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Parentesco Capuxu: Substância e identidade

CAPÍTULO 5. PARENTESCO, ONOMÁSTICA E SISTEMA DE APADRINHAMENTO

5.1. AS REDES DE PARENTESCO CAPUXU

5.1.1. Parentesco Capuxu: Substância e identidade

Não pude deixar de notar, desde a minha primeira estadia entre o povo Capuxu, os sinais que os diferia daqueles que habitam as regiões circunvizinhas. Dentre estes sinais diacríticos formuladores da identidade Capuxu, era o casamento endogâmico o que mais se destacava e parecia apontar todos os outros sinais como suas conseqüências: a aparência comum aos quase duzentos membros da comunidade; o sotaque peculiar, referência e fator de identificação imediata de um Capuxu em qualquer região circunvizinha; os sobrenomes, que se restringem a meia dúzia, quatro deles predominantes: Ferreira, Menezes, Lima e Costa; e uma doença vulgarmente chamada de “esclerose” e pelo povo Capuxu definida como “esclerose precoce” que assola muitos dos membros da comunidade a partir dos 21 anos de idade e que chama a atenção dos moradores da região.

Antropóloga que sou, não poderia negar o fascínio que estes sinais diacríticos exercia sobre mim, ao mesmo tempo em que, às voltas com a minha pesquisa e seu curto período de tempo, a minha situação não me permitia alçar vôos em digressão, afastando-me de meu tema e lançando-me ao conhecimento da organização social Capuxu pelo viés do parentesco. Isto posto adiei o desejo de conhecer aqueles aspectos, a não ser como pano de

fundo, invólucro, do qual se revestia a infância Capuxu. Terminado o mestrado voltei à acolhida Capuxu e retomei a convivência e as conversas sobre a origem do povo e a manutenção deste como grupo fechado em sua parentela.

Por essa razão, este subcapítulo não é mais do que uma reflexão, a respeito do povo Capuxu e sua organização social que repousa num sistema endogâmico, cujas relações e fundamentos, causas e conseqüências eu tenho buscado entender desde então e cuja pesquisa possibilitou a compreensão das relações de parentesco e suas conseqüências, especialmente o casamento preferencial como dispositivo regulador da organização Capuxu. Ademais, a análise das práticas matrimoniais nos permitirá mais tarde a compreensão dos padrões de nominação e elucidará as relações de compadrio. Por isso penso as práticas regulares e recorrentes de matrimônio em relação a este grupo que é também territorial.

Sem o intuito de definir o termo parentesco entre os Capuxu, busco trazer questões que são “boas para pensar” o tema ao mesmo tempo em que são boas para pensar outros temas da comunidade Capuxu, como a noção de pessoa e de corpo, articuladas à noção de identidade.

Nas sociedades camponesas o sistema de parentesco está intimamente ligado às relações econômica, religiosas e políticas. Em sociedades tradicionais como estas, o parentesco representa o denominador comum de todas as relações sociais desenvolvidas em seu meio, sendo as relações de parentesco a principal forma de organização cultural. Daí se justifica a importância dos estudos de parentesco.

É sempre importante conhecer a terminologia parental55, bem como as regras de comportamento subjacentes a cada terminologia empregada. O estudo do parentesco deve começar pelas categorias êmicas do cotidiano doméstico, as designações adotadas pelos parentes uns para com os outros.

Entendo parentesco como, num mais amplo sentido, referindo-se aos laços de sangue (consangüinidade) e aos laços de afinidade (casamento). O que chamamos de laços de parentesco são as relações decorrentes da posição ocupada pelo indivíduo no sistema de parentesco. Quanto aos laços de parentesco estes são de três tipos: laços de sangue que se referem à

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Parentela é o leque de possibilidades das relações bilaterais muito abrangentes. Ego e seus irmãos são incorporados numa parentela que não pode ser a mesma para quaisquer outros indivíduos, exceto para os primos duplos de egos – primos cujos pais sejam primos entre si.

descendência56; laços de afinidade que se referem ao casamento57; e os laços fictícios que se referem à adoção.

