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Internem-me! Só posso estar louca!

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Academic year: 2021

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Internem-me!

Só posso estar louca!

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Título

Internem-me! Só posso estar louca! Edição especial d’autor

2020 Portugal Quarentena Autor

Cláudia Sofia

Copyright © 2013 by Cláudia Sofia

Todos os direitos reservados. Este livro ou parte dele só poderá ser reproduzido ou utilizado com permissão escrita do autor. A utilização de breves citações em artigos académicos ou outros meios estão desde já autorizadas, desde que devidamente identificadas.

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Princípios de jogo

A esplanada estava repleta de corpos a suspirar por uma brisa de ar, vinda da paisagem refrescante do rio Tejo, ali mesmo ao lado. O burburinho das conversas desconexas foi abafado pela algazarra de um grupo de jovens que se apoderou de uma das poucas mesas livres.

«É o que vos digo, aqueles gajos não têm jeito nenhum! São tão burros!» - a mulher que os conduzia era a que melhor se ouvia. - «Venham! Temos ali uma mesa.» - sentou-se de frente para o rio, a fitar o brilho do sol refletido nas longas águas do Tejo.

«Oh Sofia, isso é um bocadito preconceituoso. Não te parece?»

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de bola, bola e mais bola; depois é gajas, gajas e mais gajas; e no fim é só penteados, roupa e acessórios! Já conheci uns quantos. São tão burros! E andamos nós a pagar isto! Para quê? Passam a vida a dar chutos numa bola! Até parece que não temos mais nada no país. Durante o ano é o campeonato e a loucura de treta pelos clubes; no verão é a loucura pela selecção, que nós pagamos! Não há pachorra!»

«Está bem Sofia. Daí a chamar-lhes burros só por jogarem futebol. É um bocadinho demais! Não te parece?»

(risos) «Tens razão Pedro! Chamar-lhes burros é demais. É um grande insulto aos pobres dos animais, que não têm culpa alguma. São ocos demais para serem burros!»

A mulher estava convicta do que pensava e dizia-o em alto e bom som; como era barulhenta - com certeza estariam a ouvi-la na margem Sul.

«Oh! Nunca pensei que fosses tão preconceituosa.» - a desilusão na única voz que tentava contrariá-la; os outros apenas abanavam a cabeça e riam.

«Lá estás tu! Já te disse, não sou preconceituosa! Apenas realista! Olha, diz-me um tema interessante para falar com eles. E que não seja sobre futebol.» «Ai tanta contradição!!! Sabes que o que é interessante para ti pode não o ser para os outros!» «Pois! Não te lembras de nada! É o que te digo, são completamente ocos; não têm nada de interessante para dizer; e são pagos a peso de ouro!»

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«Com tanto preconceito vais casar com um!» (convicta mais uma vez) «Eu? Nunca, nunquinha! No dia em que isso acontecer, internem-me! Só posso estar louca!»

(risos) «Primeiro é nunca e depois já pode acontecer! Ui!!! Qualquer diga casas-te num estádio de futebol!»

Algumas mesas atrás dela estava um jovem com boa pinta a ouvi-la atentamente. Pouco depois, levantou-se e, ao passar pelo garçon, disse em tom de piada:

«Seria tão mais bonita se fosse menos preconceituosa!" - e afastou-se.

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Sistema táctico

Ele é jogador de futebol, estudante de filosofia e apaixonado pela diversidade cultural dos vários países que já teve oportunidade de visitar.

Dali seguiu para o treino que começava pelas 17 horas. Parecia sozinho, se bem que sempre acompanhado por aquela conversa.

Mesmo depois do treino começar, podia perceber-se que algo perceber-se passava. Estava distraído e não era seu hábito desconcentrar-se. Amava aquele jogo como ninguém. Manteve-se abstraído até que um colega de equipa lhe perguntou: "O que é que se passa? Tás tão calado, meu!"

«Foi uma conversa que ouvi quando vinha para cá. Deixou-me com os cabelos em pé e com uma vontade enorme de dar uma lição a uma certa

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jovem.»

«Jovem? É gira? Se quiseres, eu encarrego-me de lhe dar uma lição! E das boas!»

(sem o ouvir) «Fartou-se de dizer que os jogadores de futebol são todos burros. Pior, ainda disse que comparar-nos com os burros era um insulto para os animais de quatro patas. Irritou-me!»

«Que cabra!»

«Também daquela cabecinha não podia sair coisa melhor! É loira! Está tudo dito!»

«E tu? Não lhe disseste nada?»

«Por enquanto. Fiquei com uma vontade enorme de lhe dar uma lição - daquelas para toda a vida!» «E então? O que vais fazer?»

«Quem sabe? Talvez um dia o destino volte a juntar-nos!» - fica com ar pensativo.

«Tenho a certeza que vais dar uma ajuda ao destino! Conta comigo!»

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Aquecimento

O desabafo ajudou-o a libertar-se um pouco da raiva que sentia. Concentrou-se em mais uma semana de treinos.

À medida que a semana passava, sentia maior ansiedade e pressão, porém a felicidade aumentava a cada dia pela proximidade de mais um jogo. Ansiava pelos dias dos jogos. Todo o esforço, todos os sacrifícios que fazia durante a semana se desvanesciam assim que sentia o som do estádio cheio e o cheiro a relva molhada. A energia que recebia das bancadas tornava tudo o resto mais leve e agradável.

Começou mais um jogo com os cânticos dos adeptos a empurrar para uma exibição consistente coroada com uma vitória sobre um directo

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adversário.

Aproximavam-se a passos largos do final do campeonato e eram cada vez mais líderes.

Depois do banho, o colega recordou-lhe da lição prometida.

«E a jovem loira?»

Os outros companheiros de equipa logo gritaram - "Jovem? Loira?! Hum! Gira?" - quase pareciam um coro afinado pelo gozo.

«Eheh! Finalmente decidiste largar os livros e agarrar-te às curvas de uma boazona, filósofo!» «Eh pah! Parem lá com isso!»

«Calma pessoal! Ele apenas quer dar uma lição a uma jovem que nos insultou. Se com isso tiver sorte, bem, há que aproveitar!» - gingava-se todo e ria.

«Insultou-nos?! Que gaja?!» «Oh meu Deus!»

«Desembucha!»

Inspirou fundo. Enquanto susteve a respiração, perguntava-se se deveria falar com eles sobre ela. Ao expirar, ouviu o companheiro a dizer "Estou à espera!".

«Sim! Eu sei que estás à espera. A verdade é que não é nada de especial. Apenas ouvi uma conversa que não gostei. Ainda assim, não sei o que queria dizer. Pode ter sido uma brincadeira, de mau gosto.»

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«Tu acha mesmo meu irmão?» - finalmente uma voz tranquila e serena; era o capitão.

«Fiquei passado com o que ouvi, por que levei

como um insulto pessoal. Foi muito

preconceituosa. Mas era um grupo grande, pode ter sido gozo. Há pessoas assim, muito sarcásticas.» «Hum! E que é que tu vai fazer?» - apenas questionou o capitão com o olhar; era respeitado por todos por ser uma pessoa de bom senso - «Tamo aqui pra ti irmão! Tu sabe que pode contar co'a gente!?»

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Pontapé de saída

A segunda-feira chegou e com ela mais um dia de descanso. Voltou à esplanada, pediu uma água e logo a viu perdida num livro. Sentou-se de frente para ela e aproveitou para a observar enquanto esperava pela água.

Apercebeu-se que, assim em silêncio, é uma mulher muito bonita - "é uma mulher que faz qualquer homem olhar" - pensou.

Não sabia muito bem como a abordar. Pouco tempo levou a reconhecer o livro que ela tinha na mão. Era de Lou Marinoff, um filósofo americano. Já o leu mais do que uma vez.

«Mais Platão, menos Prozac é a desculpa ideal para a abordar. Obrigado meu Deus!»

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(ela olhou surpresa) «Olá!»

«Desculpa interromper a tua leitura. Não é muito habitual encontrar numa esplanada, num dia de calor como o de hoje, uma bonita jovem sozinha a ler "Mais Platão, menos Prozac" do Lou Marinoff. Como sou estudante de filosofia, chamou-me à atenção.»

«Tudo bem! Este título pareceu-me sugestivo.» - algo entusiasmada com a abordagem.

«Muito. Posso sentar-me?» «Claro.»

«Já agora, chamo-me Rodrigo.» «Olá Rodrigo. Sou a Sofia.» «Hum, sabedoria!»

