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O Parlamento por dentro

No documento O Estado por dentro: (páginas 46-122)

Vivemos todos, neste mundo, a bordo de um navio saído de um porto que desconhecemos para um porto que ignoramos; devemos ter uns para os outros, uma amabilidade de viagem. Fernando Pessoa, citado por Eduardo Ferro Rodrigues, no discurso de tomada de posse como Presidente da Assembleia da República

Sexta ‑feira, 23 de Outubro de 2015. Nove e meia da manhã. Dirigimos ‑nos à porta lateral da Assembleia da República, por onde entram os cidadãos que procuram assistir às reuniões plenárias na Sala das Sessões. Depois de meia‑ ‑hora de espera, o oficial da PSP pediu ‑nos que colocássemos os nossos objectos pessoais num grande invólucro transparente que seria guardado num cacifo. Mochilas, carteiras, telemóveis, chaves, cigarros, isqueiros, tudo tinha de ficar guardado antes de sermos acompanhados até às galerias da Sala das Sessões. Antes disso, assinámos um termo de responsabilidade, com os nossos dados e informações. Connosco ficou apenas um caderno de notas e uma caneta. Assim começou o trabalho de campo numa das mais importantes instituições do Estado português: a Assembleia da República.

Já passava das dez da manhã quando finalmente nos sentámos nas galerias da Sala das Sessões mas depressa nos levantámos porque a sessão foi imediata‑ mente interrompida e só retomaria às 15h para a votação do novo Presidente da Assembleia da República. Rimo ‑nos da situação mas aproveitámos a oportu‑ nidade. Nessas horas de espera um assessor de um grupo parlamentar fez ‑nos uma visita guiada ao interior do Parlamento. Pudemos conhecer o conjunto dos seus símbolos e recantos: a solenidade das Salas de Comissões Parlamentares e da Sala do Senado; a grandiosidade dos Passos Perdidos; a imponência da Escadaria Nobre; a azáfama de corredores repletos de deputados, jornalistas, assessores e funcionários; a informalidade da escada de incêndio onde quem ali trabalha pára para fumar um cigarro; a cantina e os restaurantes mais exclusivos

dos deputados; o bar da Assembleia e o bar dos deputados; a sala de um grupo parlamentar, com os seus trânsitos e a sua descontracção; a omnipresença de obras de arte, com centenas de quadros e esculturas que ornamentam e dão peso ao espaço; os CTT – Correios de Portugal, a Caixa Geral de Depósitos, o gabinete médico e enfermagem; enfim, tudo o que faz desta uma instituição tão densa e complexa.

Palco nevrálgico do debate político, da fabricação legislativa e do exercício e produção do poder, o trabalho do/no Parlamento é alvo das mais variadas expressões e sentimentos de curiosidade ou de crítica, de satisfação ou de des‑ confiança, de respeito ou de denúncia. Daí que o que acontece diariamente na Assembleia da República não passe despercebido nos noticiários televisivos, nas páginas da imprensa, nos portais de notícias online e, mais recentemente, no espaço público das chamadas “redes sociais”. A Assembleia da República é uma mira permanente de todas as atenções mediáticas.

Mas até que ponto conhecemos esta instituição? O que sabemos, de facto, sobre quem dela faz parte, como se organiza e o que ali acontece? Saberemos mesmo como operam quotidianamente as formas e condições de exercício do poder nesta instituição? Neste estudo de caso partimos destas interrogações e sem esquemas analíticos fechados, rumámos aos palcos, aos bastidores e aos corredores da Assembleia da República. Quão bem conhecemos esta que é provavelmente a instituição mais escrutinada da democracia política? De que corpos, discursos e rituais se faz a travessia política na qual, como refere o Presidente da Assembleia da República, não se sabe de onde se parte e se ignora onde se vai chegar?

Quem são os deputados?

