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O poder de nomear: de fora para dentro e de dentro para fora É conveniente “que se

CAPÍTULO 2: CAPUXU DE VESPA A GRUPO SOCIAL

2.3. A IDENTIDADE CAPUXU À LUZ DAS TEORIAS DE ETNICIDADE: OU DE COMO A IDENTIDADE “TOMA CORPO”

2.3.2. O poder de nomear: de fora para dentro e de dentro para fora É conveniente “que se

volte ao nome, a sua gramática, ao inventário sem exclusão de seus empregos. Não se poderia ser um bambarra sem ter sido antes denominado como tal:

denominado por quem, em que contexto, quando?” (POUTIGNAT & STREIFF-FENART, 2011, p. 81)

É neste contexto que nos voltamos ao nome étnico ou etnônimo do grupo. O povo Capuxu passou a ser assim referido através de um de seus antecessores, cujo nome era João Praxedes Alves da Costa, que está na origem da história da comunidade, sendo membro de uma das primeiras famílias chegadas ao local, que por meio de um casamento trocado, deram origem ao sistema endogâmico de casamentos e ao casamento preferencial entre primos. Ele tinha por hábito a caça de abelhas de tipo Capuxu, tendo se tornado conhecido como João Capuxu. Este apelido individual foi estendido aos seus parentes que habitavam o sítio, pelas pessoas de fora da comunidade sempre se referindo a eles como “João Capuxu, o irmão de João Capuxu, a filha de João Capuxu”, até que o termo passasse a ser utilizado como uma espécie de sobrenome, Maria Capuxu, Tequinha Capuxu e se estendesse a todos que habitavam o Sítio Santana-Queimadas e compartilhavam os mesmos costumes, a mesma aparência, o mesmo sotaque.

Assim é que o termo lhes fora imputado primeiro pelos de fora, mas com o passar do tempo passou a ser assumido pelo povo, que se autodefiniu como Capuxu, assumindo o etnônimo e passando a utilizá-lo e exibi-lo com orgulho17. Ora, mas quando se diz Capuxu o que este povo quer dizer com isso?

Conforme Poutignat & Streiff-Fenart (2011) uma definição exógena é um processo de rotulação pelo qual um grupo se vê atribuir, do exterior, uma identidade. Por isso é importante atentar para as atribuições categoriais. Resta saber em que medida a definição imposta pelo outro deixa uma margem de liberdade aos grupos categorizados dessa forma para estabelecer seu próprio critério de definição. Percebemos que no caso Capuxu o povo assumiu o etnônimo atribuído pelos outsiders, positivando-o, uma vez que no início havia certa resistência ao nome étnico ou “apelido” que parecia inferiorizá-los diante dos outros.

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Hoje a comunidade possui comunidades nas redes sociais intituladas Capuxu onde contam histórias do povo e prestam homenagem a pessoas da comunidade.

As teorias primordialistas ocultam completamente as definições exógenas por achá-las pouco importantes, já os críticos radicais do culturalismo “atribuem-lhe um tal espaço que os grupos étnicos não tem outra existência e outra realidade se não as que lhe são impostas pelo exterior” (POUTIGNAT & STREIFF-FENART, 2011, p.81). Entendo que as definições endógenas e exógenas não podem ser analiticamente separadas porque estão em relação de oposição dialética. Esta oposição fundamentou a etnicidade Capuxu atribuída de fora pra dentro e depois afirmada, reconstruída e confirmada de dentro para fora.

De certo, um grupo não pode ignorar o modo como os não membros o categorizam, e, na maioria dos casos, o modo como ele próprio se define só tem sentido com referência a essa exodefinição18. Por isso são tão comuns estes processos de rotulação mútua, no decurso dos quais os grupos atribuem-se e impõem aos outros nomes étnicos.

Em todas as abordagens que fazem da identificação mútua, o traço constitutivo da identidade étnica, a produção e a utilização de nomes étnicos representam objetos de análise particularmente importantes para elucidar os fenômenos de etnicidade, uma vez que a existência e a realidade de um grupo étnico não podem ser atestadas por outra coisa senão pelo fato de que ele próprio se designa e é designado por seus vizinhos por intermédio de um nome específico (POUTIGNAT & STREIFF-FENART, 2011, p. 143). Creio que a nominação não é somente um aspecto particularmente revelador das relações interétnicas, ela é por si própria produtora de etnicidade. Nomear é trazer à existência. O etnônimo atribuído pelos

outsiders ao povo Capuxu trouxe à existência um grupo que se fortaleceu e

se percebeu enquanto tal.