«Sim, sabedoria.»

«E o livro? Estás a gostar?» «É interessante. Já o leste?» «Já, mais do que uma vez.»

«Então sabes bem do que fala.» - testava-o; a imagem dele contrastava com a ideia de "marrão" que tinha dos filósofos.

«Sim. É muito interessante a forma como Marinoff demonstra a saudável contribuição da filosofia na resolução dos problemas pessoais, mesmo assim fica um pouco aquém das expectativas que o título lança nos leitores.»

«Engraçado, estava mesmo a pensar nisso. Eu percebo pouco de filosofia, mas interesso-me muito

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por estes temas e no início parece muito interessante. A verdade é que, quando começa a falar das consultas de aconselhamento filosófico, parece mais uma publicidade à própria profissão.» «Ele tem um livro melhor do que esse. "As grandes questões da vida" é mais interessante, mas o objectivo é o mesmo.»

«Publicitar?»

«Também. Penso que todos os que se dedicam à escrita científica procuram, de alguma forma, publicitar a sua profissão ou trabalho.»

«Pois. Gostas muito de filosofia?»

«Adoro. E pensar que tinha escolhido psicologia! Ainda bem que mudei de ideias; sou muito mais filosofia!» - sorri.

O seu entusiasmo fazia-a sentir-se mais relaxada e à vontade. Pousou o livro, fechado, com a capa para baixo e assim lançou o mote para uma conversa animada.

«E concordas com o autor?» «O Marinoff?»

«Sim. Sobre a filosofia ser útil no nosso dia-a-dia.» «Ah! Sim, sem dúvida! Primeiro, a filosofia ensina-nos a pensar. Para além disso, ajuda-ensina-nos a olhar para a vida de uma forma diferente.»

«Como assim?»

«O que é que vês quando olhas para o Tejo?» «O que é que vejo? O rio.»

«Certo. E só vês o rio?» «Sim.»

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vês?»

«Nada. Não consegues... ah ok. Já percebi. Vês o rio, vês o sol, vês o mar, vês tudo o que está subjacente à imagem do Tejo. Certo?»

«Certo. Vês a imagem completa e vês cada frame. Na vida também é assim. A filosofia acaba por preparar o teu cérebro para ver além do que a tua percepção identifica à primeira vista. Enfim, ensina-te a questionar o que vês!»

«Queres dizer que a filosofia te ajuda a ver os pormenores com maior atenção?»

«Quero dizer que a filosofia te ajuda a desconstruir o que a tua percepção constrói. Para isso é necessário que consigas ver os pormenores que fazem parte dessas construções. E quando os identificas, podes definir aqueles que realmente são úteis à tua vida, tendo em conta a tua missão neste mundo, os teus objectivos – o que pretendes da vida.»

«Acreditas que é assim tão fácil?» «Porquê?»

«Por vezes, fazemos coisas, por que a nossa sobrevivência depende disso; nem sempre as queremos fazer.»

«Como por exemplo?» «Oh. Sei lá!»

«Sabes. Há algo que tu gostarias de mudar na tua vida e não mudas porque a tua sobrevivência depende disso.»

«Como é que sabes?» «Porque falaste nisso.»

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algo que não gosto porque preciso de sobreviver e não arranjo trabalho no que gosto.» - deu-lhe tempo para respirar e pensar melhor nas palavras - «Quer dizer, eu gosto do que faço. Detesto o ambiente em que trabalho. Não me identifico com a política empresarial com que tenho que trabalhar.»

«Se há uma coisa que aprendi ao longo da vida é que se não consegues ser feliz com a vida que tens, também não vais ser feliz com a vida que queres ter. Acredita!»

«Então, mas isso é muito pessimista. Quase parece que não vale a pena lutar pela vida que queremos.» «É exactamente o contrário. O que é que desejas mais na vida?»

«Sei lá!»

«Eu quero ser feliz. E, olhando bem para ti, tu também. Como todo o mundo.»

«Ah! Claro. Mas isso é óbvio! Pensei que estavas a falar sobre o que queria ter ou fazer.»

«Falava apenas do óbvio, do ser. Então pergunto: se queres ser feliz, estás à espera de quê?»

«Como assim?»

«Tu queres ser feliz. O ser depende de ti. Não tens que ter ou fazer para ser! Certo?»

«Ah ok! Certo.»

«Então, o que é que te impede de ser feliz?» «O que é isso de felicidade?» - sorri.

«Ora aí está uma pergunta que a filosofia procura desde sempre responder. Aliás, todos nós nos debatemos com esta e outras perguntas. E é aqui que a filosofia nos é mais útil. A filosofia ajuda-nos a perceber que há conceitos que fazem parte de nós

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e que não nos servem. Esses conceitos ou crenças acabam por nos condicionar, impedem-nos de apenas ser. Afinal, durante toda a nossa vida ouvimos ideologias que confundem o ser com o fazer e o ter.»

«Queres dizer então que eu estou a confundir o ser com o ter e fazer ao dizer que não me identifico com as políticas empresariais da minha empresa?» «Olha, eu amo o meu trabalho. Mesmo assim, há pessoas, situações, políticas, instituições com as quais não me identifico e as quais não posso evitar. A verdade é que sinto-me feliz por fazer o que faço, sinto-me feliz por ter o que tenho. Sabes porquê?» «Por que gostas do que fazes.»

«Porque sou feliz! Não interessa o trabalho, as pessoas, as situações... sou feliz independentemente do que a vida me traz. E sou grato por ser assim!» «Hum»

«Sofia, há situações muito difíceis de ultrapassar na vida. Quando pensas que te amam e, na realidade, não te amam; apenas querem estar contigo por vaidade ou interesse. Ou então, quando toda a gente que te ama e admira espera que tu sejas bem-sucedido, é muito difícil lidar com o insucesso. Sentes que desiludiste o mundo inteiro – pelo menos o teu mundo. E é nesses momentos que percebemos a força de um insucesso. A falta que ele nos faz para percebermos claramente a sorte que temos. Aconteceu-me há bem pouco tempo. Pensei que nunca mais ia conseguir olhar de frente para alguém. Queres saber a melhor? No dia seguinte, sentia o corpo pesado e a alma leve,

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muito leve. Tinha uma alegria dentro de mim impressionante. Sabes porquê?»

«Não. Porquê?»

«Por que o insucesso era passado e repleto do meu esforço. A vida não acabou ali. A vida renovou-se ali. O insucesso passou a ser experiência, que me permite hoje estar novamente a lutar por mais um sucesso e de uma forma mais consciente e confiante.»

«Quem me dera ser assim!»

(risos) «Não precisas de ser assim. O que precisas é de perceber que crenças estão a impedir-te de seres quem és. Foi isso que aconteceu comigo. Muitas vezes, me recriminei por estar sempre com um sorriso nos lábios quando existia tanta tristeza no mundo. A verdade é que se já existe tanta tristeza, o mundo precisa que eu lhe traga felicidade para equilibrar a balança. Cada um de nós tem o seu papel no mundo. Quem sabe o teu é demonstrar políticas alternativas às que já estão obsoletas!» «Quem sabe?»

Riram por alguns minutos e continuaram a conversa animada.

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Posse de bola

Voltaram a encontrar-se na esplanada, alguns dias depois. Começaram a conversar e, quando o garçon pousou na mesa a água de 75 cl que sempre pedia, ele lembrou-se que estava a jogar a selecção.

«Desculpa, como está o jogo da selecção?» «Empatado. Está complicado.»

«Eles resolvem isso antes do fim do jogo.» - respondeu convicto da vitória da selecção.

«Não acredito! Tu gostas de futebol?» «Gosto! Gosto muito de futebol.» «Nem parece teu!»

«Porquê?»

«Oh! Essa porra é para burros!»

«Bem, pareceu-me um elogio, por isso obrigado. Achas mesmo que os jogadores de futebol são burros?»

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«E os treinadores. Os adeptos então! Passam horas numa fila para pagar uma pequena fortuna por um bilhete para insultarem e agredirem o adversário e depois o que é que acontece? Vão todos para casa com uma valente bebedeira e dormem para esquecer! Ridículo!»

(risos) «Ok! Que estranho!» «Porquê?»

«Agora digo eu, nem parece teu!» «E agora pergunto eu, porquê?»

«Não esperava uma generalização tão negativa de uma pessoa como tu. Só isso!»

(ficou pensativa) «Tu gostas mesmo de futebol!» «Eu adoro futebol!»

«Tu também és daqueles que joga todos os fins-de-semana à bola com os amigos?»

