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1. PROJETO EDUCAÇÃO EM TEMPO INTEGRAL:UM CASO DE GESTÃO

1.3 Projeto Educação em Tempo Integral: concepção de uma política

1.3.1 Parceria PROETI e o Programa MAIS EDUCAÇÃO

No Brasil, iniciativas vêm sendo implementadas pelo poder púbico, com o objetivo de possibilitar o acesso à educação integral. A busca por soluções que visem à superação das desigualdades e a garantia dos direitos a uma educação de qualidade, têm exigido a adoção de novos arranjos para a garantia da oferta desse tipo de educação. Nesse contexto de novas exigências, alternativas que contemplem a ação articulada dos entes federados, por meio do desenho de políticas intersetoriais - a exemplo do Programa Mais Educação - se apresentam como solução para o problema.

Criado em 2007, o Programa Mais Educação foi

Instituído pela Portaria Interministerial nº 17/2007 e pelo Decreto n° 7.083, de 27 de janeiro de 2010, integra as ações do Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE), como uma estratégia do Governo Federal para induzir a ampliação da jornada escolar e a organização curricular, na perspectiva da Educação Integral. O programa Mais Educação é definido como: (...)

construção de uma ação intersetorial entre políticas públicas educacionais e sociais, contribuindo desse modo, para a diminuição das desigualdades educacionais, quanto para a valorização da diversidade cultural brasileira. (SEB. Manual do Programa Mais Educação, 2011, p. 01)

Operacionalizado pela Secretaria de Educação Básica (SEB), por meio do Programa Dinheiro Direto na Escola (PDDE), do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), (SEB, 2011, p. 03), o programa do Governo Federal, passou a atuar conjuntamente no PROETI, financiando a proposta de educação integral adotada pelo estado, com a destinação de recursos federais para aquisição de bens de capital e custeio, assim como para a compra de gêneros alimentícios.

O programa Mais Educação trouxe mais uma inovação ao PROETI, ao propor

(...) a ação intersetorial entre as políticas públicas educacionais e sociais por meio do Ministério da Educação; Ministério do Desenvolvimento Social e Combate a Fome; Ministério da Ciência e Tecnologia; Ministério do Esporte; Ministério do Meio Ambiente; Ministério da Cultura; Ministério da Defesa e Controladoria Geral da União, contribuindo, desse modo, tanto para a diminuição das desigualdades educacionais dos alunos, quanto para a valorização da diversidade cultural brasileira. (SEB, 2011, p.01).

Diferentemente do PROETI, a educação evidenciada no Programa Mais Educação, é uma educação que busca superar o processo de escolarização tão centrado na figura da escola. A escola de fato, é o lugar de aprendizagem legítimo dos saberes curriculares, mas não deve se tornar como única instância educativa. Assim, o programa defende a integração de diferentes saberes, espaços educativos, pessoas da comunidade, conhecimentos para construir uma educação que pressupõe uma relação da aprendizagem para a vida, uma aprendizagem significativa e cidadã, já que promove a ampliação de tempos, espaços, oportunidades educativas e o compartilhamento da tarefa de educar entre vários atores e instituições.

Com o estabelecimento da parceria com o governo federal, a partir do Programa Mais Educação, o PROETI, no âmbito da política mineira de educação integral, sofreu algumas alterações na sua estrutura, pois os objetivos do Programa Mais Educação mostraram-se mais ampliados que os que estavam sendo implementados no PROETI, tais como:

I. contemplar a ampliação do tempo e do espaço educativo de suas redes e escolas, pautada pela noção de formação integral e emancipadora;

II. promover a articulação, em âmbito local, entre as diversas políticas públicas que compõem o Programa e outras que atendam às mesmas finalidades;

VI. fomentar a participação das famílias e comunidades nas atividades desenvolvidas, bem como da sociedade civil, de organizações não- governamentais e esfera privada;

VII. fomentar a geração de conhecimentos e tecnologias sociais, inclusive por meio de parceria com universidades, centros de estudos e pesquisas, dentre outros;

VIII. desenvolver metodologias de planejamento das ações, que permitam a focalização da ação do Poder Público em territórios mais vulneráveis; e IX. estimular a cooperação entre União, Estados, Distrito Federal e Municípios (SEB. Manual do Programa Mais Educação, 2011, p.02 - 03.)

Os objetivos do Programa Mais Educação desenham um modelo de educação integral articulada com políticas locais e em parceria com a família, comunidade, com a sociedade civil e organizações não governamentais além da esfera pública, sugerindo a superação da ideia de que educação integral é papel somente da escola.

No primeiro ano da parceria, não houve mudança de público, uma vez que o alunado participante do Programa Mais Educação permaneceu formado pelos alunos matriculados no Projeto Educação em Tempo Integral.

Contudo, a adesão ao Programa Mais Educação, conforme documento orientador (SEB, 2011.p. 06), só era possível para as escolas pré-selecionadas pela Secretaria de Educação Básica- SEB, do Ministério da Educação e validadas pelas respectivas Entidades Executoras, que nesse caso corresponde à Secretaria de Estado de Educação.

Diferentemente dos critérios utilizados pelo PROETI - existência de salas ociosas e alunos com dificuldade de aprendizagem- o Programa Mais Educação adotava como critérios para seleção das unidades escolares:

Escolas contempladas com o PDDE/Integral nos anos de 2008,2009 e 2010. Escolas de cidades com população igual ou superior a 18.844 habitantes que já fazem parte do PDE/Escola.

Escolas estaduais que foram contempladas com o PDE/Escola 2007, e em 2009 ficaram com IDEB abaixo ou igual a 4,2 nas séries iniciais e/ou 3,8 nas séries finais do Ensino Fundamental. (SEB. Manual do Programa Mais Educação, 2011, p.07.)

