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A parte cio Diabo

No documento MAFFESOLI Michel. a Parte Do Diabo (páginas 40-45)

"superar" tudo isto. "Regresso", "ingresso", pouco impor t a o t e r m o q u e p o d e s er e m p r e g a d o ; b a st a i n s is ti r n o fa t o d e que seja p ossível penetrar, en trar (

ingresso

) n a inteireza d a n a t u r e z a h u m a n a s e m r e je it a r -l h e es ta o u a q u e la p a r t e . É i s t o o "e s p í r i t o d a s fe r as " q u e en c o n t r a m o s n o p e n s a m e n to fou rierista, é isto a

ultima ratio

dos sentid os, d o sensível q u e n ã o p r o j e t a s u a c o m p l e t a r e a l i z a ç ã o e m h i p o t é t i c o s a m a n h ã s 7 .

^ O m e d o d a a n i m a l id a d e é a b a se d a p e r s p e ct iv a u n i- versalista. Ele é o p on to d e partida, inta ng ível, de tod os os ' m ora listas. Basta ou vir ou ler as etern as catilin ária s dos cro

nistas, jor n alistas, p olíticos e observad ores sociais de tod os os tipos para aplicar-lhes o que Marx dizia dos burgueses: "Eles n ão têm m ora l mas se servem da m or al." E o qu e aco n t e ce c o m a a n á l i s e s ob r e es ses n o v o s m o n s t r o s q u e v ê m a ser os "jov en s das cida d es". Mon stros m od elad os, na reali d a d e , e s p e c i a l m e n t e p e l o s j o r n a l i s t a s e o s p o l í t i c o s , a o s q u a is r e s p o n d e m o q u e d e s e ja m o u vir , so b r e tu d o q u a n d o c it a m Bin L a d e n c o m o s eu h e r ó i. Se m e l h a n t e u t il iz a ç ã o d a qu eixa é lan cin an te, obsessiva. Pode ser comp arad a, tratan - : d o-se da coisa sexual, à dos diretores d e con sciên cia na s escolas católicas, p rojetan d o seus fan tasm as sobre seus "d i r i g i d o s ” , p e r s e g u i n d o o p e c a d o o n d e e x i s t e m a p e n a s i n o  c e n t e s p r a z e re s s ex u a is . O m e s m o t r a t a n d o - se d e u m ce r t o ^ pan -sexualism o freud iano, para o qual a cu ra an alítica co n

siste em ' esvaziar a lixeira ' de tod os os resíd u os som br ios, p rópr ios d3s fantasias hui/ .anas. Caberia fazer a gen ealogia d a q u i lo a q u e M. Fo u ca u i i se r e fe r e c o m o a " v o n t a d e d e sa  b er 7 característica d a trad ição ocid ent al, para p erceber qu e

Pequena epistemologia do mal

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através de d iferen tes figuras ela se lim ita a repetir u m a o b s e s s ã o c o n s t a n t e : o m e d o d a s o m b r a .

E s t a o b s e s s ã o i n a u g u r a - s e n o a t o f u n d a d o r b í b l i c o : "Deu s sepa rou a luz das trevas8." É p recisam en te o qu e vai servir de base à dualidade estrutural que será encontrada, t e o r i c a m e n t e e d e p o i s p r a t i ca m e n t e , n a cu lp a b i lid a d e cr is  tã, e mais adiante, por sua vez, na "separação" hegeliana ou na cisão (

Spaltung)

freudiana. Esta recusa da inteireza d o ser perm ite, na trad ição em qu estão, elim ina r o trágico d a c o n d i ç ã o h u m a n a . F u g a d i a n t e d a m o r t e , n e g a ç ã o d a m o r t e c o m o f o n t e d a e xi s tê n c ia 9.

Pa ra r e t o m a r a d i s t in ç ã o q u e p r o p u s e n t r e

drama

e

trá-

gico,

esta fuga consiste em "dramatizar" a morte, ou seja, e n c o n t r a r - lh e u m a s o l u ç ã o : o p a r a ís o o u a s o cie d a d e p e r  feita. A partir daí, em suas diversas modulações (pecado, alienação, a n arq u ia), a m orte d eixa de ser essencial, já qu e é possível "superá-la".