Entre o povo Capuxu emerge a noção de substância como categoria fundamental para a definição do parentesco, e essencialmente, do grupo identitário. Assim é que o fluido, sangue ou substância se faz presente através de um parentesco e uma identidade cujas representações passam pelo corpo, corpo este que tem a substância daqueles que lhe geraram, do grupo ao qual eles fazem parte e que carrega as características deste grupo. O sangue, entre o povo Capuxu, não define por completo aqueles que são parentes, visto que há uma série de outras relações de parentesco dadas por laços não consanguíneos, como aquelas obtidas por afinidade ou por compadrio, afinal compadres e afilhados formam outras redes de relações de parentesco. Todavia, o sangue é um importante marcador de tais relações, da maioria delas, e é o principal fator de construção da identidade numa comunidade onde parentesco e identidade estão imbricados.

A razão pela qual me dedico a pensar aqui o parentesco é por acreditar que ele é um importante idioma Capuxu que interagindo com outros aspectos sociais, como a onomástica, o sistema de apadrinhamento e o ethos camponês, formula a pessoa Capuxu. Assim, o parentesco está em interface com quase todos os demais elementos da comunidade Capuxu. Neste caso, os processos e relações de parentesco são fundamentais para a compreensão da construção da identidade, fundamentada essencialmente numa espécie de parentesco endogâmico e territorializado.

Durante muito tempo, o parentesco foi considerado pela antropologia como um sistema privilegiado para se pensar povos tradicionais, cujas sociedades eram consideradas como sociedades baseadas no parentesco (kinbased societies).

A partir dos estudos de Needham (1962) passou-se a questionar o caráter evolucionista e etnocêntrico do parentesco e desde então teve início a ampliação da visão de parentesco e seu entendimento em diferentes culturas. Estes questionamentos foram desenvolvidos por vários autores

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Descendência é o termo utilizado para relações que se estendem a mais de duas gerações e filiação se aplica a família nuclear (pais e filhos). Relações parentais não tem que ser estritamente biológicas: é o que se estabelece, por exemplo, entre alguns homens Capuxu e as suas enteadas.

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Existem dois princípios mentais subjacentes a cada grupo doméstico: a afinidade e a filiação. O primeiro traduz a relação de parentesco estabelecida entre dois grupos sociais distintos por meio do casamento entre dois membros, sendo um de cada grupo. O princípio da filiação traduz uma relação consangüínea, agrupando as pessoas que partilham de um mesmo patrimônio genético.

(SCHNEIDER, 1984; STRATHERN, 1992) que passaram a considerar o parentesco enquanto uma noção contextual e referente a uma dada cultura, abrangendo seu caráter multifuncional e a multiplicidade de aspectos relacionados às suas singularidades, variantes em cada sistema social.

Schneider (1984) foi o responsável por criticar a abordagem do parentesco essencialmente biológica, cuja característica central seria sua qualidade inata e cuja ligação apenas com o processo de reprodução humana destacada dos aspectos culturais empobreceria sua compreensão. Atualmente não se pode mais negligenciar os aspectos sócio-relacionais do parentesco, nem a visão em conjunto deste, que revela a presença das dimensões econômicas, políticas, religiosas, simbólicas, dentre outras, cujos esforços antropológicos se dão no sentido de incorporá-las e compreendê- las.

Afinal um casamento não cria somente alianças de parentesco, mas políticas, econômicas, de reciprocidade, dentre outras. As ideias que um grupo detém sobre o parentesco nem sempre estão em relação direta com a noção de sangue – consanguinidade - pois as representações sobre a reprodução são diversas, sendo incorporadas em determinados contextos sociais, e nem sempre repousando sobre laços inatos e biológicos. O equívoco reside no fato de desconsiderarem o parentesco como uma construção cultural, tomando-o apenas como relações genealógicas universalmente compartilhadas por diferentes culturas.

Em todo caso, é preciso ressaltar que em comunidades camponesas como a Capuxu a noção de substância, ou simplesmente sangue, é determinante para estabelecer, se não quem são os parentes, mas quem pertence ao grupo étnico. Por isso o pesquisador deve estar atento às negociações feitas pelo próprio grupo no que diz respeito à construção dos laços de parentesco ou à identidade. O povo Capuxu reconhece como parentes aqueles com quem compartilham determinadas substâncias – o sangue e outros fluidos -, mas também alguns com quem ela não se compartilha, - é o caso dos compadres. Por outro lado, na representação do povo, o compartilhamento de determinada substância é fundamental para definir quem deve ser considerado Capuxu ou não.