Diante dos critérios definidos pelo programa federal, inicialmente, poucas escolas do estado que ofereciam o PROETI foram contempladas pelo programa, sendo anualmente ampliada à inclusão de novas escolas, como veremos a seguir:

Tabela 2- Adesão ao Programa Mais Educação

Ano Critério para adesão Nº de escolas participantes

2009 Escolas (baixo IDEB) de BH e Região Metropolitana.

24 escolas participantes

2010 Escolas (baixo IDEB) de BH, Região Metropolitana e municípios com população

superior a 50.000 habitantes.

231 escolas participantes

2011 Escolas (baixo IDEB); que implementaram o PDE, em municípios com população superior a

18.844 habitantes.

377 escolas participantes

2012 Escolas (baixo IDEB) com maioria dos alunos beneficiados pelo Programa Bolsa Família.

888 escolas participantes

Fonte: Elaboração própria com base em dados da Secretaria de Estado da Educação.

Os critérios estabelecidos pelo programa Mais Educação nos anos de 2009 e 2010, conforme demonstrado na tabela 2, inviabilizou a participação das escolas pertencentes à SRE de Janaúba, já que favoreceu a adesão de escolas com IDEB baixo, porém localizadas em Belo Horizonte, região metropolitana e municípios com população superior a 50.000 (cinquenta mil) habitantes.

Por esse motivo, somente a partir do ano de 2011, quando foram incluídas escolas de baixo IDEB que implementavam o PDE e estavam localizadas em municípios com população superior a 18.844 habitantes, 9 (nove) escolas da SRE de Janaúba foram indicadas pelo governo federal – MEC, para aderirem ao programa, dentre elas as duas nas quais foi desenvolvida a pesquisa.

No ano de 2012, com definição de novos critérios - escolas (baixo IDEB) com maioria dos alunos beneficiados pelo Programa Bolsa Família, 47 escolas da regional foram indicadas pelo governo federal. No entanto, nessa relação foram incluídas escolas que ainda nunca havia implementado o PROETI. Entretanto, não puderam desenvolver o programa, porque, a grande maioria,não disponibilizava de espaço - salas ociosas, quadras- para desenvolvimento das aulas. Por esse motivo, somente 26 escolas foram validadas e autorizadas pela Unidade Executora – SEE/MG a implementarem o programa Mais Educação. Com isso, passaram a funcionar em Minas Gerais e num mesmo município, escolas de tempo integral mantidas com recurso estadual – PROETI, e escolas cujo projeto de educação integral eram mantidas com recurso do governo federal e do estado, comumente chamado pelos gestores de PROETI - Mais Educação.

Para além das agências que as financiavam – estado e União, o desenho das políticas se diferenciavam em alguns aspectos, conforme demonstraremos na tabela abaixo:

Tabela 3 – Programa PROETI x PROETI- Mais Educação

Desenho da Política PROETI MAIS EDUCAÇÃO

Recursos Financeiros

R$ 0,50/dia alimentação R$ 350,00 manutenção

R$ 0,90 /dia alimentação R$ 5.000 manutenção Kits de valores que podem

chegar a R$8.000,00

Recursos Humanos 01-Professor regente de turma.

01-Professor regente de aulas Ed. Física (06 aulas)

01-Prof. regente de turma. 01-Prof.regente de aulas Ed.

Física (18 aulas) - Estagiários

- Monitores

Currículo - Definido pela escola conforme

existência de materiais e equipamentos

- De acordo com a necessidade dos alunos, observando os macrocampos existentes com o recurso para

aquisição dos materiais e equipamentos.

Atividades Extras Pouca possibilidade de viagens,

falta de recursos.

Recurso para viagens

Fonte: Elaboração própria baseada em informações contidas no Manual do Programa Mais Educação, 2011 e informação obtidas com os gerentes do PROETI.

Como é possível perceber, há diferenças significativas entre as políticas de educação integral implementada pelo estado de Minas Gerais, se comparadas com a estrutura prevista pelo Mais Educação, mediante parceria com o governo federal, principalmente pela possibilidade de contratação de mais recursos humanos para desenvolvimento das aulas, além da significativa diferença de recursos disponibilizados para a escola, destinados à manutenção da política.

É evidente que os gestores percebiam essa diferença, principalmente aqueles que não foram contemplados com o Programa Mais Educação. Em virtude disso, era comum nos momentos do monitoramento da política nas escolas, perceber o descontentamento de muitos gestores, que passaram a reclamar do PROETI, desejando assim serem incluídos no programa federal, alegando que o programa Mais Educação era “melhor” que o PROETI, reforçando as diferenças existentes entre as propostas, principalmente as que se referiam à quantidade de recursos e a possibilidade de contratação de recursos humanos para desenvolvimento da educação integral. Outros ainda justificavam que era preferível “ter o mesmo trabalho”,

contudo recebendo mais recurso para desenvolver a política, ameaçando não desenvolver mais o projeto, se esquecendo do fato deque a educação em tempo integral é direito do aluno e não vontade do gestor.

A parceria com o governo federal por meio do programa Mais Educação, visava o fortalecimento e aprimoramento da política já implementada - PROETI. No entanto, ao sugerir a adoção de novos procedimentos na implementação da política de educação integral, contribuiu para o estabelecimento de outras atribuições aos gestores, ao evidenciar uma educação que busca superar o processo de escolarização centrado na figura da escola.

Assim, cabe-nos na próxima seção, apresentar as atribuições dos diversos gestores envolvidos na implementação das políticas do PROETI e Programa Mais Educação, dando uma ênfase nas atribuições do gestor escolar, para assim verificar em que medida este último se aproxima ou se distancia das suas funções na implementação dos programas.