Nem por isto teria cabimento apressar-se a descartar a ação que deve ser empreendida sobre o mal. Faz part e da c o n s c iê n c i a h u m a n a n e g o ci a r c o m ele . H á u m a d is t in ç ã o , q u e e n c o n t r a m o s n o p e n s a m e n t o gr ego , q u e n o s p o d e a ju dar n este se n tid o 10. De um lad o o

 pecado,

s o b r e o q u a l

(

p od em os agir, qu e po d em os evitar de diversas m aneiras. Do o u t r o , a "p o l u i çã o ”, q u e é a u t o m á t ic a , t ã o im p i ed o s a q u a n to o m icró bio d esta ou d aqu ela doen ça, e, com o tal, trãgi- : cam en te incon tor n áv el. Eu diria qu e "tem os de ag ü en tar". U m é p o n t u a l , a o u t r a é " e s t r u t u r a l " . O r e c o n h e c i m e n t o d e s se a s p e c t o es t r u t u r a l p o d e in d u z i r u m a s a b ed o r i a c o t i  d iana da necessid ad e. Esta cond u zind o a u m a p ostura exis

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  A parte do Diabo

t e n c i a l q u e i n t e g ra o d e s a m p a ro p a ra a l c a n ç a r u m e q u i l í  b ri o m a is co m p le t o , m a i s c o m p l e xo , o d o " co n t ra d i t o ri a l ", d e u m a l óg ica q u e n ã o fu n c io n a e m re la ç ã o à s u p e ra çã o d o mal: a síntese, a perfeição, mas repousando na tensão, ja m ais term in ad a, qu e faz da im per feição, da p arte sombria, u m elem en to essencial de toda vida ind ividu al ou coletiva.

A

ENERGIA DOS SENTIMENTOS

N u n ca se dirá o su ficiente a respeito de qu an to a separa ção d ivina entre trevas e luz marcou p rofun d am ente a con sciên c i a o c i d e n t a l . To d a a t e m á t i c a d a e m a n c i p a ç ã o m o d e r n a repousa nesta separação. O universalismo da filosofia do Iluminísmo e sua mais recente manifestação, a “lengajen- ga^ moralista_cqntenipçirânea, derivam diretamente dela. A dialética matizada característica do pensamento grego, en tre o pecado, factual e p orta n to sup erável, e a "po lu ição", estrutu ral e inelu tável, ficou esquecid a.

É a partir deste corte radical que se elabora o conflito metafísico entre o bem e o mal. Para o cristianismo, reli gioso ou laico, não existe mais equilíbrio entre essas duas entidades. Na teoria agostiniana, o mal não tem realidade e m si, n ã o p a s sa n d o d e u m a " p r iv a çã o d o b e m "

(privatio

boní).É 

a partir d esta neg ação q u e são elaborad as as teorias

fau stiana s qu e levaram à socied ad e asséptica qu e h oje tran s forma o "risco zero" em ideal absoluto.,

Mas se esta n ega ção é teórica (talvez fosse m elh or d izer intelectual), pouco impacto tem na sabedoria popular, de-

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m o n í a ca , q u e, ela sim , co n t i n u a r e c o n h e c en d o c o m o e q u i  valentes essas du as entid ad es, bem e m al. Em p iricam ente, o diabo, em suas diversas manifestações cotidianas, atra vés de suas expressões no trágico corrente, tem uma exis tên cia real. Os efeitos de sua ação são inegáv eis. Em bor a eu só o ind iqu e aqui de form a alusiva, os con tos e lend as qu e n u t r e m o u a s so m b r a m a in f â n cia , e c o n t i n u a m a p e r seg u ir o i n c o n s c i e n t e c o l e t i v o , e n c e n a m f a d a s e b r u x a s , b o n s e m aus, bo n zin h os e m alvad os. Assim se explica igu alm en te ^ o espetacular sucesso de Harry Potter e certos Halloween, formas modernas da antiga veneração dos espíritos.

