2. Perspetivas sobre Desenvolvimento de Carreira
2.6. Paradigma Life Design
Uma das mais recentes propostas no âmbito da Psicologia do Desenvolvimento da Carreira é protagonizada no paradigma do Life Design, fruto do trabalho de uma equipe internacional liderada por M. Savickas (Nota & Rossier, 2015; Savickas, 2004). Esta proposta teórica tem fundamentos construtivistas, sendo inclusiva de conceitos desenvolvimentistas, estruturais (teoria de Holland) e de natureza sociocognitiva. A visão construtivista explica a carreira através de processos que medeiam o percurso vocacional e construção da identidade pessoal, sendo a construção da carreira vista essencialmente como um conjunto de comportamentos vocacionais, que permitem e facilitam a construção da identidade pessoal (Savickas, 2002).
O constructo de adaptabilidade de carreira surge na década de 70, proposto por Super e Knasel (1981) para explicar um conjunto de competências próprias da vida adulta relativas aos comportamentos de adaptação e ajustamento à vida de trabalho, que favorecem o equilíbrio e o desenvolvimento de competências em domínios pessoais e profissionais (Super, 1990). Atualmente, a adaptabilidade de carreira corresponde a um construto psicossocial, definido como a prontidão para lidar com tarefas previsíveis na carreira e ajustamentos imprevisíveis decorrentes de mudanças (Savickas, 2002).
De acordo com Savickas (2002), os indivíduos constroem a sua carreira de acordo com a capacidade de adaptabilidade que vão desenvolvendo nos contextos onde estão inseridos. Portanto, a carreira deixa de ser vivenciada como uma sequência de atividades profissionais que a pessoa tem ao longo da vida, passando a ser sentida como um processo abrangente e instável, que ultrapassa o domínio profissional. A atual natureza de mudança e instabilidade no mundo de trabalho imprime a necessidade de fazer sucessivas escolhas de ordem profissional, numa perspetiva de redefinir metas e objetivos de forma contínua, estruturantes para a construção e o desenvolvimento do autoconceito (Savickas, 2004).
A teoria da construção de carreira (TCC) de Savickas (2004) surge como proposta de interpretação e explicação para o sentido que os indivíduos atribuem ao próprio eu, como agente determinante na direção de um comportamento vocacional. Neste modelo, o autor tenta dar respostas ao “quê”, “como” e “porquê” da escolha de determinada trajetória vocacional e a forma como os indivíduos edificam as suas carreiras. Ora, os indivíduos elaboram representações da realidade através das suas características pessoais, do autoconceito, dos objetivos que perseguem, dos comportamentos e experiências de carreira tidas anteriormente, considerando também as variáveis contextuais.
Esta teoria abarca três principais conceções: a primeira, fundamenta-se nos tipos de personalidade vocacionais de Holland (1996), que envolvem competências, necessidades,
valores e experiências adquiridas ao longo do processo de construção de carreira; a segunda, refere-se à adaptabilidade da carreira, relativa ao enquadramento psicossocial, recursos internos e estratégias de coping existentes nos indivíduos, necessárias para enfrentar adversidades; e, a terceira componente incide sobre a inconstância do mundo e da sociedade atual. Neste contexto, o autor realça que estes três conceitos se correlacionam com as cinco fases do desenvolvimento da carreira de D. Super (1990) (crescimento, exploração, estabelecimento, manutenção e declínio) que permitem aos indivíduos repor a estabilidade e a manutenção da carreira nas diversas etapas profissionais (Savickas, 2004).
Numa perspetiva construtivista, o modelo integra a componente social, atendendo à singularidade individual, com o sentido de identificar fatores de instabilidade e o impacto que esta detém sobre sentimentos de satisfação na carreira e bem-estar geral. Baseado nesta abordagem, os indivíduos constroem a sua realidade através de processos interpessoais, considerando-se mais aptos aqueles que manifestam preocupação com o futuro profissional, curiosidade em explorar o seu potencial em contextos desconhecidos, revelando maior confiança na persecução das suas aspirações e realizações profissionais (Savickas, 2004).
Posteriormente, Savickas (2013) apresenta uma nova formulação da TCC, onde reflete sobre a premissa de que o individuo constrói a sua realidade, o seu eu, a partir de sistemas sociais e relações interpessoais, dividida em três perspetivas centrais: objeto, sujeito e projeto.
Assim, o eu como objeto corresponde ao indivíduo como ator que delineia o seu percurso desde a entrada para a escola até à idade da reforma; relaciona-se com a consonância e a consistência face às escolhas pessoais feitas, de acordo com o meio; e diz respeito à correspondência entre escolhas vocacionais, fatores contextuais e percurso profissional, no delineamento de uma personalidade vocacional (Savickas, 2013).
O eu como sujeito refere-se ao construto psicossocial que relaciona a capacidade de adaptabilidade e formulação necessária aos indivíduos para conseguir ajustar-se às
especifidades ligadas, por exemplo, ao percurso vocacional, desempenho de tarefas, antecipação de situações, transições ou situações traumáticas no local de trabalho (Savickas, 2013). A pessoa é perspetivada como agente ativo na construção do seu percurso pessoal e profissional, estando sobre influência das especificidades dos contextos envolventes, onde formula um sentido interno para o mundo exterior. Este processo de adaptabilidade é dinâmico e estende-se pelo percurso de vida, num sistema de relações interpessoais e de experiências que estruturam dinamicamente o eu.
