CAPÍTULO 3. Percurso metodológico
3.2. O campo
3.2.1. Particularidades (e similitudes) do cenário local
Juiz de Fora é um município da Zona da Mata mineira (sendo o mais extenso entre eles) situado há cerca de 250km da capital do Estado. A estimativa populacional da cidade é de 564.310 habitantes, segundo dados do IBGE referentes ao ano de 20187 (o censo realizado pelo instituto em 2010 aponta para 516.247 habitantes). O índice de Desenvolvimento Humano (IDH) da cidade é alto, levando em consideração este último censo realizado pelo IBGE em 2010, o qual aponta para o IDH local de 0,778. Ainda de acordo com o instituto, em 2016, o salário médio mensal era de 2.4 salários mínimos, sendo que 29,9% dos domicílios possuíam rendimento mensal de até meio salário mínimo por pessoa. Neste mesmo ano, havia cerca de 30% da população ocupada em relação à população total. A população considerada pobre (baseada no consumo como - problemático - critério) atingia, em 2010, 5,48%, ao passo que o Índice de Gini da cidade correspondia a 0,568, o que expressa uma significativa desigualdade de renda. A desigualdade de raça marca, ainda, o desenvolvimento de Juiz de Fora, colocando- a na posição de cidade com maior diferença de IDH entre brancos e negros do Estado de Minas Gerais (IBGE, 2010).
O Mapa Social de Juiz de Fora divulgado, em 2012, pela Subsecretaria de Vigilância e Monitoramento da Assistência Social do município, revela que, de 28 mil famílias inseridas no CadÚnico, 14% possuem renda per capita abaixo da linha da extrema pobreza e 44% abaixo da linha da pobreza. No que tange ao acesso e às condições de trabalho, quase 70% das famílias
7 Fonte: https://cidades.ibge.gov.br/brasil/mg/juiz-de-fora/panorama 8 Fonte: http://www.atlasbrasil.org.br/2013/pt/perfil_m/juiz-de-fora_mg
possuem mais da metade dos membros em idade ativa desocupados e cerca de 60% estão fora do mercado formal. A precariedade percebida no campo do trabalho reflete, ainda, o quadro de escolaridade: quase metade das famílias não possuem adultos com ensino médio completo e 24,1% possuem adultos considerados analfabetos funcionais (Juiz de Fora, 2012).
A política de assistência social do município expressa determinados elementos que compõem o cenário das políticas públicas e sociais brasileiras, apresentando, ainda, particularidades em seu desenvolvimento. Em Juiz de Fora, a assistência social é gestada, desde a implementação do SUAS no município (ocorrida em 2005), de forma híbrida entre a prefeitura, a partir da Secretaria de Desenvolvimento Social (SDS), e a Associação Municipal de Apoio Comunitário (AMAC). A AMAC foi fundada pelo governo municipal, em 1984, enquanto uma organização civil sem fins lucrativos e assumiu, ao longo de toda a trajetória do SUAS, as principais funções de coordenação e execução dos programas e projetos desenvolvidos no âmbito da assistência social da cidade, dentre eles creches, curumins e outros serviços de proteção básica e especial (Souza Filho & Oliveira, 2014).
A problemática relação estabelecida entre o público e o privado está, portanto, bastante presente na trajetória da assistência social da cidade. Recentemente, no final do ano de 2017, a prefeitura realizou um polêmico chamamento público direcionado a alguns serviços da assistência social, do qual teve como vencedora a Agência Adventista de Desenvolvimento e Recursos Assistenciais (ADRA), uma organização mundial ligada à Igreja Adventista.9 O cenário gerou intensos conflitos relacionados a troca de gestão, demissão de funcionários, reorganização de equipes, dentre outros, além de manter a imperativa lógica neoliberal da terceirização e da filantropia na administração das políticas públicas. Somado ao agravamento
9 Para saber mais a respeito: https://tribunademinas.com.br/noticias/cidade/06-02-2018/adra-e-habilitada-em-
do quadro nacional de desmonte e corte de verbas nas áreas e programas sociais, foi diante desse cenário que realizamos a nossa pesquisa por meio da assistência social do município.
Atualmente, existem onze Centros de Referência de Assistência Social (CRAS) e três Centros de Referência Especializados de Assistência Social (CREAS) distribuídos pelos territórios de Juiz de Fora, além de outros serviços socioassistenciais sendo ofertados em conjunto com diversas entidades inscritas no Conselho Municipal de Assistência Social (Juiz de Fora, 2012). Optamos por realizar a pesquisa no equipamento da proteção social básica por compreender sua importância na estruturação da política de assistência social e, sobretudo, na atuação frente aos sujeitos atendidos, principais alvos de nosso estudo.
O CRAS é considerado a principal porta de entrada do SUAS, estruturando-se a partir dos eixos da matricialidade sociofamiliar e da territorialização, além de ser o responsável por oferecer, de forma exclusiva, alguns serviços fundamentais da proteção básica do SUAS, como: o Programa de Atenção Integral à Família (PAIF) e o Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos (SCFV), a partir dos quais são planejados os atendimentos individuais e grupais com a população destinatária das ações socioassistenciais. Além disso, através do CRAS, a população pode se inserir nos programas de transferência de renda, como PBF e o BPC, que, conforme vimos, se destacam nas ações desenvolvidas no campo da proteção social (Brasil, 2009). Em Juiz de Fora, atualmente 13.570 pessoas estão cadastradas no PBF e cerca de 7.000 recebem o BPC. Ainda assim, dados do Relatório de Informações Sociais do atual Ministério da Cidadania apontam que o município está abaixo da meta de cobertura do PBF, atendendo, aproximadamente, 70% das famílias em situação de pobreza e extrema pobreza10.
No que se refere a nossa pesquisa, algumas situações oriundas dos procedimentos necessários para a inserção no campo provocaram um atraso no início dessa importante etapa.
10 Fonte: https://tribunademinas.com.br/noticias/cidade/30-05-2019/juiz-de-fora-esta-abaixo-da-meta-de-
Ainda assim, as dificuldades pelas quais poderíamos atravessar, tendo em vista os prazos para a conclusão dessa pesquisa, foram minimizadas pelas oportunidades abertas diante dos próprios imprevistos. Considero que o fato de nossa pesquisa ter sido “escolhida” pelo equipamento em que foi realizado (e não o contrário; como imposição dos pesquisadores) e por ter sido tão bem recebida por toda a equipe profissional foi essencial para que ela pudesse se desenvolver.
Vale esclarecer que, no decorrer do capítulo metodológico, iremos mesclar a conjugação verbal de nossa escrita, ora recorrendo à primeira pessoa do plural, conforme feito nos capítulos anteriores, ora à primeira pessoa do singular. Ainda que o presente trabalho tenha sido realizado de maneira conjunta entre os pesquisadores (e, claro, com os sujeitos participantes e demais envolvidos em nossa pesquisa), as experiências e percepções obtidas através do cotidiano do campo adquirem uma dimensão muito particular por quem as vivenciou de maneira mais ativa, próxima e presente. Muitos dos relatos contidos nos próximos tópicos, portanto, expressarão, também, no formato da escrita, essa vivência singular (e afetiva) da pesquisadora inserida no campo.