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Mapa 5 – Mapa de Serviços da Região da Lomba do Pinheiro

2.6 O PARADIGMA DO DIREITO À CIDADE COMO DIREITO A PARTICIPAR DA

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Os termos ator social e agente social são utilizados em diferentes contextos neste trabalho. Conforme esclarecem Steinberger e Amado (2006, p. 179), enquanto o termo “ator social” é utilizado para se referir à “expressão do sujeito” visto em um contexto específico, uma arena (daí a utilização deste termo na ciência política e sociologia), o termo “agente social” designa “aquele que exerce efetivamente uma atividade, agencia algo, como, por exemplo, os agentes modeladores do espaço, os que ocupam e criam território ao exercerem atividades que modelam o espaço”. Nesse capítulo utiliza-se, portanto, o termo “ator social”. O termo “agente social” será utilizado no quarto capítulo.

35 A cidade é objeto de análise nos mais variados campos do saber. No imaginário artístico, ela é concebida das m ais diversas formas, seja como ideal a ser buscado ou como ameaça a ser evitada. Na Geografia, estudam-se seus padrões de distribuição. No Direito, busca-se organizá-la sob um conjunto de normas e princípios que protejam os seus moradores e garantam-lhes direitos. Na Arquitetura, desenham-se suas formas. Mas o sentido da cidade, aquilo que se traduz no seu conceito, deve ser buscado na Filosofia: a cidade, para Arendt (op. cit.), é o espaço em que os homens se encontram

para o exercício da política 42. Daí por que Lefebvre (2001, p.38) a concebe como “um

centro privilegiado, núcleo de um espaço político, sede do Logos [a Razão] e regido por ele diante do qual os cidadãos são ‘iguais’, com as regiões e repartições do espaço tendo uma racionalidade justificada diante do Logos (por e para ele).”

Distante desse ideal, a cidade moderna é assim retratada Hissa (2006, p. 88-89):

A cidade é o lugar fabricado para o encontro, para o entretenimento, para a troca. Assim, floresceram as cidades ao longo da história, fortalecendo significados. O lugar da troca e da negociação é, também, o lugar da produção. A cidade, nestes termos, é lugar da criação, da fertilização. O homem cria a cidade e, assim fazendo, recria a si mesmo. Lugar da vida moderna, por excelência, a cidade é o espaço da arte e da produção: simultânea e contraditoriamente, o lugar da vida é o da exclusão, dos sonhos frustrados e das marginalidades. (...)

Contraditoriamente, entretanto, é no lugar do encontro, do diálogo, da criação de identidades que se desenvolve o espaço do estranhamento. A cidade é, também, portanto, o lugar da alteridade: onde se é outro, onde o estranhamento evidencia a condição daquele que não se reconhece no objeto que cria.

Ao apontar a cidade como espaço de sonhos frustrados e do estranhamento, o autor bem poderia estar se referindo à cidade em crise, enunciada por Lefebvre. Sintetizando as diversas formas de cidade que a humanidade experimentou em uma linha que vai do momento zero da urbanização para a urbanização total, Lefebvre (2001, p. 77) identifica quatro fases: a) a cidade política, realizada no modo de produção asiático, que organizava os arredores rurais e sobre eles se impunha; b) a cidade comercial, que se inicia tendo à sua periferia o comércio, mas que posteriormente acaba incorporando o mercado em suas fronteiras e se inserindo em uma “estrutura social

42 O termo política é utilizado aqui com o sentido adotado por ARENDT (op. cit.,, p. 33), que contrapõe a

capacidade do homem de organização política à associação natural promovida pela casa e pela família. Para a autora “o surgimento da cidade-estado significava que o homem recebera, ‘além de sua vida privada, uma espécie de segunda vida, o seu bios politikos. Agora cada cidadão pertence a duas ordens de existência; e há uma diferença em sua vida entre aquilo que lhe é próprio (idion) e o que é comum (koinon)’ (Werner Jaeger, Paideia (1945), III, 111)”.