As primeiras incursões etnográficas na Assembleia da República mostraram ‑nos uma instituição preenchida de múltiplos agentes. Os corredores da Assembleia são pistas de circulação de deputados, assessores parlamentares, assessores de grupos parlamentares, membros do governo, jornalistas, funcionários, pessoal dos bares, equipas e membros dos partidos. Todos, com evidente azáfama e agitação, cumprem tarefas e funções muito distintas. No entanto, quando se fala da instituição parlamentar, as atenções são quase sempre dirigidas para o seu núcleo mais visível: os deputados à Assembleia da República. Sujeitos permanentes de críticas e de elogios, de reverência e de profanação, de amores e de ódios, os deputados são a face mais visível no Parlamento porque a eles lhes é incumbido o exercício das funções da instituição: representar política e pluralmente os cidadãos; escolher o governo; produzir legislação; fiscalizar e exercer controlo sobre a actividade do governo e da administração pública.

Mas, afinal de contas, de quem se fala quando nos referimos “aos deputa‑ dos”? Quem são estas pessoas, quais as suas trajectórias pessoais e partidárias? A partir de que momento é que se passa de cidadão “envolvido” a “representante dos cidadãos” na maior arena pública do país? Que relação estabelecem eles com a instituição para a qual foram eleitos?

Vários estudos realizados sobre os deputados e a representação política em Portugal têm assinalado algumas características importantes. Num projecto intitulado “Crise, Representação Política e Renovação da Democracia: caso por‑ tuguês no contexto do sul da Europa (2016 ‑2019)”, coordenado pelo politólogo André Freire, mostrou ‑se que no actual Parlamento, dos 230 deputados, 151 são homens (66%) e 79 são mulheres (34%), com idades compreendidas entre os 23 e os 72 anos, sendo a média de 48. Paralelamente, 44% dos deputados têm licencia‑ tura, 47% terminaram ou estão a fazer mestrado ou doutoramento e apenas 7% têm entre o 9.º ano e o 12.º ano. Em termos socioprofissionais, há 61 advogados ou juristas (26%), 40 professores (17%), 30 economistas (13%), 18 engenheiros (8%) e cinco médicos (2%), encontrando ‑se também outras profissões represen‑ tadas como uma actriz, uma arqueóloga, um historiador, uma operadora de call center, uma educadora de infância, um geólogo ou um electricista. O estudo conclui que, retrospectivamente, nos últimos 40 anos, continua a haver uma sub ‑representação de classes baixas e de profissões menos qualificadas. Além disso, o Parlamento envelheceu, passando a média etária de 42 anos em 1975, para 48 anos na presente legislatura, embora a presença das mulheres se tenha refor‑ çado de 8% para 34 % no mesmo período. Finalmente, uma outra característica identificada prende ‑se com a profissionalização da política, num contexto em que se consolidou, nestas quatro décadas, um corpo de representantes que foi permanecendo na instituição numa lógica de carreira profissional1. De uma outra perspectiva, José Fonseca de Almeida (2015) analisou o perfil de envolvimento cívico e associativo dos deputados antes e durante a crise, isto é, dos deputados eleitos na X (2005), XI (2009) e XII (2011) legislaturas, e concluiu que este não se alterou substancialmente. Apenas uma minoria dos deputados (33%) tem uma participação em direcções de associações cívicas, sendo que os deputados estreantes exibem os mais baixos níveis de participação.

Investigações como estas são de grande importância uma vez que nos permitem compreender, em termos globais, quais as características sociógrá‑ ficas dos representantes políticos em Portugal. Contudo, a presente pesquisa procurou ensaiar um olhar distinto sobre os deputados, aprofundando uma investigação intensiva sobre a diversidade de trajectórias políticas, partidá‑ rias e sociais dos representantes políticos e relacionando ‑as, por um lado, com os diferentes modos de relação com a instituição e o cargo que ocupam, e por outro, com a pluralidade de práticas e de interacções no quotidiano

