5 PANORAMA DOS PROFISSIONAIS QUE TRABALHAM COM CIÊNCIAS
5.1 PARTINDO PARA UMA ANÁLISE CONTEXTUALIZADA:
5 PANORAMA DOS PROFISSIONAIS QUE TRABALHAM COM CIÊNCIAS
reverbera apontamentos obtidos a partir das respostas dos questionários, dadas as devidas proporções da técnica de coleta de dados e a quantidade de participantes envolvidos.
Conseguiu-se obter 171 respostas34 aos questionários, um contingente importante, dado que, de acordo com dados da equipe técnica da Secretaria Municipal de Educação, no ano de 2019 havia 298 profissionais lecionando Ciências nos Anos Iniciais. Desta forma, o percentual de respostas correspondeu a 57,4% do total de profissionais.
Dentre as respostas, a maioria, 95,3%, são de profissionais do sexo feminino, com apenas 4,1% de docentes do sexo masculino e 0,6% de abstenção, corroborando com as pesquisas que discutem sobre o fato de a docência nos anos iniciais ser predominantemente feminina (TARDIF, 2013; LIMA, 2015).
Sobre o exposto, as informações também acompanham o levantamento do Censo Escolar 2021 (BRASIL, 2021, p.40), no qual, em termos de território brasileiro, nos anos iniciais, há 88,1% dos docentes do sexo feminino e 11,9% do sexo masculino.
Outro dado levantado foi em relação à faixa etária dos participantes, sendo que grande parte se encontra na faixa etária dos 31-40 anos (46,2%), seguida da faixa etária dos 41-50 anos (24,6%), conforme exposto no gráfico da Figura 5:
Figura 5. Gráfico sobre a faixa etária dos docentes que lecionam Ciências nos anos iniciais na rede municipal de Campo Grande/MS (%).
Fonte: questionários propostos aos docentes pelas pesquisadoras (SOBRINHO, PIERSON, 2022).
No que se refere ao tempo de docência, conforme o gráfico da Figura 6, 59,6%
dos participantes da pesquisa apontaram ter entre 1 e 10 anos, esse dado pode estar
34 O total de questionários respondidos foi de 179, contudo, 8 questionários foram excluídos, pois 6 professores responderam 2 vezes e 2 outros professores não estavam lecionando Ciências, mas no apoio pedagógico.
9.9%
46.2%
24.6%
12.9%
4.1%
2.3%
20 - 30 ANOS 31- 40 ANOS 41 - 50 ANOS 51-60 ANOS 60 - 70 ANOS ABSTENÇÃO
0.0% 10.0% 20.0% 30.0% 40.0% 50.0%
correlacionado ao ingresso dos docentes em um concurso realizado em 2016, com vagas ofertadas para profissionais da Pedagogia e Normal Superior. A inferência corrobora com o exposto pelas análises de Brizueña (2021), de que no momento da posse dos ingressantes a maioria das vagas ofertadas eram para o ensino de Ciências nos Anos Iniciais.
Figura 6. Gráfico sobre o tempo de docência dos participantes da pesquisa (%).
Fonte: questionários propostos aos docentes pelas pesquisadoras (SOBRINHO, PIERSON, 2022).
Ainda sobre o gráfico da Figura 6, verifica-se que o tempo de docência se concentra abaixo dos 10 anos (62,5%), reafirmando a entrada na docência de Ciências nos anos iniciais de professores com menos tempo de atividade, se comparado aos docentes que estão com experiência de docência acima de 11 anos (36,3%).
Figura 7. Gráfico sobre o vínculo empregatício dos docentes (%).
Fonte: questionários propostos aos docentes pelas pesquisadoras (SOBRINHO, PIERSON, 2022).