E, o eu como projeto pode ser entendido como o traçar de um percurso de vida profissional consciente e intencional, que decorre orientado em alcançar metas e objetivos que o indivíduo estabelece, envolvendo fatores contextuais em que está inserido, num clima de insegurança, incerteza e instabilidade. Estas flutuações socioeconómicas exigem que os indivíduos desenvolvam mecanismos de adaptabilidade, flexibilidade e reconstrução permanentes do eu, ao longo da vida (Savickas, 2013).
O modelo do Life Design explica como o processo de construção de carreira convenciona o projeto de vida e o desenvolvimento de uma identidade, em que imperam os determinantes como a persecução de uma vida de qualidade e com sentido, regulada por sentimentos de congruência entre aquilo que o indivíduo deseja ser e aquilo que realmente é. O modelo avança que esta perspetiva da construção da carreira não é um processo de construção unicamente pessoal e individualizado, mas um processo integrativo de ação pessoal, inscrito numa estrutura social (Savickas, 2013). A teoria da construção da carreira propõe quatro dimensões centrais na adaptabilidade de carreira, tendo em conta que o mundo atual se rege por princípios marcados pela instabilidade, competitividade e mudanças constantes.
No modelo de adaptabilidade de Savickas (2005, 2013), a primeira dimensão focaliza a preocupação dos indivíduos quando projetam (e se projetam) o futuro profissional, conscientes da necessidade de antecipar, planear e orientar a direção do percurso profissional, considerando
as tarefas, escolhas e transições ao longo da vida. A preocupação é um dos fatores que entram na construção de futuro (Savickas & Porfeli, 2012). Em contraste, os indivíduos que não se questionam ou inquietem acerca do seu futuro profissional, assumem uma postura passiva no meio laboral, impossibilitando-os de progressão e desenvolvimento (Savickas, 2005, 2013). Preocupação significa esperança e otimismo (Rudolph, Lavigne, Katz, & Zacher, 2017). A preocupação respeitante à carreira é um dos fatores que explicam os sentimentos de bem-estar dos estudantes do ensino superior (Almeida, 2017).
A segunda dimensão diz respeito ao controlo, que consiste na tomada de responsabilidade que o indivíduo detém sobre a própria direção vocacional. Esta dimensão envolve processos como conscienciosidade, deliberação, organização, desenvolvimento e decisão no percurso vocacional. Todavia, os indivíduos que apresentam dificuldades neste domínio tendem a ser mais indecisos no plano vocacional e a procrastinar o desenvolvimento de carreira (Savickas, 2005, 2013). Assim, Controlo tem uma componente de autodeterminação, manifestando-se como positividade, tomada de decisão, responsabilidade, eficácia e esforço com objetivos adaptativos (Rudolph et al., 2017; Savickas & Porfeli, 2012). Por conseguinte, a dimensão de controlo desempenha um fator crítico no agenciamento pessoal, sendo preditiva dos sentimentos de bem-estar em estudantes do ensino superior (Almeida, 2017).
A curiosidade é a terceira dimensão deste construto e refere-se à tendência para explorar os contextos vocacionais e desta forma determinar escolhas adaptadas às caraterísticas individuais e contextuais. A curiosidade envolve disponibilidade para explorar o ambiente, abertura para encetar experiências e apreender novas aprendizagens acerca do funcionamento do mercado de trabalho. Savickas (2005) afirma que a exploração é um processo vital nos dias de hoje para que os indivíduos consigam conduzir as suas vidas ao sucesso profissional. Contudo, os indivíduos que manifestem falta de curiosidade para explorar e experimentar a
representação dos papéis no mercado de trabalho detêm uma visão pobre, restrita, irreal sobre o mercado de trabalho, do seu papel social e até do seu verdadeiro eu (Savickas, 2005, 2013). A Curiosidade representa uma dimensão referente à exploração e à reflexão sobre possibilidades pessoais e de carreira (Rudolph et al., 2017; Savickas & Porfeli, 2012).
Por fim, a confiança, a quarta dimensão da adaptabilidade de carreira, alude às crenças individuais que acionam os comportamentos para lidar com metas e objetivos, considerando obstáculos e adversidades. A Confiança representa autossegurança, crença nas capacidades para atingir objetivos de carreira (Rudolph et al., 2017); traduz o conceito de crença de autoeficácia (Bandura, 1977) para o ambiente de carreira (Lent & Brown, 2013). Assim, apesar de a dimensão de confiança estar circunscrita ao domínio da carreira, em estudantes universitários a confiança em enfrentar as tarefas de carreira tem efeito positivo no próprio desempenho académico (Almeida, 2017).
Num mundo em que, por um lado, o mercado de trabalho é cada vez mais incerto e, por outro, exigente, torna-se central e urgente desenvolver estratégias de adaptabilidade que facilitem o enfrentamento de situações imprevistas (Savickas, 2005, 2013).