1. Mais informações

detalhadas sobre a evolução da representação e das lideranças políticas podem ser encontradas aqui – http:// er.cies.iscte ‑iul.pt/pt ‑pt/ home  – onde se sintetizam os dados e publicações dos projectos “Os Deputados Portugueses em Perspectiva Comparada: Eleições, Liderança e Processos de Representação” (2007‑ ‑2010)”, e “Eleições, Liderança e Responsabilização: a representação política em Portugal, uma perspectiva longitudinal e comparativa” (2012 ‑2015)”. Os projectos são coordenados por André Freire, José Manuel Leite Viegas, Ana Maria Belchior (esta última só para o Projecto 2, até Outubro 2013) e Marco Lisi (este último só para o Projecto 2, desde Novembro 2013 em diante).

parlamentar. Para tal, usou ‑se uma estratégia de anonimato e apostou ‑se numa presença regular dos investigadores junto dos deputados no seu traba‑ lho quotidiano. Estas opções de natureza etnográfica permitiram olhar para aspectos menos óbvios sobre os actores do Parlamento, que um modelo de inquéritos por questionário ou até de entrevistas formais, estruturadas e de curta aplicação, não permitiram de todo captar. Desta forma, durante nove meses mergulhámos no quotidiano parlamentar, apreendendo os discursos e as suas práticas diárias, a fim de conhecer quem são as pessoas e as vidas con‑ cretas por detrás de generalizações ou estereótipos. Para tal, interagimos com quatro dezenas de deputados por via de entrevistas (em alguns casos, mais do que uma à mesma pessoa em momentos diferentes da dinâmica parlamentar), de conversas informais em contexto de trabalho de campo ou acompanhando o seu trabalho diário numa lógica de job shadowing etnográfico. Em cada contacto esforçámo ‑nos por superar o registo normalizado da entrevista jornalística para que pudéssemos conhecer genuinamente as pessoas que, todos os dias, em nossa representação, exercem o poder político e parlamentar.

Políticos com e sem chave do carro no bolso

Os deputados à Assembleia da República são protagonistas de múltiplas tra‑ jectórias políticas e profissionais. No entanto, uma parte substancial, exerce há muitos anos funções na política e/ou em cargos representativos. É o caso de Rui que emigrou para Lisboa ainda novo para estudar Direito. Terminou o curso no início da década de 70, num país com um baixo nível de qualificações e em que só nos anos seguintes o Estado começava a ampliar a sua função providencial. Concluída a formação, foi imediatamente recrutado para o seu primeiro cargo ligado à política, uma vez que tinha competências técnicas para o cargo para o qual foi convidado e já estava ligado à militância parti‑ dária. Ainda antes de fazer 30 anos, assumiu funções de assessoria política e técnica a um governo. Desde esse momento, praticamente toda a sua vida foi preenchida por cargos e funções políticas profissionalizadas. Já lá vão mais de quatro décadas em que desempenhou uma multiplicidade de tarefas no mundo da política institucional: de assessor político a deputado numa Assembleia Legislativa Regional, de governante a eurodeputado. No momento da nossa conversa estava como deputado à Assembleia da República. No entanto, apesar de a política ter sido a sua vida, tem com o seu percurso uma relação paradoxal. Por um lado, diz ‑nos que a actividade política “não é uma profissão”, defen‑ dendo que “quem anda na política deve ter sempre um lugar de recuo”. Por outro lado, afirma: “a minha profissão é ser político com a chave do carro no bolso”. Ou seja, na sua perspectiva, “a vida política é precária”, “é um contrato

ao dia”, daí ter consciência de que a qualquer momento o seu mandato pode terminar, não sendo garantida a reeleição. Tendo noção desse cenário, torna ‑se imprescindível ter uma alternativa de vida profissional.

Num almoço que tivemos na Assembleia o deputado explicou que ape‑ sar de estar na vida política há tantos anos, preza muito a sua liberdade e independência dentro do partido, no que afirma não ser uma tarefa de gestão fácil. Compatibilizar um longo percurso político com a independência e liberdade que para si reivindica, exige que tenha sempre presente o cenário de poder ser afastado pela direcção do seu próprio partido, até porque, como nos diz, tem uma “disciplina muito modesta”. Nessa eventualidade, tem duas alternativas: uma, é voltar para a única profissão que exerceu entre funções políticas, embora reconheça dificuldades por não a exercer há décadas; a outra é tentar mobilizar a sua expertise de tantos anos de política profissional rumo a outros ramos profissionais. É portanto, como diz, um “político com a chave do carro no bolso”. Está pronto para recomeçar a viagem, se as circunstâncias o proporcionarem. Mesmo que o destino da viagem seja bastante incerto.