2.9%
59.6%
24%
8.7%
2.4%
1.2%
1.2%
MENOS DE 1 ANO 1 A 10 ANOS 11 A 20 ANOS 21 A 30 ANOS 31 A 40 ANOS 41 A 50 ANOS ABSTENÇÃO
0.0% 10.0% 20.0% 30.0% 40.0% 50.0% 60.0% 70.0%
49.1%
46.8%
2.4%
1.7%
CONTRATO CONCURSO CONTRATO/CONCURSO ABSTENÇÃO
0.0% 10.0% 20.0% 30.0% 40.0% 50.0% 60.0%
Com relação ao gráfico da Figura 7, aponta-se que a maior parte dos professores estavam trabalhando sob vínculo contratual, mesmo após a convocação pelo concurso de 2016, evidenciando que a demanda de professores para Ciências nos Anos iniciais não foi suprida pelo concurso.
O contingente de docentes com vínculo contratual também pode revelar certa fragilidade nas relações de trabalho em virtude de os contratos se darem pelo prazo máximo de um ano na Prefeitura, com maior possibilidade de troca de docentes e de não continuidade de propostas pedagógicas em anos posteriores, colocando os profissionais numa situação precária35 (TARDIF, 2012) no que diz respeito à impossibilidade de viverem um continuum pedagógico com os alunos e com uma instituição educacional.
Sobre este aspecto, a realidade exposta na rede municipal de Campo Grande/MS não é exclusiva, pois reverbera o que também ocorre pelos municípios brasileiros. Nesse sentido, Seki et al (2017) realizaram a pesquisa intitulada “Professor temporário: um passageiro permanente na educação básica brasileira”, apontando que, no cenário brasileiro dos censos educacionais de 2011- 2015, cerca de 41% dos professores estavam sob a condição de trabalhadores temporários, a maioria nas redes municipais, precisando
“descobrir” ao final de cada contrato, como continuarão garantindo o seu sustento.
Compreendemos ainda que a mudança de instituição escolar requer uma adaptação ao ambiente físico e humano num espaço “novo” para o docente, contemplando as formas da instituição de ensino funcionar, os alunos, os demais professores, a gestão educacional, entre outros aspectos que compõem a cultura organizacional. Assim, mudar frequentemente de escola pode corresponder a um recomeçar, exigindo toda uma adaptação e gerando excesso de trabalho e estresse quando não se consegue estabelecer vínculos e suporte adequados no contexto de trabalho, colocando-se os docentes, muitas vezes iniciantes na carreira, numa situação de precarização relativa à possibilidade de aprendizagem rotinizada ainda a pouco citada (TARDIF, 2012).
Nesse contexto, embora o docente tenha um compromisso “durável” com a profissão e entenda as questões problemáticas desta, pode ter a sua dimensão identitária torna-se menos forte, sendo “arrastado” aqui e acolá, pois, apesar de seu compromisso com a educação, as condições de frustração as quais ele é frequentemente submetido o
35 Nos referenciamos nos estudos de Tardif (2012) para a acepção desta expressão e não no sentido estrito contido nesta.
colocam numa posição desfavorável ao seu comprometimento enquanto docente (TARDIF, 2012).
Compartilhamos da ideia de que é impossível não haver professores
“temporários”, tendo em vista as descontinuidades no trabalho docente mediante licenças saúde, maternidade etc. Algumas redes de ensino contam com profissionais efetivos, inclusive, para esse modo de trabalho (exemplo de municípios do interior paulista, tais como Campinas, Jundiaí e Paulínia).
Outrossim, como demonstrado, o percentual de docentes não efetivos “supera”
muito o que poderia estar relacionado às ausências via licenças de professores efetivos para a docência em Ciências nos Anos Iniciais (quase 50% do quantitativo). Outro ponto relevante é de que a proposta de se lecionar em regime de especificidade a disciplina de Ciências também é nova, o que pode, de certo modo, justificar o regime contratual, pela ainda instabilidade ou mesmo continuidade da própria proposta para os próximos anos.
Figura 8. Gráfico da carga horária dos docentes participantes da pesquisa (%).
Fonte: questionários propostos aos docentes pelas pesquisadoras (SOBRINHO, PIERSON, 2022).
