dores nas pernas, a Avó explicava que a dor estava cada vez pior e quase não sentia a ponta do pé esquerdo.
— Problemas de circulación. La edad, señora, la edad no perdona.
A Avó sorria aquele sorriso dela devagarinho, de quem talvez não estivesse a entender.
— Su hija, la doctora Victória, me pidió que viniera a verla. Puedo tocarle la pierna?
— Sim.
A AvóCatarina não desceu. Como a Madalena estava ali a fazer companhia à Avó, subi as escadas devagar também.
A janela da casa de banho estava aberta e circulava um ventinho que os mais-velhos dizem que faz mal à tosse, e que também se pode chamar “aragem”. Eu gostei muito dessa palavra “aragem”, depois também aprendi que um quarto com as janelas muito tempo abertas podia ficar “arejado”.
— Só que é preciso cuidado, Avó.
— Por quê?
— Porque também pode ficar “mosquitado”.
A AvóCatarina ria dessas minhas palavras inventadas dentro das nossas conversas.
Abri a porta do quarto dela. A cadeira baloiçava devagar com o xaile preto pendurado no lugar de pousar os braços.
— Está na hora de fechar as janelas — ela me assustou com a voz dela muito baixa.
— Que susto, AvóCatarina.
— Desculpa, filho.
— A Avó não vai descer para ouvir as conversas cubanas do camarada médico TruzTruz?
— Não gosto de aparecer aos estranhos, meu querido — a
AvóCatarina parecia triste na voz, fechou as janelas do quarto que ficou muito escuro. — Desce, meu querido, podem precisar de ti para entender a língua cubana.
— Ficas aqui sozinha, Avó, sem luz nenhuma?
— Já não tenho medo do escuro.
Há muitos anos que os soviéticos desistiram de proibir os banhos do EspumaDoMar na praia proibida, e os pescadores que já
moravam ali há tantos anos, antes dos soviéticos, antes mesmo dos angolanos de agora e dos portugueses, também podiam entrar e sair quando quisessem sem ninguém ir lhes dizer que aquela praia estava “fechada ao público”.
Nós, as crianças da PraiaDoBispo, íamos normalmente em missão escondida de espreitar ou de banhar.
A Madalena, embora a AvóAgnette nunca tenha sabido, também ia de vez em quando tomar banho lá com os namorados dela e
demorava muito tempo na água a fazer não sei o quê, mesmo que a água estivesse fria ou o mar estivesse agitado.
— Ainda aparece com a barriga redonda, vão falar que foi o mar
— dizia o VelhoPescador.
Um dia fomos de manhã cedo.
O 3,14 veio me chamar para eu ir a correr com ele ver o mar.
Pensei que era missão de mergulharmos à procura de búzios e conchas bonitas, quis ir buscar o fato de banho.
— Não é preciso, vem só. Não vamos mergulhar. Vamos em missão de espreitar.
Àquela hora a Madalena devia estar ainda na fila do pão ou mesmo, se fosse dia de peixe, na fila da peixaria à espera do carregamento que talvez só chegasse depois das dez horas.
— Vem só. Vou te mostrar uma coisa.
Não ouvi vozes em casa, a Avó devia ter saído com alguém e chamei duas vezes mas a AvóCatarina não respondeu. Se calhar era cedo demais para ela aparecer.
O sol em Luanda começa a aquecer muito cedo e costuma nascer antes das seis da manhã. Meia hora depois já faz calor de queimar a pele, o corpo sua devagarinho e os soviéticos ficam todos
vermelhos a rir tipo as lagostas quando saem da água fervida com sal. É assim que se preparam lagostas, já vi na casa da TiaRosa, fervem as coitadas das lagostas ainda vivas, põem sal grosso, e antes de servir a TiaRosa faz molho de limão, jindungo e mais um
pouco de sal, também pode pôr azeite ou mesmo aguardente, se o TioChico pedir.
“Os soviéticos são gente estranha”, dizia a AvóCatarina.
“Apanham sol mas não gostam de mergulhar”.
Os soviéticos vestem fatos azuis feitos de um tecido grosso que dá para fazer bons panos do chão, a Madalena é que me disse, tecido que agarra bem a água e que seca bem ao sol, é verdade, dão panos do chão que duram muito tempo ou mesmo, se bem cortados e costurados, bons tapetes para pôr na porta da cozinha.
Os soviéticos das obras do Mausoléu nunca largam a aká47 e só se estiver mesmo muito calor é que tiram a parte de cima da farda. Aí vemos como esses “lagostas azuis” são mesmo estranhos: por baixo ainda têm aquela camisa justa, verde, que os tropas gostam de usar. Controlam as obras e a praia, mas, mesmo com calor, não devem ter autorização para mergulhar, acho eu, porque ficam perto da água, falam com os pescadores, às vezes, abusam o
EspumaDoMar e riem dele, mas não mergulham.
— Lugar de lagosta é no mar, compañero — o Espuma ainda lhes diz, mas eles nada. Pausam a falar soviético cuspido e gostam
também de cuspir no chão. — Oye, ese olor se llama catinga! — nós ríamos do cubano falado pelo EspumaDoMar, com os panos todos molhados a sair da água e as tranças rasta cheias de areia e
conchas que ficavam presas a brilhar.