Ricardo estreou ‑se no Parlamento com pouco mais de 20 anos, já lá vão mais de três décadas. No entanto, afirma de forma surpreendentemente directa: “Não sou um profissional da política”. E acrescenta: “Eu não gosto desse con‑ ceito de classe política. Eu acho que não há, nem deve haver, uma classe política. Há pessoas que estão na vida política activa, a política tem de ser para todos”. Não se afirmando como “político de profissão”, considera ‑se “orgulhosamente um professor”, apesar de não exercer essa profissão há mais de 30 anos. Quando o tema da nossa conversa remete para o futuro, o seu discurso certo, incisivo e sem pausas dá lugar a um tom mais hesitante e reflexivo. Como nos diz: “Eu hoje ia ter um problema terrível. A minha disciplina já mudou duas vezes desde que eu saí; ia ter um problema terrível para me readaptar. Fá ‑lo ‑ia com gosto, consciente porém que ia ser complicado”.

Numa segunda vez que estivemos juntos, o deputado relatou ‑nos histórias de outros deputados seus conhecidos. Argumentava que há muitos colegas seus que condicionam a forma como intervêm no seu próprio partido e no Parlamento, em debates internos e em debates públicos, por terem receio que a expressão de uma opinião contrária à linha da maioria possa ter como con‑ sequência não constar nas listas de candidatos nas próximas eleições. Na sua visão, quem está há muitos anos na política e não tem autonomia profissional e financeira, está muito mais condicionado na sua liberdade. No seu caso, paradoxalmente, diz ‑nos que tal nunca sucedeu, embora já tenha visto isso acontecer com muitas outras pessoas suas amigas. Quando Pedro fala de Paulo saberemos mais de Pedro do que de Paulo?

A vivência (ou não) da política como uma “profissão” não se coloca ape‑ nas para deputados com assento parlamentar há vários anos. É uma questão com que também estão confrontados os deputados que chegam pela primeira vez. Uma deputada recém ‑chegada ao Parlamento disse ‑nos sem hesitações:

Isto é uma tarefa política, dizer que isto é um trabalho… Não é o sen‑ tido clássico. Eu como trabalhadora tenho outra profissão, isto aqui é um cargo político, é uma dimensão diferente e às vezes as pessoas esquecem‑ ‑se disso porque falam muito da questão da carreira política. Para nós isso não se coloca porque isto de facto não é ‘o trabalho’… Ou seja, para nós é trabalho no sentido do empenho que temos de ter, mas não é uma carreira profissional. Há que distinguir esses aspectos.

Deputados de todos os grupos parlamentares, sem excepção, afirmaram que nos seus partidos não se associa a função de deputado a uma profissão enquanto tal e muito menos se associa a actividade política a uma carreira que se constrói. Ao contrário da língua alemã em que Beruf trata de desig‑ nar, simultaneamente, “profissão” e “vocação” – termo aliás usado por Max Weber (2000 [1919]) para falar da política como profissão/vocação –, na língua portuguesa essas duas palavras têm conotações bem distintas. É por isso que muitos deputados repetem ser importante diferenciar o que é uma “carreira profissional”, por um lado, e o empenho e a vocação para um “cargo político” marcado pela transitoriedade, por outro.