(sorri) «Pode dizer-se que sim!» - com grande ironia.

«Não acredito!» «Porquê?»

«Não consigo perceber que interesse pode ter o futebol para ti! É para manteres a forma?»

«É pelo prazer de jogar.»

«Prazer? Uma pessoa que lê e estuda os maiores pensadores do mundo, como podes sentir prazer com algo tão básico?»

«Não sei! Talvez o mesmo prazer que uma loira pode sentir ao ler e falar sobre as magníficas reflexões dos maiores pensadores de todos os tempos!» - soou a provocação; ela só bufou, de tão fula que estava - «Desculpa. Esta foi baixa!»

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«Desculpa! Não tinha intenção de te ofender.» «Tudo bem. Já deu pra perceber que adoras futebol. Já não digo mais nada!»

O Rodigo percebeu que tinha entrado a pé juntos cedo demais. Decidiu levar a conversa para outro lado, se bem que aproveitando para lhe demonstrar que as generalizações levam sempre ao mesmo. «Olha, estive mal! Eu sei e reconheço. Peço imensa desculpa por isso. A verdade é que este tipo de coisas mexe comigo. E muito!»

«Que coisas?»

«Esta mania que existe hoje de generalizar tudo. Os jogadores de futebol são burros; as loiras são burras; os ciganos e os pretos são criminosos; os muçulmanos são todos terroristas. Enfim, uma panóplia de generalizações que só levam a conflitos, desconfianças, inseguranças e retaliações. Com isto só provocam guerras dentro e entre comunidades; apenas afastam as pessoas em vez de as aproximar.»

A Sofia sentiu-se a encolher. Tentou fazê-lo sentir-se mal e acabou por sentir-se sentir-sentir pequenina e mesquinha, pois algumas daquelas generalizações eram habituais nas suas conversas com os amigos. «Sim. Tens razão.» - quase não se ouvia.

«Desculpa. Hoje estou com conversas muito deprimentes. Olha, tenho que ir. Tenho que voltar ao trabalho. Voltamos a ver-nos?»

«Sim. Claro! Encontramo-nos por aqui.»

Pôs o dedo em cheio na ferida. Deixou-a a pensar como tantas vezes tem aquelas saídas sem medir as consequências. Não gostou da sensação!

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Jogo interior

Nas semanas seguintes, o Rodrigo procurou passar pela esplanada sempre que podia para ver se a encontrava. A verdade é que não acreditava que voltasse lá tão cedo. Percebeu que não gostou da forma como concluíu a última conversa.

Com a aproximação do final da época, também ele começou a ter menos tempo livre para a procurar. O número de jogos aumentavam e com eles o cansaço, as lesões e o desgaste mental e emocional. E foi mesmo uma lesão num braço que fez com que a encontrasse novamente. De braço ao peito, voltou à esplanada numa hora que não era habitual e interrompeu uma pequena festa surpresa para a Sofia. Completava 25 anos naquela tarde e os amigos decidiram juntar-se todos para festejarem o seu aniversário.

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Ficou sem saber o que fazer ou dizer quando sentiu a mão quente dele nas suas costas.

«Sofia.»

Num impulso, abraçou-o com força. Ele contorceu-se com dores. Quando olhou para ele, arregalou os olhos e disse:

«Desculpa! Tiveste um acidente?» «Hãããã… caí!»

Alguns dos presentes já sabiam quem era. Eram adeptos do clube que ele representava. Sabiam que se tinha lesionado durante um jogo. E perceberam que ela não sabia que jogava futebol, por isso não o denunciaram. Tantas vezes tinham ouvido as suas ideias pré-concebidas, que acharam graça à proximidade que demonstravam ter.

Apenas riram, quando explicou de que forma o tinha conhecido. Aceitou facilmente a abordagem dele mais uma vez pela ilusão que cria na sua vida. Sentiu uma atracção física e, quando lhe disse que era estudante de filosofia, pensou que tinha encontrado o homem da vida dela - bem-parecido, bem-falante e inteligente.

Os amigos só riam. Já estavam a vê-la a casar-se num estádio de futebol. A praga do Pedro pegou. Aquela festa acabou por reaproximá-los. Devido à lesão, o Rodrigo passou mais tempo na cidade e por isso as conversas sucederam-se. Os amigos dela, sempre que podiam, gozavam-na sobre o namorado. Ela só dizia que ainda não eram namorados "porque ele não quer!".

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Finta com recuo

Todos os dias assistia aos treinos dos companheiros de equipa. Fazia trabalho de ginásio para não perder massa muscular e potenciar o regresso aos relvados o mais rápido possível.

Por vezes, perguntavam-lhe pela "lição das boas" que preparava. Ele encolhia os ombros e nada dizia. Certo dia, o capitão propôs um jantar de equipa com as famílias. A ideia era ser um jantar leve de confraternização, pois estavam prestes a entrar numa fase decisiva e teriam menos tempo para dedicar às famílias. Chegavam a passar dias sem os ver.

«E tu Rodrigo, traz a tua amiga. Na boa! Prometo que ninguém vai maltratar ela. Palavra de capitão!» (hesitante) «Não me parece boa ideia. Não é minha

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namorada, por isso não tem sentido levá-la.»

«Aí meu irmão, tu que sabe! A ver pelo tempo que tu tem passado com ela.»

«Eh pah! Não tenho nada com ela. E sinceramente, parece-me que vai sentir-se deslocada.»

«Okay. Tu que sabe irmão.»

«Para além disso, não quero que saiba que somos jogadores de futebol. E estes gajos não conseguem passar duas horas sem falar de trabalho.»

«Rodrigo convida a menina. Eu te asseguro que ninguém – ouviram, ninguém – fala de trabalho.» «Eh pah! Eu quero mesmo que a minha profissão fique em segredo. Se ela descobrir lá se vai a lição!» - concordaram todos.

Foi ao encontro dela pouco depois e convidou-a para jantar com ele e os amigos na noite de sábado. Ela ficou admirada por estar disponível para sair no sábado à noite, pois até então estava sempre ocupado.

«O que é que aconteceu? Divorciaste-te? Foi?» «Divórcio?»

«Nunca podias sair no fim-de-semana à noite. Cheguei a pensar que eras casado.»

«O quê? Casado? E continuavas a sair comigo?» - a sorrir incrédulo.

«Sair? Não, nós apenas nos encontrávamos algumas vezes para conversar. Nada mais!»

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namorada nem sou casado. Apenas tenho horários diferentes das outras pessoas. Aliás como tu!» «Pois, mas não te devem faltar mulheres! Por isso, deve ser difícil gerir a tua agenda!» - riu.

(risos) «Nem por isso! Sabes que hoje em dia é muito difícil distinguir entre oportunistas e uma mulher que te ame mesmo!» - fugiu-lhe a boca para a verdade.

«Oportunista?! Deves ser um partidaço! Estou a ver!»

«O amor não é fácil nos dias de hoje. Apenas isso!» «O amor? Já deves ter amado uma dezena de mulheres!»

«Sabes, o amor é uma palavra muito forte. E nem sempre o sentimento acompanha a força e importância da palavra.»

«Lá nisso tens toda a razão!»

«E então? Aceitas jantar comigo e com os meus amigos no sábado à noite?»

«Claro! Até porque já conheces os meus, estava mais do que na hora de conhecer os teus.»

Aquele reparo fazia parecer que tinham um compromisso, mas soou a gozo!

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Progressão em bloco

A noite de sábado chegou a galope. A Sofia combinou encontrar-se com ele à entrada do restaurante.

Viu o Rodrigo à distância na brincadeira com mais três amigos. O perfume dela chegou primeiro. Ela aproximou-se, tocou-o nas costas e aguardou o olhar sereno dele, sob o som de gozo dos amigos. «Olá.»

«Sofia!» - olhou-a de alto a baixo - «Uau, estás linda!»

«Uau! Obrigada!» - com tom jocoso e a imitar o olhar dele de alto a baixo.

Os outros riram da reacção dela. Ele aproveitou para os apresentar e logo adiantou que alguns amigos estavam atrasados.

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«Sabes como é, é mais complicado para aqueles que têm filhos.»

«Não, não sei. Não tenho filhos. E tu tens?» «Estou aqui, não estou?»

Fixaram o olhar um no outro. Ela estava na defensiva. Não conseguia perceber porque queria tanto estar com ela e, ao mesmo tempo, evitava qualquer avanço. A conversa que tinha tido com ele quando a convidou para jantar, podia explicar aquela situação, mas não explicava tudo; começava a questionar a sua orientação sexual.

