4.2 SIMON EM JORNADA E IDENTIDADE INACABADAS
4.2.1 A partida
Ao explicar a origem da jornada dos heróis, Campbell (2007) assevera que é um mero erro, ou um mero acaso, o responsável por revelar ao herói um mundo insuspeito. Nesse mundo, o herói entra em um processo de interação com forças ainda não completamente compreendidas, mas responsáveis por “descerrar as costinhas de um mistério de transfiguração” (CANPBELL, 2016, p. 61), um ritual ou uma passagem espiritual que, ao se completar, equivale a uma morte seguida de um nascimento. Esse movimento de partida que inicia a primeira parte da jornada do herói pode ser evidenciado no esquema a seguir, denominado pelo autor de a partida.
Figura 5 – Esquema representativo da “partida”, primeiro momento da jornada do herói
Fonte: Campbell (2007).
No caso de Simon, o chamado para a aventura decorre exatamente de um erro. A única pessoa que sabe da condição sexual do rapaz é um amigo virtual de quem ele não sabe a identidade, Blue. A única forma de comunicação entre os dois é via e-mail, a partir de dois endereços virtuais falsos que eles criaram para se comunicar. Um certo dia, Simon, consumido pela ansiedade, abre o e-mail na biblioteca da escola para conferir se tem alguma mensagem de Blue e acaba esquecendo o site aberto. Um colega da escola, Martin, acaba indo ao computador e encontra as mensagens trocadas entre Simon e Blue. Ele aproveita a situação para chantagear o rapaz.
É uma conversa estranha e sutil. Quase não percebo que estou sendo chantageado. Estamos nos bastidores, sentados em cadeiras dobráveis de metal, quando Martin Addison diz:
- Li seu e-mail.
- O quê? – Eu levanto o rosto e olho pra ele.
- Mais cedo. Na biblioteca. Não foi de propósito, é claro. [...]
- Tá tudo bem. Não vou mostrar pra ninguém. – acrescenta ele. Por um minuto, fico estupidamente aliviado. Mas aí eu me toco. - Mostrar?
Ele fica vermelho e mexe na manga da camisa. Alguma coisa na expressão dele faz meu estômago se revirar.
- Você... você fez uma captura de tela, por acaso? - Ah, então, eu queria conversar com você sobre isso. - Espera aí... você fez uma captura de tela?
O chamado da aventura A recusa do chamado O auxílio sobrenatual A passagem pelo primeiro limiar O ventre da baleia
Ele aperta os lábios e olha para um ponto atrás de mim.
- Enfim – diz – Eu sei que você é amigo da Abby Suso e queria pedir...
- É sério isso? Acho que a gente devia voltar para a parte em que você me explica por que fez captura de tela dos meus e-mails.
Ele hesita.
- Ah, é que estou aqui imaginando se você não quer me ajudar a falar com a Abby. (ALBERTALLI, 2016, p. 7-9).
É nesse momento que Simon recebe o seu chamado para a sua jornada. O rapaz não passará por uma simples aventura como muitos dos heróis gregos já descritos anteriormente ou como a dos contemporâneos que vivenciaram longas aventuras em universos fantásticos. O personagem enfrentará não só uma série de percalços mas também uma viagem até o seu mais íntimo, afinal, o seu chamado vai além de um chamado aventureiro, é um chamado para uma viagem em busca de si mesmo. Até o momento, Simon estava protegido dentro do armário e conseguia performar uma identidade que não levantava suspeita das pessoas e lhe permitia circular por diversos ambientes sem chamar atenção. Agora, com Martin sabendo do seu segredo, sua identidade corre perigo e ele tem uma escolha: aproveitar a oportunidade para fazer com que todos saibam quem ele realmente é ou ceder ao suborno e garantir mais tempo na tranquilidade e no conforto do armário que habita. Para Campbell (2007), o chamado da aventura simboliza a transferência do herói para uma região desconhecida. É evidente qual seria essa região para Simon: a área que se estende para além das portas do guarda-roupa em que ele se esconde. Assim, sua jornada não é sobre evitar que sua verdade seja contada ou descobrir a identidade de Blue, a jornada de Simon é deixar que sua identidade homoafetiva transpareça para além das barreiras que ele construiu ao longo da sua vida.