36 baseada nas trocas, nas comunicações ampliadas, no dinheiro e na riqueza mobiliária”; c) a cidade industrial, nascida junto com o capitalismo, que atrai as populações camponesas e desloca o centro de decisão para os que detêm os meios de produção e informação; d) a cidade em crise, que se expande e se alastra pelos campos, marcando o fim da função rural e a urbanização completa da sociedade.

Esta última fase é, para Lefebvre (ibid.), um fenômeno mundial que se manifesta de variadas formas, desde os países subdesenvolvidos até os países altamente industrializados, e se traduz nas favelas, nos subúrbios desconectados da vida urbana que se desenvolve nos centros, no esfacelamento do tecido urbano, desprovido de seu núcleo, no superpovoamento das cidades. Para entender as causas que levam à crise da cidade, o autor distingue três níveis de fenômenos: o nível do habitar e das modulações do cotidiano no urbano, que compreende, mas não se resume, aos fenômenos relacionados à questão da moradia; o nível da planificação urbana, no plano específico da cidade; e o nível do processo de industrialização e urbanização, que, sob a lógica do capitalismo, transforma a cidade em produto. Acerca desse último nível, Lefebvre (2008, p. 161) afirma que o processo de produção industrializada “organiza globalmente o espaço, de maneira coercitiva e homogeneizante, absorvendo, por conseguinte, os níveis subordinados, o urbano e o habitar”.

Buscando reverter a lógica imposta por esse processo, ele parte do pressuposto de que a análise do urbano deve basear-se em uma racionalidade que coloque em primeiro plano a forma urbana. Esta, por sua vez, é definida em sua existência mental e social 43. Assim, a forma urbana é definida mentalmente por Lefebvre (2001, p. 94) como “a simultaneidade (dos acontecimentos, das percepções, dos elementos de um conjunto no ‘real’)” e socialmente como “o encontro e a reunião daquilo que existe nos arredores, na “vizinhança” (bens e produtos, atos e atividades, riquezas) e por conseguinte a sociedade urbana como lugar socialmente privilegiado, como sentido das atividades (produtivas e consumidores), como encontro da obra e do produto”.

Essa análise leva o autor a afirmar que o urbano transcende os níveis do habitar e da planificação e toma a forma da simultaneidade e do encontro. Buscando introduzir a análise do urbano na teoria marxista, ele mostra como a lógica da sociedade urbana

43 Lefebvre (2001, p. 90-91) formula estas duas definições a partir da teoria das formas, utilizada na

filosofia, segundo a qual a forma, ao se separar do conteúdo, torna-se abstrata e perde a existência real. Mas, ao mesmo tempo, torna-se pura e, portanto, mais inteligível. Todavia, como no mundo concreto não há forma sem conteúdo, a forma só tem realidade nos conteúdos, mas só se torna transparente ou inteligível quando separada deles. Daí se falar que a forma tem uma existência mental, abstrata, e uma existência social, concreta.

37 (baseada no valor de uso) difere da lógica da mercadoria (baseada no valor de troca). Lefebvre (ibid. p. 78-79) está preocupado com a forma como o marxismo, ao tratar da socialização da sociedade 44 “insiste nas trocas e nos locais de troca; põe em evidência a quantidade das trocas econômicas e deixa de lado a qualidade, a diferença essencial entre valor de uso e valor de troca.”

A partir dessa constatação, o autor conclui que a crise da cidade está, na verdade, relacionada à racionalidade imposta pela sociedade industrial, que reduz o urbano ao valor de troca. Essa racionalidade reduz o problema da cidade moderna à questão da moradia e da planificação e deixa de lado a análise do desenvolvimento urbano da sociedade. Em oposição a essa, ele propõe uma nova racionalidade que – diversamente da racionalidade “economista e produtivista” (ibid., p. 87) - considere a obra e não o produto; as simultaneidades e os encontros, e não a forma de troca; o lugar de encontro e não o lugar onde se realizam as trocas, ou seja, uma racionalidade orientada para a concretização do direito à cidade:

O mundo da mercadoria tem sua lógica imanente, a do dinheiro e do valor de troca generalizado sem limites. Uma tal forma, a da troca e da equivalência, só exprime indiferença diante da forma urbana; ela reduz a simultaneidade e os encontros à forma dos trocadores, e o lugar de encontro ao lugar onde se conclui o contrato ou quase-contrato de troca equivalente: o reduz ao mercado. A sociedade urbana, conjunto de atos que se desenrolam no tempo, privilegiando um espaço (sítio, lugar) e por ele privilegiados, altamente significantes e significados, tem uma lógica diferente da lógica da mercadoria. É um outro mundo. O urbano se baseia no valor de uso.