Ele tocou-a no ombro e disse-lhe para entrarem. O resto da equipa chegou pouco depois. Ainda mal se tinham sentado e logo começou a conversa sobre futebol. Cumpriram o prometido. Não falaram de futebol como jogadores, apenas como adeptos. A expressão facial da Sofia demonstrava bem o que pensava sobre o assunto. O Rodrigo, várias vezes, tentou mudar o tema de conversa. Os colegas davam-lhe corda e logo voltavam à vaca fria: o futebol.

Ela não participava na conversa, como as restantes mulheres. Mantinha-se em silêncio apenas a ouvir e a perguntar-se: “que raio estou eu aqui a fazer?!”. Sentia-se deslocada.

O Rodrigo tentou falar com ela sobre outras coisas e logo os amigos o interrompiam com pancadas no braço.

«É não é filósofo?!»

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se de a ter levado.

A certa altura, um amigo lembrou-se de a provocar directamente.

«Então e tu Sofia? Estás tão calada!»

«Sim. Estou apenas a ouvir-vos!» - controlava-se para não largar uma das suas bocas sobre futebol. «Pois, não pescas nada de futebol! Deve ser muito complicado para ti!»

«Aí pessoal, a menina pode não gostar. Não é obrigada a falar de futebol.»

«Obrigado capitão!» - saiu-lhe sem controle - «É verdade! A Sofia não gosta de futebol, por isso talvez seja melhor mudar de conversa.»

«Eh lá filósofo! Não precisas de arregalar os olhos. Apenas pensamos que seria mais fácil para ela se integrar com um tema tão básico.»

Riram todos. Gozaram com a situação e usavam algumas das conversas que lhes tinha contado. Isto fê-la passar-se completamente!

«Tens razão! O futebol é muito básico. Tão básico que a minha inteligência não consegue perceber o interesse desta conversa. Logo, mantive-me calada para não ferir susceptibilidades. Afinal, vocês são amigos do Rodrigo e eu fui convidada por ele! Pareceu-me a melhor atitude a ter, visto não vos conhecer.»

«E porquê que você acha que o futebol é básico?» - o capitão com uma voz serena a tentar acalmar os ânimos e as provocações.

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«Não passa de um bando de gajos, que não cresceram, a dar pontapés numa bola. É mais uma brincadeira de miúdos que outra coisa.»

«Sofia.»

«Desculpa Rodrigo. Já conheces a minha opinião sobre o assunto.»

«Sim. É verdade. Já conheço e continuo a discordar. O futebol não é um jogo de miúdos. O futebol é um jogo de equipa, logo é um jogo de estratégia.»

«Estratégia. Lol!»

«Sim, estratégia. Ou vais dizer que a estratégia militar e a empresarial são actividades básicas?» «Oh! Isso é diferente!»

«Em quê?»

«Estás a falar de uma ciência. As pessoas passam anos a estudar para trabalhar nessas áreas.»

«No futebol também!»

«Sim, pois! Qualquer um pode dar uns pontapés numa bola! Não há comparação!»

«Eh pah! Também jogas futebol?» «Pára! Isso não ajuda.»

«Deixa Rodrigo! Eles querem gozar, que gozem! Quero lá saber!»

«Não, não deixo! Como já te disse, não concordo contigo, porém cada um tem direito à sua opinião.» «Sofia, você já assistiu a um treino ou jogo de futebol? Ou já visitou uma escola de futebol?»

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«Não.» - não conseguia perceber onde queria o capitão chegar com aquelas questões.

«Conhece ou conheceu algum jogador ou treinador de futebol?»

«Alguns jogadores; que medo! Muito bonitinhos e quando abriam a boca era de fugir! Tão burrinhos!» «Então é isso! Está explicado! Um provocou um desgosto amoroso daqueles inesquecíveis e agora odeias tudo o que está relacionado com o futebol!» - um dos colegas a gozar com ela.

Ela não deu resposta. Apenas olhou para o Rodrigo e esperou que ele intervisse. Ele tocou-lhe a face, piscou o olho direito e disse:

«Ok. Acabaste de reforçar o que ela disse!» - abanou a cabeça - «Para além de usares a mesma técnica!»

«O quê?»

«Não consegues compreender o porquê de não gostar de futebol, mesmo sem ter assistido a um jogo ou um treino de futebol. E por isso, mesmo sem a conheceres, concluis que tudo acontece porque ela sofreu um desgosto amoroso. Enfim…» «Oh! Lá vem o filósofo em protecção da donzela ofendida!»

«Donzela ofendida?! Nem donzela nem ofendida! Muito obrigado!»

«Chega pessoal! Sofia, mil perdões por isto.» «Tudo bem. Olha, já sofri muito por amor, talvez por isso seja tão difícil... bem, nenhum dos meus

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desgostos amorosos foram por causa de um jogador de futebol. Apenas não acho correcto que certas pessoas tenham maior facilidade nas escolas deste país só porque são jogadores de futebol. Não acho correcto que não haja dinheiro para alimentar crianças e para dar assistência de saúde a famílias desfavorecidas para depois o governo deitar dinheiro ao lixo para pagar prémios e outros quinhentos a jogadores de futebol, que representam o país um ou dois meses por ano. Não acho correcto que seja dada tanta importância a uma selecção de futebol, por supostamente estar a representar o país, enquanto que outros, que estão também a representar o país em competições de

matemática, de linguística, entre outras

competições que andam para aí, não têm qualquer reconhecimento ou apoio. Acho tudo isso deplorável! Não esquecendo que estas pessoas servem de exemplo aos miúdos e nem falar sabem! - nitidamente nervosa.

«Estás bem?»

«Estou. Estou óptima.» «Mesmo?»

«Sim. Desculpa a minha reacção.»

«Concordo contigo Sofia. Em tudo o que disseste. A verdade é que o foco não deve ser o futebol, como um jogo menor, e sim as políticas económicas e sociais de uma sociedade cada vez menos participativa.»

«É verdade! O Rodrigo tem razão. A tua questão não é com o futebol. Se não fosse o futebol, seria

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outra coisa. A questão é mesmo a sociedade que não valoriza o que tem de mais valor na vida.» «Desculpem, mas continuo a não compreender como lhes dão tanta importância. Ainda se tivessem algo a acrescentar!»

«Sofia.»

«Sim Rodrigo!»

(risos) «Que feitio!» - sorriem um para o outro - «Se me disseres que grande parte dos jogadores não têm grande dom de palavra, concordo. Pese embora, hoje em dia, já existirem alguns com maior capacidade de expressão. A verdade é que os jogadores não são pagos para falar. Nem sequer - na sua maioria - são preparados para falar.»

«Então, se não têm nada a acrescentar porque é que lhes dão tanto tempo de antena?!»

«Enganas-te! Se calhar, tens mais em comum com os jogadores de futebol do que possas imaginar!» «A sério Rodrigo!?»

«Muito a sério Sofia! Há pouco dizias – ou quase disseste – que era difícil para ti acreditar no amor por causa dos desgostos que já tiveste. Agora imagina que tens todos os dias homens a querer aproximar-se de ti apenas por fazeres o que fazes, por seres conhecida do público ou por teres um bom ordenado. Achas fácil acreditar que alguém te ama de verdade?»

«Não. E o que é que isso tem de relevante?»

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humildes. Falo dos que têm tempo de antena! Passaram necessidades de vários tipos e, mesmo assim, conseguiram alcançar o sucesso. E tudo porquê? Porque se esforçaram, lutaram pelos próprios sonhos e ultrapassaram todos os obstáculos que surgiam no caminho. Agarrados apenas à gratidão que sentiam pelo esforço que os pais tinham feito toda a vida para que as dificuldades fossem menores. O sucesso era apenas a forma que tinham para agradecer aos pais por esse esforço. Muitos desses homens que dizes não terem nada para acrescentar são verdadeiros exemplos para os miúdos de hoje. E sempre que podem contribuem para a sociedade, que muitas vezes os critica.»

«Contribuem para a sociedade?! Com quê?»

«Com respeito pelos demais, com contribuições e associações a causas humanitárias. Em algumas situações dão a cara, se isso for benéfico para a causa. São mais aquelas em que ninguém sabe que contribuíram.»

«Oh! Está bem!»

