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Património e Progresso – há compatibilidade?

CAPÍTULO 2. A Heráldica entre o Poder e o Património 1 O Passado que está presente

1.6. Património e Progresso – há compatibilidade?

Além da utilidade que foi dada a construções antigas, como acima se viu, há uma outra situação que pode gerar conflitos entre o que se deve preservar e como, o que tem de ser destruído e o que pode ser conciliado com o progresso.

A opção escolhida muitas das vezes não é pacífica, sujeita a várias pressões externas - como a política - que podem condicionar a tomada de decisões. Esta questão do intervencionismo ou não, embora, neste caso, abordado no plano ideológico entre deputados da Corte, é notória na discussão sobre a continuidade das obras do Palácio da Ajuda, na sequência da definição sobre bens nacionais e bens reais, havida na sessão das Cortes de 30 de Junho de 1821148. Os opositores, numa óptica centrada mais na importância de um tempo presente que na de um passado, e representados pelo deputado Borges Carneiro, partilham a ideia de dever ser

abandonado ao tempo, que o tempo reduzindo-o a ruinas irá emendando os erros do Governo passado. […] Continue-se o que for absolutamente preciso, para que o que está feito não se arruíne; porém o mais, de modo nenhum149.

Por seu lado, os defensores, não põem de parte o passado, numa articulação com o presente e o futuro, pelo que só podem dar razão de ser à continuidade das obras – “os principios dos grandes imperios são assignalados com o estabelecimento de monumentos que exigem das gerações futuras o respeito e a admiração”150. O deputado Sarmento, defensor desta perspectiva, sugere que

esta obra deve continuar, porém sem esforço extraordinario; se ella se não puder acabar em trinta annos, seja em quarenta, ou oitenta; convem mesmo consideral’a como uma escola de arquitectura, e que sirva para alimentar em o nosso paiz o estudo, e o gosto por esta arte tão estimada, e protegida em as mais nações151.

Mas os arranjos urbanísticos também são motivo para desequilíbrios patrimoniais. Em sessão da Câmara dos Pares do Reino de 15 de Abril de 1905, o Conde de Bertiandes faz um pedido para a tomada de medidas que impeçam a demolição do Convento das Carmelitas, em Aveiro –

148 Diario das Cortes Geraes..., nº 115, p. 1398. 149

Ibidem.

150

Ibidem.

Recebeu um folheto que, embora anonymo, consta-lhe ter sido escripto por um homem de merecimento. O folheto intitula-se: «Brado em favor d’um monumento».

Crê que já está preparada a picareta para atirar a terra um monumento nacional – é o convento das Carmelitas de Aveiro, edifício que outr’ora foi o palácio dos Duques de Aveiro152 –

por causa da construção de uma rua, “que na maior extensão tem apenas 144 metros”153. E, mais à frente, destaca o valor dos monumentos para o desenvolvimento local, neste caso. Ele acredita

que a cidade de Aveiro teria mais vantagem em conservar aquelle edificio, do que em ter uma avenida ou praça mais larga.

[…] [Os] estrangeiros que nos visitam não se enthusiasmam nada com o alargamento da rua, ou que a praça tenha o nome d’este comendador ou d’aquelle conselheiro.

Preferem ver no seu logar os monumentos que demonstram o nosso alto valor historico154.

Uma outra razão pode ser entendida como uma espécie de urbanismo comercial, ao referir a localização de um monumento numa das zonas da cidade mais calmas, “onde o movimento é frouxo e nunca será grande, porque os bairros populares e de trafego commercial estão por condições naturaes obrigados a outras situações”155.

Não deixa de ser interessante ter havido um caso de mobilização generalizada da sociedade aveirense, promovendo um abaixo-assinado que veio a ser entregue ao Rei, para que

no seu esclarecido zelo pelos interesses economicos e moraes dos seus subditos haja por bem obstar á execução d’um projecto que corre pelo ministerio das obras publicas e constituirá motivo de maior desgosto para os signatarios, se porventura for executado156.

Por outro lado, as distâncias encurtam-se e o Património aproxima-se. O melhoramento das vias rodoviárias e ferroviárias é entendido de formas variadas. Porque são vias de comunicação que, forçosamente, passam por terrenos que podem ter vestígios patrimoniais, estes podem sair lesados senão destruídos definitivamente. Em relação às

152 Diario da Camara dos Pares do Reino – Sessão de 15 de Abril de 1905, p. 28. 153 Ibidem. 154 Ibidem. 155 Ibidem. 156 Ibidem.

estradas, foi o caso do alerta que o deputado Reis Torgal fez quanto a uma estrada municipal projectada pela autarquia nabantina pôr em causa as ruínas de Nabância, antiga cidade próxima da cidade de Tomar, pelo que apelou à intervenção do Governo Central157. Uma outra situação tem a ver com a importância de que se revestem os caminhos-de-ferro para encurtar distâncias e permitir uma maior mobilidade das gentes. À margem da polémica havida sobre as vantagens e desvantagens dos caminhos-de- ferro – com uns a reduzirem o seu impacto a meros benefícios materiais158 e outros a valorizarem-no por permitir, entre outras coisas, a aproximação com o resto da Europa e, portanto, um circuito facilitado de ideias159 –, os interessados em conhecer o património nacional saíram a ganhar, pois, de uma forma rápida, começaram a poder deambular maids rapidamente pelo país e a conhecer os monumentos na realidade, bem ou mal cuidados, possibilitando, deste modo, a denúncia da passividade ou da negligência do Estado em matéria de defesa da sua conservação. Pontualizado na situação de abandono dos mosteiros de Alcobaça e Batalha, o deputado Augusto Fuschini, em sessão da Câmara dos Deputados de 12 de Julho de 1887, chamou a atenção para a importância dos caminhos-de-ferro, neste caso entre Lisboa e Leiria – a “affluencia dos visitantes será maior para apreciar e condemnar a nossa incuria”160 –, terminando a sua intervenção com uma «ferroada» ao governante responsável pelos monumentos:

[fazendo] estas observações, creio ter prestado um serviço ao sr. ministro das obras publicas, dando-lhe occasião para s. exa. praticar actos brilhantes de administração161.

157 Diario da Camara dos Deputados – Sessão de 24 de Março de 1886, p. 709.

158 O Português, de 10 de Abril de 1853; de 28 de Abril de 1853; de 29 de Abril de 1853; de 4 de Maio de

1853; de 7 de Maio de 1853; de 10 de Maio de 1853 – é de crer que a maior parte destes artigos, pelo seu teor, sejam da autoria de Alexandre Herculano; Joel Serrão, Temas Oitocentistas – I: Para a História de

Portugal no Século Passado (Ensaios), Lisboa, Livros Horizonte, 1980 – Cap. «Rotina e Inovação nos

Transportes», pp. 122-124 – este autor identifica quem criticou as capacidades da locomotiva: Almeida Garrett, Alexandre Herculano, Bulhão Pato, Oliveira Martins.

159 A Revolução de Setembro, de 14 de Abril de 1853; de 15 deAbril de 1853; de 19 de Abrl de 1853; de

22 de Abril de 1853; de 23 de Abril de 1853 – a maior parte dos artigos são da autoria de António Rodrigues Sampaio e Lopes de Mendonça; J. Serrão, op. cit., p. 125 – este autor refere também Inácio Vilhena Barbosa como defensor da importância dos caminhos de ferro.

160

Diario da Camara dos Deputados – Sessão de 11 de Julho de 1887, pp. 1683-84.

2. O Património perpetuado no Símbolo - As primeiras medidas liberais para uma