Nesse momento da narrativa, é perceptível a quebra do cronotopo idílico-cíclico (BAKHTIN, 2018), uma vez que se deixa o ciclo juventude-velhice que molda a identidade de muitos heróis para seguir um fluxo que vai do idealismo ao ceticismo e à resignação. Ou seja, na perspectiva do Young Adult, “a vida é vista como experiência e como uma escola pela qual toda pessoa deve passar e obter um só e mesmo resultado: tornar-se mais sóbria” (MORSON & EMERSON, 2008, p. 426). Diante disso, a narrativa de Simon não seguirá apenas um desenrolar proveniente de uma ameaça de tirá-lo do armário, mas uma jornada de acabamento de si mesmo, sobretudo a partir do outro virtual com quem conversa – Blue –, que terá como resultado um processo de coesão mais clara entre ele e o mundo que habita. Afinal, a homoafetividade só é um problema para o herói porque ele foi levado a acreditar que essa é uma identidade problemática socialmente e que, estando escondida, pode acarretar-lhe menos
dificuldades. A narrativa, então, dará conta dessa tentativa de Simon construir uma projeção identitária coesa em um ambiente que parece aceitá-lo apenas se mutilado identitariamente.
O interessante é que o rapaz não teme a zona para além do armário pelas razões habituais: exclusão, rejeição dos amigos, expulsão de casa etc. Ele não quer que as pessoas descubram que é gay porque tem medo de que tudo mude, medo de que as pessoas já não o reconheçam mais como Simon e que sua identidade nunca mais seja a mesma. Para ele, é mais confortável se manter escondido, performando seus desejos apenas nas suas mensagens secretas com Blue. E é movido por isso que ele recusa o seu chamado.
No começo, eu não entendia por que Leah odiava Abby, e perguntar diretamente o motivo não foi a melhor tática. “Nossa, ela é demais. Afinal, é líder de torcida. E é tão linda e magra... Ela é muito incrível, não é mesmo?” Você precisa entender que ninguém domina a arte da indiferença como Leah. Mas acabo reparando em Nick trocando de lugar com Bram Greenfeld no almoço, uma troca calculada, planejada para potencializar suas chances de se sentar perto de Abby. E, depois, nos olhos. Os famosos olhares demorados e apaixonados de Nick Eisner. Já vimos essa história nauseante com Amy Everett no fim do nono ano. Mas preciso admitir que tem alguma coisa fascinante na intensidade nervosa de Nick quando ele está a fim de alguém. Quando vê esse olhar no rosto de Nick, Leah se fecha. O que significa que existe um bom motivo para eu ser a amiguinha casamenteira de Martin Addison. Se Martin e Abby ficarem juntos, talvez o problema de Nick acabe. Aí, Leah vai poder relaxar, e o equilíbrio será restaurado. Então, não se trata só de mim e de meus segredos. Não tem nada a ver comigo. (ALBERTALLI, 2016, p. 15-16).
Leah, Nick e Abby são os melhores amigos do protagonista. Leah é a amiga mais antiga dele, assim como Nick. Abby acabou de chegar na cidade e entrou para o grupo. A menina gera tensão porque Nick está apaixonado por ela e não percebeu que Leah sempre foi apaixonada por ele. Essa é a justificativa de Simon para embarcar na ameaça de Martin e manter sua condição sexual escondida. Afinal, na cabeça dele, promover uma aproximação entre Martin e Abby faria com que Leah tivesse caminho livre até Nick. Simon decide recusar o chamado para a sua jornada, dando início ao segundo momento da sua partida. Cambpell (2016) descreve essa recusa como o momento de conversão da aventura em sua contraparte negativa em que, “aprisionado pelo tédio, pelo trabalho duro ou pela ‘cultura’, o sujeito perde o poder de ação afirmativa dotada de significado e se transforma numa vítima a ser salva” (p. 66-67). Simon não percebe de imediato a escolha errada que fez, ou, como na tentativa de se proteger de alguém que usa de sua identidade para fazer chantagem, acaba sendo guiado para um caminho que o faz machista em relação a sua amiga. Essa é uma das questões que ele terá de lidar no futuro no seu processo de amadurecimento. No final das contas, o que o prende é exatamente a
agenda homo sapiens a qual ele menciona no futuro da narrativa, mas não imagina sua complexidade.