Durante os vários meses do trabalho de campo, foi generalizada a crítica à ideia da “política como profissão”. Mas esses discursos não foram impermeáveis a contradições. Não poucas vezes se identificou aquilo que Goffman chamava de faux pas (1959), uma espécie de “passo em falso”. Um desses casos de deslize é o de Cristina, deputada há três legislaturas, que nos dizia, num tom convicto, que: “Ser deputada não é uma profissão. É um cargo que se exerce e que se pode deixar de exercer a qualquer momento. E se o queremos exercer bem temos de o exercer de forma livre. E para o exercermos de forma livre temos de nos lembrar, todos os dias, de que isto é um cargo e que podemos ter de deixar de o exercer de um dia para o outro. Temos que ter isso presente porque senão, cria ‑se uma dependência que não é saudável”. Aparentemente esta deputada parece comungar do mesmo espírito dos nossos interlocutores. Porém, num outro contexto, quando a conversa já ia longa e o tema tinha mudado, é ela própria que nos diz que:  “um bom parlamentar tem que ser um bom orador, faz parte da profissão”. Apesar de, tal como muitos deputados, não considerar a “política como profissão”, na prática acaba por falar dela e vivê ‑la enquanto tal.

Como sucedeu com vários deputados, a dissociação entre o que se diz e o que se faz só se pode conhecer quando se passa da primeira declaração mais mar‑ cada pelas primeiras impressões, para uma conversa em contexto etnográfico, onde as contradições ficam mais claras e ambivalentes do que pode parecer. Estas contradições nos discursos e nas práticas sugerem um facto revelador sobre a relação de vários deputados com a função. É que ao mesmo tempo que parecem recusar a associação da actividade política a uma profissão, nas suas práticas e discursos deixam transparecer uma relação profissionalizada com a função. 

Esta análise permite compreender alguns dos nossos intervenientes; outros há que estão muito longe deste perfil. Será que esta vivência da “polí‑ tica como profissão” é igual para os casos dos deputados que possuíam já um longo percurso profissional antes da chegada ao cargo?

Ser deputado é uma camisola que se veste?

Conhecemos a Teresa no início da legislatura. Tinha passado um mês desde que foi eleita pela primeira vez para o Parlamento. Numa primeira conversa que tivemos confessou que na chegada à instituição ficou impressionada com um excesso de formalismo que já não sentia no mundo académico e no mundo corporativo onde esteve antes de ter sido “desafiada” para este novo cargo. Ao contrário dos deputados citados anteriormente, Teresa teve um longo per‑ curso profissional no mundo empresarial e académico antes de vir a ser eleita. Profissionalmente, tudo lhe corria de feição. Só que num momento particular da sua vida sentiu uma “crise existencial e vocacional tardia”, justamente por‑ que começou “a questionar se aquilo que fazia tinha um impacto directo no país”. Essa crise fez com que se começasse um percurso de intervenção cidadã. Nas actividades que agora desempenha motiva ‑a sobretudo a possibilidade de contribuir para mudanças no país. Até porque tendo em conta a sua profissão anterior, ser deputada “financeiramente é um desastre”.

O impulso que sentiu levou ‑a ao Parlamento e diz ‑nos sem hesitar: “Sinto‑ ‑me bem a fazer este papel”. No entanto, tem uma clara percepção, que con‑ firmámos em momentos posteriores ao nosso primeiro encontro, de que esta é uma função temporária e transitória na sua vida.

Sinto que ser deputada é um papel que me cola em cima, que não é a minha pele. É como se fosse uma camisola que eu visto, mas esta não é a minha pele. Esse sentido de liberdade em relação à função era uma coisa que eu gostaria de manter pelo facto de ser sempre marcado por

alguma transitoriedade. A pessoa hoje está aqui, foi eleita para um man‑ dato de quatro anos, não foi para a vida, não é?

Este “sentimento de liberdade” referido por Teresa é igualmente parti‑ lhado por Rodrigo, no Parlamento há sete anos. Estava no estrangeiro a dar continuidade ao seu percurso profissional e académico quando foi desafiado para voltar ao país e assumir funções partidárias num cargo de direcção interna. Esse convite não teria sido aceite, diz ‑nos, se não viesse agregado da promessa de eleição como deputado. Passaram sete anos desde que assumiu funções parlamentares. Sobre o futuro, afirma num tom sereno que tem uma ideia de quando “quer parar” e voltar à sua vida académica e profissional. Até porque não se consegue adaptar aos estereótipos sobre a função: “Sinto sempre uma grande estranheza quando me chamam político ou deputado; quando as pessoas

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