«Sofia, os jogadores de futebol trabalham durante anos - desde os quatro, cinco anos - e todos os dias para jogar, para superar cada desafio. Se pensares bem, os comunicadores treinam o cérebro para produzir excelentes formas de comunicar, escolhendo as palavras, a expressão facial e corporal mais adequadas. E os jogadores treinam o cérebro para, no momento certo, anteciparem as movimentações de adversários e companheiros

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para, quando receberem a bola, saberem onde a colocar e para onde se deslocar de forma a possibilitar a evolução do jogo da sua equipa.» «Digno de um puro número 10!»

«Eu não posso acreditar!»

«Acredita, eu como» - quase lhe fugia a boca para a verdade, mas a impulsividade dela acabou por ajudá-lo a manter a fachada.

«Tu como o quê?» - ela fitava-o - «Não me digas que tu como estudante de filosofia vês o futebol como um excelente tema para a tese final de licenciatura?»

«Eu como estudante e apaixonado por filosofia vejo o futebol como um bom tema de reflexão sobre a capacidade humana de ultrapassar desafios, de reagir a adversidades, de responder a imprevistos. Vejo como um tema de reflexão sobre a mente humana, sobre o espírito humano, sobre a alma humana. Para mim, o futebol é»

«Um jogo!» - mais uma vez a impulsividade atacava.

«Sim, é um jogo e é bem mais do que isso. O que mais me agrada no futebol é a estratégia que sustenta o jogo.»

«Estratégia! Olha Rodrigo, podes dizer o que quiseres, a verdade é que para mim o futebol não passa de um monte de bestas a dar chutos numa bola.» - sentia-se encurralada.

O olhar fulminante do capitão impediu uma revolta completa, que muito certamente terminaria no

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linchamento de uma bela loira.

«Com essa acabas por me convencer que o futebol é o desporto ideal para as loiras. Será verdade?» - sorria.

«Eh lá filósofo! Agora é que tu disseste tudo! Se bem que ainda acabavam a marcar quatro ou cinco golos na própria baliza por não saberem que ao intervalo mudam de campo!»

«Mesmo! Lembram-se daquela loira boazona que nem sabia a cor da camisola do marido? Confundia-se sempre toda com os números e as camisolas!»

«Vão continuar?» - furiosa com as bocas.

«Tens razão! Desculpa. As generalizações levam sempre ao preconceito. E começam com piadas ou ideias pré-concebidas destas.»

«Lá vem o senhor filósofo!»

«Pessoal pessoal, tá na hora. A gente tem que ir! Vamo lá!»

Normalmente, ela estanharia aquela pressa de voltar para casa. A verdade é que naquele dia era tudo o que esperava, desejava. Mesmo depois daquela conversa, nunca lhe passou pela cabeça que ele era jogador de futebol. Ela não se permitia lá chegar – teria que admitir que se tinha apaixonado por um.

O Rodrigo acompanhou-a até ao carro. Não sabia como começar a conversa e por isso perguntou-lhe o que achou dos amigos.

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«Gostei muito do Capitão. Porquê que lhe chamam isso?»

«Digamos que é por ser o nosso líder.» «Hum»

«E os outros?» «Não sei o que diga.» «Porquê?»

«Não deu para os conhecer. Passaram o jantar todo a discutir futebol.»

«Desconfio que o fizeram por estares ali.» - a boca fugia para a verdade.

«O quê?»

«Quando falaram de futebol, a tua cara disse tudo. Por isso, encontraram uma forma de te provocar. Até porque não é habitual falar tanto de futebol.» «E por que razão?»

«Sei lá! Eles costumam praxar as namoradas uns dos outros.»

Ao ouvir a palavra namorada, ela apenas sorri. Nada diz. Ele apercebe-se disso e diz:

«Devem ter pensado que eras minha namorada!» «Provavelmente!» - e deixou cair a conversa - «Bem, vou para casa. Amanhã tenho que levantar-me cedo.» - sorri - «Sim, desta vez sou eu que não posso sair até muito tarde ao sábado à noite! E não, não sou casada, nem tenho filhos!»

«Fico mais descansado. Não quero confusões com mulheres casadas.»

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«Comigo não corres esse perigo!»

Tocou-lhe ao de leve o ombro e aproximou-se lentamente. Fixou o olhar no dela. Enquanto se aproximava, sentia uma enorme vontade em beijá-la e, ao mesmo tempo, controbeijá-lava-se para que nada acontecesse. Ela sentiu-o mais próximo. Não sabia o que pensar; apenas esperava que ele se decidisse de uma vez por todas. Enfim, controlou-se e desviou os lábios em direcção à face. Algo surpresa e com grande dificuldade em perceber, lá entrou para o carro aconchegada pelo seu olhar.

Fechou a porta do carro e viu-a afastar-se ao longo da larga avenida. Pouco depois, recebeu uma mensagem escrita a tranquilizá-lo com a sua chegada a casa em segurança.

Ele aproveitou para agradecer o sacrifício daquela noite e terminou a mensagem com «adorei estar mais uma vez na tua agradável companhia».

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Recepção orientada

«Eeee! A noite foi longa! Né filósofo?» - o capitão recebe-o com cara de gozo.

«O quê?»

«Cara de sono! Ficou cansado filosófo?!» «Fiquei a noite toda acordado!»

«Acredito! Aquela mulher tem ar de quem dá muito trabalho!»

«Mulher?!»

«A Sofia. Gostei dela. Sincera! Um pouco preconceituosa, mesmo assim sem pudor em dizer o que pensa. Gostei!»

«Ela também gostou de ti.» «Ah que bom!»

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«Não estive com ela. Apenas a acompanhei ao carro. Nada mais!»

«Oi!? Rolou um beijo! Não mente. Eu vi!» «Beijo? Não. Eu não a beijei.»

«Não? Mas eu vi. Quando passei, vocês estavam muito próximos; tu tava quase beijando a menina! Como pode?!»

«Ah sim! Mas não!» «Como não?»

«Eu quero muito beijá-la, mas não quero fazê-lo assim.»

«Assim como? Beijo é beijo!» «Eu sei, mas ela não.»

«Me explica isso Rodrigo. Não tou entendendo.» «Ela não sabe que sou jogador de futebol. Tu viste como ela é. Ela pensa que somos umas bestas.» «Ah! Tu tira isso de letra meu irmão!»

«Não é assim tão fácil!»

«É mais fácil que tu pensa. Escuta, tu te recorda quando tu pega na bola e vai com ela controlada e, com dois ou três movimentos seguidos, tu tira vários adversários do caminho?»

«Sim capitão. E?»

«Quem olha acha espectacular. E porquê? Porque não é fácil. Mesmo assim, tu vai e faz. E porquê? Porque tu não pensa, tu só arrisca. E petisca! Tenho a certeza que se tu arriscar com a Sofia, não vai petiscar, vai se lambuzar! Acredita home.»

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(risos) «Mas ela não sabe... não acho correcto. Sabendo eu o que ela pensa de jogadores de futebol, não é correcto fazer isso com ela!»

«Nossa Rodrigo! Tu tá apaixonado! Tá com os quatro pneu arreado!»

«Eu? Não. Só não quero ser um sacana!»

«Tá apaixonado!» - gozava com ele - «Meu irmão, se tu gosta dela, arrisca. Se não quer enganar ela, conta a verdade!»

«E se ela... nah! Ela vai ficar furiosa!»

«Vai. É verdade. Também te digo amigo, adoro ver a minha deusa furiosa comigo! A seguir vem as pazes! E que pazes!»

«Oh. Vai gozar outro.» «Tou te dizendo.» «Sim pois!»

«Aí, eu sei que tu tem medo que ela nunca mais queira falar contigo. É natural. A verdade é que ela também está na tua irmão.»

«Não sei!»

«Com o feitio dela, ontem tinha virado onça. Saía tipo furacão. Ficou lá, se controlou por tua causa. Só o fez porque está a fim de ti meu irmão!»

«Não sei. É que não sei mesmo!»

«Não quer enganar a menina e quer beijar ela, só tem uma solução: conta a verdade. Tu não fez nada de mal! Ou fez?»

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elemento. O treino decorreu e ele parecia perdido naquelas últimas palavras do capitão.

Sentia que sim. Que tinha sido um canalha. Farto de saber que ela não gostava de jogadores de futebol, mesmo assim aproximou-se dela e seduziu-a. Por isso, tinha medo. Medo que ela pensasse da mesma forma. Nunca mais olharia para a cara dele. «Capitão.»

«Oi.»

«Posso falar contigo?»

«Vem comigo.» - levou-o até à sala de reunião da equipa - «Fala Rodrigo.»

