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CAPÍTULO II: Transição para a parentalidade

2.3. Parentalidade: expectativas de se tornar pai e mãe

No processo de constituição de uma nova família, após a formação do casal, rapidamente surgem as expectativas quer dos cônjuges quer da sociedade relativas ao ser-se pai e mãe. Neste processo de transição, não se deve negligenciar as expectativas que cada membro do casal constrói em relação ao seu filho, pelo facto de estas poderem constituir fonte de conflito entre o casal e no ambiente familiar. Sublinhe-se, contudo, que este não é um processo pelo qual todos os casais passam ou têm que passar, até porque ser pai/mãe é mais do que gerar a criança: a consanguinidade não é suficiente para assegurar o exercício da parentalidade, pontuando apenas a ligação genealógica.

Alguns autores defendem que atualmente assistimos a um movimento de derrocada de referenciais simbólicos estáveis e a uma pluralização das leis e de possibilidades de subjetivação, de modo que tornar-se pai/mãe dependeria muito mais da história individual de cada um dos pais numa perspetiva do desejo individual do que de um modelo de família nuclear tradicional (Julien, 2000; Roudinesco, 2003).

A parentalidade, podendo nesta perspetiva decorrer de um projeto comum e partilhado ou não, teria significados e implicações diferentes para o homem e para a mulher. Sendo que cada elemento do casal tem um funcionamento

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único, tanto em relação aos aspetos fisiológicos, quanto aos psicológicos, também o desejo de ter filhos terá significados diferentes, emergindo em momentos diferentes da trajetória de vida individual. O desejo, por não ser monolítico, é sempre ambivalente. Tal característica do desejo gera inúmeros sentimentos contraditórios, com os quais os indivíduos, muitas vezes, têm dificuldade em lidar (Szejer & Stewart, 1997).

O contributo de Stern (1997) acerca das representações parentais sobre o bebé prova como o processo de tornar-se pai/mãe se inicia muito antes do nascimento, não podendo ser restringido ao que acontece após a gestação e o nascimento, de modo que as identificações feitas na infância influenciam e determinam a forma como cada um dos elementos do casal irá exercitar a parentalidade. A propósito ainda das representações parentais, Golse (2002) identifica quatro tipologias: a criança fantasmática, referente à criança que cada um dos elementos do casal tem em mente a partir da sua própria história; a criança imaginária, que se define como representação já menos inconsciente referente ao casal, como traços imaginados, sexo, etc; a criança narcísica, representante dos ideais de sucessão de um filho; e a criança mítica ou cultural, que tipificaria um grupo de representações coletivas de uma determinada sociedade num determinado momento.

Nesta linha de análise, é de sublinhar a importância da ambivalência que marca este processo de equilíbrios instáveis entre os pais e o bebé, já que se, por um lado, o nascimento de um filho encerra a possibilidade das expectativas relacionadas com este bebé poderem reparar falhas da história parental, por outro, provoca também uma potencial rutura no equilíbrio da díade. Ora, se no momento de se tornar pai/mãe existe todo um conjunto de ideias e crenças acerca do significado e desempenho desse papel, uma identidade de ser pai/mãe é ativada (Marques, 1995). Se o casal tem expectativas diferentes acerca deste papel e não consegue alcançar uma congruência e entendimento, então cada um dos elementos da díade poderá vivenciar dificuldades nesse processo de identidade parental. A incongruência de expectativas no desempenho do papel parental afeta tanto o bem-estar individual, manifestado, por exemplo, em depressão e outras perturbações do humor, como o bem- estar conjugal, nomeadamente em dimensões de felicidade e confiança.

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73 A par da incongruência, estudos mostram que também a violação das expectativas pré-natais está associada a menores níveis de satisfação conjugal, sendo que, quando as expectativas das esposas são violadas, assiste-se a um aumento do conflito conjugal e a um declínio na satisfação conjugal (e.g., Belsky, 1985, cit in Lawrence, Nylen, & Cobb, 2007). Em consonância com esta perspetiva, expectativas negativas das esposas sobre a maternidade estão associadas a atitudes negativas no pós-parto, e expectativas positivas estão associadas a atitudes positivas depois do bebé nascer (Coleman, Nelson, & Sundre, 1999, cit in Lawrence et al., 2007). As mulheres que reportam uma maior discrepância entre as expectativas pré- natais e subsequentes experiências têm mais dificuldade no ajustamento à parentalidade do que as mulheres que reportam menores discrepâncias (Kach, & McGhee, 1982, cit in Lawrence et al., 2007), e o ajustamento pós-natal é particularmente difícil para as mulheres cujas experiências são piores do que estas tinham antecipado (Kalmuss, Davidson, & Cushman, 1992, cit in Lawrence et al., 2007). Assim, as expectativas e a violação dessas expectativas estão associadas com um melhor ou pior ajustamento à parentalidade.

Os autores encontraram, ainda, continuidades entre como os homens e mulheres se veem a si próprios e às suas vidas na gravidez, como lidam com as suas transições para a parentalidade e a qualidade dos seus relacionamentos com os seus filhos dois a quatro anos depois. Os casais que começam esta jornada “em boa forma” e que se esforçam para manter um relacionamento positivo enquanto casal apresentam resultados reconfortantes. Os casais que começam a sua jornada em dificuldade e experienciam complicações adicionais ao logo do tempo, individuais e maritais, tendem a romper os seus relacionamentos e a apresentar mais dificuldades (Cowan, & Cowan, 2000).

Vondra e Belsky (1993) defendem que tanto o funcionamento individual como o relacional interferem e condicionam a natureza das experiências da gestação e do nascimento de um filho. Ambos têm origens desenvolvimentais no sistema familiar através das experiências da infância de cada elemento do casal. As primeiras experiências de relacionamento, as atitudes, as expectativas, as emoções e os padrões de comportamento configuram formas

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de funcionamento tanto como pais como enquanto cônjuges. Assim, as experiências precoces nas famílias de origem determinariam a seleção e construção da experiência parental, resultante então do interjogo de fatores individuais e ambientais. No entanto, sublinhe-se que, ainda que o subsistema parental comece por construir um modelo de parentalidade resultante dos das famílias de origem, a evolução familiar e os contextos e vivências da própria família vão desenvolver este mesmo modelo de parentalidade (Sousa, 2006).

Além das expectativas para cada um deles, dentro da vivência conjugal inserem-se ainda as expectativas iniciais que cada cônjuge traz do seu companheiro como pai ou mãe e que parecem ser fundamentais no momento da escolha conjugal. Quando estes pré-conceitos se equacionam na prática, acontecerá a confirmação ou não dessas expectativas conjugais. O casal vê-se desafiado a ter de aceitar as limitações e as possibilidades reais de cada um e também a exercitar a capacidade de negociação. Pelo que se fruto da conjugalidade, para muitos casais, o passo que se segue é a consolidação da parentalidade, esta capacidade de administração e organização das dificuldades e das funções necessárias ao sistema marca um período que se poderá caracterizar tanto como uma possibilidade de melhoria na estrutura familiar, quanto de ameaça para a mesma, para os indivíduos e para o casal (Relvas, 2004).

Portanto, a construção de expectativas e a violação das mesmas encontra- se fortemente associada ao processo de ajustamento desta etapa, isto é, uma perspetiva realista face ao cônjuge e ao bebé e suas exigências constitui um contexto facilitador do ajustamento (Oliva & Palacios, 1997) e, contrariamente, indivíduos com expectativas irrealistas ou excessivamente positivas podem estar em risco de se desapontarem com as suas experiências (Kalmuss et al., 1992).