Para além disso, a recusa do chamado dialoga inteiramente com a discussão elaborada no chamado da aventura de Simon, afinal, se o rapaz inicia uma narrativa com o fito de adquirir coesão identirária e se nega a isso logo em seguida ao optar por permanecer na sombra, parece haver uma escolha de permanecer com sua máscara que passa despercebida e um papel, em termos literários, plano. Isso porque, ao escolher manter uma aparência do Simon adolescente que vai à escola, é fã de Harry Potter, tem uma família progressista e amigos, Simon parece ser apenas mais um jovem igual a muitos outros. Não há um elemento identitário que atraia problemáticas sociais para a sua vida, sobretudo se somarmos o fato de ele ser branco, classe média, norte-americano e livre de qualquer questão aparente que o coloque como alvo de violências sociais. No entanto, todas essas peças identitárias entram em conflito ao se adicionar a peça da homossexualidade. Independentemente da sua posição de privilégio, o discurso anti- homossexualidade circula por todos os meios sociais. O padrão da sexualidade, a heterossexualidade, é o modelo hegemônico e difundido como forma única de ser. Na escola, em casa e nos demais locais que frequenta, é isso que se espera dele como homem. É justamente da não concordância do herói no que tange a sua sexualidade que brota o nó/complicação da narrativa. Seu grande trabalho será fazer seus outros pedaços identitários entrarem em coesão com essa última peça tão “problemática”. Ainda sobre isso, ao retomar a questão dos padrões impostos pelo sistema, como já discutida no primeiro capítulo, é evidente que a planificação da identidade recai muito bem sobre aqueles que estão de acordo com o próprio sistema.
O positivismo que guia a naturalidade dos acontecimentos do mundo e o conformismo dado pelas religiões faz com que muitos sujeitos não adquiram consciência de sua própria situação como sujeito. Estar dentro do espectro identitário mais aceito facilita para que essa consciência demore a chegar, chegue fraca ou nunca chegue. Ser posto em evidência por possuir uma identidade destoante, como a homoafetiva, chama o sujeito para repensar seu espaço social. Esse chamado demanda um arredondamento em termos literários e uma fuga da alienação em termos reais. Compreender seu lugar no mundo demanda um duelo com as forças de alienação e, ao fim do embate, um posicionamento: estabelecer-se no local que tenta corroer essas forças de dominação ou se ocultar do embate e apenas gozar dos benefícios dessa omissão e daqueles que escolheram lutar. Refletir sobre isso é importante para que se compreenda, por exemplo, a razão de muitos leitores de Harry Potter não terem migrado para o YA por sentirem falta da abordagem dos desejos dos personagens, da representação LGBT ou negra ou de
qualquer outro aspecto identitário. Ora, dado o número enorme de leitores, a série do jovem bruxo tinha uma série de leitores que se enquadra no caso mencionado anteriormente, pessoas que nunca precisaram questionar seu lugar no mundo por conta de sua condição sexual, cor ou situação econômica. Essas pessoas tendem a possuir pouca necessidade por si só de construir relações de alteridade com o diferente. Em contrapartida, quem já é diferente e sente essa diferença pelas relações que tece em seu cotidiano sente essa necessidade de ver a si mesmo nas representações literárias e cinematográficas, ou seja, é esse o público que migra dos primeiros best-sellers para esse último. A arte não tem o compromisso de ajudar ninguém, mas, sem querer, faz isso, e o Young Adult só ajuda com o acabamento aqueles que dele precisam.