E m p a r t e , o s m i t o s r e p o u s a m n o q u e p o d e r í a m o s c h a  m ar de p arad igma do Ha d es. É claro qu e em d iferen tes cu l turas este pa rad igm a se expressará sob d iferentes n om es. A realidade, sim, é intangível. Há um lugar subterrâneo, uma d e id a d e d a s p r o f u n d e z as . É u m lu g ar o u u m d e u s q u e t e m a ver com o fim da vida, mas é também um lugar ou uma entidad e qu e se man ifesta n o p róprio decu rso da existência. A s d e s g r a ç a s e s e p a r a ç õ e s , o s r o m p i m e n t o s , d e s a m o r e s , d o e n ç a s e a ci d e n t e s — e m s u m a , t o d o o t r á g i co c o t id i a n o — têm a ver com este tóp ico infernal.;

A d escida ao infern o é, inclusive, u m m om en to essen--' • ciai de qu alqu era n iciação. Iniciações religiosas ou p rofanas

stricto sensu,

ou a longa iniciação que é toda existência h u m a n a . O c o n f r o n t o c o m o m u n d o s u b t e r r â n e o é m e s  m o e n ca r a d o co m o u m m o m e n t o n e ce ss ár io p ar a o q u e é considerado um "ser-mais" em devir. As expressões popu la re s "H á m a l es q u e v ê m p a ra b e m ", "O m u n d o t e m lu g ar p a r a t u d o " e t c . n ã o s e e n g a n a m a o e s t a b e l e c e r e m u m a

• s i n e r g i a e n t r e t o d o s o s c o m p o n e n t e s d o d a d o m u n d a n o . T r a t a - s e e n t ã o , p a r a r e t o m a r u m a i m p o r t a n t e p r o p o s i ç ã o de Gilbert Dur and , desse "trajeto a nt rop ológico” qu e repou sa p r e cis a m e n t e n o a co r d o t en s io n a l, n u m a h a r m o n i a co n flituosa en tre o in stin to an im al e as lim itações ob jetiv as 11, sejam na tu rais, cultu rais ou sociais.

Existe neste saber incorp orad o, o da sabedoria p opu lar, uma bela lucidez revigorante. Podemos inclusive nos per guntar se, a longo prazo, não é precisamente esta l ucidez qu e g aran te a resistência, a du ração, a solid ez da vida. Ela "sa be -’' qu e, além ou a qu ém das p etições de p rin cíp io dos p r o t a g o n i s t a s d o

sbitus quo,

a lé m o u a q u é m d a s b o a s i n t e n ç õ e s r e f o r m i s t a s o u r e v o l u c i o n á r i a s , d a s d e c l a r a ç õ e s p o l í t i c a s o u m o r a i s d e t e r m i n a n d o o s p r i n c í p i o s d o b e m , sempr e será n ecessário com p or, negociar, "ag ü en tar " as d u ras realidades que, de sua parte, têm uma relação apenas d istante com o bem . A lógica do "d ever ser" (M. Web er), a das "almas boas" de todas as tendências, é encarada sob m u itos aspectos com o perigosa. Pois este m al n egad o, este m al d ialeticam en te superável nã o pod e d eixar de ressurgir de outra form a, d escontrolad o, sorrateiramente, de m aneira perversa, invertida. O "trajeto antropológico", o d os con tos e das lendas, da vida de todos os dias, é, por sua vez, m a i s e q u i l i b r a d o , s á b i o , h u m a n o , n a m e d i d a e m q u e d á direito de cida d an ia ao qu e é, e nã o ao qu e "d everia ser".

E s t e e q u í l í b r i o n a d a t e m d e u n a n i m i s t a : e l e é c o n  flituoso, em 'tensão oer^iari -nte, um equilíbrio enraizado. N a v e r d a d e e l e r e c o n h e c e — p a r a r e t o m a r u m a t e m á t i c a - pa scaliana — ou e o ?nio e " oes^ estão in tim am en te liga

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