A definição da forma urbana torna-se, portanto, a chave para se perceber como a questão urbana é mais ampla do que a simples questão da moradia ou da planificação do solo segundo uma racionalidade instrumental. Ao contrário, ela exige que se ofereçam condições ao cidadão para que realize o sentido da sua obra, cujo significado se perdeu quando desapareceu a manufatura e a qualidade foi substituída pela quantidade. A intenção de Lefebvre é demonstrar que a crise da cidade apenas poderá ser superada se entendermos que o desenvolvimento da sociedade está necessariamente atrelado à realização da vida urbana, a qual pressupõe uma série de direitos sociais (ao trabalho, à instrução, à educação, à saúde, à habitação, aos lazeres, aos locais de

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O termo é definido pelo próprio Lefebvre (ibid., p. 78) como “a complexificação da sociedade e das relações sociais, a ruptura das compartimentações, a multiplicidade crescentes das conexões, das comunicações, das informações, para designar o fato de que a divisão técnica e social do trabalho, que se acentua, implica uma unidade mais forte dos ramos da indústria, das funções do mercado e da própria produção”.

38 encontro e de troca), assim como o direito à cidade, que compreende o direito à “centralidade renovada, aos locais de encontro e de trocas, aos ritmos de vida e empregos do tempo que permitem o uso pleno inteiro desses momentos e locais etc.” (LEFEBVRE, ibid., p. 139).

Desta forma, o autor introduz na discussão sobre a cidade a ideia de que, ao lado das necessidades individuais e sociais, dos produtos e bens materiais consumíveis, existe um grupo de necessidades específicas, por meio das quais se exprimem os atos corporais, as atividades criadoras, a arte e o conhecimento e que são - via de regra - desconsideradas pelos planejadores. Entre elas estão as necessidades de obra, de informação, de simbolismo, de imaginário, de atividades lúdicas. Ao fazê-lo, ele nos permite vislumbrar uma reversão no processo de segregação social e de violência urbana que se instala de forma tão acelerada nas metrópoles modernas. Sob esse paradigma, o direito à cidade é concebido como direito ao lugar do encontro, da criação e participação no processo de construção do espaço urbano.

Ao formular a ideia de que a cidade é a forma que assume o urbano (conteúdo) de uma dada sociedade, Lefebvre coloca outra questão, relacionada à racionalidade que produz essa forma e que, conforme ele próprio enuncia, atende a uma determinada ideologia, seja a ideologia estética ou formalista dos arquitetos e escritores, seja a ideologia científica dos planejadores e dos operadores do direito, seja a ideologia

mercantilista dos promotores de venda 45. Se assim é, mudar a forma da cidade – para

assegurar a garantia do direito à cidade – pressupõe mudar a racionalidade que informa a sua produção. Que racionalidade seria capaz de realizar o direito à cidade ? Não a racionalidade que emerge das ideologias pregadas pela filosofia, pelas ciências ou pela pesquisa interdisciplinar, muito menos a racionalidade da burocracia, como ele próprio afirma. A racionalidade proposta por Lefebvre é a racionalidade da síntese, da capacidade prática de realização.

Que estratégia, por sua vez, seria capaz de produzir essa racionalidade ? Se o direito à cidade se manifesta como forma superior dos direitos - direito à liberdade, à individualização na socialização, ao habitat e ao habitar -, ele está diretamente relacionado à construção da cidadania. É a cidadania que permite aos sujeitos sociais

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A propósito, Lefebvre afirma que a racionalidade acerca do uso do espaço, que antes era elaborada pela filosofia, foi substituída, na sociedade contemporânea, pelas ideologias: a) do formalismo ou estetismo; b) da tecnocracia que prega a planificação estatal; e c) pelo urbanismo dos promotores de venda, que, juntas, esboçam a estratégia global fundada no consumo programado e cibernetizado.

