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Passe em profundidade

No documento Internem-me! Só posso estar louca! (páginas 43-54)

Ao longo do rio Tejo recordou a conversa com o Capitão. A insistência para arriscar, a insistência para contar a verdade... parecia tudo muito lógico, se bem que para ele continuava tudo muito arriscado.

«Arriscado demais!»

«O que é arriscado demais?» «Sofia!»

«Olá. Assustei-te? Pensei que me tinhas visto.» «Não.»

«O problema deve ser mesmo muito complicado! Posso ajudar?»

«Como assim?»

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«Desculpa. Estava no meio das minhas dúvidas.» «Bem, como filósofo, assim se espera.»

«O quê?»

«Que tenhas dúvidas! Hoje estás de todo. Aéééreo!»

Sorri. Inspira fundo e questiona-se como agir. Ela parece gostar do filósofo. E do jogador? Será que gosta?

«É só isso que vês em mim?» «Só isso o quê?»

«Um filósofo.» «Estás bem?»

«Vais responder?» - ficou boquiaberta com a rispidez - «Eu estou bem. Quero saber se é apenas isso que vês em mim.»

«Mal nos conhecemos. O que conheço de ti é a tua paixão por filosofia e por futebol. Simpatizo contigo, gosto da tua companhia – pese embora, hoje estejas a assustar-me – e quero conhecer-te melhor, mas não sei ainda o que ver em ti. Não te conheço.»

Abraça-a com força e solta vezes seguidas a palavra perdão. Ao afastar-se sente o braço a gritar de dor. Contorce-se todo e agacha-se. Ela acompanha-o e, de cócoras, pergunta:

«Estás bem? O que se passa? Estás a assustar-me!» «Esta lesão está a deixar-me louco. Estar parado não é para mim. Preciso de movimento.»

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«Como assim?»

«Há semanas que não corro, não jogo e agora nem abraçar posso!» - disse-o sem pensar.

«Tu não podes, mas eu posso.» «O quê?» - focado no futebol.

«Abraçar-te! Eu posso abraçar-te. Com cuidado, para não te magoar, lá aparece o abraço desejado.» - afasta os braços e envolve-o num abraço cheio de cuidado - «Vês. Há sempre uma solução.»

(sorri) «Agradeço o abraço, mas só me podes ajudar nisto. E acredita, sinto-me de verdade grato pelo teu gesto, pelo teu carinho, cuidado.»

«Então! Não me digas que estás assim por causa do futebol!»

«O quê?»

«Queres jogar com os teus amigos e não podes. É isso?»

«É mais ou menos isso! Estou a ficar perro! Preciso de movimento.»

«Hum... bem, quanto a isso...» - suspira fundo - «Futebol... não percebo nada disso!»

«Posso ensinar-te. Tens que querer. Pelo menos tens que estar aberta a ideias diferentes.»

«Como? Para quê?»

Ergue-se rapidamente, empurrado por mais uma tentativa de a fazer entender o futebol. Ela acompanha-o até à esplanada. Sentam-se e ele pergunta:

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«Vês o futebol como um desporto sem graça, menor em relação a tantos outros. Certo?»

«Sim.»

«Ok. Então falemos do teu desporto preferido. Qual é?»

«Atletismo.»

«Pensa comigo. Os atletas de alta competição, até atingirem o auge da sua carreira - e mesmo depois - passam por situações complicadas.»

«Só posso tentar imaginar!»

«Os treinos constantes, as dores, as lesões, as provas menos conseguidas, tudo o que abdicam para se dedicar de corpo e alma à carreira que escolheram... a vida de atleta não é fácil. Os treinadores e os atletas têm que saber lidar com tudo isso. Certo?»

«Certo. E então?»

«Não deve ser fácil lidar com a personalidade de cada atleta, com as dificuldades, com os medos, com as inseguranças, com as suas necessidades e mesmo assim conseguir que se sinta motivado, que esteja focado no objectivo e concentrado nos treinos e nas provas.»

«Verdade!»

«Agora, imagina o quão difícil seria lidar com um atleta de topo com múltiplas personalidades, cada uma a puxar para o seu lado. Seria de loucos!» (risos) «Literalmente!»