«Há pouco perguntaste se tinha feito algo de mal.» «Sim?»

«Por isso é que não posso contar-lhe.» «Porquê? Que é que cê fez?»

«A forma como me aproximei dela.» «Que tem?»

«Aproximei-me por vingança. Ela vai pensar assim e terá razão.»

«Tá me tirando! Cê acredita memo nisso?» «Claro! Então?»

«Meu irmão, tu gamou na menina. Vi logo que tu falou nela!»

«Oh. Não é nada disso! Queria mesmo vingar-me!» «Ok. Se tu pensa assim, também ela vai pensar. Agora, eu te conheço irmão. Não acredito nessa

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conversa de vingança. Tu gamou na menina e tá com medo de assumir isso. Tu sempre foi assim!» «O quê? Assim como?»

«Cagão! Sempre com medo do amor. Tu acha que só tem porcaria de mulher à tua volta.»

«Isso não é verdade!»

«Pois não! Soooofiiiiaaa!!! Meu irmão quando foi a última vez que tu arriscou no amor?» - observou-o - «Viu! Nem tu te lembra! Arrisca! Só assim cê vai ser feliz!»

Mais uma vez ficou pensativo. O aproximar do final de época exigia que resolvesse aquela confusão, pois sentia-se a perder o foco. Não estava a jogar, mas queria recuperar a tempo dos últimos jogos e isso dependia do seu equilíbrio emocional.

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Passe em profundidade

Ao longo do rio Tejo recordou a conversa com o Capitão. A insistência para arriscar, a insistência para contar a verdade... parecia tudo muito lógico, se bem que para ele continuava tudo muito arriscado.

«Arriscado demais!»

«O que é arriscado demais?» «Sofia!»

«Olá. Assustei-te? Pensei que me tinhas visto.» «Não.»

«O problema deve ser mesmo muito complicado! Posso ajudar?»

«Como assim?»

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«Desculpa. Estava no meio das minhas dúvidas.» «Bem, como filósofo, assim se espera.»

«O quê?»

«Que tenhas dúvidas! Hoje estás de todo. Aéééreo!»

Sorri. Inspira fundo e questiona-se como agir. Ela parece gostar do filósofo. E do jogador? Será que gosta?

«É só isso que vês em mim?» «Só isso o quê?»

«Um filósofo.» «Estás bem?»

«Vais responder?» - ficou boquiaberta com a rispidez - «Eu estou bem. Quero saber se é apenas isso que vês em mim.»

«Mal nos conhecemos. O que conheço de ti é a tua paixão por filosofia e por futebol. Simpatizo contigo, gosto da tua companhia – pese embora, hoje estejas a assustar-me – e quero conhecer-te melhor, mas não sei ainda o que ver em ti. Não te conheço.»

Abraça-a com força e solta vezes seguidas a palavra perdão. Ao afastar-se sente o braço a gritar de dor. Contorce-se todo e agacha-se. Ela acompanha-o e, de cócoras, pergunta:

«Estás bem? O que se passa? Estás a assustar-me!» «Esta lesão está a deixar-me louco. Estar parado não é para mim. Preciso de movimento.»

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«Como assim?»

«Há semanas que não corro, não jogo e agora nem abraçar posso!» - disse-o sem pensar.

«Tu não podes, mas eu posso.» «O quê?» - focado no futebol.

«Abraçar-te! Eu posso abraçar-te. Com cuidado, para não te magoar, lá aparece o abraço desejado.» - afasta os braços e envolve-o num abraço cheio de cuidado - «Vês. Há sempre uma solução.»

(sorri) «Agradeço o abraço, mas só me podes ajudar nisto. E acredita, sinto-me de verdade grato pelo teu gesto, pelo teu carinho, cuidado.»

«Então! Não me digas que estás assim por causa do futebol!»

«O quê?»

«Queres jogar com os teus amigos e não podes. É isso?»

«É mais ou menos isso! Estou a ficar perro! Preciso de movimento.»

«Hum... bem, quanto a isso...» - suspira fundo - «Futebol... não percebo nada disso!»

«Posso ensinar-te. Tens que querer. Pelo menos tens que estar aberta a ideias diferentes.»

«Como? Para quê?»

Ergue-se rapidamente, empurrado por mais uma tentativa de a fazer entender o futebol. Ela acompanha-o até à esplanada. Sentam-se e ele pergunta:

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«Vês o futebol como um desporto sem graça, menor em relação a tantos outros. Certo?»

«Sim.»

«Ok. Então falemos do teu desporto preferido. Qual é?»

«Atletismo.»

«Pensa comigo. Os atletas de alta competição, até atingirem o auge da sua carreira - e mesmo depois - passam por situações complicadas.»

«Só posso tentar imaginar!»

«Os treinos constantes, as dores, as lesões, as provas menos conseguidas, tudo o que abdicam para se dedicar de corpo e alma à carreira que escolheram... a vida de atleta não é fácil. Os treinadores e os atletas têm que saber lidar com tudo isso. Certo?»

«Certo. E então?»

«Não deve ser fácil lidar com a personalidade de cada atleta, com as dificuldades, com os medos, com as inseguranças, com as suas necessidades e mesmo assim conseguir que se sinta motivado, que esteja focado no objectivo e concentrado nos treinos e nas provas.»

«Verdade!»

«Agora, imagina o quão difícil seria lidar com um atleta de topo com múltiplas personalidades, cada uma a puxar para o seu lado. Seria de loucos!» (risos) «Literalmente!»

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múltiplas personalidades, cada uma a puxar para o seu lado. Em algumas equipas chegam a ser mais de vinte personas diferentes com necessidades, objectivos, motivações e diversas percepções. E na verdade todos devem estar focados no mesmo objectivo – o da equipa.»

«Hum... ok, estou a perceber onde queres chegar.» «Um treinador de futebol e respectivos jogadores vivem com isto diariamente. O treinador tem os objectivos da equipa definidos. Para os alcançar, ele conta com a ajuda dos onze titulares e mais dois ou três suplentes por posição. Imagina agora a competição dentro do plantel. Todos querem jogar e são poucas as vezes que os suplentes são utilizados. Há uma máxima no futebol e na vida que diz que "em equipa que ganha não se mexe". Será possível este treinador ganhar alguma coisa se não souber gerir e liderar as várias personalidades "do seu atleta de alta competição"? Achas que ele consegue alcançar os objectivos se não souber utilizar a competição entre as várias personalidades em prol da equipa? E sucesso? Achas que ele consegue ter sucesso se não souber unir os jogadores e transformar o objectivo da equipa no objectivo de todos, para conseguir que se ajudem em vez de se prejudicarem?»

«Não, claro que não!»

«E agora diz-me, achas possível fazê-lo sem inteligência?» - aguarda a resposta, enquanto ela se contorce com o raciocínio dele. - «Não precisas de responder. É uma pergunta retórica. Por tudo isto te

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disse que, como estudante de filosofia, vejo o futebol como um rico tema de reflexão. Não o jogo e sim o que o sustenta. A paixão que une jogadores, treinadores, adeptos e dirigentes, a sabedoria humana a que a interacção do jogo obriga e, principalmente, a magia que se sente dentro de um estádio. Para mim, o futebol não é um jogo. Para mim, o futebol é um bailado de almas. A alma humana está em cada movimento, em cada lance, em cada estratégia, em cada grito… a alma humana enriquece o jogo, qualquer jogo, se bem que este - o futebol - ganha muito mais. Não quero com isto dizer que o futebol é melhor que qualquer outro desporto ou jogo. Não é. Apenas move mais almas!»

O silêncio manteve-se por largos minutos. Ela não sabia o que dizer. Ele já tinha dito tudo o que havia a dizer. Os olhares apenas se tocavam.

Ela encolhia-se; sentia-se pequenina porque tudo o que dizia fazia sentido. Assim conseguia perceber o porquê de se controlar. Depois de tanto preconceito, como poderia esperar que ele se interessasse por ela. Mesmo assim, sentia vergonha em admitir que ele tinha razão.

Ele também temia que aquela conversa a afastasse. Mesmo com tanto preconceito em relação a algo que não conhecia, gostava da companhia dela. Gostava das conversas e dos passeios a dois. Ela era um desafio constante para ele. Adorava a atenção que dava a todos os assuntos que ele tanto gostava de abordar e a forma como o questionava

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constantemente. Não sabia como iria reagir ao atropelamento da sua convicção preconceituosa sobre um futebol de burros e para burros.

