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4 EM BUSCA DE CONCEITOS

4.5 Paradigma Custodial

A fragmentação pós-moderna não é disciplinar e sim temática. Os temas são galerias por onde os conhecimentos progridem ao encontro uns dos outros. Ao contrário do que sucede no paradigma actual, o conhecimento avança à medida que o seu objecto se amplia, ampliação que, como a da árvore, procede pela diferenciação e pelo alastramento das raízes em busca de novas e mais variadas interfaces. (SANTOS, 2010, p.76)

Já citamos ao longo desta dissertação a contribuição de Capurro (2003) quando o autor nos apresentou os seus três paradigmas para a Ciência da Informação. O paradigma físico: “tal paradigma é centrado em sistemas informatizados, onde o conceito de informação aproxima-se de um sentido estritamente técnico, uma informação mensurável que não necessariamente abarca significado semântico” (ALMEIDA, 2007. p.19). O segundo, o paradigma cognitivo, diz respeito ao universo do usuário e o seu contexto informacional. A teoria desenvolvida por Nichols J. Belkin (1980) Anomalous State of Knowledge (Estado Anômalo do Conhecimento), a qual afirma que a busca da informação tem origem na necessidade ou em uma situação problemática, é um texto representativo deste momento na ciência da

informação. O terceiro paradigma, o paradigma social, passa a existir quando o sistema de informação, o usuário e a informação passam a ser estudados em conjunto.

Diante do que foi exposto, dos paradigmas físico, cognitivo e social, o primeiro comprometido com os processos, o segundo com o usuário e o último com o contexto que envolve toda a cadeia informacional, todavia, observamos que dos três paradigmas elaborados por Capurro, nenhum deles expõe a preocupação sobre a questão da guarda, de custódia da informação, essa “lacuna teórica” é preenchida pelos paradigmas custodial e o pós-custodial ou paradigma emergente8, Trata-se de conceitos desenvolvidos pelos pesquisadores Armando Malheiro e Fernanda Ribeiro. Para esta dissertação nos

8 É emergente porque está a surgir no dealbar, em curso, da Era da Informação e nos meandros de uma conjutura de transição bastante híbrida, complexa e sujeita a um ritmo de inovação tecnológica e científica quase vertiginoso (a Sociedade da Informação, em rede etc.) A Ciência da informação trans e interdisciplinar, que defendemos, só é possível no seio de um modo de ver, de pespectivar distinto do modelado pelo paradigma anterior, em que a preocupação pela custódia e a <<ritualização>> do documento é secundarizada pelo estudo científico e pela intervenção teórico-prática na produção, no fluxo, na difusão e no acesso (comunicação) da informação (representações mentais e emocionais que podem estar em diversos suportes e em mutação constante). (MALHEIROS, 2006, p.158).

concentraremos no paradigma custodial, “um paradigma ainda vigente, embora em acentuada crise face ao novo paradigma emergente – pós-custodial” (MALHEIRO, 2011, p.13).

Para melhor entendimento sobre este paradigma Malheiro (2006, p.5) elenca algumas características:

• Sobrevalorização da custódia ou guarda, conservação e restauro do suporte como função basilar da atividade profissional de arquivistas e bibliotecários;

• Identificação do serviço/missão custodial e público de arquivo e de biblioteca com a preservação da cultura erudita ou superior (as artes, as letras, a ciência) de um povo em antinomia mais ou menos explicita com a cultura popular, de massa e os produtos de entretenimento;

• Enfatização da memória como fonte legitimadora do Estado-Nação e da cultura como reforço identidário do mesmo Estado, sob a égide de ideologias de pendor nacionalista; • Importância crescente do acesso ao conteúdo

através de instrumentos de pesquisa (guias, inventários, catálogos) dos documentos

percepcionados como objectos

forte o valor patrimonial do documento do que o imperativo informacional.

O paradigma custodial, de acordo com Malheiro e Ribeiro (2011) emerge com as práticas das instituições memorialísticas assumidas pelo Estado- Nação após a Revolução Francesa, “a preocupação em nacionalizar os bens das classes dominantes do antigo regime, estiveram na gênese do paradigma custodial, histórico-tecnicista e documentalista, que se firmou e consolidou ao longo do século XIX e grande parte do século XX”. (CORNELSEN, 2010, p.10). A prática custodial, no entanto, era contrária à função original de acesso à informação dos arquivos e bibliotecas, com explica Malheiro:

Os documentos eram objetos físicos e, ao mesmo tempo, fontes indispensáveis à produção de ciência e valorização da cultura de um povo. Guardar os documentos antigos e raros tornou- se a missão primeira e última dos profissionais, colocados nas instituições culturais, criadas e assumidas pelo Estado-Nação após a Revolução Francesa[...] Por outro lado, a consciência do acesso aos conteúdos, que decorria da função consignada, para Arquivos e Bibliotecas, nas leis revolucionárias de setecentos, era contraditória (os documentos deviam estar acessíveis a todos, mas nem todos os mereciam...). (2011, p.65)

Armando Malheiro (2011, p.13) lembra-nos que o paradigma custodial está em acentuada crise face ao novo paradigma emergente – pós-custodial, informacional e científico “fomentado e intensificado pelo desenrolar acelerado da Era da Informação (datável, genericamente, a partir de 1945)”. Entretanto, o antigo paradigma ainda é vigente. “O paradigma custodial ainda sobrevive, de fato, na atualidade, trazendo em si, desde muito cedo, mas em contradição com o espírito da lei de 7 de Messidor do período revolucionário francês”, escrevem Malheiro e Ribeiro (2011, p.160). Os autores complementam: “uma concepção de mediação passiva e até ‘negativa’, porque contrária ao utilizador, uma vez que a prioridade estava na guarda do patrimônio cultural, não no acesso ou na difusão plena”.

Um fator importante deste paradigma é sua relação intrínseca com a memória. Galindo (2011) nos diz que: “Para além da ideia de pretérito, outra condição que naturalmente se agrega à noção de memória é a ideia de custódia”. O autor ainda nos diz que esta temática “tem sido competentemente explorada nos últimos anos em um largo debate que vem ajudando na compreensão de dilemas do custodialismo.”