No final das contas, é justamente essa identidade homoafetiva que, além de ser a engrenagem que faz movimentar a narrativa, faz com que Simon adquira um caráter redondo. Ora, o herói sem identidades sociais que o submeta às margens, ou sem percalços psicológicos que o faça ver o mundo de uma forma diferente e conflituosa ou ainda sem qualquer potencialidade de querer mudar a estrutura do mundo ou, por fim, refletir sobre suas posições sociais materializará o mundo que observa como dado e agirá sobre ele como se tudo fosse determinado a ser daquele jeito e não tivesse outro caminho a ser seguido. É exatamente a partir da mudança desse paradigma de um mundo dado para um mundo criado que a literatura experimentou mudanças na modernidade, como na virada do Romantismo para o Realismo, em que as ações quase impulsivas e apaixonadas foram substituídas por ações igualmente impulsivas e apaixonadas, porém com um psicológico e consciência por trás que davam razões sociais para tais além de mero destino ou inconsciente sem responsividade. Ao contrário do Harry Potter sem sexualidade, da Bella sem voz diante do vampiro e da Katniss que, ao final da jornada, abraça o papel patriarcal da mulher, Simon percorre um caminho de tomada de consciência que o dá acabamento no sentido de arredondá-lo e representar verdadeiramente o processo genuínio de crescimento dos sujeitos.
É, por fim, o aspecto da homossexualidade que impulsiona o herói para além da alienação do sistema ao qual está submetido. A identidade gay, por si só, é um artefato que incomoda o sistema capitalista para muito além da obviedade conservadora do casamento hétero ou da reprodução. O ser gay é um incômodo social porque ele suscita um desenfreado ciclo de outros incômodos. A homofobia, série de atitudes e sentimentos negativos em relação a pessoas homossexuais, tem como grande pai o machismo, que, por sua vez, possui sua gênese nas estruturas do patriarcado. O mesmo discurso que tem condenado mulheres, há séculos, a serem subservientes aos homens é o mesmo que dita como homens e mulheres devem se portar,
como gays e lésbicas devem se curar de uma perturbação e que nega a existência de pessoas transexuais. Lutar pela identidade homoafetiva e se declarar gay é, para o sistema, o primeiro dominó de uma sequência que cai e ameaça desencadear uma série de outras micro revoluções; à medida que gays e lésbicas lutam pelo seu direito de amar quem quiserem, eles lutam pela libertação das mulheres, por visibilidade para as pessoas transexuais, por maior visibilidade da situação dos LGBTS negros e, por vezes, de periferia, pela luta por políticas de saúde contra o HIV e por uma série de pautas que, no caminho do percurso, podem descobrir que a intolerância e a opressão só existem porque beneficia o sistema que rege essas pessoas. E quando essas pessoas se derem conta disso, como o sistema as conterão?
É contra esse sistema que Simon luta. O sistema é seu grande inimigo. A sua vida só enfrenta uma crise identitária graças à Agenda homo sapiens. É essa agenda de normatização identitária que está enfrentando um bombardeamento de forças centrífugas e centrípetas nos últimos anos. Não cumprir os parâmetros da agenda ocasiona punições ao sujeito, mas não seguir também forma um sujeito escondido em si mesmo e podado de seus desejos. Nesse dilema, a juventude, em seu pleno processo de formação identitária, passa por um processo doloroso enquanto se prepara para uma vida mais ativa socialmente; mas, antes, precisa sobreviver a esse processo de coesão, ou se esconder dele.
A recusa do chamado de Simon não demora a virar tortura, ainda mais quando está envolvido nesse processo o assumir-se como se é. Simon está decidido a ignorar sua condição com medo de que as coisas mudem, porém suas pulsões cada vez mais latentes como sujeito juvenil e em processo de puberdade e sua relação com Blue – que visivelmente deixou de ser uma mera amizade pautada na condição semelhante e começa a se transformar em amor – fazem criar fatores que começam a induzir o herói a repensar sua recusa. Forças começam a surgir na tentativa de destruir essa recusa, e a mais forte é, sem dúvida, o próprio Blue e o veículo de comunicação que ele proporciona.