«Parece que tenho que me desculpar. É um desespero para mim ouvir falar de futebol. E ouvir jogadores então! Para além de tudo o que já disse no outro dia, há coisas que me irritam profundamente. Sou apaixonada pela língua portuguesa e não consigo aceitar que um português não saiba falar corretamente uma língua tão bonita como a nossa.»

«Nisso concordo contigo. A verdade é que a língua portuguesa é maltratada todos os dias por muita gente. Os jogadores de futebol apenas têm maior visibilidade. Quer dizer, os políticos também a maltratam, se bem que esses ninguém ouve!» (risos) «Lá isso é verdade!»

A conversa continuou ao som do gozo permanente com as gafes linguísticas que se ouvem e lêem nos meios de comunicação social.

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Remate

Uns dias depois, a Sofia aproxima-se da esplanada, onde já está o Rodrigo sentado. Quando a vê, levanta-se e vai na sua direcção.

«Olha, queres ir dar uma volta a pé? Apetece-me caminhar um pouco!» - estava ansioso; sentia necessidade de lhe contar a verdade de uma vez. «Olá. Dás-me um beijo?!»

«Desculpa! Tens razão! Olá. Como estás?» «Bem. E tu?»

«Preciso de caminhar. Queres dar uma volta?» «Tudo bem. Vamos!»

A caminhada levou-os até a um jardim. Sentaram-se a fitar as águas do rio. Ele começou a contar-lhe sobre uma tarde que passou sentado junto ao Danúbio.

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compara ao nosso Tejo.»

«Vejo que já viajaste muito. Em trabalho ou a lazer?»

«Trabalho, só trabalho!»

«Nunca me disseste com que é que trabalhas…» «Nunca perguntaste.»

«Estou a perguntar agora... trabalhas com quê?» (ele hesita por segundos) «Com bolas.»

(risos) «Mais vago do que isso impossível!»

Nesse momento ele levanta-se e afasta-se lentamente. Ela segue-o em silêncio.

«Tenho uma coisa para te contar.» «Diz lá.»

«Tenho medo!»

«Medo? De quê? Porquê?»

«Tenho medo que isso te afaste de mim. Medo de nunca mais te ver.»

«E porque razão faria isso?» «É o que faria no teu lugar!»

«E quem te disse que eu faria o mesmo que tu?» «És humana. Ninguém gosta de ser enganados.» «Enganada? Como assim?»

A cara dele era um mix de pavor e culpa. Estava ansioso, hesitante e receoso da reacção dela.

«Bem, não sei se quero ouvir o que tens para me dizer.» - várias hipóteses lhe passaram pela cabeça, sem que nenhuma se aproximasse da verdade. «Tenho que te contar a verdade. Não posso permitir que a nossa relação avance mais sem saberes a verdade.»

«Relação? Não percebo Rodrigo. Só te perguntei sobre a tua profissão.»

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«Recordas-te quando disse que é difícil lidar com falsos amores?»

«Sim. Então?»

«Os meus amigos gozam-me muito por não ter namorada. A verdade é que magoa perceber que apenas querem estar contigo por interesse ou vaidade. Enfim, tu não me conheces, nunca me tinhas visto na vida e, mesmo pensando como pensavas, eu gostei de ti.»

«Não estou a perceber! Onde queres chegar com isso?»

«Deve ser difícil perceber e ainda mais aceitar. Nem eu percebo bem... não sei como dizer...» «O quê? O que é que se passa?!»

(inspira fundo) «Trabalho com bolas porque» - expira - «sou jogador de futebol.»

«Hã! Tu? Tu és jogador de futebol? Não pode! Estás a falar a sério?» - não queria acreditar; a expressão dela foi endurecendo.

«Sim.»

«Andaste a gozar comigo este tempo todo?»

«Não Sofia. Nunca perguntaste o que fazia na vida. Limitei-me a conhecer-te. Era isso que queria! Conhecer-te! Apenas aproveitei o facto de não gostares de futebol e de não me conheceres desse mundo, para te conhecer. Como sabia o que pensavas, nunca abordei esse tema!»

«Não abordaste esse tema!? Não fizeste tu outra coisa! Passaste o tempo a tentar mudar-me a ideia!» Ela tentou passar por ele rapidamente. Queria desaparecer dali. Ele segurou-a pelo braço e perguntou-lhe:

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«Se soubesses a verdade, aceitavas conversar comigo? Aceitavas ser minha amiga?»

«Não!» - disse-o de raiva e era o que se via no seu olhar.

«E porquê? Não gostas de mim?» «Não!»

Ela afasta-se com passo apressado e desaparece. Durante semanas rejeita todas as tentativas de contacto dele. Sempre que pensa nele, lembra-se do jantar com os amigos e o tema que escolheram para aquele dia. Ainda sentia mais raiva! Como pôde deixar-se enganar?

O Rodrigo tenta falar com ela por telefone ou pessoalmente. Envia mensagens, telefona e vai todos os dias à esplanada na esperança de a encontrar. E nada!

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Pontapé de baliza

Numa dessas tentativas, encontra um dos amigos dela. O Pedro sempre soube que ele era jogador de futebol. Chegou a falar entre dentes sobre o assunto durante o aniversário dela.

«Olá Pedro. Como estás?»

«Bem. Tu é que não pareces tão bem. Aconteceu alguma coisa?»

«Como assim?»

«A Sofia tem andado furiosa. Passou-se alguma coisa?»

«Sim. Contei-lhe a verdade.»

«Disseste-lhe que és jogador de futebol?»

Confirmou com um movimento de cabeça. O Pedro franziu o sobrolho e disse:

«Ok. Agora percebo o mau feitio dela nos últimos dias.»

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«Ela não quer voltar a ver-me. Não quer falar comigo. Não me responde a mensagens. Nada. Já tentei de tudo. Não sei mais o que fazer.»

«Eh pah! Porque é que fizeste isso?»

«Olha, ao início pensei que queria vingar-me dela. A verdade é que, mal a vi, senti uma forte atracção por ela. Queria conhecê-la.»

«Ok, isso eu percebo. Ela é linda! Mas para quê contar-lhe a verdade?»

«Não podia continuar assim. Não me sentia bem!» «Pois! A querer ser correcto, lixaste-te!»

«Prefiro assim. Tenho a certeza que seria pior se deixasse passar mais tempo. Já há muito tempo que me controlava para não a beijar. Não sei por quanto mais iria aguentar. Se deixasse evoluir a coisa seria bem pior! Não achas?»

«É possível. Com a Sofia nunca se sabe. Por causa dessas coisas chegou a pensar que eras gay, por isso...»

«Gay? Ela pensou que eu era gay? Porquê?»

«Por que não avançavas. As mulheres não percebem que às vezes os homens não avançam porque não querem. Pensam logo que são gays!» (Risos) «Então, ela queria que eu avançasse!» «E tu ainda perguntas! Ela gosta de ti. Está apenas com o orgulho ferido. Tanto desdenhou dos jogadores de futebol, que lhe caiu um na sopa! Incrível! Quando eu a vi toda animada contigo, quase não me segurei.»

«Nah! Ainda bem que não disseste nada. Ficava ainda pior se soubesse dessa forma.»

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«Não sei mais o que fazer.»

«Dá-lhe espaço. Agora, vem o fim da época e precisas de concentração. E ela precisa de sentir a tua falta. E tenho a certeza que vai sentir. Temos um jantar marcado para daqui a dias. Vou perguntar por ti, como quem não quer a coisa. Aproveito para lhe dar na cabeça. Aí tento saber algo que possa ajudar-te. Tens é que dar espaço. Ela não pode sentir que estás ali à espera. Desaparece como ela fez.»

«Achas?»

«Tenho a certeza! Vai por mim! São mais alguns dias e digo-te onde podes encontrá-la por "acaso".» «Combinado. Muito obrigado Pedro. Mesmo!» «Agradece em campo! Quero é ser campeão!»

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Pressão alta

Os dias foram passando. O Rodrigo seguiu o conselho do Pedro à risca. Deixou de ir à esplanada, de enviar mensagens e também de tentar ligar-lhe. Afastou-a do seu pensamento o mais que pode e concentrou-se nos treinos e nas vitórias que faltavam para concretizar o sonho de ser campeão. Enquanto isso, a Sofia começava a sentir falta daquelas tentativas. Todos os dias, várias vezes por dia, olhava para o telemóvel à procura de mais uma mensagem ou chamada não atendida dele.

Foi num desses momentos que o Pedro a encontrou à porta do restaurante onde tinham combinado o jantar de amigos.