39 expressarem suas demandas, as quais, contrapostas umas às outras por meio da ação política, constituem um campo de forças capaz de moldar o espaço. Construir a cidade é muito mais do que simplesmente apropriar-se da terra, edificar ou reivindicar melhorias urbanas. Ao incluir na definição do direito à cidade “o direito à obra (à atividade participante) e o direito à apropriação (bem distinto do direito à propriedade)”, Lefebvre (ibid., p. 134) mostra como o espaço que constitui o urbano é um espaço político.

Sob essa visão, o processo de regularização fundiária deve ser informado por uma racionalidade que, a par dos critérios racionais e instrumentais que sustentam o planejamento, busque na participação dos cidadãos a capacidade prática da realização da obra. Assim, a organização do espaço e o exercício da atividade política – no sentido que lhe atribuíam os clássicos – se moldam em um amálgama. É por meio da participação que se realiza a capacidade de síntese, que segundo Lefebvre (ibid., p. 123):

Pertence a forças políticas que são na realidade forças sociais (classes, frações de classe, agrupamentos ou alianças de classe). Elas existem ou não existem, manifestam-se e exprimem-se ou não. Tomam ou não a palavra. Cabe a elas indicar suas necessidade sociais, inflectir as instituições existentes, abrir os horizontes e reivindicar um futuro que será obra sua. (...) A vida política, nesta perspectiva, contestará o centro de decisão política ou o reforçará. Esta opção será, no que diz respeito aos partidos e aos homens, um critério de democracia.

Ao referir-se à democracia, Lefevbre permite que se formule a seguinte questão: diante das limitações encontradas na democracia representativa para levar ao poder instituído os anseios e necessidades da maioria da população, que modelo de democracia seria capaz de realizar essa síntese das forças políticas - que são, como ele afirma, as próprias forças sociais ? A análise da democracia participativa, no próximo capítulo, aprofundará essa discussão, necessária para se entender a importância da participação da sociedade civil no processo de regularização fundiária.

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3 A DEMOCRACIA PARTICIPATIVA

O capítulo anterior apresentou a regularização fundiária em suas várias dimensões e mostrou como ela pode promover o desenvolvimento social e econômico dos moradores de assentamentos irregulares. Também foram apresentados os quatro principais paradigmas sobre os quais deve ser pensada a política de regularização fundiária, entre os quais o paradigma do direito à cidade como direito político. Neste capítulo, será explorada a relação entre a produção do espaço – no qual se insere o estudo da regularização fundiária, como visto dantes – e o papel político das forças sociais que modelam o território e conferem-lhe os seus diferentes usos. Buscando responder à pergunta formulada no capítulo precedente – qual seria a forma de democracia capaz de permitir a essas forças sociais exercerem seu papel político na construção da cidade – o capítulo apresentará a democracia participativa.

Bobbio (1986) defende a democracia representativa afirmando que, com todos os seus defeitos, este ainda é o melhor regime de governo encontrado pela humanidade. Mas suas limitações mostram que é necessário encontrar novas formas de prática democrática, que incluam novos atores sociais. Uma possibilidade, segundo Santos e Avritzer (2003) é a participação da sociedade civil nas esferas político-administrativas do Estado. A democracia participativa traz uma série de vantagens. Em primeiro lugar, ela amplia a comunicação entre Estado e sociedade civil, o que aprimora o processo decisório, seja pelo incremento de soluções criativas, trazidas por novos atores sociais, seja pelo aumento do grau de coerência das opções políticas, proporcionada pela diminuição da influência de interesses pessoais e escolhas político-partidárias no processo. Além disso, a democracia participativa tem um valor em si mesmo, que consiste justamente na expansão da cidadania por meio da ampliação da capacidade argumentativa dos cidadãos envolvidos nas práticas participativas.

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