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múltiplas personalidades, cada uma a puxar para o seu lado. Em algumas equipas chegam a ser mais de vinte personas diferentes com necessidades, objectivos, motivações e diversas percepções. E na verdade todos devem estar focados no mesmo objectivo – o da equipa.»

«Hum... ok, estou a perceber onde queres chegar.» «Um treinador de futebol e respectivos jogadores vivem com isto diariamente. O treinador tem os objectivos da equipa definidos. Para os alcançar, ele conta com a ajuda dos onze titulares e mais dois ou três suplentes por posição. Imagina agora a competição dentro do plantel. Todos querem jogar e são poucas as vezes que os suplentes são utilizados. Há uma máxima no futebol e na vida que diz que "em equipa que ganha não se mexe". Será possível este treinador ganhar alguma coisa se não souber gerir e liderar as várias personalidades "do seu atleta de alta competição"? Achas que ele consegue alcançar os objectivos se não souber utilizar a competição entre as várias personalidades em prol da equipa? E sucesso? Achas que ele consegue ter sucesso se não souber unir os jogadores e transformar o objectivo da equipa no objectivo de todos, para conseguir que se ajudem em vez de se prejudicarem?»

«Não, claro que não!»

«E agora diz-me, achas possível fazê-lo sem inteligência?» - aguarda a resposta, enquanto ela se contorce com o raciocínio dele. - «Não precisas de responder. É uma pergunta retórica. Por tudo isto te

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disse que, como estudante de filosofia, vejo o futebol como um rico tema de reflexão. Não o jogo e sim o que o sustenta. A paixão que une jogadores, treinadores, adeptos e dirigentes, a sabedoria humana a que a interacção do jogo obriga e, principalmente, a magia que se sente dentro de um estádio. Para mim, o futebol não é um jogo. Para mim, o futebol é um bailado de almas. A alma humana está em cada movimento, em cada lance, em cada estratégia, em cada grito… a alma humana enriquece o jogo, qualquer jogo, se bem que este - o futebol - ganha muito mais. Não quero com isto dizer que o futebol é melhor que qualquer outro desporto ou jogo. Não é. Apenas move mais almas!»

O silêncio manteve-se por largos minutos. Ela não sabia o que dizer. Ele já tinha dito tudo o que havia a dizer. Os olhares apenas se tocavam.

Ela encolhia-se; sentia-se pequenina porque tudo o que dizia fazia sentido. Assim conseguia perceber o porquê de se controlar. Depois de tanto preconceito, como poderia esperar que ele se interessasse por ela. Mesmo assim, sentia vergonha em admitir que ele tinha razão.

Ele também temia que aquela conversa a afastasse. Mesmo com tanto preconceito em relação a algo que não conhecia, gostava da companhia dela. Gostava das conversas e dos passeios a dois. Ela era um desafio constante para ele. Adorava a atenção que dava a todos os assuntos que ele tanto gostava de abordar e a forma como o questionava

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constantemente. Não sabia como iria reagir ao atropelamento da sua convicção preconceituosa sobre um futebol de burros e para burros.

«Parece que tenho que me desculpar. É um desespero para mim ouvir falar de futebol. E ouvir jogadores então! Para além de tudo o que já disse no outro dia, há coisas que me irritam profundamente. Sou apaixonada pela língua portuguesa e não consigo aceitar que um português não saiba falar corretamente uma língua tão bonita como a nossa.»

«Nisso concordo contigo. A verdade é que a língua portuguesa é maltratada todos os dias por muita gente. Os jogadores de futebol apenas têm maior visibilidade. Quer dizer, os políticos também a maltratam, se bem que esses ninguém ouve!» (risos) «Lá isso é verdade!»

A conversa continuou ao som do gozo permanente com as gafes linguísticas que se ouvem e lêem nos meios de comunicação social.

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Remate

Uns dias depois, a Sofia aproxima-se da esplanada, onde já está o Rodrigo sentado. Quando a vê, levanta-se e vai na sua direcção.