Através de um ato recente, a justiça exigiu o nome dos pais nos registros das crianças para se matricularem na escola. Quando eu estava em campo todas as mulheres que eram mães solteiras foram convocadas ao fórum da cidade de Patos, para corrigir os registros e acrescentar o nome do pai. Começou-se um movimento pela busca destes pais biológicos por ordem judicial e em busca de pensões, já que nem as mães nem sua parentela, inclusive as filhas, nunca demonstraram interesse em estabelecer algum tipo de contato com seus pais.

Neste caso, evidencia-se que embora a substância seja um importante marcador do parentesco e da etnicidade Capuxu, ela pode perder a importância dependendo da situação. Nestes casos, as crianças são consideradas parentes e Capuxu pela unilateralidade da relação que se estabelece apenas através da mãe Capuxu. O pai forasteiro é escorraçado do sistema de parentesco e jamais compartilhará, ainda que fosse por afinidade, a identidade do grupo.

Importante perceber que estas relações estabelecidas entre mulheres Capuxu e homens da cidade que malograram ou terminaram por gerar crianças assumidas apenas pela linhagem materna reforçou o sistema endogâmico local, numa demonstração para os jovens que qualquer tentativa de burlar o sistema de parentesco em vigor terminaria por fracassar.

Nos estudos de Carsten (2004) sobre a pessoa malaia, o uso de substância como categoria analítica foi útil. A autora aponta o sangue como elemento central para as relações de parentesco estabelecidas entre este povo, não em termos ocidentalizados, ligados aos genes, mas por conta da sua propriedade alimentar (por alimentar a criança no ventre), bem como através do leite materno, visto como um sangue branco que nutre a criança desde o nascimento. Neste caso, a substância funciona como uma espécie de transportadora de propriedades físicas e emocionais vitais para a compreensão do parentesco malaio e da noção de pessoa. Ademais, a substância possui uma matéria subjetiva que a torna símbolo de ideias, eixo central do pensamento nativo.

Para Cláudia Fonseca (2004) existiriam diferentes idiomas de conexões, para além da consangüinidade ou da pertença familiar (se parece com o pai). A autora demonstra como durante muito tempo prevaleceu a distinção que fundamentava o estudo das sociedades tribais no parentesco enquanto nas sociedades complexas a ênfase estava na família.

A adoção e a natureza do parentesco passam a estar no centro das atenções dos novos estudos na contemporaneidade. Entre estes se destacam aqueles que se dedicam ao parentesco urbano, com ênfase no divórcio e nas famílias recompostas e ao parentesco no campo, com ênfase na casa e na terra (COLLARD 2000; FONSECA 2004; WOORTMAN 1985; CARSTEN 2004).

O estudo do parentesco nas sociedades diversas, que foi pano de fundo da ciência por tanto tempo, fez com que estas sociedades fossem entendidas como fundadas sobre o parentesco, e este último como um dos pilares da organização social. Neste novo cenário passamos a lidar com noções como gênero, símbolo e representação de parentesco, mais do que o parentesco por ele mesmo. Além disso, os novos estudos dedicam-se a

comparação do parentesco no espaço e no tempo, além da noção de aliança, das terminologias e da noção de casa.

Entendo que reduzir o parentesco Capuxu apenas a partilha de substâncias seria um equívoco, afinal muitas outras formas de conexões entre as pessoas são construídas sem que para isso substâncias precisem ser compartilhadas. É o caso das relações ou conexões construídas entre compadres e padrinhos e seus afilhados, entre padrastos e madrastas e seus enteados. Por isso, opto por entender o parentesco Capuxu como parte de um todo numa dimensão muito mais ampla de sociabilidade.

Conforme Woortmann (1985, p. 192) “o parentesco desempenha um papel fundamental para o campesinato, articulando entre si grupos domésticos (unidades de produção) uma rede mais ou menos extensa onde se constroem relações de reciprocidade e um ‘capital social’, tanto mais importante quanto mais descapitalizado seja o campesinato no que se refere a um ‘capital econômico’. As práticas matrimoniais são a este respeito de