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POLÍTICAS PÚBLICAS PARA O RURAL E MEIO AMBIENTE NA REGIÃO METROPOLITANA DE CURITIBA

4.4 PARANÁ 12 MESES E AS PERSPECTIVAS DE MEIO AMBIENTE

Criado em 1995 o Paraná 12 meses é um programa do governo do Estado do Paraná, em parceria com o Banco Mundial, dirigido “a reduzir a situação de pobreza no meio rural e o manejo e conservação dos recursos naturais” (SEAB/PR 12 meses). Teve como objetivo: a) melhorar as condições de habitação e de saneamento básico da família rural; b) recuperar e preservar o solo agrícola e o meio ambiente para sustentabilidade da atividade agropecuária, c) criar novos postos de trabalho no meio rural, d) promover a agregação de renda aos produtos da agricultura familiar, bem como criar mecanismos capazes de garantir a regularidade de renda para este segmento

de agricultores (SEAB/PR 12 meses). Conforme consta no próprio site do governo do estado a concepção geral que orientou a elaboração do projeto foi a de “promover a modernidade técnica ancorada numa modernidade ética”

(SEAB, 2006).35

Este Programa atingiu quase a totalidade dos municípios da RMC sendo que apenas o município de Pinhais não foi beneficiado. Estavam previstas o financiamento de atividades como: a melhoria das condições de moradia, saneamento básico, a compra de equipamentos agrícolas e o fomento daí em menor escala. Apesar deste leque de atividades que o programa pretendeu promover grande parte dos investimentos foram destinados à melhoria das condições de moradia, água e esgoto. Os investimentos visando a melhorias das condições de moradia foram muito superiores aos subsídios para fomento agrícola, mesmo naqueles municípios onde a principal atividade estava no setor primário. Este resultado mostra a premência das demandas por qualidade de vida no meio rural, que, em razão de ter sido historicamente concebido pelas políticas hegemônicas, como lócus de precariedade foi negada a sua população a possibilidade de acender a uma melhor condição de vida.

Paralelamente a atividade de combate a pobreza o programa fundamentou-se em uma concepção preservacionista bastante forte também resultante das exigências do organismo internacional que financiou parte deste projeto, no caso o Banco Mundial. Esta característica pôde ser observada através das atividades de recuperação de áreas degradadas empreendidas no plano de microbacias cujas ações foram orientadas para: reflorestamento, calagem, aumento dos índices de adubação verde, introdução do plantio direto, manejo de pragas, fosfatagem etc. Todas estas ações foram desenvolvidas tendo em vista as preocupações com fundos de vale, áreas de drenagem, a existência de nascentes nas propriedades e o adensamento das áreas de reserva legal. Através da Emater nos municípios fez-se um diagnóstico da situação por microbacias pretendendo construir uma proposta de conservação a partir das situações encontradas.

No caso da Comunidade de Santo Amaro em Mandirituba, esta atividade atribuiu a esta localidade uma nova configuração territorial, dividindo

35Página: htttp://www.pr.gov.br/seab/index.shtml, acessada em 10.01.2006.

a comunidade em duas partes: a comunidade de Santo Amaro I e Santo Amaro II, pois estavam localizados em microbacias distintas.

O reconhecimento do território da comunidade que anteriormente se dava pelas referências inscritas na paisagem e, portanto, era de domínio de todos, passa então a orientar-se por um novo enquadramento institucional, construído a partir das referências científicas estranhas a esses agricultores. A partir de 2001, a comunidade começa a incorporar o discurso institucional “da divisão por micro bacias” reconstruindo um outro sentido de pertencimento.

A problemática teórica desenvolvida por Bourdieu contribui para o entendimento deste processo. Através do que o autor denomina de conhecimento praxiológico, ele busca articular, dialeticamente, o ator social e a estrutura social. Nesta abordagem toma como objeto as formas como as regras sociais são internalizadas e, ao mesmo tempo, como os aspectos subjetivos são exteriorizados, quer dizer, “a interiorização da exterioridade” e a

“exteriorização da interioridade”, análise que permitiu a Bourdieu construir uma teoria da prática.

Neste processo, o referido autor reinterpreta a antiga ideia escolástica de habitus e a define como sendo:

Sistema de disposições duráveis, estruturas estruturadas predisposta a funcionarem como estruturas estruturantes, isto é, como princípio que gera e estrutura as práticas e as representações que podem ser subjetivamente regulamentadas e reguladas sem ser o produto da obediência de regras, objetivamente adaptadas a um fim, sem supor intenção consciente dos fins e o domínio expresso das operações necessárias para atingi-los e coletivamente orquestradas sem ser o produto da ação organizadora de um regente (BOURDIEU citado por ORTIZ, 1994, p. 61)

Para Bourdieu, o habitus não apenas conforma e orienta a ação do ator social, mas tende a reproduzir as relações objetivas que lhe deram origem.

Significa dizer que o tal conceito não diz respeito apenas a internalização das normas e valores pelos atores sociais, mas que estas contêm ao mesmo tempo as formas de classificar o mundo.

