7 MÉTODO
7.1 Participantes
A amostra foi intencional e constituída por 70 participantes, com idades acima de 18 anos, alfabetizados, homens, diagnosticados como dependentes químicos, usuários de cocaína e crack em processo de tratamento para adquirirem o controle da doença, internados em uma clínica.
O tamanho da amostra em 70 participantes foi estimado a partir do poder do teste por meio do software G*Power, tomando-se em conta a estimativa para cálculo de correlação bivariada de Pearson. Com um poder de 0,95 e a probabilidade de erro estimada em 0,18, para curva monocaudal, o tamanho da amostra necessária foi de 70 indivíduos. O poder do teste, segundo Cohen (1988), decorre do tipo da prova estatística, da direcionalidade das hipóteses, do tamanho da amostra, do nível de significância e do tamanho do efeito. O poder do teste é a probabilidade de rejeitar a hipótese nula quando ela é falsa e é calculado por 1 - (erro tipo II). Na prática, para não se cometer o erro tipo II, não se pode ter amostras muito pequenas ou muito grandes, com níveis de significância muito exigentes. O cálculo do poder do teste garante que, ao se evitar o erro tipo I, não se aumente o erro tipo II (LOUREIRO; GAMEIRO, 2011).
Utilizou-se como critérios de inclusão no estudo que os participantes fossem homens, em tratamento ambulatorial no Centro de Tratamento Best Way (que só recebe pessoas do sexo masculino), com idades acima de 18 anos, alfabetizados, que haviam sido diagnosticados como dependentes químicos, que possuíam dependência da substância cocaína/crack, portadores ou não de comorbidade com doenças psiquiátricas.
Foram excluídas todas as pessoas que não foram diagnosticadas como dependentes químicos, assim como aqueles que não eram dependentes de cocaína e/ou crack, mesmo que dependentes de outras drogas. A restrição referente à idade teve como objetivo incluir apenas participantes considerados responsáveis legais por si mesmos, e a exclusão dos analfabetos se deu em função de os instrumentos serem de autorresposta, ou seja, era necessário saber ler e
entender as questões para responder corretamente. Considerando questões sintomáticas de intoxicação e abstinência, os questionários que apresentaram falhas visíveis no preenchimento também foram excluídos.
Assim, três dos 70 participantes tiveram seus questionários descartados, porque demonstraram não compreender como deveriam responder aos instrumentos, por exemplo, marcando números no lugar em que deveriam marcar X, em apenas uma opção ou porque deixaram uma folha inteira de um dos instrumentos em branco.
Dados identificação Variação Percentual (%) Estado civil Casado
Solteiro Outros
61,8 19,1 19,1
Escolaridade Não estudou Fundamental completo
Nível médio completo Superior completo Especialização completa Mestrado completo Doutorado completo 2,9 42,6 47,1 7,4 0 0 0
Situação ocupacional Estudante Assalariado Autônomo Desempregado Do lar 3,0 27,3 28,8 36,4 4,5
Renda mensal familiar Até um salário Dois a três salários Quatro a cinco salários
Seis a sete salários Acima de oito salários
23,1 40,0 23,1 7,7 6,2 Moradia Sozinho
Com pais e/ou irmãos Com esposa e/ou filhos Com amigos e/ou colegas
17,6 54,4 26,5 1,5
Número de internações Uma vez Duas vezes
Três vezes Quatro vezes
Cinco vezes Seis vezes ou mais
35,3 23,5 10,3 5,9 22,1 2,9
Tempo de abstinência Até um mês Dois meses Três meses Quatro meses
Cinco meses Acima de seis meses
40,3 14,9 11,9 11,9 6,0 14,9
Os participantes eram todos homens, pois a instituição selecionada para a coleta de dados recebia somente pessoas deste sexo. A idade média dos participantes era de 30 anos (DP = 6,7), sendo que variaram entre 19 e 53 anos de idade. O perfil dos participantes foi similar ao perfil mais encontrado em dependentes de cocaína/crack (RIBEIRO et al., 2012, p. 39), tratando-se de homens adultos jovens e de pouca escolaridade.
Por meio do sexto levantamento nacional sobre o consumo de drogas psicotrópicas (CARLINI et al., 2010), sabe-se que o início do uso de cocaína/crack ocorre por volta dos 15 anos de vida, o que nos faz pensar que os participantes deste estudo podem ter mais de 15 anos de uso/abuso destas substâncias; evento similar ocorreu no estudo de Horta et al. (2011), em
que os participantes relataram que o início do uso de crack ocorreu antes dos dezoito anos de idade.
Dentre os participantes, mais de dois terços eram casados e declararam morar com alguém, porém apenas um quarto disse morar com esposa e filhos.
Com relação à profissão e renda familiar, quase metade estava desempregada e possuía renda familiar na faixa de dois a três salários mínimos; ampliando a visão, percebe-se que quase 90% dos participantes declararam possuir renda familiar de até cinco salários mínimos. Ou seja, mesmo trabalhando, os participantes possuía renda familiar significativamente baixa. Acredita-se que tais circunstâncias gerem às famílias de origem problemas de ordens diversas, como, por exemplo, a de tornar-se comprometidas financeiramente, pois têm de arcar com as custas de tratamento e sustento deste indivíduo doente.
Aproximadamente metade deles possuía escolaridade de nível médio completo e a outra metade, ensino fundamental, assim, percebeu-se que os participantes tinham pouca instrução formal, recursos intelectuais limitados para mudar uma realidade de restrição e pobreza, o que, numa sociedade capitalista, representa menor possibilidade de melhorias na condição de vida destes indivíduos, pois a educação no cenário do trabalho serve de seleção e filtro, excluindo aqueles que possuem restrições educacionais (GAMARNIKOW, 2013).
Quanto ao tempo de abstinência, quase metade relatou estar nesta condição pelo período de até um mês, mas a grande maioria, dois quartos, afirmou vivenciar a privação da droga de dependência num intervalo de até três meses. Sobre a quantidade de internações devido ao problema de dependência de drogas, cerca de um terço esclareceu que vivenciou internação em instituição de recuperação por uma vez, sendo que aproximadamente dois terços informaram ter vivido internações por mais de duas vezes.
Pode-se então inferir, a respeito das informações sobre período de abstinência e quantidade de internações, que a quantidade de tempo de abstinência registrado vai diminuindo em quantidade de participantes conforme aumenta o tempo dessa abstinência, o que pode representar que muitos iniciam o tratamento, mas, no decorrer do processo, o abandonam, por não suportarem permanecer na abstinência, nem tão firmes em seus objetivos de controle da doença.