«Olha, queres ir dar uma volta a pé? Apetece-me caminhar um pouco!» - estava ansioso; sentia necessidade de lhe contar a verdade de uma vez. «Olá. Dás-me um beijo?!»

«Desculpa! Tens razão! Olá. Como estás?» «Bem. E tu?»

«Preciso de caminhar. Queres dar uma volta?» «Tudo bem. Vamos!»

A caminhada levou-os até a um jardim. Sentaram- se a fitar as águas do rio. Ele começou a contar-lhe sobre uma tarde que passou sentado junto ao Danúbio.

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compara ao nosso Tejo.»

«Vejo que já viajaste muito. Em trabalho ou a lazer?»

«Trabalho, só trabalho!»

«Nunca me disseste com que é que trabalhas…» «Nunca perguntaste.»

«Estou a perguntar agora... trabalhas com quê?» (ele hesita por segundos) «Com bolas.»

(risos) «Mais vago do que isso impossível!»

Nesse momento ele levanta-se e afasta-se lentamente. Ela segue-o em silêncio.

«Tenho uma coisa para te contar.» «Diz lá.»

«Tenho medo!»

«Medo? De quê? Porquê?»

«Tenho medo que isso te afaste de mim. Medo de nunca mais te ver.»

«E porque razão faria isso?» «É o que faria no teu lugar!»

«E quem te disse que eu faria o mesmo que tu?» «És humana. Ninguém gosta de ser enganados.» «Enganada? Como assim?»

A cara dele era um mix de pavor e culpa. Estava ansioso, hesitante e receoso da reacção dela.

«Bem, não sei se quero ouvir o que tens para me dizer.» - várias hipóteses lhe passaram pela cabeça, sem que nenhuma se aproximasse da verdade. «Tenho que te contar a verdade. Não posso permitir que a nossa relação avance mais sem saberes a verdade.»

«Relação? Não percebo Rodrigo. Só te perguntei sobre a tua profissão.»

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«Recordas-te quando disse que é difícil lidar com falsos amores?»

«Sim. Então?»

«Os meus amigos gozam-me muito por não ter namorada. A verdade é que magoa perceber que apenas querem estar contigo por interesse ou vaidade. Enfim, tu não me conheces, nunca me tinhas visto na vida e, mesmo pensando como pensavas, eu gostei de ti.»

«Não estou a perceber! Onde queres chegar com isso?»

«Deve ser difícil perceber e ainda mais aceitar. Nem eu percebo bem... não sei como dizer...» «O quê? O que é que se passa?!»

(inspira fundo) «Trabalho com bolas porque» - expira - «sou jogador de futebol.»

«Hã! Tu? Tu és jogador de futebol? Não pode! Estás a falar a sério?» - não queria acreditar; a expressão dela foi endurecendo.

«Sim.»

«Andaste a gozar comigo este tempo todo?»

«Não Sofia. Nunca perguntaste o que fazia na vida. Limitei-me a conhecer-te. Era isso que queria! Conhecer-te! Apenas aproveitei o facto de não gostares de futebol e de não me conheceres desse mundo, para te conhecer. Como sabia o que pensavas, nunca abordei esse tema!»

«Não abordaste esse tema!? Não fizeste tu outra coisa! Passaste o tempo a tentar mudar-me a ideia!» Ela tentou passar por ele rapidamente. Queria desaparecer dali. Ele segurou-a pelo braço e perguntou-lhe:

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«Se soubesses a verdade, aceitavas conversar comigo? Aceitavas ser minha amiga?»

«Não!» - disse-o de raiva e era o que se via no seu olhar.

«E porquê? Não gostas de mim?» «Não!»

Ela afasta-se com passo apressado e desaparece. Durante semanas rejeita todas as tentativas de contacto dele. Sempre que pensa nele, lembra-se do jantar com os amigos e o tema que escolheram para aquele dia. Ainda sentia mais raiva! Como pôde deixar-se enganar?

O Rodrigo tenta falar com ela por telefone ou pessoalmente. Envia mensagens, telefona e vai todos os dias à esplanada na esperança de a encontrar. E nada!

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