Nos dados contidos no gráfico da Figura 8 chama a atenção o quantitativo de abstenções nas respostas acerca da carga horária, correspondendo a 21,6%. Nesse sentido, nos pautando em conjecturas, refletimos que em caso de carga horária com caráter contratual, expor essa informação pode representar um fator de insegurança para os professores que estão sob a condição, dado o receio de perder o posto de trabalho se as respostas quanto ao vínculo e a carga horária forem correlacionadas a parte das informações básicas (nome do participante), contexto que aqui não foi exposto por não se configurar nem necessário, e, sobretudo ético, em termos de pesquisa.
13.4%
48%
1.2%
15.8% 21.6%
MENOS DE 20 HORAS
20 HORAS 21 A 30 HORAS 31 A 40 HORAS ABSTENÇÃO
0.0% 10.0% 20.0% 30.0% 40.0% 50.0% 60.0%
Ainda sobre o gráfico, em termos gerais, a maior parte dos docentes respondeu que apresenta uma carga horária com o Ensino de Ciências nos anos iniciais 20 horas, correspondendo a carga horária de um período de trabalho na rede municipal.
Assinalamos ainda que do total de respostas, 64,9% afirmaram trabalhar com outras atividades docentes, sendo que 35,1% desse contingente também leciona como professor de outras disciplinas da grade curricular.
Tendo em vista os dados expostos, observa-se, mais uma vez, um aspecto que pode levar os professores a uma situação precária, assumindo paralelamente carga horária em outras disciplinas e turmas, as quais mudam de um ano para outro, conforme mudam de escola.
Figura 9. Gráfico com o número de escolas que cada docente leciona Ciências nos Anos Iniciais (%).
Fonte: questionários propostos aos docentes pelas pesquisadoras (SOBRINHO, PIERSON, 2022).
A partir do gráfico contido na Figura 9 tem-se que a maior parte dos docentes trabalha em uma escola apenas, fator que se relaciona com o contingente da carga horária de 20h. O fato do desenvolvimento do trabalho se dar em uma Escola pode possibilitar maior relação com o contexto da comunidade escolar e as suas demandas, se apresentando positivo em meio ao número de professores com vínculo contratual.
Em relação à formação inicial para a investidura no cargo dos anos iniciais tratada no gráfico da Figura 10 a seguir, conforme exposto anteriormente neste trabalho36 com as legislações regulatórias tem-se a para a docência nesta fase a exigência de licenciatura em Pedagogia ou Normal Superior, ou ainda, em Magistério à nível médio como
36 Discussões apresentadas no Capítulo 3.
75.4%
17%
1.7%
0.6%
0.6%
4.7%
01 ESCOLA 02 ESCOLAS 03 ESCOLAS 05 ESCOLAS 07 ESCOLAS ABSTENÇÃO
0.0% 10.0% 20.0% 30.0% 40.0% 50.0% 60.0% 70.0% 80.0%
formação mínima. No caso da especificidade do Ensino de Ciências em Campo Grande - MS, verifica-se que 86% das respostas ao questionário estão compreendidas na licenciatura em Pedagogia/Normal Superior e outras 10,5% de outras licenciaturas com ou sem o magistério.
Figura 10. Formação inicial dos professores participantes da pesquisa (%).
Fonte: questionários propostos aos docentes pelas pesquisadoras (SOBRINHO, PIERSON, 2022).
No que se refere à outras licenciaturas sem o magistério/Pedagogia/Normal Superior, dos 2,9%, parte destes professores são formados em Ciências Biológicas (6 profissionais), e os demais docentes têm habilitações em Letras e Arte (2 profissionais).
Sobre as pós-graduações, 59,4% dos participantes da pesquisa relataram ter especializações (lato-sensu), sendo que deste total, 4% são na área do Ensino de Ciências.
3,5% das respostas ao questionário são de professores que possuem mestrado e nenhum assinalou possuir doutorado já concluído.
5.2 O POSICIONAMENTO DOCENTE NAS REFLEXÕES E VIVÊNCIAS DO