Umas das mais importantes descobertas das teorias da etnicidade é que a identidade étnica nunca se define de maneira puramente endógena pela transmissão da essência e das qualidades étnicas por meio do

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“Uma identidade étnica nunca é autoexplicativa. Não podemos dar conta do fato de dizermos de alguém que ele é X (ou pelo fato de alguém dizer “eu sou X”) porque ele é X” (POUTIGNAT & STREIFF-FENART, 2011, p. 167). Assim temos a fórmula utilizada por Moerman com relação aos Lues: não se trata de saber quem são os X, mas saber quando, como e por que a identificação “X” é preferida.

membership, mas que ela é ‘sempre e inevitavelmente

um produto de atos significativos de outros grupos’ (DRUMMOND, 1981). Ela se constrói na relação entre categorização pelos não membros e a identificação com um grupo étnico particular. “A pertença a um grupo étnico”, já escrevia Wallerstein em 1960, é questão “de definição social, de interação entre a autodefinição dos membros e a definição dos outros grupos”. É esta definição dialética entre as definições exógena e endógena da pertença étnica, que transforma a etnicidade em um processo dinâmico sempre sujeito à redefinição e à recomposição (POUTIGNAT & STREIFF-FENART, 2011, p. 142). O fato de serem coletivamente nomeados acabou por produzir uma solidariedade real entre o povo Capuxu, talvez porque, em decorrência desta denominação comum eles fossem coletivamente objeto de um tratamento específico. Um tratamento que os assemelhava e unia, gerando uma identidade coletiva e uma solidariedade social.

O que ocorreu entre o povo Capuxu foi a chamada dialética entre exo e endodefinições que passa pela inversão dos critérios impostos, pela transmutação deles do exterior/negativo em interior/positivo, processo que inclui a mudança de rótulo e a inversão do estigma. Hoje eles se referem uns aos outros como “Capuxu bonita”, “Capuxu corajoso”, “Capuxu inteligente”.

Assim, percebemos o peso que o nome étnico exerce no processo de construção da etnicidade Capuxu. Se no início eles constituíam uma família extensa, unida sobre um mesmo território, aparência e costumes em comum, o etnônimo emerge como um rótulo sob o qual estarão submetidos todos aqueles que pertencem aquele grupo. Talvez seja o nome étnico a primeira fronteira simbólica a se constituir entre este povo e os moradores dos sítios circunvizinhos. Pois, daí em diante, os membros daquela família extensa passaram a ser representados e tratados a partir deste rótulo. Seu modo de vida, sua territorialidade, sua aparência, seu sotaque, seus costumes, seu sistema endogâmico de casamento, tudo coube sob o etnônimo Capuxu. Depois de nomeado o grupo sua etnicidade toma forma e se fortalece.

Ora, mas o que ocorre com as crianças que, sendo pequenas, não interagem tanto com os outsiders? Penso nisso pelo fato de observar que, sendo mantidas quase sempre nas fronteiras do Sítio, freqüentando o grupo escolar local, não há razão para as crianças pequenas irem até a cidade. Não possuindo o termo Capuxu em seus nomes, como sobrenomes, poderíamos pensar de que maneira o nome étnico se torna familiar para as crianças.

Observei em campo que eles tratam uns aos outros como Capuxu em tom de brincadeira. Se alguém na janela ou calçada de casa deseja chamar um compadre, primo ou vizinho que passa a pé, de cavalo ou de moto à distância é possível gritar “Capuxu” e este certamente atenderá ao chamado. Assim, as crianças crescem ouvindo o termo Capuxu ser mencionado várias vezes por dia e sabem que é um modo de se referir a eles mesmos.

O mesmo ocorre na escola ou em qualquer outra parte, sendo sempre complementado por adjetivos, especialmente quando se referem às crianças como: Capuxu bonito, Capuxu inteligente, Capuxu zangado, Capuxu corajoso. Lembro-me de num episódio uma criança ter sido chamada de Capuxu braba, entre sorrisos num tom jocoso por causa do seu temperamento, imediatamente a criança respondeu de testa franzida e bico “não sou Capuxu”. A recusa do designo, por perceber o tom jocoso na expressão de todos, rendeu ainda mais sorrisos. Eles sabem que ela pode ter se sentido, naquele momento, ridicularizada pelas gargalhadas e por isso quis negar o etnônimo do grupo ao qual pertence, mas, em breve, se orgulhará dele e se familiarizará com ele, definindo-se como Capuxu nas fronteiras do Sítio, respondendo cada vez que for assim designada, e sendo assim definida pelos outsiders.

Assim, as crianças vão pouco a pouco se familiarizando com o termo e as idas esporádicas à cidade contribuirão para a aceitação e reconhecimento de que o termo Capuxu os define, e que isso é para eles motivo de orgulho.