É uma história bem sexy, Blue. Sabe, o ensino fundamental é um show de horrores sem fim. Ah, talvez não sem fim, porque já acabou, mas deixa marcas na psique da gente. Não importa quem você seja. A puberdade é impiedosa.
Fiquei curioso. Você chegou a ver o cara depois do casamento do seu pai?
Não sei muito bem como foi comigo. Foram várias coisinhas. Por exemplo, um sonho estranho que tive com Daniel Radcliffe. E a obsessão que eu tinha pelo Passion Pit no fundamental, que depois percebi que não era bem por causa da música.
No oitavo ano, tive uma namorada. Foi um daqueles “namoros” em que você nem sai com a menina fora da escola. E, mesmo na escola, não faz nada. Acho que ficávamos de mãos dadas. Fomos ao baile de fim de ano juntos, mas meus amigos e eu passamos a noite toda comendo Doritos e espiando as pessoas debaixo da arquibancada. Em determinado momento, uma garota aleatória chegou para mim e disse que minha namorada estava na frente do ginásio me esperando. Eu tinha que ir até lá me
encontrar com ela, e acho que a gente devia dar uns amassos. Daquele jeito de colégio, beijo com a boca fechada.
Meu momento de maior orgulho: saí correndo e me escondi no banheiro, feito uma criança ridícula. Fiquei dentro da cabine, com a porta fechada, encolhido em cima do vaso para minhas pernas não aparecerem por baixo. Como se as garotas fossem invadir o banheiro atrás de mim. Juro para você, fiquei lá a noite toda. E nunca mais falei com a minha namorada.
Ainda por cima, era Dia dos Namorados. Porque uma coisa que eu tenho é classe. Então, para ser totalmente sincero, eu já sabia naquela época. Só que tive mais duas namoradas depois disso.
Sabia que este é oficialmente o e-mail mais longo que já escrevi? Sério. Você deve ser a única pessoa que recebe mais do que 140 caracteres de mim. Isso é meio incrível, né?
Enfim, acho que vou acabar por aqui. Não vou mentir. Hoje foi um dia meio estranho. Jacques
<ENVIADO 17 OUT 00:06>. (ALBERTALLI, 2016, p. 17-18).
A terceira parte da partida é a ajuda sobrenatural, a qual aqui se converte em ajuda virtual. Blue não é apenas um sujeito com o qual Simon pode conversar abertamente sobre sua homoafetividade, mas é também um outro capaz de exercer, como nenhum outro colega do herói, um papel importante no processo de alteridade e empatia com o outro. Bakhtin (2011) aborda o que ele chama de excedente de visão como sendo o resultado de uma contemplação- ação entre dois sujeitos em que, no meio desse processo, ao contemplar e interagir com o outro e voltar para si, algo acontece. Nas palavras do autor, o excedente de visão “é o broto em que repousa a forma e de onde ela desabrocha como uma flor” (BAKHTIN, 2011, p. 23). Assim, Simon experimenta, ao entrar em interação com Blue, a possibilidade de ler relatos de alguém que está na mesma condição que ele: gay, aluno do ensino médio, escondido no armário e cheio de vontades que não podem ser reveladas no meio social. Nesse processo de contemplação do outro, fica cada vez mais evidente para Simon a sua condição como gay, assim como fica mais evidente para Blue. E é nesse paradigma que surge a ajuda “virtual”. Enquanto Simon dialoga com seu amigo virtual e sua condição homoafetiva fica cada vez mais clara para si mesmo, também fica clara a emergência de deixar que isso saia do plano das ideias e adentre o mundo social por meio da performance. A ajuda sobrenatural é uma figura que representa o poder bom e protetor do destino (CAMPBELL, 2007), o qual garante ao herói que seu caminho será iluminado e guiado pelo que o destino reserva. No Young Adult, a fantasia e as promessas de destino não se fazem presentes. Os heróis estão no mundo, relegados ao acaso e ao sistema que atua sobre eles. Assim, Simon não tem em Blue uma ajuda sobrenatural e mágica, mas tem um igual, um sujeito que o completa e o dá acabamento, afinal, Simon reconhece em Blue a si