Os banhos do Espuma eram de manhã cedo, com sol, sem sol, com chuva pingada ou chovida, com trovões ou nuvens cinzentas, com alforrecas na água ou não.
— Tenho o corpo sujo, es verdad, pero mi alma está limpa... Nem todos podem dizer isso, no es así, lagostins? — os soviéticos
olhavam para outro lado, para fugir com os olhos do sol e para não deixarem as crianças verem a cara deles encarnada. — Os mais- velhos dizem: uno debe partir cuando no es bienvenido... Ahahah!
Às vezes tirava os panos do corpo e, por baixo, o EspumaDoMar tinha roupas antigas e sujas que nem dava para entender que
tecidos eram aqueles. Outras vezes mergulhava com os panos pendurados no corpo, e não eram poucos, quando saía da água aquilo devia pesar um bocado.
Apanhava balanço, ria para começar a correr, e ria mais se
estivéssemos ali, ele sabia que nós olhávamos atentos todo aquele movimento e que depois íamos contar aos outros. Apanhava
balanço, corria, como se fosse uma dessas pessoas que sabe mergulhar bem nas piscinas, como os atletas dos jogos olímpicos que mergulham depressa sem fazer a água mexer-se muito, só que o Espuma depois travava de repente e entrava na água quase em câmara lenta, era muito engraçado, parecia pedir com-licença aos peixes e às conchas, sentava bem na beirinha e deixava o corpo afundar ali onde não era possível nem um bebé afundar-se.
— Não tenho banheira em casa, mas não podem dizer que nunca tomei banho de espuma.
O nome chegou assim, EspumaDoMar, ali na beirinha da praia da PraiaDoBispo, onde perto da areia o mar tinha uma mancha enorme de espumas brancas que aquela rebentaçãozinha inventava para a água chegar à areia sem ser com força, só andando muito é que se perdia o pé e a espuma desaparecia, mas ali perto, também onde nós gostávamos de apanhar conchas bonitas, era só espuma branca e limpa, olhando para a esquerda e para a direita, tudo branquinho, com o corpo do EspumaDoMar a fazer mancha escura na brancura da espuma do mar.
— Oye, niños, es el cabello del mar... Os cabelos do mar, entendem? Quer dizer, ahahah — mergulhava um bocadinho, enfiava os cabelos todos na espuma enrolada de areias e
conchinhas partidas, quase ficava sem respiração e depois soprava como uma baleia pequenina — Quer dizer... Eu sou um piolho nos cabelos brancos do mar.
O 3,14 olhou para mim com uns olhos de pena. Na PraiaDoBispo muita gente tinha pena do EspumaDoMar, nunca entendi bem isso, pena por quê?, uma pessoa que toma banho todos os dias a rir, a dizer que ali são os cabelos brancos do mar, uma pessoa que fala cubano e sabe das estrelas do céu e das matemáticas do valor do Pi e, quem sabe mesmo, uma pessoa com um jacaré na casota do cão, pode até ser uma pessoa feliz e só ele é que deve saber isso.
O 3,14 fez assim com o dedo na testa a querer dizer que o Espuma era trololó, chanfru, maluco da cabeça, mas para dizer a verdade eu
não sei se o Espuma era um maluco desses que toda a gente chama de maluco mesmo.
— Talvez uma pessoa diferente — como dizia a AvóCatarina. — E que vocês devem respeitar.
Eu adorava os banhos de espuma branca do EspumaDoMar.
— Vamos bazar, isto está a demorar muito. Temos outros assuntos para resolver.
O 3,14 tinha essas frases dele, “outros assuntos para resolver”, acho que ele gostava de imitar as falas dos mais-velhos e também decorava falas das novelas, mesmo das telenovelas que ele nunca tinha visto, frases do SenhorNacib de uma tal de Gabriela ou quê, um outro camarada político de uma cidade no cu do mundo do Brasil, acho que se chamava Sucupira com um tal de
“OdoricoParanguaçu”.
— Não é “Paranguaçu” — ele me corrigia — é “Paraguaçu”, e era um camarada muito engraçado.
— Mas tu nem viste essas novelas, 3,14, desculpa só, não podes saber.
— Sei mesmo, porque me contaram. Sei bué de frases que as minhas tias viram bué de telenovelas quando nós nem éramos ainda nascidos.
— Mas as tuas tias nem tinham televisão, estavam na mata, na guerrilha do makí, a enxotar os mosquitos das pernas — eu lhe estigava.
— Falas à toa... Na mata tem medicamentos e plantas de afastar os mosquitos.
— Ouve só — ele não gostava que eu falasse nisso — na mata tinham papel para limpar o rabo?
— E na casa da tua Avó quando não tem papel higiénico limpam como?
— Tem folhas de jornal... É só amarrotares um pouco e fica macio.
— Então na mata tinha outras folhas... Pensas que guerrilha era brincadeira? — ele ficava nervoso com essas estigas da guerrilha.
— Calma só, não tou a falar da guerrilha. Só tou a dizer que de vez em quando deves inventar já algumas frases dessas novelas