Durante a pesquisa de campo vários agricultores explicaram que antes do “projeto da Emater” tudo era uma coisa só, não existiam essa classificação de Santo Amaro I e Santo Amaro II, mas agora segundo os técnicos, eles pertenciam a determinada comunidade. O que é interessante sublinhar neste

fato são as dimensões que algumas políticas podem assumir na vida das pessoas em uma comunidade rural como a de Santo Amaro, influenciando não apenas no sentimento de pertença das pessoas, mas em vários níveis de sua reprodução .

No diagnóstico realizado pela Emater - Plano de Ação da Microbacia de Santo Amaro (EMATER, 2001), por exemplo, a únicas técnicas de manejo utilizadas para a conservação do solo por grande parte dos agricultores em Santo Amaro eram a rotação de culturas e o pousio. Segundo este documento nem a correção de solos, através do uso de calcário era realizada em nível adequado. A adubação verde era praticada por um número limitado de agricultores e a adubação orgânica estava limitada às hortas. Apesar de estar numa área bastante ondulada com declividade entre 8º e 45º graus, segundo o referido relatório, o plantio em nível também não era uma prática comum entre os agricultores, resultando em forte grau de erosão nas áreas mais onduladas.

Esse documento destacou ainda, a insuficiência das atividades de reflorestamento nas comunidades tanto com espécies exóticas quanto de nativas, mencionando a dificuldade dos agricultores em manter as áreas legais em níveis desejados, considerando o tamanho médio das propriedades (9 hectares). Apenas 3,48% da área da comunidade de Santo Amaro que era 346 hectares destinavam-se a atividade de reflorestamento. Percentuais melhores foram identificados quanto à presença de florestas nativas de araucária cujo valor se aproximada de 13,3% da área da comunidade. As áreas com pousio e capoeira representavam 15% do total da comunidade sendo que as lavouras ocupavam 57% deste total. Apesar deste percentual havia uma baixa diversidade de produtos cultivados no âmbito da comunidade, o que, segundo o relatório era um dos problemas a media que deixava os agricultores bastante vulneráveis do ponto de vista sócio econômico, dependendo das flutuações de preços dos produtos na CEASA/PR para assegurar sua estabilidade.

No caso da comunidade de Santo Amaro a ação pública no sentido de reorientar estas práticas apareceu de forma bastante evidente. A partir da elaboração das diretrizes para a conservação no âmbito do programa do Paraná 12 meses a Comunidade de Santo Amaro passou por um processo de reestruturação do sistema produtivo que apesar de seguir a forte lógica da produção para o mercado incorporou elementos de conservação como

mecanismos garantidores da sua própria reprodução, como se verá no item sobre as mudanças técnicas no âmbito das comunidades.

No caso da comunidade de Postinho as atividades do Paraná 12 meses se restringiram ao financiamento de melhorias das condições de moradia dos agricultores e ao fornecimento de calcário para correção de solos.

Apesar de ser uma comunidade bastante pobre apenas 13 famílias foram beneficiadas por esta política, segundo técnica da Emater.

Conforme o relato de antigos membros do comitê gestor deste programa os critérios estabelecidos para que os agricultores pudessem ter acesso ao beneficio eram bastante rígidos no que dizia respeito aos requisitos ambientais. Segundo depoimentos de agricultores aqueles que não estivessem em acordo com a legislação ambiental não poderiam ser beneficiados. Mesmo entre os agricultores que foram beneficiados pelo programa houve questionamentos quanto a validade deste critério, ressaltando o fato de que estes critérios, na realidade, apenas contribuíam para a permanência dos outros agricultores na condição de “ilegalidade”. Para os agricultores beneficiados pelo programa era preciso que o poder público reconhecesse também que em muitos casos, as atividades ilegais eram as estratégias que garantiam a sobrevivência das famílias de agricultores. O que se aplicou, por exemplo, no caso dos agricultores que tinham os fornos de carvão ou ainda para aqueles cujas lavouras não atendiam a recomendação de 30 metros de distância das margens do rio.

Um aspecto importante destacado pelos agricultores da Comunidade de Postinho foi o caráter punitivo com que se deu a implementação do Programa Paraná 12 Meses. Estes questionavam o fato de jamais terem sido orientados sobre os cuidados que deveriam ter em relação aos recursos naturais, mas agora lhes cobravam uma posição consciente a este respeito.

Queixavam-se da ausência do poder público quando se tratava de buscar alternativas produtivas para a comunidade, mas da sua presença marcante quando o assunto era punir.

No caso de Mergulhão, por se tratar de uma comunidade em melhores condições socioeconômicas , e tendo em vista o objetivo mais geral do Paraná 12 meses – o combate a pobreza – não foi identificada nenhuma ação empreendida por este programa.

Este capítulo mostra as diferentes formas de inserção das políticas e programas no território metropolitano. Cada uma delas redefinindo os territórios, mas também as relações entre as pessoas das comunidades e destas com seu ambiente próximo. O capítulo a seguir trata da historia de conformação inicial destes territórios.