«Relaxa! Ainda vens a tempo!»

«O quê?» - olhou para trás - «Pedro! Olá!»

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chega a horas!»

«Ah. Não, não estava a ver as horas.»

«Mensagem? Ui! Do Rodrigo? Como é que ele está?»

«Não! Não é uma mensagem do Rodrigo. E se queres saber sobre ele, vais ter de lhe perguntar. Nunca mais estive com ele!»

«Não? Então? Gostas tanto dele e» «Não não gosto nada dele!»

«Acalma-te mulher! O que é que se passa?»

«Nada. Não quero falar sobre isso. Vim cá para estar com os meus amigos, não foi para falar da minha vida» - conteve-se.

«Amorosa.» «O quê?»

«Não vieste cá para falar da tua vida amorosa. Podes terminar a frase. Porque é disso que se trata, digas o que disseres.»

«Que chatice! Agradeço que pares de falar disso!» «Ok. Só estou preocupado contigo. Mais nada! Se quiseres falar, estou aqui.»

«Sim. Desculpa. Estou farta dessa conversa.» «Ok. Entramos?»

«Sim. Vamos lá.»

Quando se aproximaram da mesa, o Pedro aproveitou para sinalizar o mau humor dela, avisando os restantes que ela estava impossível. Já um dos amigos tinha pedido para alterarem o canal da televisão, pois queria acompanhar o jogo que ia começar poucos minutos depois da sua chegada.

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e sentou-se à frente dela. Assim que viu a figura do Rodrigo no centro do relvado, piscou o olho aos amigos e disse:

«Olha, aquele é o Rodrigo.»

Apontou na direcção da televisão. Na verdade ela pensou que ele estava no restaurante e mudou de cor quando ouviu o nome dele.

«É o Rodrigo, não é Sofia?»

Parecia um touro enraivecido. Respirou fundo várias vezes e, quase sem se ouvir, disse:

«Agradeço que não o convidem para a nossa mesa!»

«Mesa? Nah! Está na televisão. Ele é jogador de futebol? Nunca nos tinhas dito!»

«Televisão?» - olhou para a televisão e logo desviou o olhar - «Também não sabia. Ele achou que isso não era importante. Queria gozar com a minha cara e isso poderia dificultar-lhe a tarefa! Deve ter feito alguma aposta com os amigos!» «Gozar contigo?» - risos - «Pareceu gostar muito de ti! Quando é que soubeste?»

«Há umas semanas. Achou que seria mais correcto contar a verdade – como ele mesmo disse – antes que a nossa relação evoluisse! Pois sim!»

«Isso demonstra que te respeita e gosta muito de ti.»

«Gosta? Respeita? Se me respeitasse não me mentia! Queria divertir-se às minhas custas. É o que é!»

«Achas mesmo Sofia?» «Acho!»

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ferido te tolde o raciocínio?!»

«Não. Sei muito bem o que estou a dizer.»

«A sério? Parece-me óbvio que se quisesse divertir-se à tua custa, nunca te teria dito que era jogador de futebol. Ele sempre conheceu esse teu lado preconceituoso.»

«Parece-te assim tão óbvio? Tu não o conheces.» «Verdade! Apenas falo por experiência como homem. Se eu quisesse divertir-me às custas de uma mulher, nunca que iria revelar uma informação que eu, de antemão, sabia que iria dificultar-me a tarefa. Penso que qualquer homem te dirá o mesmo!»

«Ah sim!? Então diz-me lá, porque é que ele me disse isso?»

«Tu já sabes a resposta a essa pergunta.»

«Grande passe!» - quase caiu da cadeira com o olhar dela - «Eh pah! O gajo é bom! O que é que tu queres?»

«Estou a ver que fiz mal em vir hoje!» «Porquê?»

«Vão passar o jantar todo a ver o jogo e a falar de futebol. Não há paciência!»

«Nem por isso. Podemos sempre continuar a conversa que estávamos a ter.»

«Qual?»

«Sobre o porquê do Rodrigo te ter contado a verdade.»

«Segundo tu mesmo, eu já sei a resposta à pergunta, por isso não é necessário falar mais sobre o assunto!»

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essa pergunta.»

«Já te disse que não quero falar dele.»

«Ok. Então não fales. Ouve! Ouve com atenção. Podem ser as palavras mais importantes que vais ouvir em toda a tua vida.»

«Sim sim.»

«Ele disse-te a verdade, sua cabeça dura, porque te ama.»

«Ama?! Quem ama não engana!»

«E por isso não te enganou. Alguma vez te disse que não era jogador de futebol? Alguma vez te disse que era médico, engenheiro, padeiro, lixeiro?»

«Não.»

«E tu? Alguma vez lhe perguntaste qual era a profissão dele?»

«Não.»

«E porquê? Todos sabemos que tu dás muita importância ao status. Porque é que nunca lhe perguntaste o que fazia na vida?»

«Pensei que era estudante. Aliás, foi o que ele me disse. Não raciocinei.»

«Ele é estudante de filosofia. Ele é jogador de futebol. Ele veste muito bem, porque ganha bem. Ele tem horários diferentes da maioria das pessoas. E ele corresponde ao teu ideal de homem: bonito, bem constituído, bem vestido e inteligente. E tu viste isso na primeira vez que falaste com ele.» «Hum!»

«Dizes que não raciocinaste. Não fizeste tu outra coisa. Ele não corresponde à tua ideia de marrão filósofo. Tem mais ar de atleta do que de marrão.

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Mais uma vez uma ideia pré-concebida te ilude.» «Oh lá estás tu! Passas a vida a chamar-me preconceituosa!»

«É o que tens sido. E estás a fugir do que sentes por causa dessas ideias pré-concebidas. Tens medo de assumir que estás enganada. O teu egozinho inflamado não te permite assumir que essas crenças da treta que tens na tua cabecinha linda são apenas e só caganitas de galinha! Não te levam a lado algum e só te impedem de ser feliz. Tu sabes isso. Apenas não assumes.»

«Oh, somos muito diferentes. Não temos nada a ver um com outro.»

(risos) «Mais uma crença de caca!» - bufou o tempo todo - «São tão diferentes que nas últimas semanas passaste o tempo a olhar para o telemóvel na esperança de encontrar uma mensagem dele. São tão diferentes que nos últimos meses se encontraram quase todos os dias na esplanada para passar horas na conversa. Se não têm nada a ver um com o outro, de que falaram?»

«Oh!»

«Pois é! Oh... apenas oh!»

«Pára com essa conversa. Estou farta.»

«Olha minha querida, também eu estou farto das tuas conversas preconceituosas e aguento-as. Também estou farto de passares o tempo a sabotar a tua própria vida e mesmo assim estou aqui. Sabes porquê? Porque sou teu amigo. E é como teu amigo que te digo, deixa-te de merdas!»

«Vocês homens são sempre os mesmos! Protegem-se Protegem-sempre.»

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«E mais uma crença de caca. Já te deste conta de quantas vezes por dia tu soltas esse tipo de frases? Não minha querida. Não estou protegê-lo, estou apenas a defender-te de ti mesma. Está muito claro que gostas dele. E sabes o quanto ele gosta de ti. Só não sabes como ser a companheira que tu achas que ele precisa. Até porque ser essa pessoa vai obrigar-te a engolir muitos sapos e a corrigir muitas crenças que tens dentro de ti. Foi por isso que ele apareceu na tua vida. É o universo a divertir-se! Já estava na hora de tu cresceres. Está na hora de tu perceberes que as pessoas são o que são em vez do que parecem ser. Só um amor te poderia ensinar isso. Por isso, aproveita para aprender e, principalmente, aproveita para ser feliz.»

«Tu sempre te achaste superior aos outros. E agora estás a aproveitar para me humilhar. No momento em que eu mais preciso de ti, tu humilhas-me.» «No momento em que tu mais precisas de mim, eu estou aqui! Aqui ao teu lado, a forçar esta conversa para te ajudar como tu precisas. Em vez de te ouvir e nada dizer, passando a ideia que concordo com tudo o que dizes. Isso não é ser amigo.»

Já há alguns minutos que tenta conter as lágrimas. Não quer demonstrar fraqueza nem assumir que aquilo que o Pedro lhe diz é verdade. Procura manter-se distante, mas não consegue.

Quando o Pedro termina a frase, ela descontrola-se completamente. O Pedro levanta-se e abraça-a. Os outros amigos mantiveram-se em silêncio o tempo todo. Apenas ele a contrariou e a amparou.

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